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Paulo Sérgio Vieira: diálogo das horas, por Aderaldo Luciano

Paulo Sérgio Vieira é econômico e pródigo. Poemas curtos, poesia vasta. Ao aproximar o olhar de suas criaturas, tenho receio de machucá-las de tão delicadas, como se acabassem de ter nascido e nem bem soubessem dos perigos do mundo: cravos e martelos, penhascos e fúlgidas intempéries. O Diálogo das Horas é benfazejo como todos os diálogos, tem tempo certo, cronometrado, como quem espera a hora, esquece e é, imediatamente, pelo momento, surpreendido.


Foi Benedito Nunes, o paraense, em Hermenêutica e Poesia, quem me fez, há pouco tempo, perder a rixa que fecundei em mim contra aquele outro tipo poético metido a Filosofia. Aquela poesia que, de tão difícil, transforma-se em nós, amadores, em pedra sem educação. A poesia de Paulo Sérgio não aspira esse posto. É direta, brincante, bem-humorada, sem ser piegas, carregando em algumas dobrinhas o mistério sensual, a imagem da sedução:

a tua boca
(mais fina ostra)

um lábio
entoa o riso

outro estoura
a boaiada

o terceiro
(oculto) sibila
cânticos de fada

— Mas que coisa é essa, seu eu-lírico paulino? — Uma boca com três lábios? Sim, isso mesmo! E independentes, senhores. Cada um dono de uma ação simultânea e ainda mais, um lábio ideal assobiando melodias no jardim. Não a mesma coisa que aquela mão de Augusto, a mesma que afaga e apedreja. Há uma semântica indo do mar ao inefável, da terra à fantasia, do desastre à continência. Belo e cabalístico, em nove versos e vinte e duas palavras à página vinte e sete.

Para as iniciadas nas raízes amorosas e não amorais, lá pela parte do quarto diálogo, quase à última hora, vem um conjunto de tercetos, uns quase-haikais. Diz um deles, à maneira surpreendente:

para casar nos
falta apenas
o traço de união

A poesia de Paulo Sérgio Vieira não veste ranços, nem despe intenções. Há poetas a quem deveríamos agradecer o verso feito e a nós ofertado. Te agradeço, ó Paulo, pela leveza derramada sobre o dia de hoje. Um dia pesado, cheio de chumbo e falta de dólares, repleto de papéis timbrados e telefonemas mecânicos. Tua poesia salvou o meu dia. Lembremo-nos: nunca é tarde para a resposta:

o dia diz
fluir
serenamente

esquece
porém
o rush

quando sequer
tem tempo
de consultar
as horas

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