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Kaspar Hauser e o Professor

Queria chamar a tenção para uma breve cena do filme de Herzog /O Enigma de Kaspar Hauser/ (1975), que deveria estar sempre na mente de todo professor.  

O filme é baseado numa história real: um rapaz de 16 anos que apareceu em 1828 na praça de Nuremberg, com uma carta na mão. Segundo a carta e relatos posteriores do próprio rapaz, ele teria vivido desde bebê trancado numa cela pequena, sem contato com ninguém, e portanto ignorante do mundo e quase incapaz de falar.

Até hoje, a origem do rapaz, os motivos de seu tratamento, e mesmo a veracidade de sua história são ignorados.  Mas o filme não explora esses assuntos, e apenas relata (na interpretação do diretor) a adaptação de Kaspar ao mundo, depois que ele foi adotado por uma família local.

O episódio em questão (que reconto de memória, com minhas palavras) passa-se quando Kaspar já conseguia falar, como uma criança.  Chega para visitá-lo um professor de uma grande universidade. O professor explica aos pais adotivos que é o autor de uma teoria original e revolucionária, segundo a qual a lógica não é uma capacidade inata da mente humana, mas precisa ser aprendida, como linguagem, matemática, e outros campos do saber.  Pede então licença para interrogar Kaspar, para confirmar sua teroria.

Os pais consentem, e o professor então propõe a Kaspar o seguinte problema de lógica:

-- Imagine uma ilha na qual há duas aldeias, a aldeia A onde todos sempre dizem a verdade, e a aldeia B onde todos sempre mentem, dizem o contrário da verdade.  Agora imagine que você chega nessa ilha, e encontra pela frente um nativo.  Como faria você para descobrir, com uma única pergunta, se o nativo é da aldeia A ou da aldeia B?

-- Ora, (responde Kaspar), eu perguntaria `você é um sapo?'

-- Ahá! (exclama o professor, exultante, aos pais) Como vocês veem, o garoto não tem mesmo noção de lógica.  A solução logicamente correta seria perguntar ao nativo, `se eu lhe perguntasse se você é da aldeia A, você diria que sim?'  Dessa forma o nativo da aldeia B seria forçado a responder com uma negativa dupla, e portanto a dizer a verdade.

E com essa o professor vai embora, satisfeito e convencido de ter comprovado sua teoria.

Não é preciso dizer que a solução de Kaspar estava corretíssima; foi o professor quem errou ao enunciar esse clássico quebra-cabeças.  Na versão correta do problema, o visitante e o nativo estão numa bifurcação do caminho, onde cada trilha leva para uma das duas aldeias; e o visitante quer saber, fazendo uma única pergunta ao nativo, para que lado fica a aldeia A.  Com essa versão do enunciado, de fato a solução mais simples é usar a pergunta indireta, e a lógica da dupla negativa.  

Imagino então esse professor na sua universidade, usando essa versão errada do problema nas suas aulas lógica, talvez por dez ou vinte anos a fio, sem se dar conta do seu erro.  Vejo-o chamando de burro a qualquer aluno que der a mesma solução que Kaspar deu.  E vejo os alunos, já peritos na arte de passar nas provas, repetindo a solução do professor mesmo sabendo (ou sem querer saber) que é besteira.

Esse infelizmente parece ser um problema que acontece muito em nossas escolas. Talvez todo professor tenha algum dogma furado, que ensina durante toda sua vida sem perceber que está furado.

Quando o dogma é apenas um item dentre muitos, ainda é possível que o professor perceba o erro e se corrija.  Mas, nos casos mais graves, inteiras disciplinas, cursos, e áreas de pesquisa estão fundamentados em dogmas furados.  Tenho percebido que nesses casos é inútil tentar apontar os erros, pois o insitinto de sobrevivência do professor fala mais alto que qualquer ideal pedagógico, ou mesmo que a vergonha...


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