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O centenário da morte de Augusto dos Anjos

Augusto dos Anjos (20/04/1884 — 12/11/1914)

 

Othon Bastos interpreta "Poema Negro"

Para iludir minha desgraça, estudo. 
Intimamente sei que não me iludo.
Para onde vou (o mundo inteiro o nota) 
Nos meus olhares fúnebres, carrego 
A indiferença estúpida de um cego 
E o ar indolente de um chinês idiota!

A passagem dos séculos me assombra. 
Para onde irá correndo minha sombra 
Nesse cavalo de eletricidade?! 
Caminho, e a mim pergunto, na vertigem: 
— Quem sou? Para onde vou? Qual minha origem? 
E parece-me um sonho a realidade.

Eu sou Augusto de Carvalho Rodrigues dos Anjos  e nasci na Paraíba, na cidade de Cruz do Espírito Santo a 20 de abril de 1884. No próximo dia 12 de novembro, completam-se cem anos da minha morte . Fui um poeta brasileiro, tratado por muitos como simbolista e até parnasiano. Outros, depois da minha morte, chamaram-me pré-modernista, por identificar nos meus poemas características expressionistas. Desconheço o significado da palavra modernista. Quando morri, em 1914, ninguém era modernista, muito menos pré-modernista.

Depois de morto, fiquei conhecido como um dos poetas mais críticos do meu tempo, e parece que até hoje, minha obra é admirada tanto por leigos como por críticos literários.

Um conterrâneo meu, o médico paraibano Humberto Nóbrega, se ocupou de contar a minha vida através do livro  A poética carnavalizada de Augusto dos Anjos, uma das críticas mais relevantes às contribuições à investigação científica sobre o meu único livro EU por meio de sua obra de longo fôlego , publicada em 1962, pela editora da primeira Universidade Federal do meu estado, a Paraíba, na qual o dr Humberto Nóbrega foi também Reitor.

Nasci no Engenho Pau d'Arco, atual município de Sapé, como disse antes, na Paraíba. Recebi minhas primeiras letras de meu pai e estudei depois no Liceu Paraibano, onde depois fui  professor em 1908. Fui, sem falsa modéstia, precoce como poeta, já aos sete anos compunha versos.

 

Othon Bastos interpreta "O Morcego"

Meia-noite. Ao meu quarto me recolho.
Meu Deus! E este morcego! E, agora, vede:
Na bruta ardência orgânica da sede,
Morde-me a goela ígneo e escaldante molho.

"Vou mandar levantar outra parede..."
- Digo. Ergo-me a tremer. Fecho o ferrolho
E olho o teto. E vejo-o ainda, igual a um olho,
Circularmente sobre a minha rede!

Pego de um pau. Esforços faço. Chego
A tocá-lo. Minh'alma se concentra.
Que ventre produziu tão feio parto?!

A Consciência Humana é este morcego!
Por mais que a gente faça, á noite, ele entra
Imperceptivelmente em nosso quarto!

 

Em 1903, entrei para o curso de Direito na Faculdade de Direito do Recife. onde me bacharelei em 1907. Casei-me em 1910 com minha querida Ester Fialho. Minhas leituras tiveram decisiva  influência na minha poesia e no modo como passei a ver o mundo.

Com a obra de Herber Spencer, aprendi a incapacidade de se conhecer a essência das coisas e compreendi a evolução da natureza e da humanidade. De Ernest Haeckel, absorvi o conceito da monera como princípio da vida, e de que a morte e a vida são um puro fato químico. Arthur Schopenhaur me inspirou a perceber que o aniquilamento da vontade própria seria a única saída para o ser humano. Eu me identifiquei sempre muito com o teatro e fui leitor de Shakespeare que me inspirou peças como o meu poema "Monólogo de uma sombra". Minha poesia é cheia de vozes e monólogos graças ao Bardo de Stratford Upon Avon.E, como nunca reneguei minha essência espiritualista, usei da Bíblia para contrapor, de forma poeticamente agressiva, os pensamentos remanescentes, principalmente os ideais iluministas e materialistas que emergiam na minha época.

 

Othon Bastos interpreta "Versos íntimos"

 

Vês! Ninguém assistiu ao formidável
Enterro de tua última quimera.
Somente a Ingratidão - esta pantera -
Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te à lama que te espera!
O Homem, que, nesta terra miserável,
Mora, entre feras, sente inevitável
Necessidade de também ser fera.

Toma um fósforo. Acende teu cigarro!
O beijo, amigo, é a véspera do escarro,
A mão que afaga é a mesma que apedreja.

Se a alguém causa inda pena a tua chaga,
Apedreja essa mão vil que te afaga,
Escarra nessa boca que te beija!

 

Essa filosofia, fora do contexto europeu em que nascera, para mim, seria a demonstração da realidade que eu via ao meu redor, com a crise de um modo de produção pré-materialista, proprietários falindo e ex-escravos na miséria. O mundo para mim, então, seria  repleto dessa tragédia, cada ser vivenciando-a no nascimento e na morte.

Dediquei-me ao magistério, transferindo-me para o Rio de Janeiro, onde fui professor em aulas particulares e em vários estabelecimentos de ensino. Lecionei português, francês, inglês, grego e latim. Faleci a 12 de novembro de 1914 às 4 horas da madrugada, aos 30 anos, em Leopoldina, em Minas Gerais,, onde era diretor de um grupo escolar. Morri de pneumonia, contraída depois de uma chuva que encharcou-me durante uma festa de casamento. Na casa em que residi durante seus últimos meses de minha vida funciona hoje um Museu, o Espaço dos Anjos.

 

Othon Bastos interpreta "Vandalismo"

 

Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.

Na ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas
Cintilações de lâmpadas suspensas
E as ametistas e os florões e as pratas.

Como os velhos Templários medievais
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos...

E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!

 

Durante minha vida, publiquei vários poemas em jornais, o primeiro, Saudade, em 1900. Em 1912, publiquei meu único livro de poemas, Eu. Após minha morte, meu amigo Órris Soares, organizou uma edição chamada Eu e Outras Poesias, incluindo poemas que eu ainda não publicara em vida.

 

Othon Bastos interpreta "Psicologia de um vencido"

 

O soneto "Psicologia de um vencido" na edição do livro "Eu", de 1912,

o único publicado em vida de Augusto dos Anjos

Acervo da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin

 

A capa do livro "Eu", de 1912, o único publicado em vida de Augusto dos Anjos

Acervo da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin

 

 

Programa sobre Augusto dos Anjos produzido pela TV Senado

(infelizmente a parte 1 não está mais disponível)

Augusto dos Anjos (Eu estranho personagem) 

Parte 2 

Parte 3

Parte 4

Parte 5

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Fontes:

 

  1. Augusto dos Anjos UOL - Educação. Visitado em 19 de setembro de 2012.
  2. ↑ Ir para:VASCONCELOS, Montgomery José de. A poética carnavalizada de Augusto dos Anjos. 1ª ed., São Paulo, Annablume, Selo Universidade 28, 1996.
  3. Ir para cima↑ ANJOS, Augusto dos [1884-1914]. EU. 1ª ed., custeada pelo poeta e seu irmão Odilon dos Anjos, Rio de Janeiro [s.c.p.] 1914.
  4. Ir para cima↑ NÓBREGA, Humberto. Augusto dos Anjos e sua época. João Pessoa, Edição da Universidade da Paraíba, 1962.
  5. TV Senado
  6. Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin
  7. Augusto dos Anjos - Eu e os  Anjos - depoimento do poeta Ferreira Gullar
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5 comentários

Comentários

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obrigada.

e pude ver o livro "Eu", na biblioteca do Instituto Cultural Uruguayo-Brasilero, em Montevideo; é um livro enorme. Tirei uma foto. 

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Que beleza Maira, um

Que beleza Maira, um privilégio.

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imagem de altamiro souza
altamiro souza

o medo cósmico da vidas, o

o medo cósmico da vidas,

o horror cósmico da vida,

ousada denúncia: o egocentrismo decrépito do

coronelismo (agora verme eletronico)?

o corpo  putrefato em busca da

ciencia e da palavra poéticas.

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Arnaldo Antunes musicou

Arnaldo Antunes musicou "Budismo moderno", de Augusto dos Anjos, o poeta da morte de papel.

 

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Arnaldo fez uma bela leitura do poema

Muito bem lembrado Jair. A versão do Arnaldo é muito boa, uma bela leitura do poema do Augusto.

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