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Eleição de Antonio Cicero para a ABL é um alívio, por Augusto Diniz

Eleição de Antonio Cicero para a ABL é um alívio

por Augusto Diniz

São cada vez mais raros no País a divulgação do pensamento sensato e libertário - não que não exista, mas porque tem sido bloqueado pela atuação medíocre de instituições que controlam hoje os sistemas formais de debate e fomento dos valores socioculturais, como os órgãos públicos e a mídia tradicional.

Porém, a eleição do poeta, ensaísta e compositor Antonio Cicero na última quinta (10/9) para ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras (ABL) dá um alívio ao descalabro geral – pelo menos não apareceu outro inexpressivo Merval Pereira como imortal. Sabe-se que academias desse tipo a administração é regida pelo compadrio de ocasião, mas tem momentos que é preciso olhar além das práticas caricatas.

Antonio Cicero, que concorreu três vezes à vaga, tem livros de poemas e ensaios de qualidade distinta, além de liderar a organização de várias obras de referência – ao todo, somam mais de 10 livros. A associação desse conjunto literário com a composição musical o torna uma figura nacional de peso.

O carioca Antonio Cicero foi para Londres no auge da ditadura militar, acossado pelo regime, e lá terminou seus estudos de filosofia. Em seguida, fez pós-graduação nos Estados Unidos de grego e latim.

Na volta ao Brasil, além de atuar como professor universitário, passou a ter suas letras musicadas e foi parceiro de Claudio Zoli, Wally Salomão, João Bosco, Adriana Calcanhoto, entre outros. Também foi gravado por Maria Bethânia, Caetano Veloso etc.

O auge, porém, para o grande público, foram os trabalhos feitos com sua irmã, a brilhante e enigmática cantora Marina Lima. Anotam-se grandes composições em conjunto, onde a força da escrita de Antonio Cicero ganha relevância, com versos poéticos atingindo o ápice da musicalidade – exemplo mais conhecido é a composição “Fullgás”.

Ano passado, tornou-se imortal também outro poeta e compositor: o mineiro Geraldo Carneiro. É inevitável comparar – ainda que guardadas todas as devidas proporções – o Prêmio Nobel de Literatura dado ao cantor e compositor Bob Dylan.

As composições de Antonio Cicero estão longe das letras combativas de Dylan, mas revelam versos contemporâneos bem delineados, variados de palavras e entonações muito superiores à média nacional que se ouve por aí.

Talvez o mundo tenha começado a perceber que a música tem tanto poder para a escrita quanto o livro. Principalmente àquela movida contra a subcultura e a mesmice.

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Roxane

Pois eu acho que talvez o

Pois eu acho que talvez o Antonio Cícero possa ser uma lufada l de ar respirável nestes tempos fétidos onde  na ABL grassa um merdal.

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joel lima

No final de 2016, ABL foi

No final de 2016, ABL foi isenta de imposta de renda, cofins, iof - enquanto no Rio, sua sede, funcionários públicos com quase 40 anos de trabalho ininterrupto com o povo mais pobre têm que passar a humilhação de pegar uma fila de madrugada pra pegar uma cesta básica e assim não passar fome, pois não recebe o salário na integra há meses. 

O certo seria cada membro bancar do próprio bolso a manutenção da instituição. Afinal, boa parte dele é gente rica - Sarney, Paulo Coelho, FHC  - fora os que são agora mortais (rs) como Roberto Marinho, Ivo Pitanguy. Mas vai propor isso lá. É mais fácil aluno ter que pagar mensalidade pra cursar a UFRJ - enquanto seu professor super qualificado pega 500 reais de salário. 

Antônio Cícero e Geraldinho Carneiro aceitaram talvez porque saibiam inconscientemente que seus nomes só serão lembrados como integrantes dessa ABL do que por suas obras - enquanto daqui 100 anos ainda se lerá Drummond e Raduan - que com todo firmeza se recusaram a particupar desse circo de quinta ? 

 

 

 

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Roberto Monteiro

Dei uma conferida em alguns poemas do escritor.

Bem mais ou menos. Já li melhores, mas dão pro gasto. Indico Romério Rômulo para a próxima vaga, quando algum dos fardões não se sustentarem mais nos cabides da loucademia de tretas. Romério é dos nossos.

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Será? Periga dele virar múmia

Será? Periga dele virar múmia como mumificados estão todos os beneficiários das mordomias da ABL. Como a maioria da instituições brasileiras a ABL é uma cópia de academias de paises do primeiro mundo que se transformou num ninho de beneficios sem nada produzir ou promover para a cultura brasileira. Como copiaram agora a indicação do Bob Dylan para o Nobel.

Vai estar em companhia de Merval, Sarney e FHC. O resto eu não sei o nome porque Augusto de Campos que eu leio não está lá, Raduam Nassar o maior escritor brasileiro não esta lá, como lá não estiveram Manoel de Barros, Paulo Leminski e Mario Quintana. Esses reformularam a literatura, os que estão na academia, e justamente por isso foram eleitos, estão mortos e nada tem a oferecer a sociedade que lhe garante as mordomias. A não ser a hipocrisia e a mentira de produzir alta cultura. 

A última vez que eu li uma matéria sobre a ABL constava Merval Pereira ser o maior cabulador de votos para quem quisesse as glórias de pertencer ao olimpo cultural brasileiro. 

E cá entre nós, como escritor, musico e poeta o Chico Buarque tem uma obra muito mais consistente do que Antonio Cícero. Mas Chico está vivo e portanto não pode estar entre os mortos. 

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Vera Lucia Venturini

Esclarecendo que eu não tenho

Esclarecendo que eu não tenho nenhuma crítica ao trabalho de Antonio Cícero do qual conheço somente as músicas. Mas tenho todo as críticas a ABL pois se a arte é contestação, é leitura crítica e avançada da realidade e do homem dessa instituição nada sai. Na Academia se recebe jeton por participação nas sessões, o fardão quando o FHC foi eleito custava 70 mil reais e era pago pelo prefeitura do Rio de Janeiro e até vaga em cemitério proporciona. Enfim, é uma sinecura e quando um artista ali se encosta com certeza vai se distanciar da arte criativa, combativa e crítica.

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Vera Lucia Venturini

*

Vera, o fato do Chico não estar nessa academia, não acrescenta nada a vida pessoal e profissional dele. O mesmo vale para o Mario Quintana. E digo mais ainda, do jeito em que as coisas estão atualmente, nem Machado de Assis conseguiria fazer parte dessa coisa.

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