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Ion de Andrade
Ion de Andrade

Dimensionando o retrocesso, o tempo e as forças em disputa, por Ion de Andrade

Foto: Reprodução

Recentemente assisti a um filme de Renato Tapajós de 2006 intitulado “Políticas de Saúde no Brasil: Um Século De Luta Pelo Direito à Saúde”.

O filme estabelece um paralelo entre a história do Brasil no século XX e a evolução dos diversos modelos assistenciais que atravessaram a nossa história. Os últimos fatos mostrados tocam à oitava Conferência Nacional de Saúde e à criação do SUS.

Interessante ter visto esse balanço histórico de um século, soldado por inúmeras vitórias populares, das quais o SUS é parte, à luz dos dias de hoje.

Obcecados pelo presente, como estamos hoje, e não sem razão, o filme retrospectivo me permitiu :

a) dimensionar o retrocesso atual à luz da história,  

b) dimensionar as forças em disputa ontem e hoje e

c) perceber, para além da tristeza e dores do momento que a luta social se desenrola em longos períodos de tempo e que as vitórias são a obra de um ator social que vence o tempo, que é maior que a singularidade dos indivíduos e que é transcendental.

A História ali retratada parece uma disputa entre entidades que desfrutam de uma longevidade maior: a burguesia e os seus lacaios e o povo em suas diversas expressões. As pessoas, em sua singularidade, nascem, vivem e morrem, lutam e conquistam vitórias de que muitas vezes sequer tomam consciência. Parecem atuar como atores de um Espírito maior que os organiza e ultrapassa.

Dimensionando o retrocesso atual à luz da história

No que toca ao primeiro ponto, o dimensionamento do retrocesso, o que o filme permite enxergar com clareza é algo que, embora saibamos de sobra, não nos revigora na crise atual, quando sofremos as dores das perdas para o povo produzidas pelo golpe, mas que é algo que urge ser percebido por nós, como um necessário diagnóstico do campo de batalha que foi o século XX: o retrocesso atual não nos devolve ao passado. Parece, aliás, muito mais tratar-se de um espasmo tardio contra conquistas sociais e civilizatórias alcançadas pelo povo em diversas áreas, e não só na saúde, e irreversivelmente sedimentadas ao longo do século XX.

Se considerarmos o país que éramos, recém saído da escravidão, quando a população negra, cuja liberdade significou o abandono à própria sorte, construía as primeiras favelas à volta das cidades, mergulhado na miséria mais profunda, assolado por epidemias e pela fome, com retirantes morrendo de sede nas veredas dos sertões e um analfabetismo praticamente universal no meio popular veremos que o grande esforço golpista de Michel Temer et caterva não fere, sequer profundamente, a primeira esfera dessa cebola que foi o século XX.

Desse primeiro ponto concluo, sob esse enfoque histórico de longo prazo, que o retrocesso atual, duro e doloroso é como um corte epidérmico de uma faca traiçoeira. O organismo é sólido, estamos de pé e retomaremos a iniciativa ancorada numa inércia secular construída em muito ampla frente de batalha.

Dimensionando as forças em disputa

No que toca ao ponto do dimensionamento das forças em disputa o que o filme permite perceber é que aquele protagonista social que éramos nós, desnutridos, doentes, desdentados, analfabetos, destroçados física e moralmente, mortos vivos a sobreviver, construiu com o seu sacrifício e gênio os avanços e conquistas sociais que conseguiram por exemplo, mas é ilustrativo, trazer a esperança de vida de 42 anos para os 74 de hoje.

Se com o que fomos, trouxemos aquele país monstruoso e desumano aos dias de hoje (onde continuamos a ser monstruosos e desumanos, mas menos que em 1910) o que pensar dos anos que se descortinam à nossa vista? Aquele povo, e por esforço próprio, tornou-se muito mais culto do que era, mais saudável, mais consciente, mais numeroso, converteu favelas em bairros populares, levou o samba da criminalidade à apoteose, consolidou leis de igualdade racial, conectou-se à internet e, sim, governado por um operário, galgou a sua primeira experiência de poder popular. Orgulhemo-nos, pois entre fezes e urina nascemos!

Concluo desse segundo ponto que se aquela classe senhorial e aristocrática não conseguiu nos deter quando tinha TODAS as condições a seu favor, muito menos nos deterá hoje. Se mesmo diante de tantas vicissitudes e fraquezas saímos do século XX como força vitoriosa, é que a força que detém a iniciativa histórica é o povo.

Dimensionando o tempo

Finalmente, quanto ao terceiro ponto, a questão do dimensionamento do tempo, percebemos na retrospectiva que um século é um round. Se vê também que o juiz da luta roubou por nosso adversário por cem anos e continua roubando e que todas as vezes em que íamos desequilibrar o jogo de forma mais decisiva para nós, as regras mudaram. Estranhamente crescemos.

Dois conceitos complementares de revolução atravessam os textos de diversos pensadores da esquerda contemporânea desde Marx. Um conceito exprime a ideia da revolução como ruptura e tomada do Poder e poderia ser ilustrada pela Revolução Russa ou pela Revolução Francesa. O outro conceito de Revolução também presente é aquele que exprime a ideia de uma metamorfose que se dá na capilaridade da vida social, quando os valores da classe fundamental que detém a iniciativa histórica vão se afirmando contra a correnteza, e cuja autoria só vem a poder ser atestada a posteriori pelo significado e alcance de dada transformação e não por sua autoria material. Os dois conceitos estão interconectados pelo fato de que a revolução capilar vai criando condições para que a mudança de orientação do Poder Político ocorra.

No round que começa, o do século XXI, o adversário nos desferiu um golpe traiçoeiro e estamos com o nariz sangrando. Não foi surpresa.

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