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Fábio de Oliveira Ribeiro
Fábio de Oliveira Ribeiro

Um golpe a deriva, por Fábio de Oliveira Ribeiro

Um golpe a deriva

por Fábio de Oliveira Ribeiro

Há algum tempo fiz comparações entre os programas econômicas do golpe de 1964 e do golpe de 2016. Antes disto já havia feito comparações políticas entre os líderes que rasgaram a CF/4946 e a CF/1988 para retirar a soberania popular do cenário político.

Hoje retornarei ao assunto, enfocando as particularidades políticas dos dois golpes. O golpe de 1964 tinha um projeto de nação claro e o colocou em prática sob o comando dos militares. As elites não estavam divididas em relação ao aspecto político mais importante do novo regime: os militares deveriam ficar no comando do Estado e reprimir os dissidentes dentro da Lei (e fora dela quando possível).

A divisão política das elites na atualidade é evidente. Elas concordam com as reformas, mas não conseguem encontrar um único líder para comandá-las. Geraldo Alckmin comanda o Estado mais rico da federação e tem ambições presidenciais, mas está sendo obrigado a enfrentar o sorridente prefeito de São Paulo que rapidamente conquista a preferência da mídia. Bolsonaro é o candidato da direita retro e certamente retirará alguns milhões de votos de qualquer concorrente ao cargo no campo da direita. José Serra e Aécio Neves ainda não disseram se pretendem ou não disputar a presidência. Marina Silva continuará sendo a eterna candidata do Banco Itaú.

Dória Jr. é cortejado pela imprensa e já se apresentou como opção do mercado, mas é desconhecido fora de São Paulo e será sabotado por Alckmin. Ciro Gomes sonha ser o candidato do centro, mas é mais conhecido no nordeste e não tem musculatura partidária para alcançar seu objetivo. Tudo bem pesado, Doria Jr. é um Ciro Gomes com discurso pró-mercado e Ciro Gomes é um Doria Jr. com propostas desenvolvimentistas.

Lula não apoiou o golpe e continua sendo o candidato presidencial preferido dos brasileiros. Se for excluído das eleições o trauma político será terrível e comprometerá o governo do candidato vitorioso, seja ele de centro ou de direita. Se ganhar a eleição e demolir as reformas pró-mercado de Michel Temer, o petista enfrentará dura resistência dos setores políticos, empresariais, financeiros e midiáticos que arquitetaram e ajudam a consolidar o golpe de 2016.

O cenário político pós-golpe de 2016 não propicia a construção de coesão social mediante o uso da força e sob o comando de militares (como ocorreu após 1964). Os próprios militares tentam se desvencilhar de qualquer compromisso com o aprofundamento do golpe.

Impedidas de cancelar as eleições presidenciais, as forças que lideram o golpe sugerem a adoção do Parlamentarismo. O problema é que a mudança de regime esbarra na preferência popular pelo Presidencialismo. Além disso, os regimes parlamentares são frágeis e raramente conseguem se sustentar durante períodos de depressão econômica e instabilidade política. A República de Weimar desmoronou abrindo espaço para o III Reich nazista. A adoção do regime parlamentar neste momento poderia provocar um resultado semelhante, pois a violência do movimento liderado por Bolsonaro só poderá ser minimizado e/ou derrotado através de um regime forte.

Um novo presidencialismo: é disso que o Brasil precisa. O problema é que os ideólogos e líderes do golpe 2016 não tem interesse em fortalecer o Estado. Muito pelo contrário, eles fragilizam o Estado acreditando que assim ocorrerá um florescimento natural do mercado (muito embora o mercado esteja encolhendo a olhos vistos). Além disto, os golpistas nem mesmo tem um único candidato capaz de levar adiante as reformas pró-mercado.

O contexto político e econômico gerado pelo golpe de 1964 favorecia a preservação do regime infame que foi criado. O contexto criado pelo golpe de 2016 só propicia uma coisa: sua superação. Todavia, o Brasil ainda pode sair totalmente dos trilhos com a adoção do parlamentarismo, sob o comando de um cretino como Doria Jr.* ou nas mãos de um maníaco genocida como Bolsonaro. Gostem ou não, os golpistas dentro e fora do Poder Judiciário serão obrigados a fazer um cálculo racional: o Brasil ficará ruim com Lula ou pior sem ele. Melhor para o povo, pois caso seja eleito Lula ao menos conseguirá restaurar a fé dos brasileiros nas urnas. 

Recentemente o prefeito de São Paulo proibiu as crianças de repetirem a merenda. Criticado ele disse que estava preocupado com a obesidade infantil, mas a verdade é que Doria Jr. conseguiu plagiar o personagem de Charles Dickens que impede Oliver Twist de repetir a refeição no orfanato. 

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André Nacur

Golpe e Golpistas

A arquitetura de uma reação ao projeto Progressista/Populista/Unificador das últimas experiências do país é sem duvida nenhuma orquestrado de fora pra dentro (vide intervenção dos Irmãos Koch)... Continuo achando que a "esquerda" há de resgatar dentro da cadeia as forças necessárias a uma revolução, sem a qual nada nunca seremos... A criminalização da pobreza tem sido o escaninho usado pela pirâmide capitalista desde que este adveio na história da humanidade. Quem hj em dia não aceitaria como "criminosa" aquilo que foi o segundo evento histórico a fazer a sociedade brasileira ingressar nos anais da história do homem; A Coluna Prestes...
Ora, qualquer um atualmente é capaz diante de tamanho grau de cinismo e velhacaria a que atingimos de aceitarmos que sejam abertas TODAS AS CADEIAS em nome da salvação da justiça desta nossa POPULAÇÃO BRASILEIRA...

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.. militares..

eu acho que a opção de golpe militar não está totalmente descartada, não.. o corte de 50% do orçamento militar deve estar incomodando muito.. veja que nós saímos de potência mundial, sérios candidatos a uma cadeira cativa no Conselho de Segurança da ONU, um vetor de tranformação do comércio mundial através dos BRICS para um.. nada.. hoje o Brasil é nada.. está fora da pauta mundial.. a não ser preocupação aqui e ali com o drama social.. recentemente os EUA enviaram um monte de tanques velhos, lixo, pura sucata.. suprema humilhação.. como se trata de um ambiente hermeticamente fechado, vai aqui um chute: além de Lula, pode rolar uma micro revolução dentro das FA.. com apoio do povo.. principalmente se a Venezuela ganhar a guerra deles por lá.. se esse general que aparece de vez em quando aí na mídia (villas boas) resolver dar um balão nos traidores da pátria, muita gente (muita mesmo) vai apoiar..

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joel lima

jruiz, não contaria com os

jruiz, não contaria com os militares pra nenhum golpe. Primeiro porque sou contra militar entrar pra resolver problema político. O país já passou por isso por 21 anos. E eles foram tirados dessa reforma canalha da previdência. 

Realmente você está certo em relação a nulidade do Brasil hoje no cenário internacional. Não pode querer reinvindicar uma cadeira no conselho de segurança da ONU ( que eu acho que traria mais problemas do que vantagem ao país, mas aí são outros quinhentos ) um país que não tem força nenhuma pra resolver um problema com o seu vizinho, a Venezuela. No governo Dilma, a atuação da diplomacia era muito fraca, até porque Dilma nunca deu bola pra isso (ao contrário de Lula, que tornou o Itamaraty de um relevância incrível) e no Temer, colocam gente da sofisticação de um Aloysio Nunes pra jogar gasolina na fogueira e não apagar o fogo. E isso vai custar o país o drama de ter que dar conta de centenas de milhares de refugiados da Venezuela no momento que o país implodir de vez. Pessoas que fugiram pras regiões mais carentes dum país em crise. Sem infra estrutura pra abrigá-los e ainda tendo fascistas a la bolsonaro  com seus latidos antiimigrantes, aqueles cenas deprimentes que vemos na Europa logo se repetirão aqui. 

 

 

 

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joel lima

Não consigo ver golpistas

Não consigo ver golpistas fazendo cálculo racional e assim aceitarem lula em 18. Esses fdps não enfiaram o país numa recessão de país de guerra pra no fim dar Lula. Principalmente a Globo, peça fundamental do golpe. Lula eleito, se não quiser ser traidor de quem votar nele em 18, TERÁ que no primeiro dia atacar a Globo. E isso seria pelo corte da verba de propaganda das estatais. Corte de TODOS. Agora, se Lula entra em 19 querendo conciliar com a gente que, em última análise, foi responsável pela morte prematura de dona Marisa, aí é caso de quem puder sair do país. 

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