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Como é o Brasil da sua Venezuela?, por Guilherme Scalzilli

Como é o Brasil da sua Venezuela?

por Guilherme Scalzilli

Nosso entendimento da crise venezuelana é prejudicado pela qualidade da mediação informacional disponível. De um lado, temos o reducionismo sensacionalista das agências e dos grandes veículos. De outro, um microcosmo subjetivo de testemunhos e opiniões selecionados segundo critérios de variadas conveniências.

Ninguém sabe direito o que se passa na Venezuela. Nem a tal “mídia progressista” estrangeira, a julgar por suas fontes. De qualquer forma, não precisamos de intérpretes para notar que a narrativa da ditadura ilegítima e consensualmente odiada é tão frágil e questionável quanto a narrativa do levante imperialista contra os heróis bolivarianos.

Falto de base empírica, o debate sobre o assunto virou um mosaico de respostas a polêmicas da atualidade brasileira, projetadas para o universo vizinho. Na esfera antipetista, a vilanização caricatural de Nicolás Maduro tem óbvias referências locais. Também o repúdio intempestivo à Assembleia Constituinte, um fantasma que ronda o reformismo hipócrita da direita verde-amarela.

Mas nem tudo prima pela coerência nesse jogo de projeções. Boa parte dos argumentos negativos usados contra Maduro poderia servir para a desqualificação de Michel Temer, da Lava Jato, do impeachment e até dos governos estaduais tucanos. Ideias que no Brasil seriam estigmatizadas como “petralhas” ganham status civilizado ao tratar da Venezuela.

Segundo os democratas conterrâneos, ditadores abocanham o poder manipulando normas constitucionais. Enviam polícias e mascarados para reprimir manifestantes. Compram apoio da mídia com publicidade estatal. Destroem adversários através de arbítrios judiciais. Aparelham as cortes e aliciam magistrados. Subornam congressistas.

Soa familiar?

Sintomaticamente, a maioria dos ataques apaixonados à ditadura venezuelana vem de pessoas que jamais qualificam o impeachment brasileiro como golpe parlamentar. São intolerantes com “bandidos de estimação”, fãs de juízes e procuradores ativistas, inimigos de acordos de governabilidade, incrédulos quanto ao sistema representativo no país.

Sim, os contextos (sempre) são diferentes, mas aqui o álibi perspectivista vale pouco. Não interessa o conflito de posicionamentos. A questão é baseá-los em conceitos volúveis, que se transmutam ao sabor das conclusões desejadas: a identidade do réu definindo a essência criminosa do ato. O exemplo jurídico, tão atual e assustador, mostra a força deletéria da esquizofrenia “pós-verdadeira”.

Quem usa sentidos diversos de “golpe” e “democracia” ao tratar de Brasil e Venezuela fala sobre qualquer coisa, menos de golpe e democracia. Fala muito, certamente, de si mesmo. Essa revelação involuntária, se não ajuda a compreender a crise alheia, fornece pistas interessantes sobre as nossas próprias vicissitudes.

 

http://guilhermescalzilli.blogspot.com.br/2017/08/como-e-o-brasil-da-sua-venezuela.html

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Adolfo Silva Rego

Questão venezuelana

Um paradoxo é suficiente para deslegitimar quem ataca a "ditadura venezuelana", seus "presos políticos" e a "violação  de direitos humanos" (esta, reconhecida pela ONU). Existe outro exemplo de regime ditatorial ou que persegue adversários em que se concede aos presos políticos a concessão de prisão domiciliar? Algum idiota da objetividade, diria Nelson Rodrigues, pode questionar que o objetivo do regime seria apenas inviabilizar eleitoralmente esses  opositores ("presos políticos"). Falso: a oposição venezuelana foi sistematicamente derrotada nas urnas e o maior adversário do chavismo, Capriles, está  solto e, apesar de ter participado ativamente do  golpe de Estado em 2002, foi absolvido em 2006 (apesar de o processo, ao que parece, ter sido reaberto em 2008, o político em questão responde em liberdade, é o atual governador do estado de Miranda e não está impedido de disputar as próximas eleições presidenciais). Alguém concebe uma ditadura que permite isso?

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bonobo de oliveira, severino

Não é de estranhar.

Não deveria nos surpreender a evidente contradição presente na crítica feroz que os caras fazem contra o atribuído uso abusivo do poder na Venezuela, denunciado pela mídia nativa, considerando o fato de que são golpistas e apoiaram e apoiam o uso abusivo do poder de Estado escancaradamente dirigido contra inimigos políticos, ao arrepio das leis e da Constituição Federal. Porque os dois baluartes da luta pelo controle das instituições e da legalidade, que deveriam oferecer referência para a compreensão da choldra popular, habitante das classes médias, sobre as realidades que a cerca, estão associados em forma de quadrilha, o judiciario e a rede de comunicação coordenada pela Globo/Mossack-Fonseca, para o cometimento das mais variadas formas de atos criminosos. Assim nem o observador mais atento poderá em algum momento não conseguir entender mais nada. Porque a única autoridade coerente que temos nos dias de hoje é o Gilmar Mendes.

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