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O que as ruas nos dizem

É justificada a ironia dos críticos da Lava Jato diante do fracasso das passeatas promovidas pelo fã-clube de Sérgio Moro. Mas convém não desvirtuar o vínculo das recentes manifestações com as hordas golpistas que desfilaram no ano passado.

A baixa adesão atual está longe de significar que o apoio aos justiceiros arrefeceu. Ela mostra, pelo contrário, que os protestos de outrora é que não serviam como demonstrações de respaldo à causa anticorrupção. Em outras palavras, às mobilizações faltava o ímpeto civilizatório e moralizante que seus apologistas usaram para justificá-las.

As comparações são eloquentes: bastou o evento perder o viés ideológico e as plateias sumiram. Saciada a compulsão de tirar o PT do poder e abandonada a ideia saneadora do impeachment, a turma da camiseta amarela voltou a seus lazeres dominicais. Talvez não esteja mais indignada. Ou talvez a retórica judicial seja incapaz de seduzi-la.

Isso diz muito sobre o caráter decorativo que as festejadas “ruas” tiveram no golpe. Fossem elas de fato relevantes, o STF e o Congresso Nacional estariam agora se mexendo para conter as reformas ilegítimas de Michel Temer e até acertando a sua deposição. Com auxílio da mídia corporativa, que há pouco se dizia reverente à vontade popular.

Nunca houve o fator “povo” nas aritméticas do golpe e da Lava Jato. Os parlamentares teriam aprovado o impeachment mesmo sem esse pretexto conveniente, como hoje o ignoram para lesar os trabalhadores. E não é porque Lula desfruta de imensa aprovação que o Judiciário deixará de persegui-lo sob o delírio de corresponder ao interesse público.

A desimportância efetiva das ruas não mudou. Tampouco a sua manipulação por setores que pretendem representar uma entidade fantasmagórica inapreensível fora do exercício do voto. Foi esse instrumento, aliás, que o golpe veio anular, em nome das grandes massas que elegeram o governo deposto.

A novidade reside no que as ruas evidenciam para além de apropriações oportunistas, tanto no vigor das passeatas de esquerda quanto no esvaziamento das de direita. E essa questão continua tendo menos importância no aspecto representativo do que num retrato ideológico da Cruzada Anticorrupção e das arbitrariedades cometidas em seu nome.

Mas não podemos subestimar a perspicácia da brava massa de manobra golpista. Sua indiferença pelo destino da base de apoio a Michel Temer equivale a um diagnóstico muito preciso dos ânimos da cúpula judiciária em relação aos mesmos personagens. Entre os motivos para o abandono da pauta moralista vigora uma incredulidade que ninguém se esforçará para contradizer.

 

http://guilhermescalzilli.blogspot.com.br/2017/04/o-que-as-ruas-nos-dizem.html

 

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