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Fábio de Oliveira Ribeiro
Fábio de Oliveira Ribeiro

Os homens de armas e seus livros antigos

A Guerra de Tróia (século VIII aC)  foi objeto de um poema épico inesquecível e que já rendeu bons filmes. Mas as intervenções divinas durante a narrativa poética do conflito são tantas e tão importantes que por mais de 2 mil anos o trabalho atribuído a Homero foi considerado meramente mitológico (referindo-se a coisas que ocorreram fora do tempo, eventos fabulosos). Somente quando as ruínas de Tróia foram escavadas no século XIX o próprio conflito da Era do Bronze voltou a ser considerado fato histórico. 

Em seus Nove Livros da História, Heródoto (485 aC – 430 aC) narra vários conflitos militares, muitos deles entre povos não gregos. Os conflitos entre seus conterrâneos e os persas (Xerxes e Dario, invadiram a península grega no século V aC) ocupam apenas os livros 5º ao 9º. Batalhas imortalizadas no imaginário de centenas de milhões de jovens e adultos ao redor do planeta pelos filmes 300 (2006) e 300-Rise of na Empire (2014) ocupam apenas algumas páginas do livro.

A primeira guerra grega a ser narrada em detalhes, com algum rigor metodológico e a ser objeto de reflexão profunda foi a Guerra do Peloponeso. Tucídides (460 aC – 395 aC), ele mesmo um dos combatentes, colheu relatos dos participantes das batalhas e meditou sobre as decisões que garantiram o sucesso ou a ruína das cidades que por mais de duas décadas se dedicaram à arte de matar inimigos vendo milhares de seus cidadãos morrerem no processo.

Os relatos acima influenciaram e ainda influenciam os soldados. A ideologia do conflito de civilizações entre Ocidente e Oriente, que teria iniciado com a Guerra de Tróia (Homero) e subseqüentes incursões dos persas na Grécia (Heródoto), forneceu argumentos para a invasão da Pérsia por Alexandre o Grande (334 aC) e para a recente Guerra do Iraque (2003).

Além de ter sido educado com base em outras obras que provavelmente não chegaram até nós, Alexandre o Grande certamente teve contato com as obras de Homero e Heródoto. O jovem Júlio Cesar (100aC – 44aC) deplorava não ter feito nada grandioso como Alexandre antes de Roma lhe dada a oportunidade de devastar a Gália. Como Alexandre, o general romano também conquistou o Egito sendo muito provável que ele tenha sido inspirado pela literatura grega (muito em voga em Roma antes mesmo da conquista da Acaia em 146aC).  

As ligações entre os guerreiros e os livros de Homero, Heródoto e Tucídides não se limita à antiguidade clássica. Na virada do século XVIII para o século XIX, Napoleão Bonaparte (1769 – 1821) deve ter tido contato com estes autores durante sua formação em Brienne e na Escola Militar de Paris. De qualquer maneira, é induvidoso que Napoleão se ligou, ainda que de maneira indireta, às narrativas gregas que inspiraram Julio César (há duas décadas comprei uma edição espanhola de Commentarii de Bello Gallico com os comentários do imperador francês, livro que conservo com muito carinho).

O Duque de Caxias, comandante das tropas brasileiras na Guerra do Paraguai, era leitor de Homero, Heródoto e Tucídides? Muito provavelmente.  É certo porém que a fina-flor da juventude européia que pereceu nas trincheiras de Verdun e do Somme, durante a I Guerra Mundial, foi educada com base nos clássicos. Idem para a maioria dos oficiais alemães e russos que se estraçalharam em Stalingrado e  Kursk na II Guerra Mundial.

Durante a Guerra Fria, o conflito entre os dois grandes blocos militares liderados por EUA e URSS era algumas vezes interpretado como uma reedição da guerra entre Oriente e Ocidente iniciado na Guerra de Tróia e Guerras Médicas. Outras vezes, os especialistas na arte de matar a consideravam o conflito mundial entre capitalismo e comunismo como uma renovação da disputa entre a democrática Atenas e o tirânico regime de Esparta. As obras de Homero, Heródoto e de Tucídides, portanto, continuavam a fornecer o enquadramento para conflitos diferentes, com armas diferentes, entre povos totalmente diferentes de gregos e persas. 

A única imagem que considero significativa da Guerra do Iraque e que, por esta razão conservei na memória, foi produzida depois da derrota de Saddan Hussein. O vídeo mostra um oficial do exército inglês caminhando na planície árida em que Alexandre o Grande derrotou seus inimigos persas. Os ingleses modernos não são descendentes de macedônios ou de gregos, os iraquianos do século XXI não tem qualquer vínculo com a cultura persa séculos antes de Cristo. Mas isto parece não ter incomodado o oficial inglês. Ele comemora a oportunidade de estar ali e até faz algumas reflexões sobre a continuidade do passado no presente, ligando a si próprio às falanges macedônicas. O vídeo, sem dúvida alguma, retrata o poder da ideologia e das obras antigas no imaginário dos militares ingleses que as estudam.

Há séculos os militares ocidentais eruditos estudam Heródoto, Homero e Tucídides em grego. A leitura de Tucídides, por exemplo, segue sendo obrigatória nas escolas de oficiais nos EUA. Portanto, é bem provável que eles sigam enquadrando seus conflitos nos limites definidos pelos autores gregos: ocidente x oriente; democracia x tirania. E este, creio, é o grande problema que o mundo seguirá enfrentando. Nem os EUA é uma democracia idêntica a de Atenas, nem os inimigos dos EUA são tiranias parecidas com Esparta.

A democracia bipartidária dos EUA permite e possibilita um poder avassalador dos ricos dentro dos EUA. Pobre não faz política naquele país. Pode votar (não para presidente), mas raramente os representantes eleitos pelo povo norte-americano cuidam dos interesses dos eleitores pobres com o mesmo afinco devotado aos interesses das empresas que financiaram suas campanhas. O que os norte-americanos chamam “democracia” é na verdade um “liberalismo oligárquico” (ou uma plutocracia, segundo alguns). Os comandantes militares norte-americanos não são eleitos pelo povo, não são sujeitos ao banimento em caso de derrota, tampouco ocupam cargos temporários e honoríficos como ocorria em Atenas.

Os inimigos em potencial dos EUA neste momento não podem ser comparados militarmente à Pérsia ou a Esparta. A cidade grega que derrotou Atenas em 404 a C tinha apenas uma infantaria de 10 mil hoplitas usando lanças, espadas, armaduras e escudos. Russos e chineses estão tão ligadas culturalmente à Pérsia de Xerxes e Dario, quanto nós brasileiros estamos ligados aos Tupinambás derrotados no litoral brasileiro durante a colonização do nosso país. A Rússia e a China possuem milhões de soldados, máquinas de guerra sofisticadas e letais e, principalmente, armas nucleares que podem ser lançadas em território norte-americano.

O fato dos EUA também ter máquinas de guerra sofisticadas, armas nucleares e a capacidade inequívoca de devastar total ou parcialmente os territórios de seus inimigos não melhora muito a situação. De fato, a equivalência militar somente complica a situação se o conflito entre potências nucleares não receber um enquadramento diferente daquele que foi dado à guerra por  Homero, Heródoto e Tucídides. O ateniense Tucídides sobreviveu à Guerra do Peloponeso e o banimento para contá-la. Muitos de seus conterrâneos também puderam saborear sua narrativa ou apenas ignorá-la em favor do vinho e dos prazeres mundanos da boa vida.

A guerra total entre potências nucleares não poderá nem mesmo ser narrada. A morte certa daqueles que sobreviverem ao primeiro ataque será mais dolorosa do que a aniquilação instantânea de centenas de milhões de pessoas. O espaço da narrativa deixa de existir quando é totalmente devastado por bombas de hidrogênio. A própria narração deixa de ser uma possibilidade histórica ou de despertar interesse quando não existem mais culturas, escritores, feitos memoráveis a serem narrados ou leitores com saúde para apreciar uma boa narrativa história.

Tucídides deplora a carnificina entre seus conterrâneos. Homero lamenta o destino trágico do jovem Heitor e a infelicidade de sua viúva. Heródoto relativiza os feitos dos seus conterrâneos gregos ao dar atenção à história de egípcios, fenícios e persas. Nada será mais deplorável para todos nós do que ver soldados norte-americanos e russos (que estão prestes a se hostilizar na Ucrânia) enquadrarem um conflito entre potências nucleares com base em relatos da Guerra de Tróia, das Guerras Médicas ou da Guerra do Peloponeso.

Para que a Ilíada, os Nove Livros da História e A Guerra do Peloponeso sigam sendo lidos, as lições militares que ensinadas pelos gregos terão que ser esquecidas pelos militares das potências nucleares hegemônicas. A guerra total entre potências nucleares não é uma possibilidade histórica, nem levará a qualquer realização estética. A escalada natural de um conflito militar entre EUA e Rússia (com possível envolvimento da China) levará apenas à aniquilação total de todas as narrativas militares passadas e futuras. Não me parece que Homero, Heródoto e Tucídides desejassem algo semelhante quando escreveram seus livros.

 

 

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