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Notas sobre Aristóteles e a definição de poesia, por Gabriel Nocchi Macedo


Ilustração: Literatura grega
 
Jornal GGN - A verdadeira distinção entre a prosa e a poesia ainda gera questionamentos e incertezas, mesmo entre o universo acadêmico. Debatendo sobre estes dois gêneros literários, o professor e doutor em Línguas e Literaturas Clássicas pela Universidade de Liège, na Bélgica, Gabriel Nocchi Macedo recorda a origem das palavras para tentar responder às dúvidas. Para isso, recorre aos antigos gregos, Platão e Aristóteles.
 
Sugerido por Gilberto Cruvinel
 

Por Gabriel Nocchi Macedo

Algumas notas sobre Aristóteles e a definição de poesia

Do Estadão

O que diferencia prosa e poesia? Feita a um grupo de estudantes universitários, em uma prestigiosa universidade, a pergunta gerou hesitação. Com alguma insistência, obtiveram-se algumas tímidas respostas: a poesia é uma “expressão de sentimentos”, enquanto a prosa “conta uma história”. Qualquer distinção formal entre uma e outra categoria de composição literária, mesmo a noção de “verso”, passa despercebida. A resposta dos nossos universitários reflete, de certa forma, a ideia que o público geral tem do propósito da poesia: exprimir sentimentos, criar imagens, sugerir afetos, enquanto romances, contos e novelas narram histórias com início, meio e fim.

No entanto, na tradição literária, a distinção essencial entre prosa e poesia deve-se não tanto ao conteúdo quanto à forma, e sobretudo ao metro (do grego metron, “medida”): uma estrutura rítmica definida sobre a qual se constrói o verso, ou seja, a linha poética. Até o século XIX, com a emergência da prosa poética seguida, ao início do século XX, pela aparição do verso livre (cujo ritmo é despojado de qualquer coerção métrica), o metro era o critério essencial, a condição sine qua non à criação poética.

Os antigos gregos, criadores da crítica literária, foram os primeiros a teorizar sobre a natureza da poesia. Platão, notório por sua aparente antipatia por poetas, refere-se ao metro como uma vestimenta ou armadura que cobre as “palavras nuas” (logoi psiloi), ou seja, a prosa. Na sua Poética, Aristóteles reconhece o metro como o denominador comum dos diversos gêneros de poesia (Aristóteles, Poética 1447b 14-20):

Colando o verbo poiein[1] ao nome do metro, eles chamam uns de “poetas elegíacos”, outros de “poetas épicos”, não pela representação (mimèsis), mas de acordo com o metro que usam; de fato, costumam-se chamar assim também aqueles que tratam, usando metro, de medicina ou da natureza. Porem, não há nada em comum entre Homero e Empédocles além do metro, por isso, é mais justo chamar o segundo de especialista da natureza do que de poeta.

Como ilustra essa passagem, o uso do metro na Grécia antiga era muito mais amplo do que a ideia moderna de poesia. Em seus primeiros séculos, toda a literatura grega era poética; até tratados científicos e filosóficos, como o Da natureza de Empédocles de Acragas, eram versificados. Aristóteles foi o primeiro a questionar a identificação convencional “texto em metro = poesia”, situando no centro de sua definição de poesia a noção de mimèsis, traduzido ora por “representação” ora por “imitação”. Empédocles escreve versos com um proposito científico (ou didático), não mimético: nada, em sua obra, imita ou representa a ação humana. Ele, portanto, não deveria ser considerado poeta, mas um “escritor científico”. A essência do poético, segundo Aristóteles, reside no seu caráter mimético. O metro só não basta à poesia.

Mimèsis é o conceito central da filosofia estética de Aristóteles. As artes são formas de mimèsis, imitações da natureza, de eventos, do caráter, da ação, e das emoções humanas, cada uma com meios que lhes são próprios (Poética, 1447a 18-28):

Aqueles que criam imagens representam muitos objetos pelo uso formas e cores (…), outros o fazem pelo uso da voz, como em todas as artes mencionadas acima, que fazem imitações usando ritmo, linguagem e melodia, separadamente ou em conjunto. As músicas da flauta, da cítara e de outros instrumentos com efeito semelhante, como a flauta de Pan, usam melodia e ritmo apenas, enquanto a dança usa o ritmo sem melodia (de fato, os dançarinos, pelo ritmo de seus gestos, imitam caráteres, emoções e ações).

Após uma digressão sobre a nomenclatura de alguns gêneros literários, o fundador do Liceu conclui (Poética, 1447b 24-27):

Há também artes que usam todos os meios aqui evocados, digo ritmo, melodia e metro, como a poesia ditirâmbica, a poesia nômica, a tragédia e a comédia[2].

Aristóteles, infelizmente, não trata de todos os tipos de literatura e de sua relação com a mimèsis (a maior parte do primeiro livro da Poética é de fato dedicada somente à tragédia; o segundo livro, que tratava da comédia, foi perdido). Porém, aplicando o raciocínio aristotélico à terminologia moderna, chegar-se-ia às seguintes definições: poesia é a arte que usa, como meios de realizar a mimèsis, linguagem e ritmo. Alguns gêneros poéticos usam tão somente linguagem e ritmo (como a épica), outros, linguagem, ritmo e melodia (como os gêneros de poesia cantada citados acima). A arte que realiza a mimèsis pelo uso da linguagem pura, sem ritmo, é o que hoje chamaríamos de “prosa literária” ou “ficção” e englobaria os o romance, o conto, a novela, etc. A “não ficção”, ou seja, a prosa científica, filosófica, ensaística, etc., faz uso da linguagem pura, mas não realiza mimèsis. Os antigos tratados filosóficos em verso, como o de Empédocles, preenchem as condições formais da poesia, i.e. usam linguagem e ritmo, mas também não são miméticos e excluem-se assim da teoria poética de Aristóteles.

A mimèsis, e consequentemente a poesia, têm suas origens, segundo Aristóteles, na natureza humana (Poética 1448b 4-24):

Duas causas parecem ter originado a arte poética, ambas naturais. A representação é natural aos seres humanos desde a infância, e é por ela que eles se diferenciam dos outros animais. Pois, o ser humano é o mais mimético de todos [os seres] e seus primeiros aprendizados se fazem através da representação. E todos os homens obtêm prazer das representações. Um sinal comum disso é que nos alegramos ao ver reproduções extremamente realistas de coisas que nos são dolorosas de ver, como cadáveres ou formas de animais repugnantes. A causa disto é que não só os filósofos gostam de aprender, mas também os homens comuns, mesmo se eles têm menos aptidão. É por isso que as pessoas têm prazer em contemplar imagens, porque contemplando-as elas aprendem e inferem o que cada coisa é, por exemplo, “isto é tal coisa”. Até porque, se eles por acaso nunca viram o objeto representado, não é a representação que lhes trará prazer, mas a técnica, a cor ou algum outro elemento.

Representação nos é então natural, assim como a melodia e o ritmo (o metro é, bem entendido, parte do ritmo). Desde o início, aqueles mais naturalmente inclinados a tais coisas desenvolveram, pouco a pouco, a poesia a partir da improvisação.

Tem-se aqui um ponto central da estética aristotélica, que, em momento algum, reivindica-se de l’art pour l’art. A mimèsis, inerente à natureza humana, não provoca somente prazer ao homem, ela é um modo de aprendizado. A poesia, enquanto expressão mimética, mantém essa função e reveste-se assim de uma importância moral. O dever do poeta, diz Aristóteles, não é contar o que aconteceu na realidade, mas o que poderia acontecer, por necessidade ou probabilidade. O historiador relata fatos e eventos, muitos dos quais são frutos do acaso ou não se podem explicar. Cabe ao poeta expressar, na sua representação desses fatos e dos homens que participam deles, aquilo que, nas circunstâncias e na ação de um homem, é útil a todos os homens (Poética, 1451a 38 – 1451b 10):

A diferença entre o historiador e o poeta não é que um escreve sem metro e o outro com metro (de fato, se a obra de Heródoto fosse posta em metro, ela ainda seria um tipo de história, com ou sem metro), mas a diferença é que um diz o que aconteceu, o outro, o que poderia acontecer. Por isso, a poesia é mais filosófica e mais séria que a história, pois a poesia revela o universal, e a história, o particular. O universal diz respeito ao tipo de coisa que um tipo de pessoa deve provavelmente ou necessariamente dizer, e este é o objetivo da poesia, mesmo se ela usa nomes particulares.

Exemplificando: a verdade de Édipo Rei não é aquela de um antigo rei de Tebas (que provavelmente nunca existiu) que matou o pai e casou-se com a mãe. O que o expectador (ou leitor) aprende ao ver representadas ações dos personagens e suas consequências, é a verdade sobre insolência humana, sobre os perigos do poder, sobre a inexorabilidade do destino.

As definições de Aristóteles podem parecer ultrapassadas nos dias de hoje, quando a arte já não tem sempre um dever mimético e se considera, desde Nietzsche, independente da moralidade. Mas, na idade onde a história se escreve em tweets, onde jornalistas viraram ideólogos e youtubers, é reconfortante lembrar do velho filósofo e saber que, pelo menos na poesia, há verdades que permanecem inalteradas.

Gabriel Nocchi Macedo é doutor em Línguas e Literaturas Clássicas pela Universidade de Liège (Bélgica) e leciona atualmente na Universidade do Michigan.

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[1] Poiein, do qual derivam “poesia”, “poeta”, etc., significa “fazer, criar”. Literalmente, Aristóteles refere-se a poetas elegíacos e épicos como “fazedores de elegia” e “fazedores de épica”.

[2] O ditirambo e o nomos são odes líricas entoada por um coral, o primeiro em homenagem a Dionísios, o segundo a Apolo. As tragédias e comédias gregas, compostas eram inteiramente em verso, compunham-se de partes faladas e de partes cantadas com acompanhamento musical.

 

 

 

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"Verdade e Poesia"

"Prá não dizer que não falei de flores" --- Geraldo Vandre, música.

Nassif: em tempos de traições e ladroagens, excelente artigo, para amenizar um pouco as amarguras dessa imundice patrocinada por nossos atuais governantes e legisladores, amparados por um judiciário composto, na maioria, de julgadores escrotos. O artigo do Professor Gabriel, nesta etapa escura do nosso País, é como um gole de agua fresca num deserto de homens, idéias e ideais.

Porém, o artigo em si, não me parece trazer resposta ao cerne da questão --- “O que diferencia prosa e poesia”. Ou faz parte de um texto maior, ou haveria de ser complementado por outros artigos, versando sobre o tema. Até porque, a prosa também é "expressão de sentimentos" e, como na poesia, "conta uma história". Mesmo de forma diferente a prosa também tem seu "ritmo". O que você diz?

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Ivan de Union

"Até porque, a prosa também é

"Até porque, a prosa também é "expressão de sentimentos" e, como na poesia, "conta uma história". Mesmo de forma diferente a prosa também tem seu "ritmo":

Errado.  Prosa tem necessidade de expressao de necessidades, nao de sentimentos, ate no nome:  prosa, conversa entre duas ou mais pessoas.  E voce nao "expressa sentimentos" em uma prosa, voce expressa necessidades.  (extou excluindo conversa de bar, nao conta, dessa definicao)

Errado de novo:  poesia nao "conta uma historia" nem precisa.  Tangencialmente, o "conta uma historia" eh incidental na poesia em geral, e absolutamente obrigatorio eh Chico Buarque, que eh fenomeno aa parte;  pra mim poesia eh so ritmo e rima, o significado das palavras nem me interessa:  uns meses atraz coloquei uma musica em video aqui que era um barato, sem notar a letra, so tava prestando atencao no cuidado com ritmo e rimas, tava tudo la;  acontece que a musica que eu postei era sobre um homem chupar outro homem, e eu realmente nao notei, eu NAO traduzo isso;  me desculpei mais tarde mas o estrago ja estava feito.

Errado de novo.  Prosa tem ritmos diferentes em linguas diferentes, que nao sao necessariamente inteligiveis para "outros".  Ja tentou comparar as diferencas entre as phoneticas de Joe Browm e Judith Sheindlin, por exemplo?  Ah, sim, eles prosam.  Ambos prosam.  Excelentemente, eximiamente.  Mas os ritmos sao mutualmente exclusivos.  Um nao tem nada a ver com o outro.

Seu voto: Nenhum

Uma experiência mediúnica

A propósito, anoto a minha experiência mediúnica: estava no banheiro, entre outras coisas num esforço hercúleo de juntar um e outro verso para compor um sambinha. Nada pretensioso.

Apesar do resultado medíocre o esforço era realmente sobre-humano. Talvez por isso mesmo é que aconteceu o sucedido – aparece-me ali, naquele lugar mesmo, o espírito do próprio Aristóteles, compadecido do meu empenho.

E na sua generosidade de grande alma ele me traz as suas definições ou utilidades da poesia: diz ele que ela tem três funções, ritmica, intelectual e sensorial.

A primeiro vem da sua métrica, pois com ela se cria o ritmo no qual a alma dança; e dançando ela se eleva e fica mais apta a apanhar as verdades mais sutis.

A segunda vem das lacunas, da sua própria subjetividade, que dizendo sem dizer estimula a alma a encontrar as suas próprias verdades, ao contrário da ciência que nos conduz o pensamento apontando as suas próprias ideias.

A terceira, como a anterior, se vale das mesmas lacunas poéticas, da sua subjetividade para fazer a alma ver a beleza que ele invoca, mas que existe em si mesma. Assim como a lagerie, que mostrando sem mostrar nos incita a ver o belo ideal que imaginamos a partir do que existe em nós mesmos.
E assim como veio, se foi.

E embevecido eu termino o meu sambinha tosco, faço o que tenho de fazer e aperto o botão.

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Roberto Monteiror

Da métrica à tréplica

somos poesia em forma viva

em contagem regressiva

de uma rima pobre

que ficou miserável.

E o culpado é o temer.

P.S.: não bebi, apenas quis escrever bobagem, inspirado nos filósofos, o que gostava e o que não gostava dos poetas. Sorte deles não terem conhecido o temer e seus versos temerosos.

Seu voto: Nenhum (2 votos)
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Ivan de Union

Muito bom!  Adorei!

Muito bom!  Adorei!

Seu voto: Nenhum
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Roberto Monteiror

Obrigado, Ivan.

Eu acompanho as tuas participações por aqui há tempos. E acredito em quase tudo que escreves. Inclusive quando acusas o puteiro de te espionar. Abraço.

Seu voto: Nenhum

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