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A Hora do Adeus

 

'Choro como uma criança', disse Paulo Autran em carta antes de morrer

 

Mônica Bergamo

da Folha

 

Em um domingo de junho de 2007, Paulo Autran se preparava para entrar em cena na peça "O Avarento", de Molière, no teatro Cultura Artística. Era o 90º espetáculo de sua carreira, com sessões lotadas há quase um ano. Naquela noite, 1.140 ingressos teriam que ser devolvidos -o ator foi levado ao hospital com dores no peito.

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"Meu infarto foi o meu fim como ator", escreveu ele sobre o episódio, quatro meses depois, à colega Fernanda Montenegro, 87. A carta foi o último texto escrito por Autran, em 1º de outubro de 2007. Ele morreria 11 dias depois, aos 85 anos, vítima de um câncer de pulmão contra o qual lutava havia um ano.

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A correspondência será trazida a público pela primeira vez no documentário "Paulo Autran - O Senhor dos Palcos", de Marco Abujamra. O longa estreia na segunda (21) no Festival de Cinema de Gramado e será exibido no canal Curta! até o fim deste ano, uma década depois da morte do ator.

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Autran ainda teve tempo de ler a resposta de Fernanda, enviada três dias depois. "Tive um um estupor, um choque, um desassossego, uma adrenalina, se posso dizer, paralisante, porque se você para, se você encerra sua vida de palco, toda a nossa geração para, todos nós vamos com você", escreveu ela.

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E parou, com exceções "rarérrimas", afirma a atriz ao repórter João Carneiro. "Não tem substituto, não é? Na coragem da produção, com elencos grandes, espetáculos que duravam um, dois, três, quatro, às vezes cinco anos, entende?". O teatro da época de Autran, de companhias com atores contratados, mantidas pelas bilheterias, está quase extinto, diz. "Parece mentira que nós vivemos aqueles anos todos um teatro tão presente."

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"O Paulo sempre teve essa postura do ator clássico", segue ela. "É uma coisa com que se nasce ou não. O ator que entra e sabe ficar sobre as duas colunas que são as suas pernas. E fala, compreende? E aí também é preciso ter o que falar." Hoje, diz, "estamos em uma pobre época de teatro".

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Os dois não tinham uma "intimidade de amiguinhos, nem de amigões", conta a atriz. Mas assistiam um ao outro no teatro, "sempre com muita fraternidade". Trabalharam juntos uma única vez, na novela "Guerra dos Sexos" (1983), em que se encontraram, segundo Fernanda, "como se sempre estivessem juntos em cena".

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Na última mensagem ao amigo, Fernanda escreveu que chorou ao ler a carta dele. "E muito. Pelo passado, pelo presente e (por que não?) pelo futuro. Sei, na pele e também por olhar em volta, que não é fácil atravessar a chamada velhice." No entanto, resistiam, "alimentados pela nossa bendita vida de gente de teatro, cada um ao seu modo. Amo a vida desesperadamente. O que é que eu posso fazer?"

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Na carta ela diz ainda que não falará em Deus, reencarnação ou energias. "Eu me agarro, sim, é na existência mesma, na presença mesma, nas lágrimas mesmas, nas alegrias mesmas (embora poucas, como você escreveu)."

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O momento era difícil para Paulo Autran, como ele revelou na última carta à amiga. "Não posso dizer que estou contente. Karin [Rodrigues, mulher do ator] tem sido de uma dedicação total, não me larga e me diverte com seu astral privilegiado. Estou de cadeira de rodas, com ela vou aos teatros, cinemas e restaurantes sem degraus. Meus médicos dizem que não vou morrer do câncer, que está controlado e praticamente não é mais visto nas chapas. O especialista do coração me diz que estou ótimo. E eu me pergunto: vou morrer de quê?"  

 

Karin Rodrigues interpretava a personagem Frosina na montagem de "O Avarento" quando o marido sofreu o infarto. O casal se conheceu no teatro, quando dividiram o palco em uma montagem de "Equus", em 1975. Depois disso, estiveram juntos em "umas 30" peças, diz ela. Como companheiro de cena, Autran era "adorável. Ele não competia, inclusive dava dicas depois, quando o espetáculo terminava."

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"Ele tinha um dom, raro no teatro, de saber ouvir", segue ela. "Às vezes você não acredita que o outro tá ouvindo, ele tá só esperando a deixa pra dar a frase dele. [Paulo] ouvia e, conforme ouvia, ele te dava o chão pra você continuar, sabe?"

 

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A última temporada no teatro foi difícil porque Autran já estava doente. "Às vezes ele estava na coxia com a cabeça baixa, cansado, sem fôlego, mas quando ele entrava em cena Nossa! Não tinha mais nada, era aquele personagem. Ele morreu como ele quis, né?", relembra Karin. Autran escreveu em sua última carta: "Felizmente terminei minha carreira em glória".

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"Quando a pessoa está viva, fazendo o sucesso que ele estava fazendo, mesmo que tenha carências físicas, seus pequenos ou grandes males quando entra em cena, o ator fica com possibilidades impensáveis. [Ele tinha] uma fé, eu diria, mística, diz Fernanda Montenegro.

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"Chegou um dia", conta Karin, "em que o médico falou pra ele: 'Você não pode mais trabalhar'. Ele chorou, mas ele chorou Ele morreu naquele momento. Porque não tinha mais sentido nenhum continuar vivendo sem poder fazer teatro".

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Nas cartas que trocaram, Paulo e Fernanda se despedem com palavras afetuosas. Diz ele: "Faz muito tempo, ou melhor, nunca me abri como neste momento. Talvez por isso o controlado Paulo Autran está chorando como uma criança. Isso até está me fazendo bem." Ela respondeu que recebia as palavras "de amizade, de amor, como se tivéssemos 20 anos, mas com cem anos de experiência de vidas bem vividas."

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"Somos contemporâneos e somos interdependentes, Paulo querido. Todos nós. Interdependentes. Agradeço a sua confiança em mim ao me falar de seus sentimentos tão profundos. Grande abraço, Fernanda." 

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