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Fábio de Oliveira Ribeiro
Fábio de Oliveira Ribeiro

O Exterminador do Futuro: Gênesis, por Fábio de Oliveira Ribeiro

O filme “O Exterminador do Futuro: Gênesis” estreou esta semana. A nova versão da saga retoma o filme original rodado em 1984, mas parte de uma linha do tempo diferente. A obra de Alan Taylor e a de James Cameron apresentam diferenças superficiais e profundas. A começar pelas personagens.

No primeiro filme Sarah Connor é apenas uma garota normal que, em razão de circunstâncias especiais, acaba sendo transformada no principal objeto de uma guerra que começa no futuro e retorna até ela. No novo filme, a protagonista já é uma guerreira experiente que, em razão de novas circunstâncias especiais, finda a guerra pretendendo ser apenas uma garota normal.

O nascimento de John Connor é fonte de esperança para a humanidade no filme de 1984. No que estreou esta semana o nascimento dele é o principal fator de complicação. O robô assassino interpretado por Arnold Schwarzenegger já havia passado por várias evoluções nos 3 primeiros filmes da saga. Ele volta a evoluir nesta produção em que, finalmente, é obrigado a confrontar uma outra versão de si mesmo. O velho robô leva uma surra e é salvo por Sarah Connor.

As diferenças técnicas entre o primeiro e o último filme são evidentes. Em 1984 a computação gráfica estava apenas nascendo e é usada apenas para ilustrar o ponto de vista do robô. A maioria das cenas de ação do filme de Cameron foram rodadas com recursos técnicos à moda antiga, inclusive “stop motion”  e imagens superpostas. O novo filme abusa da mais sofisticada computação gráfica para colocar frente a frente duas versões diferentes do famoso Cyberdyne 101.

O filme original foi concebido e rodado na fase final da Guerra Fria. Muito embora tenha abandonado a retórica do anti-comunismo e instituído um novo inimigo da humanidade (as máquinas), “O Exterminador do Futuro” abusa de conceitos que eram próprios do período como apocalipse nuclear, guerra nuclear inevitável, destruição garantida da civilização, etc… O novo filme se afasta definitivamente destas referências. A guerra nuclear deixa de ser inevitável e o apocalipse é definitivamente interrompido. Homens e máquinas podem fazer parte da mesma família.

A narrativa do filme de 1984 é, sem dúvida alguma, tributária do Realismo literário. O amor da vida da heroína morre jovem e ela se afasta do mundo para se tornar uma mãe solteira amargurada que tem certeza da iminente destruição da civilização. O filme de 2015 é influenciado pelo Romantismo. O parceiro de Sarah Connor sobrevive e ambos trocam a guerra e a certeza do apocalipse por uma nova vida familiar. O futuro, que era fonte de solidão e terror em 1984, pode proporcionar paz, prosperidade e felicidade conjugal em 2015.

Um dos fotogramas mais emblemáticos do filme de James Cameron nos ajuda a compreender o que está ocorrendo no Brasil https://www.facebook.com/photo.php?fbid=1027099653980529&set=a.198878050136031.49141.100000415136357&type=1&theater. Na realidade pós-nuclear dominada pelas máquinas concebido em “O Exterminador do Futuro”, a televisão só tem uma utilidade: servir como lareira. O futuro chegou e a televisão ainda não acabou, mas sua importância eleitoral praticamente deixou de existir. Todos os candidatos apoiados ostensivamente pelas redes de TV perderam as últimas eleições presidenciais no Brasil. Irritados, os barões da mídia vomitam diariamente ódio pseudo-jornalístico e fogo do inferno evangélico nas casas dos telespectadores. A realidade, contudo, não pode ser transformada pela TV em 2015 como não podia ser transformada pela fogueira na TV do filme de 1984.

Não deixa de ser irônico o lançamento de “O Exterminador do Futuro: Gênesis” no Brasil justamente neste momento em que, influenciados por um anti-comunismo embolorado e anacrônico, alguns maníacos abusam da paciência do respeitável público e ameaçam a paz social com atos terroristas nazi-fascistas. O idiota que ofendeu Dilma Rousseff há alguns dias se parece mais com um robô assassino programado para fazer o Brasil retroceder à 1984 (fase final da Ditadura, quando “O Exterminador do Futuro” foi lançado) do que com um jovem saudável de 2015 que cresceu durante a vigência da CF/88.

Enquanto nossa presidenta se esforça diariamente para destruir ou reduzir a influência dos exterminadores de futuros pacíficos, produtivos e amorosos dentro e fora do país, os profetas de um mal exterminado na Europa a tiros de canhão renascem no Brasil para serem novamente abatidos. Não passarão, nem no cinema nem na vida real.

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4 comentários

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Bruno Cabral

Spoilers

Obrigado por ser desmancha prazeres e contar o final do filme

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"O Exterminador do Futuro:

"O Exterminador do Futuro: Gênesis, por Fábio de Oliveira Ribeiro"

chamada enganosa do GGN-NASSIF

fui com tudo para ler mais um genial libelo da casa contra o juiz mouro e a destruiição do futuro do brasil do futuro...

e dei com os burros n'água!

odeio ficção científica na base da ignorância selvageria e da força brutal a ferro e fogo e sangue.

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"Não há segredo que o tempo não revele, Jean Racine - Britânico (1669)" - citação na abertura do livro Legado de Cinzas: Uma História da Cia, de Tim Weiner. 

Burros gostam ou não de água?

Burros gostam ou não de água?

Seu voto: Nenhum

Perfeito.

Perfeito Fábio de Oliveira Ribeiro. Gostei muito dessa análise. Foi uma comparação magistral.

Seu voto: Nenhum

Franklin.

Poeticamente, creio que não passarão.

Politicamente, ........................................................................................................................... 

Seu voto: Nenhum (1 voto)

Odonir Oliveira

“A colheita é comum, mas o capinar é sozinho” G. Rosa

          

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