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O Dr. Mesóclise e o revelador bife de filé-mignon, por Carlos Motta

O Dr. Mesóclise e o revelador bife de filé-mignon

por Carlos Motta

A notícia se espalhou com a velocidade da luz e surpreendeu a todos mais que a revelação da receita da famoso bolo de fubá de dona Vivi: o Dr. Mesóclise estava sendo processado por um sujeito, morador novo da cidade, sob a acusação de desviar para seu uso parte da carne que o açougue Faca de Ouro doava, semanalmente, para a Casa de Repouso Vida Feliz, o lar dos velhinhos - carne de primeira, filé-mignon, a mais nobre.

Convém explicar que o Dr. Mesóclise é o o mais ilustre cidadão de Banana Verde, farol ético e moral para as gerações presentes e futuras, receptáculo de extensivos conhecimentos exclusivos e gerais, conjugador emérito de verbos e excepcional colocador de pronomes.

Em resumo, um cidadão acima de qualquer suspeita. 

Por isso a comunidade bananaverdense não teve dificuldade de escolher o seu lado nessa pendenga: o doutor, todos sabem, é incapaz de fazer mal a qualquer pessoa, muito menos aos simpáticos velhinhos da casa de repouso - ainda mais que ele é, como presidente de honra, o principal responsável pelo bem-estar dos internos e até mesmo pela sobrevivência da instituição.

Mas havia um ou outro que tinha lá suas dúvidas sobre a conduta do excelentíssimo doutor.

A polêmica foi mantida, com episódios que destoavam da calmaria habitual de Banana Verde - as discussões acaloradas no Ponto Chic, o bar frequentado pelo quem-é-quem da cidade, são prova disso -, até o dia em que Sua Excelência, o dr. César Moura, conhecido e respeitado magistrado da comarca, iria pesar, com sua proverbial imparcialidade, os elementos de acusação e de defesa do rumoroso caso.

De um lado, recibos, depoimentos de testemunhas, até mesmo de alguns bons velhinhos moradores da casa de repouso, que juraram que a carne lá servida, três vezes por semana, era cheia de nervos, um tanto dura e de difícil digestão.

Do outro lado, um discurso apaixonado sobre as virtudes de um homem que dedicou sua vida inteira, frugal, como todos sabem, em benefício do progresso de sua amada cidade, sempre desinteressadamente.

Mas o advogado, o célebre dr. Carlos Meriz, foi além das palavras: apresentou uma prova, a seu ver, irrefutável, da inocência do afamado réu.

Chamou para testemunhar dona Marcelina, a faz-tudo da casa do Dr. Mesóclise.

E ela jurou que nunca havia servido para o seu patrão nenhuma receita de carne que não fosse cozida, sempre acompanhada de abundante molho, e que naquela casa onde trabalhava, com orgulho, havia tantos anos, nunca preparara um bife sequer.

- O doutor não suporta carne grelhada ou frita - justificou.

Dito isso, apresentou a prova definitiva da inocência do ilustre cidadão bananaverdense:

- Todos sabem que o filé-mignon fica muito melhor grelhado. Nunca iria jogá-lo numa panela para cozinhar, como o doutor gosta.

Não deu outra.

Em vista de tal testemunho, o meritíssimo juiz dr. César Moura não teve dúvida em inocentar o mais ilustre cidadão bananaverdense.

E, é claro, condenar o acusador a pagar as custas do processo.

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Schell

Excelente, parabéns, mesmo

Excelente, parabéns, mesmo que o final seja a atualidade de que gostaríamos de não vivendo.

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