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Robert Whitaker: mais drogas psiquiátricas, mais transtornos mentais

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Robert Whitaker: mais drogas psiquiátricas, mais transtornos mentais

O expressivo aumento do uso de psicofármacos (antidepressivos, antipsicóticos e ansiolíticos), ao longo das últimas décadas, conduz a uma indagação: se essas drogas, supostamente eficazes, vêm sendo cada vez mais consumidas, por que aumentam os registros de transtornos mentais? A busca por uma resposta resultou no livro Anatomia de uma epidemia  Pílulas mágicas, drogas psiquiátricas e o aumento assombroso da doença mental (Editora Fiocruz), do jornalista americano Robert Whitaker, que tem prefácio dos pesquisadores Paulo Amarante e Fernando Freitas, do Laboratório de Estudos e Pesquisas em Saúde Mental e Atenção Psicossocial, da Escola Nacional de Saúde Pública Sergio Arouca (Laps/Ensp/Fiocruz). 

O livro, já traduzido em diversos países, examina o uso prolongado das drogas psiquiátricas, indicando as graves consequências ao cérebro daí decorrentes. “Se, no curto prazo, essas drogas suprimem os sintomas indesejados, no longo prazo o que o ocorre é diferente”, explica o autor, em comentário gravado para o blog do CEE-Fiocruz, após palestra que realizou por ocasião do lançamento da obra no Brasil, em 3 de julho de 2017, na Casa de Ciência e Cultura da UFRJ, no Rio de Janeiro.

Robert Whitaker questiona a abordagem medicalizante dos transtornos mentais e a forma como a Psiquiatria e a indústria farmacêutica, com o apoio dos formadores de opinião, incutiram na sociedade a ideia de que o desequilíbrio emocional se deve a transtornos bioquímicos que podem ser tratados com medicamentos, tal como o diabetes, a hipertensão ou problemas cardíacos. “Psiquiatras e jornalistas ganharam muito dinheiro para dar palestras e defender essa ideia. São pessoas nas quais o público acredita”, denuncia. “Se a causa dos transtornos mentais é o desequilíbrio químico, que pode ser resolvido com determinadas drogas, por que as pessoas não se sentem melhor quando usam esses medicamentos?”, indaga.

O evento de lançamento do livro teve a participação de cooperativas de usuários de serviços de saúde mental: coquetel por conta da Cooperativa da Praia Vermelha, que reúne usuários e ex-usuários de serviços e projetos como os do Instituto Municipal Phillipe Pinel, Instituto de Psiquiatria da UFRJ e Centro de Atenção Psicossocial (Caps) Franco Basaglia; venda livros a cargo do grupo Bacanas Corações; apresentação musical da banda Harmonia Enlouquece, do Centro Psiquiátrico do Rio de Janeiro; e registro em vídeo, para posterior documentário, pela TV Pinel.

Premiado por seus artigos sobre temas médicos, Whitaker foi vencedor, em 2010, do Investigative Reporters and Editors Book Award, pelo livro. “Nossas sociedades organizaram-se em torno de algo que não é verdadeiro”, aponta o jornalista. “Há prescrições de drogas psiquiátricas para crianças com menos de cinco anos”, aponta, destacando que em 1987, foram gastos nos Estados Unidos 800 milhões de dólares com psicofármacos, cifra que subiu para 40 bilhões, em 2007.

“Com a conivência da Psiquiatria, a indústria farmacêutica construiu a ideia de que na mente não há lugar para tristeza ou ansiedade, emoções que todos sabemos que são comuns nos seres humanos”, analisa. “No entanto, nos é dito não só que sofrer de ansiedade é uma doença, como que existe uma pílula mágica para resolver isso”. (Eliane Bardanachvili/CEE-Fiocruz)

Assista abaixo ao comentário de Robert Whitaker.

Leia mais sobre o livro de Robert Whitaker aqui.

Leia artigo de Robert Whitaker, no site Mad in Brasil.

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Volta e meia reaparecem tais picaretas

nada é novidade no que ele diz, pois volta e meia, antes e certamente virão outros, dizerem as mesmas bobagens; Há outros métodos de tratamento, do apego a uma regilião (e isso pode ser bom), a tomar placebos (que podem funcionar pela sugestão). E há misteriosas curas geralmente funcionando em quem acredita nas terapias alternativas e do oriente, de longe, o fetiche do oriente. E há os vários graus de depressão em que somente drogas pra cada caso mantêm sob controle. Passei por vários psi e psiquiatras (dois deles mereciam estar em camisa de força) e converso muito com meu excelente atual. EM horários muito tarde da noite ou início da madrugada às vezes vem um dos bons psiquiatras sendo entrevistado na TV.

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Antonio C.

Não sou médico, nem

Não sou médico, nem psicólogo, nem estudei saúde pública. Mas o que vejo, presencio e também vivi apontam para alguns caminhos, que dependem de focos que não são novidade.

A limitação da consulta médica como experiência clínica. O paciente é um sujeito particular. Está inserido num contexto mais amplo. A experiência clínica, segundo me parece, tem se dedicado não àquilo que causa algum problema, mas o modo como o paciente encara o problema (as terapias cognitivo-comportamentais vão nessa linha). Assim, o indivíduo é "tratado" com base nas mudanças de perspectiva, sem que haja, necessariamente, alteração no seu contexto.

Consideração, na psiquiatria, a doença mental como doença comum. Essa é genial. Um paciente vai ao consultório e coloca seus problemas e dilemas. O psiquiatra lhe diz que possui uma propensão (nunca provada, friso) de tal ou tal distúrbio, da mesma maneira que uma pessoa pode ser alérgica ao mofo. Nem passa pelo psiquiatra perguntar como o mofo parou ali. Ou mesmo que o mofo pode ser retirado. Ou mesmo que o ambiente não é adequado. Que se retirar do ambiente ou remover o mofo não são comparações, são metáforas; o ambiente (contexto social) do paciente precisa ser modificado de algum modo. Haveria o psiquiatra de fazer tal proposição?

Não me impressiona que as pessoas usem bolinhas pra tudo. Pra acordar, pra dormir, pra pensar (sic). Tudo é de responsabilidade do indivíduo. Se o indivíduo é infeliz, a culpa é dele (armadilha mortal: sorria, que o mundo sorrirá com vc). Se me sinto infeliz, coloco meus problemas de lado, estico o sorriso, sigo em frente. E daí aparecem as distorções, os "desejos loucos", os sonhos, os símbolos.

Alguns psiquiatras e psicólogos se mostram bastante indispostos quando confrontados com estas questões. O melhor é o paciente (literalmente, passivo) que vai ouvir "as coisas são deste jeito" (pois lhe disseram que é assim).

Medicamentos não são apenas medicamentos. Tornam-se verdadeiras soluções individuais.

 

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Alternativas às drogas da indústria farmacêutica

A quem interessar possa, há alternativas para tratamento da depressão, da ansiedade, de transtornos obsessivo-compulsivos, entre outros problemas que nos afligem, com os psicodélicos. É um crime contra a saúde pública não permitirem a pesquisa científica ampla sobre os psicodélicos. Colocar os psicodélicos na lista de substâncias ilegais foi um dos maiores desserviços da gestão do mais atrasado e reacionário presidente dos EUA no século passado, Nixon.

Ecstasy e LSD podem virar remédio contra distúrbios psíquicos em breve - 11/06/2017 - Ilustríssima - Folha de S.Paulo

Drogas psicodélicas podem tratar Alzheimer e outras doenças mentais - Jornal O Globo

Por que 2017 está sendo visto como ano da 'revolução psicodélica' na saúde - Notícias - Saúde

"Ecstasy" pode ser testado em tratamento de traumas no Brasil - Notícias - Saúde

Contra depressão, tratamento ilegal com microdose de LSD ganha espaço nos EUA - The New York Times - UOL Notícias

Microdoses de LSD para o ânimo e a concentração ganham adeptos nos EUA - AFP - UOL Notícias

As pessoas que costumam tomar LSD ou cogumelos no café da manhã - 15/04/2017 - Ciência - Folha de S.Paulo

MAPS - Multidisciplinary Association for Psychedelic Studies

Everything You Wanted To Know About Microdosing (But Were Afraid To Ask)

Recomendo muito este livro, recentemente lançado no Brasil, que trata de como estados alterados de consciência, atingidos por técnicas diversas como meditação, esportes radicais e ingestão de psicodélicos, mudam as vidas das pessoas para melhor:

Roubando o Fogo - A Ciência por Trás dos Super-Humanos 1ª Ed. 2017 - Fnac

 

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Paulo F.

Junte-se a isso

a "medicalização" da alimentação.

(http://m.folha.uol.com.br/colunas/joaopereiracoutinho/2017/08/1908035-qu...)

http://www.diariodepernambuco.com.br/app/noticia/viver/2017/02/15/intern...

E observe como o cerco dos "gestores da saúde" se forma sobre a sociedade.

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Indústria farmacêutica não se interessa em cura

É um tanto quanto óbvio, quem lucra com a sua doença não cuida da sua saúde.

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Antônio Uchoa Neto

A resposta a indagação que

A resposta a indagação que abre o primeiro parágrafo desse artigo é muito simples:não é, e nunca foi, o objetivo da indústria química criar produtos que curem doenças. Os remédios que a enriquecem atacam e temporariamente suprimem os sintomas. A doença tem que sobreviver, senão a atividade delas torna-se desnecessária. O que poderia ser melhor para essa indústria vendedora de ilusão - a cura - do que um mal imaginário? Quero dizer, como é possível diagnosticar doença em algo - a mente - que nem sequer sabemos o que é, ou onde se localiza? É a mente um órgão como o fígado, ou o intestino, cuja localização, função e características conhecemos plenamente, e podemos comparar objetivamente? A assim chamada "doença mental,ao menos nos termos em que a define a psiquiatria, é uma fraude altamente lucrativa.

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