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A Virgínia é para os que amam?, por Hélio J. Rocha Pinto

O slogan turístico do estado afirma que a "Virginia is for lovers" (Virgínia é para os que amam). Neste fim de semana, descobrimos que a Virgínia também acolhe alguns que odeiam. (Estátua de Robert Edward Lee, por Cville Dog, fonte: wikimedia)

A Virgínia é para os que amam?

por Hélio J. Rocha Pinto

O estopim foi a proposta de retirada da estátua do General Lee, que se ergue altaneira no centro do Lee Park, área central de Charlottesville. O ato Unite the Right, convocado por grupos de extrema direita, levou centenas de manifestantes e contramanifestantes às ruas dessa pacata cidade universitária. O confronto levou a três mortes: um contramanifestante atropelado por um supremacista, e dois policiais que morreram na queda de um helicóptero, além de uma dúzia de feridos.

Alguns leitores brasileiros podem ter ficado com a impressão de que Charlottesville é um antro de nazistas. A realidade é muito mais complexa.

Morei em Charlottesville por três anos, enquanto realizava pós-doutorado na Universidade de Virgínia. Charlottesville é uma ilha progressista, vizinha de alguns condados majoritariamente republicanos. A universidade é o principal empregador da cidade, e domina vários aspectos da vida social dali: os estudantes, professores, pesquisadores e empregados compõem cerca de 51 mil dos 150 mil habitantes da cidade e do condado de Albemarle, que a cerca. Desde 2006, mais de 77% dos votos dos habitantes de Charlottesville são destinados ao candidato democrata nas eleições presidenciais. Mesmo no condado de Albemarle, mais conservador, o candidato democrata tem vencido as eleições presidenciais desde 2004 (com votação em torno de 52%).

É uma cidade pequena e muito charmosa, caracterizada por uma arquitetura peculiar, inspirada por Thomas Jefferson, terceiro presidente dos EUA, que foi o morador mais ilustre da região. A própria Universidade de Virgínia é criação de Jefferson, que a ela se dedicou inteiramente em seus últimos anos de vida. Frequentemente Charlottesville aparece no topo de índices de qualidade de vida de cidades da América do Norte, bem como sua universidade figura há decadas na lista das 3 melhores universidades públicas dos EUA.

Como uma cidade com essas características se viu no centro de um conflito que ameaça se espalhar pelos EUA?

Justamente por sua importância histórica, Charlottesville abriga essas duas visões conflituosas dos EUA. O progressismo da Academia choca-se com o suposto glamour dos marcos turísticos e históricos que evocam a Guerra Civil, presentes por toda parte, pois a Virgínia foi palco de vários combates sangrentos entre o Norte e o Sul. Há um apelo enorme nos condados vizinhos pelos valores do passado --- sua "heritage", como costumam dizer. Um problema difícil de equacionar é quando essa heritage é aceita irrefletidamente, tomada como enobrecida tão somente pelo acúmulo do tempo, já que se sustenta num passado escravocrata.

Não é apenas a estátua de Lee que figura no centro de Charlottesville. Há também a estátua de um soldado confederado diante do City Council, bem como outra estátua equestre do General “Stonewall” Jackson noutro ponto central. Charlottesville também ostenta um grande monumento aos exploradores Clark e Lewis, que iniciaram a conquista do Oeste, o que levará nas décadas seguinte ao assassinato e subjugo de povos nativos. Além dos diversos monumentos ou referências à Thomas Jefferson, lá mesmo tomado como grande iluminista e ainda hoje ícone dos americanos que nutrem amor às artes e à Ciência.

Embora a grande maioria dos participantes da marcha Unite the Right não fossem moradores de Charlottesville ou de Albemarle, sua presença em Charlottesville não poderia ser mais emblemática desse país dividido entre valores do passado e as luzes do conhecimento racional, o qual deveria ser capaz de esclarecer os passos em falso da humanidade na História e os enganos da psique humana, mas vem sendo cada vez mais vista como mistificadora por loucos adeptos de conspirações mais motivados pela cegueira ideológica do que pela dúvida honesta. Pois como podemos entender a bizarra irracionalidade dos que propalaram a aproximação do inexistente Nibiru em 2012, e dos que preferem a anticiência da Terra Plana e da Conspiração da Ida à Lua?

A realidade é tão complexa que foi justamente ao lado da estátua de Lee, no Lee Park, que se organizou em 2003 um ruidoso protesto contra a Guerra ao Iraque; um dos muitos de que participei lá. A estátua fica ao lado da biblioteca municipal, um imponente edifício aberto diariamente (de domingo a domingo!) que nos convida ao enriquecimento pessoal através do conhecimento. Creio que no Brasil não haja uma única biblioteca, pública ou privada, que esteja aberta a qualquer usuário de domingo a domingo...

Será mesmo possível retirar de Charlottesville todos esses símbolos e marcos de sua história sem falseá-la?

Eu sinceramente não tenho resposta. Mas sei que esse debate não se resume ao dia-a-dia duma charmosa e desconhecida cidade americana -- ele afeta a todos nós. Nossas cidades também ostentam feitos ou homenagens não apenas de ditadores, mas também de escravocratas e indivíduos de passado não muito louvável. Há movimentos oportunos para mudança de nomes de vias e ruas que homenageiam figuras da ditadura militar. Embora em número muito menor, temos alguns monumentos a heróis que lutaram a favor do povo e que também certamente são/serão alvo de retaliação dos grupos de direita. Há poucos dias mesmo a imprensa noticiou a retirada unilateral de busto de Lamarca por um secretário de Alckmin.

Alguma vez estaremos prontos para esse debate sobre o que merece continuar exposto como memória do passado, ainda que anotado com ressalvas no próprio monumento? Ou o passado sombrio continuará sempre ali ao lado, tal como a estátua de Lee ao lado da Biblioteca Municipal de Charlottesville, servindo de ímã ao ódio?

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11 comentários

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Seria bom se o fascismo dos

Seria bom se o fascismo dos EUA se resumisse a esse acontecimento ou a essa cidadezinha.

De qualquer forma, Virgínia for lovers é apenas um slogan publicitário. Como o resto dos EUA, a propósito.

De que adianta a cidade ter a aparência bonitinha e peculiar se é parte de uma federação que há duzentos anos bota terror nos outros povos e países do mundo todo? De que adianta ter a melhor academia de sei-lá que estatística se é de lá que saem as menos civilizadas hostes de domínio pelo poder bélico e econômico, remanescências de um tempo em que havia bárbaros pelo mundo todo? Nenhum outro país do mundo pratica mais invasões e barbáries institucioinais, marcos civilizatórios têm sido adotados ao longo dos anos.

Tanto a aparência de Charlotesville quanto a da sua academia poderiam aliciar e enganar. Mas a verdade é bem outra. Experimente perguntar aos cidadãos e acadêmicos "progressistas" dessa cidade se estariam dispostos a abrir mão de seus privilégios e belezas em troca de que os EUA deixassem de ser um estado terrorista e fascista... Quanto do terror que os EUA impõem ao mundo reverte em belezas internas naquele país estrangeiro? Sem o sangue dos povos de outros países Charlotesville seria tão "cute"?

Sabemos abrir mão de admirar poderosos dominadores mesmo quando somos nós que estamos sob domínio? Claro que os senhores são sempre mais bem vestidos que aqueles a quem escravizam. Por quanto tempo e a que custo admiramos belezas dos que nos sabotam, espionam, prejudicam e corrompem nosso próprio país?

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Antonio C.

Decepcionante.

Pensei que fosse um exercício histórico mais apurado, mas, no fundo, parece-se com a atividade de um flâneur.

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Colega, não sou historiador.

Colega, não sou historiador. É apenas um relato de ex-morador, uma faceta a mais dum caleidoscópio de opiniões misturadas a fatos.

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adolpho

Em minha modesta opinião, o

Em minha modesta opinião, o passado  com seus marcos, ícones, contextos e conhecimento de então deve ser respeitado e revisitado para que possamos fazer a devida ponte como presente. Houve uma guerra de secessão, um embate entre duas visões de mundo: uma conservadora e outra progressita, coisa que simbolicamente fazemos o tempo todo. Hoje em dia, por exemplo, há um embate claro entre modos de vida que estão se alterando devido à tecnologia: um exemplo  é o que acontece entre taxistas e uberistas.

Os estados do sul se apoiavam numa economia escravocrata, conservadora, repleta de valores que faziam sentido para aquele povo; os estados do norte eram a modernidade, a revolução industrial, o novo, a necessidade de consumo. O General Lee, mesmo para a União, é um herói confederado e assim é encarado. Triste do povo que não respeita seu passado... 

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Paulo F.

Uma estátua, um passado.

A estátua do General Lee, representa para muitos a tradição cavalheiresca do sul estadunidense. Foi figura de proa do movimento Lost Cause (https://pt.wikipedia.org/wiki/Lost_Cause). Robert Lee era um homem culto e após o fim da Guerra Civil foi  reitor da Universidade Washington da Virgínia e renovou seu juramento de lealdade aos Estados Unidos da América.

Não discuto se os munumentos devam ser  retirados. Vai-se retirar da História estadunidense Jefferson, aquele que sabemos que foi proprietário de 180 escravos? Nunca!

Porém para a construção de um futuro mais equilibrado deve-se ensinar , com olhar crítico sobre o passado e como devemos corrigir os desvios da Humanidade.

E caso pensem que o repúdio a insanidade que é a escravidão é consenso , basta ler artigos como http://www.mises.org.br/Article.aspx?id=681, e ver que o Mal se infiltra sorrateiramente e que deve sim a sociedade ser vigilante.

 

 

 

 

 

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Araçá

"Há poucos dias mesmo a imprensa noticiou a retirada unilateral de busto de Lamarca por um secretário de Alckmin."

Como escreveu o jornalista Paulo Henrique Amorim, São Paulo é a única capital do paísna qual  existe uma avenida  chamada nove de julho.

Por lá também pode-se transitar  por  uma  "jornalista roberto marinho".

Os panacas "quatrocentões"  realmente não suportam "perder a pôse".

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Apesar do grande André Araújo

Apesar do grande André Araújo chiar, o que o comentarista Gersier quis ressaltar é o caráter conservador de São Paulo.

O André se pegou ao fato da data histórica, de que cada estado deve preservar suas datas, mas é mais do que isso. Vejamos os nomes de ruas, rodovias e monumentos presentes em São Paulo: 

- Elevado Costa e Silva (ditador do período mais sangrento da ditadura);

- Avenidas e Rodovia Presidente Castelo Branco (general do golpe de 1964);

- Avenida Presidente Médici em Osasco (outro ditador do período negro da ditadura);

- Rodovia dos Bandeirantes e Rodovia Anhanguera (toda vez que ouço esses nomes me vem à mente o genocídio indígena;

- Avenida Carlos Lacerda em Campo Limpo (para lembrar do "corvo" direitista insuflador de golpes);

- A Ponte Jânio Quadros, antiga Ponte da Vila Maria (para lembrar aquele que quis fechar o Congresso, um dos responsáveis por cairmos em um período de 21 anos de ditadura militar).

Monumentos (avenidas, rodovias, museu, etc) em memória de Getúlio Vargas, o Presidente que alavancou a industrialização e fez o país sair da época agrária - zero.

Confesso também que não me lembro de nada em nome de João Goulart.

 

 

 

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Orlando Soares Varêda

De fato Gersier,

De fato Gersier, originalmente denominada Avenida Água Espraiada, cujo puxa-saquismo daquela senhora do PT que, posteriormente o traiu descaradamente.

Pois muito bem, naquela oportunidade, para bujular o mafioso proprietário da rede bobo de trapaças & tramoias SA, a prefeita traíra marta, troca a original e bela denominação: Água Espraida e põe no lugar esse lixo: Avenida jornalista roberto marinho.

Orlando 

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São Paulo tem Avenida 9 de

São Paulo tem Avenida 9 de Julho pela razão de que se  trata de uma data historica para São Paulo , assim como na Bahia

existem ruas e praças Dois de Julho porque é uma data historica da Bahia e no Rio Grande do Sul existem praças e avenidas

com o nome de Farroupilha porque é uma comemoração gaucha.

Cada cidade, Estado e região registram em suas vias e monumentos nomes e expressões que dizem respeito à historia de cada lugar, qual a estranheza nisso?

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Roberto Monteiro

Pois é, André.

Aqui no RS temos avenida, rua, praça, largo, estreito Farroupilha. Temos avenida, rua, praça, largo, estreito República Rio Grandense. Temos avenida, rua, praça, largo, estreito 20 de setembro. E temos também avenida, rua, praça, largo, estreito Osvaldo Aranha. Além de avenida, rua, praça, largo, estreito Getúlio Vargas. Sem contar os ícones da ditadura militar e tantos outros que na nossa visão progressista não mereceriam homenagem. Mas entendo que estão lá como fatos históricos, mesmo que eu não concorde. Pelo menos passo por algumas delas e avalio se estou desfilando por uma pessoa importante ou pisando firme em um ditador qualquer. É isso...

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adolpho

Pois é... muitos aqui se

Pois é... muitos aqui se horrizaram quando os talibâs derrubaram as esculturas dos budas ou quando os Estado Islâmico pôs abaixo minumentos em Palmira. O respeito ao passado, a meu ver, é fundamental à civlização. Deixem os monumentos em paz.! Contam nossa história, riquíssima em contradições e reafirmações do ser humano e sua saga.

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