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Douglas Germano: Bateria é o 'RG' da escola de samba e bloco não é prestação de serviço, por Augusto Diniz

Douglas Germano: Bateria é o 'RG' da escola de samba e bloco não é prestação de serviço

por Augusto Diniz

Com os blocos nas ruas e as escolas de samba fazendo os últimos ajustes para entrar na avenida, Douglas Germano, 48 anos, um dos mais profícuos compositores da atual geração do samba de São Paulo, fala sobre o carnaval.

“A ala das baianas e a bateria são o 'RG' (carteira de identidade) da escola. Motivo de orgulho e respeito”, diz no alto de quem convive com isso faz tempo. “A rigor são alas da comunidade. A comunidade é um seleto grupo ali de algumas centenas de pessoas que se conhecem pelo nome e frequentam a quadra o ano inteiro, não necessariamente do bairro”, conta.

Em 1982, aos 13 anos, Douglas desfilou pela primeira vez na bateria da Nenê de Vila Matilde – com ajuda do pai que era percussionista de conjunto de baile -, ficando por lá alguns anos. A partir de 1989, tocou cavaquinho na Águia de Ouro, fez samba-enredo para a escola e tornou-se mestre de bateria. Depois disso, passou a servir as duas escolas.

 “A ala de compositores está mais sujeita a participações externas. Há vencedores de sambas-enredo que nunca foram da escola. Destaca-se, porém, que o núcleo que dá sustentação a essa ala é composto por gente da comunidade”, afirma.

Ele aponta que o carnaval de escola de samba ganhou corpo em São Paulo e se firmou, mas reclama da localização do Sambódromo e da forma que a cidade trata o carnaval. “São Paulo é a cidade ‘oficial’ dos serviços, da noite, da cultura, mas só olham para o carnaval em sua véspera” diz. “O Anhembi também não ajuda. É um lugar isolado, frio, escuro. Os ônibus despejam as escolas dentro do pátio do Anhembi. A escola caminha lá por dentro, em formação, até a boca da avenida. Tudo fechado com tapume. Um troço esquisito”.

O sambista lembra que quando o desfile ocorria na Avenida Tiradentes, era o oposto. “A separação entre escola e assistência era feita só por cordas. Quem não podia pagar o ingresso da arquibancada via a escola armando. A cidade via o carnaval de escola. Hoje não”, contesta. Ainda assim, Douglas Germano é muito envolvido com escola de samba, e entre novembro e o carnaval arregaça as mangas e vai para o barracão “colar um capuchão, carregar um bloco de isopor, adesivar a lata dos instrumentos, encourar surdo” – esse ano ele está no batente na Águia de Ouro.

Sobre o carnaval de rua, que cresceu muito nos últimos anos na capital paulista, ele exalta agremiações que já desfilam bem antes da Vila Madalena conhecer os blocos, como as bandas do Redondo e do Candinho: “Tem cantores sensacionais”.

Ele vê problema em discutir a explosão dos blocos de rua como um serviço à cidade. “Não é isso, não. É a festa dos tolos, a ‘fresta’ como diz o professor Simas (escritor e historiador Luiz Antonio Simas). É o momento de fazer careta para o Rei. Tenho horror ao pensamento comercial e de prestação de serviços que paira sobre a alegria descompromissada dos blocos. Esses são os violões. A cerveja que patrocina o abadá, o próprio abadá em si, o circuito fechado, a burocracia e o preço que se paga à prefeitura para colocar um bloco na rua”, relata.

Para o compositor o caráter democrático deve ser respeitado na festa do Momo. “Carnaval é alforria, é sair sozinho com um bumbo. Junta a turma, chama uns metais, sai tocando você mesmo, cria um nome, um estandarte, escolhe cor, um tema ou não, e vai pra rua. A célula mater está em cada folião. É isso”.

Mas alerta que dentro do pensamento de consumo, “qualquer movimento que junta 100 pessoas vira fonte de renda. Esse é o problema. Mas a rapaziada está ligada”.

O carnaval tem influência nos três CDs de Douglas Germano já lançados: “Duo Moviola” (2009, com Kiko Dinucci), “Orí” (2011) e Golpe de Vista (2016) – sobre este último, “não diria que é minha cara, mas minha cabeça”. O artista já foi finalista de vários concursos musicais, mas ano passado levou o Prêmio Multishow na categoria Música do Ano com a sua composição “Maria de Vila Matilde”. A mesma canção foi indicada ao Grammy Latino. Carlinhos Vergueiro, Fundo de Quintal e Elza Soares são alguns dos intérpretes de suas músicas.

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Ivan de Union

A cancao mencionada no ultimo

A cancao mencionada no ultimo paragrafo eh lindissima:

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