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“O DISCURSO DE ÓDIO NÃO PODE FICAR SEM RESPOSTA INTELIGENTE” Entrevista de Antonio Barbosa Filho ao jornalista e blogueiro Irani

Irani Lima, blogueiro de Política mais lido na região do Vale do Paraíba paulista, entrevista seu colega Antonio Barbosa Filho, que acaba de lançar o livro "O Brasil na 'era dos imbecis' - o discurso de ódio da Direita": 

 

 

Irani Lima – Por que escrever sobre Olavo de Carvalho?

Antonio Barbosa Filho – Este livro faz parte de uma pesquisa bem mais ampla sobre o discurso de ódio na mídia e nas redes sociais brasileiras e Olavo é apenas uma parte do trabalho. Como fui aconselhado a dividir a obra em partes menores e de mais fácil acesso aos leitores, este volume ficou quase que exclusivamente dedicado ao Olavo de Carvalho e aos olavetes. Infelizmente, esse grupo tem sido o mais radical da extrema-direita brasileira.

IL – A esquerda brasileira não é suficientemente forte para combater o ideário da direita?

ABF – O “ideário” da direita é muito fácil de ser combatido, desde que haja disposição para tanto. Até agora, devido ao conservadorismo da mídia tradicional e às facilidades da internet, a direita tem falado quase sòzinha, num coro que parece muito maior do que realmente é. Os governos de Lula e Dilma, a meu ver, nada ou muito pouco fizeram para politizar as suas administrações, no sentido de mostrar ao povo que certas conquistas sociais só se dão em governos de esquerda. É preciso que o povo saiba que um governo de direita elimina direitos, concentra a renda e pratica a repressão. Direita democrática é algo apenas teórico no Brasil. O fato de poucos se lembrarem como foi cruel e corrupta a ditadura civil militar contribui para que a direita apareça como uma tendência política normal, e não com os propósitos criminosos e anti-sociais que realmente tem.

IL – Ao eleger Dilma, o povo não teria mostrado que não aceita as idéias “olavetes”?

ABF – Os olavetes não têm peso (ainda)  para influenciar fortemente as eleições. Pegam carona em outras forças conservadoras, como o eleitorado dos Bolsonaro, de certos pastores reacionários, etc. Olavetes que se identificam como tais não conseguiram se eleger, a rigor. Mas o olavismo é apenas a ponta extrema de uma onda direitista mais geral, liderada pela “grande” mídia. Não fosse a campanha anti-Copa, que desvalorizou um evento de enorme repercussão mundial (do qual o Brasil poderia tirar muitas vantagens diplomáticas e econômicas, não fosse o desânimo que a derrota da seleção trouxe – no fundo, um fato menor) e não teríamos tido segundo turno em 2014. A vitória de Dilma foi muito sofrida porque não há politização: parecia uma disputa para cargo de gerente e do mais moralista e não de líder politico.

IL – A influência dele (OC) sobre mentecaptos como Lobão, Roger do Ultraje a Rigor, Danilo Gentilli, é mesmo preocupante?

ABF – Eu não diria preocupante, tanto que quase não os menciono no meu livro. É patético. Lobão, inclusive, se vitimiza, dizendo que 80% dos seus shows programados foram cancelados por pressões do PT, o que é apenas uma mentira a mais. A radicalização do discurso desses artistas os eleva perante um pequeno nicho de desinformados, mas é repudiado pela maioria dos seus públicos. Os fãs querem curtir música ou humor de qualidade e não ranhetices de derrotados, que inventam um mundo completamente irreal. Lobão acha que vivemos sob o totalitarismo vermelho, num país que está prestes a ser invadido pela Venezuela e por Cuba! Quem pode levar isso a sério?

IL – Você não sente, lendo os blogs, que a direita, com Olavo e tudo, está no cadafalso, prestes a ser enforcada?

ABF – Neste caso, eu prefiro pecar por malícia do que por ingenuidade. Esses blogs ligados ou orientados por Olavo de Carvalho eram muito menores e, pelo menos alguns, estão crescendo lentamente. Olavetes como Rodrigo Constantino (que parece ter criado asas próprias e rompeu com seu criador), o próprio Lobão, a Sheherazade e vários outros, estão ocupando lugar na mídia, pelo menos naquela mais explicitamente fascista, como a veja e a radio Jovem Pan. Eu acho que o discurso de ódio precisa ser combatido, contestado. Isso se faz pelo debate leal, inteligente, sem querer eliminar o direito de pensarem o que quiserem, mas com um olho na preservação da Democracia e da paz social possível. Na Espanha, onde estive há semanas, discute-se a polarização não mais como a luta de classes histórica, mas como uma “vingança” da elite, do 1% realmente rico que domina mercados e países, contra as classes trabalhadoras que alcançaram o “Estado do bem-estar social” depois da II Guerra. Aquela fase foi, simplificando, uma “concessão” dessa elite: vocês que trabalham terão condições de viver dignamente, enquanto nós acumulamos as riquezas do mundo. De uns anos para cá, no entando, depois da queda do Muro e do desaparecimento de sistemas alternativos ao capitalismo, tal elite livrou-se de pruridos e quer açambarcar tudo, não importa o que aconteça à maioria da Humanidade. Acabou a trégua. Como disse o bilionário Warren Buffet: “A luta de classes acabou, e a minha classe venceu”. Tudo isso estimula pseudo-intelectuais como Olavo e conquista adeptos incautos.

IL – Como nós, de esquerda, comunistas, socialistas, podemos combater o ódio disseminado por Olavo de Carvalho?

ABF – Mostrando, pelos meios de que dispomos, a inconsistência de sua “doutrina”. No meu livro mostro,  com provas, como ele mente sobre vários assuntos, falsifica a História, articula fatos inconciliáveis. Dizer que o PT é um partido comunista é uma mentira – não consigo dizê-lo de outra maneira. E quando o cara mente consciente de que está mentindo, precisa ser contestado. Ele manda seus discípulos “humilharem”, “desmoralizarem” quem deles discorda. Eu não chego a tanto: basta-me provar com fatos que o guru da direitona brasileira é um mentiroso. E ele jamais poderá me negar  sem agredir fatos e documentos.

IL – Olavo de Carvalho é patrocinado pelos EE. UU? Ele vive de quê?

ABF – Não serei leviano como ele, que diz que todos os que o criticam são financiados pela KGB… Para ele, a KGB continua viva e atuante, e participa do grande complô mundial comunista junto com o George Soros, os Rockfellers, o Obama, o Vaticano, as FARC, o Foro de São Paulo, e, logicamente o PT, Lula, Dilma, os generais, toda a mídia internacional, etc. Pelo que ele diz, está nos EUA como correspondente de um jornal que pertence à Associação Comercial de São Paulo, convidado pelo agora ministro de Dilma Rousseff, Afif Domingos. É o único correspondente internacional que não envia notícias do país em que está baseado: no jornal, “filosofa” e denuncia a mega-conspiração mundial comunista. É o único empregado de um ministro que prega abertamente a derrubada do governo a que este ministro pertence. Dou ao ministro Afif o benefício da dúvida: ouvi dizer que ele já parou de mandar o mensalão do Olavo, que agora deve viver da venda de seus livros e dos cursos em que  forma seus militantes.

IL – OC influencia, por exemplo, a Justiça Federal, como na famosa Operação Lava-Jato?

ABF – Não creio que influencie diretamente, mas há certas coincidências curiosas. O Paraná tem um dos maiores núcleos de olavetes no Brasil. Ele chegou a ter programas de TV ali, e morou, segundo consta, algum tempo em Curitiba. Naquela cidade também surgiu um tal Instituto Olavo de Carvalho, fundado por ex-alunos do guru. Deve ser coincidência, não creio que o Paraná seja um Estado olavete. Seria descer muito para um povo tão culto e democrático.

 

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