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Um país feliz com a paz dos cemitérios, por Carlos Motta

​Um país feliz com a paz dos cemitérios

por Carlos Motta

Em 1964, quando o golpe militar acabou com a democracia no Brasil, eu tinha 10 anos e vivia em Jundiaí, hoje um município com mais de 400 mil habitantes, a 60 quilômetros da capital paulista. 

Na época, Jundiaí era uma típica cidade de porte médio do interior, tranquila, conservadora, sem nenhum grande atrativo, a não ser um parque onde se realizavam as "festas da uva", e um ginásio de esportes de formato arredondado, que todos conheciam como "Bolão".

A sociedade jundiaiense daquele tempo obedecia a uma rígida hierarquia: havia os milionários, poucos, uma ampla classe média, que reunia desde os remediados, que moravam "de aluguel" ou em pequenas casas mais afastadas do Centro, até aqueles que, aos nossos olhos, eram ricos - ou quase -, e os pobres, a maioria.

Minha família pertencia à classe média-média - meu pai era capitão reformado do Exército, e minha mãe trabalhou muitos anos como supervisora de vendas de empresas de produtos de beleza.

Morávamos num sobrado de 140 metros quadrados numa ruazinha sem saída, que meu pai havia comprado, a prestações, por meio de um programa habitacional de cujo nome não lembro mais. E tínhamos um carro, com o qual minha mãe percorria a cidade toda e um bom número de outros municípios vizinhos para visitar as vendedoras. 

O primeiro foi um Renault Dauphine, seminovo, que vivia quebrando. Depois dele veio uma sucessão de Fuscas, menos charmosos, mas mais confiáveis.

Na minha casa e em muitas outras de classe média, os serviços domésticos, limpeza, cozinha, lavagem de roupas, eram feitos por mulheres que ganhavam pouco, mas se conformavam em pelo menos ter um trabalho.

E era um trabalho e tanto. 

As que não dormiam em quartos minúsculos nas casas dos patrões chegavam cedo para o serviço, que só acabava quando começava a anoitecer.

Saí de Jundiaí pouco depois de os militares se cansarem da brincadeira de tomar conta do país.

Ou seja, passei parte da infância, toda a adolescência e um pedaço da vida adulta sob a ditadura, numa cidade onde quase nada de extraordinário acontecia e o tempo parecia congelado.

Quando me mudei para a capital, a Jundiaí de então era praticamente a mesma de quando tinha 10 anos de idade - as únicas transformações foram a ampliação do parque industrial, com a consequente migração de pessoas em busca de emprego, o aumento da pobreza, e os primeiros sinais de uma desenfreada especulação imobiliária.

Vou à cidade pelo menos uma vez por mês para visitar familiares. 

E tudo parece alterado em sua paisagem. 

Há mais carros, mais gente, mais barulho, mais poluição, mais bares e restaurantes, dois grandes shopping centers, mais violência, uma agitação que se assemelha à da capital.

Mas sei que, no fundo, em sua alma, em sua essência, a cidade ainda vive como nos anos 60, 70 e 80 do século passado, com um medo terrível de que alguma mudança afete a sua aparente tranquilidade.

Quando chego em Jundiaí sinto que sou jogado na triste realidade do Brasil, um Brasil que se agarra com a força dos desesperados na preservação de um status quo em que cada um se conforma com o seu lugar na sociedade.

 "Você tem de concordar que está quase impossível arranjar uma empregada doméstica", escreveu, para mim, alguns anos atrás, uma jundiaiense que conheço desde a mocidade.

Ela agora deve se sentir mais aliviada.

Afinal, tudo indica que não só Jundiaí, mas grande porção do país, está contente com a possibilidade de voltar ao passado, à vida sob a vigilância não mais dos militares, mas da meganhagem, feliz com o retorno a uma paz que não vem da felicidade, mas dos cemitérios.

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Ulan Bator

Parece minha vida....

Incrível como parece a descrição da minha vida, só que nasci alguns anos depois dos "redentores" tomarem o poder na marra em 64.

A diferença é que sai e voltei para o interior, vejo a mesma realidade de um congelamento do tempo com um retorno lento e gradual ao status quo antes dos anos PT no poder.

Já começam a surgir pessoas interessadas em trabalhos domésticos, sem grandes exigências, ou seja, celeremente voltamos ao país feudal que caracteriza a sociedade brasileira, para alívio da classe média que volta a contar com suas domésticas, vagas sobrando em universidades privadas para seus filhos que cada dia estudam menos e fumam mais, cigarros , narguiles e outros bichos.

Um Lixo que só é rompido quando a paz dos cemitérios quebra-se ao som dos filhos da pequena burguesia, pranteando seus filhos perdidos para as drogas, para o trânsito voraz ou para a sanha daqueles que de tudo privados, partem pra violência.

Allez Brèsil !!!

 

 

 

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Uma enorme desesperança

O problema não é arranjar empregada doméstica, convenhamos, o problema é pagar uma pessoa para trabalhar em casa corretamente e com todos os direitos trabalhistas em dia e trata-la como gente deve ser tratada. Eh isso que a classe média não suporta.

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pedro lorençon

Terra querida Jundiaí

O Hino jundiaiense , de autoridade de Haydeé Mojola se inicia com a frase do assunto e se desenvolve descrevendo a forma como se vive em Jundiaí. Pacato, conservador, chucro para ser exato. O jundiaiense ( sou jundiaiense e moro aqui desde que nasci - 1965) é o que se pode chamar de capiau. É uma cidade típica da marcha conservadora , que tem ojeriza a qualquer forma de desenvolvimento ou movimento de vanguarda. Lambedores de batina, senhora cheias de escrúpulos e senhores cheios de si ainda habitam esta cidade, agora orfã também de suas duas glórias esportivas: O time de basquete feminino do colégio divino Salvador e o Paulista futebol clube, campeão da copa do brasil em 2005. Logo porão a culpa no Lula, uma das "persona non grata" a cidade, posto que um corrupto inverterado e insaciável. Não há boas atrações. Não há representação política, a não ser alguns insonsos tucanos irrelevantes aos olhos do país. A propósito, ser um tucano é quase sempre certeza de vitória na cidade. Afora o mandato de um prefeito do PCdoB, que , sabe-se lá como , venceu as eleições em 2012, o PMDB e o PSDB , sempre com os mesmos nomes governam a cidade desde que existem eleições na cidade. Carolas e ladies são exaltadas por não fazerem o "Ó" com a bunda, mas habitam as colunas jornalísticas como se fossem grandes beneméritas. Isto é Jundiaí e poderíamos até falar mais coisas. Jundiaí é reflexo da tacahnez do povo brasileiro. E é um grande exemplo. Infelizmente.

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' paz sem voz,Não é paz é

' paz sem voz,
Não é paz é medo...

Às vezes eu falo com a vida
Às vezes é ela quem diz
Qual a paz que eu não quero
Conservar
Para tentar ser feliz'

o rappa

 

 

bravos permanecem ao lado dos justos. aos canalhas restam os covardes

ate a vitória, sempre!

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Roxane

E me pergunto como podemos

E me pergunto como podemos chegar a tanto? Nós que pensamos que agora a coisa ia.  E foi , para trás. Não posso pensar muito. Me deprimo. Minha infância foi muito parecida com a tua. O jeito é tocar para frente. Essa vitória eles não terão :minha tristeza e depressão.

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Semelhança

Acho que foi assim a infância da maioria dos frequentadores do blog.

Arrisco a dizer que até a do mouro infiél ( royalties para Prof Hariovaldo ) que o criou.

Se colocar trilha sonora temos  o filme da nossa vida.

https://www.youtube.com/watch?v=XV-SNpUZtHQ

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