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A armadilha da liquidez no Brasil, segundo Nakano

A agenda para o novo governo | Valor Online

Yoshiaki Nakano |

A recente decisão do Federal Reserve (Fed, o banco central americano) de continuar injetando liquidez na economia global por meio da compra de títulos do Tesouro americano de longo prazo (QE2), reinvestindo os pagamentos do principal do QE1 (compra de ativos pelo Fed depois da falência do Lehman Brothers até início deste ano) e compra adicional de R$ 600 bilhões, resultarão numa monetização da dívida pública americana de US$ 900 bilhões. No entanto, não deverá reanimar a economia dos Estados Unidos, pois não há sinais de que os bancos aumentarão a oferta de crédito, nem que os consumidores e empresas estão dispostos a aumentar o seu endividamento, ao contrário, estão desalavancando.

O QE2 poderia provocar a elevação da expectativa de inflação no curto prazo, estimulando o consumo ou promovendo redução na taxa de juros de longo prazo, aliviando as famílias e as empresas endividadas, mas nenhum desses dois canais está funcionando neste momento. O QE2 tem tido efeito desestabilizador nas demais economias, com aumento de liquidez global traduzindo-se em valorização dos ativos financeiros e das commodities e, com aumento de fluxo de capitais, com depreciação do dólar e apreciação das moedas, particularmente nos países emergentes. QE2 é a segunda grande ofensiva da guerra cambial que os Estados Unidos iniciaram no ano passado. Escrevi dois artigos nesta coluna sobre guerra cambial há um ano quando os americanos iniciaram a primeira ofensiva. (ver Valor 20/10/09 e 15/12/09).

Depois de mais de um ano de iniciada a guerra cambial, está ficando clara a natureza de seus prejuízos. Trata-se de uma decisão unilateral dos Estados Unidos, valendo do seu "privilégio exorbitante" de emissor de moeda reserva, exportando desemprego para o resto do mundo e promovendo enorme transferência de riqueza, com a depreciação dos ativos em dólar em poder do resto do mundo. O Brasil, que sempre teve superávit comercial com os Estados Unidos, passou a ter déficit depois dessas ações. Com taxa de câmbio apreciada estamos exportando menos, portanto, produzindo menos e gerando menos emprego internamente; e estamos importando muito mais, isto é, estamos gerando produção de emprego nos Estados Unidos. O Brasil acumulou também reservas cambiais de mais de US$ 250 bilhões que, além dos elevados custos de juros, sofre perda em função da depreciação do dólar.

Aumento do valor e da abrangência do IOF e uma quarentena para entrada de capitais de acordo com permanência

Nessa situação, os países emergentes atacaram a decisão dos Estados Unidos e praticamente todos eles estão ampliando o controle sobre o fluxo de capitais e acumulando reservas cambiais cada vez maiores. O Brasil não poderá ficar de braços cruzados por mais que sejamos beneficiados pela valorização dos preços das commodities, pois o crescimento explosivo das importações vem causando efeitos dramáticos no setor manufatureiro, ampliando rapidamente o déficit em transações correntes do país. Mesmo setores exportadores de commodities, como o agrícola, estão sentindo os efeitos maléficos da apreciação cambial. Essa necessidade premente do governo brasileiro de conter nova onda de apreciação cambial traz de volta as grandes questões da nossa agenda de problemas que vinha sendo protelada pelo quadro favorável gerado pela forte expansão da demanda doméstica e aumento dos preços de commodities. O próximo governo terá que assumir, desde já, toda essa agenda de problemas.

Como medida emergencial, o governo não terá alternativa senão elevar novamente o IOF, que foi criado como um imposto de equalização dos juros, sobre a entrada de capitais e aumentar a sua abrangência. A eficácia dependerá da alíquota e da abrangência, as medidas, até agora, foram tímidas e, portanto, a sua eficácia limitada. Será necessária uma revisão na regulação do mercado futuro para coibir a especulação. Alternativamente à elevação do IOF, o governo poderá impor uma quarentena à entrada de capitais, de acordo com o seu prazo de permanência.

Mas essas são medidas transitórias que não resolverão os nossos problemas mais profundos e persistentes que menciono a seguir: 1) O juro é excessivamente elevado no Brasil e, sem reduzi-lo, a taxa de câmbio tenderá a se apreciar. Para reduzi-lo será preciso um ajuste e uma nova lei fiscal para conter os gastos correntes e criar um mercado de títulos de longo prazo (poupança) separando-o do mercado de moeda, eliminando todas as heranças do período de alta inflação; 2) Com credibilidade na área fiscal, o nível da taxa de juros do Banco Central e sua estrutura deverão ficar próximos ao nível internacional, já que os mercados financeiros estão integrados globalmente, com isso, o fluxo de capitais tenderá a um equilíbrio, trazendo estabilidade maior à taxa de câmbio e, as intervenções do governo, comprando reservas, terão o seu custo tendendo para zero; 3) Para o Brasil crescer de forma sustentada e acelerada por décadas é preciso que a taxa de investimento fique entre 25% e 30% do PIB.

Essa ampliação só será possível se houver diminuição relativa de algum outro item da demanda agregada e o candidato é o consumo do governo, que pode crescer em termos absolutos, mas a taxa menor do que o PIB e, com isso podemos ampliar a poupança e o investimento em relação ao PIB.

Yoshiaki Nakano, ex-secretário da Fazenda do governo Mário Covas (SP), professor e diretor da Escola de Economia de São Paulo - FGV/EESP, escreve mensalmente às terças-feiras.

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Uma singela observação.

Se o dólar se desvaloriza diante das demais moedas, o Real sofre menor valorização em relação ao euro, à libra, ao peso, etc.
Não há, portanto, significativa mudança em relação às moedas de outros parceiros comerciais, não prejudicando tanto assim as relações comerciais, à exceção das com os EUA, que representam hoje cerca de 20%. Na época do FHC era perto de 35%, aí seria problema.

 

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