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A ascensão dos negros

Por Assis Ribeiro

Rumo a um futuro mais igual

MAX MILIANO MELO, Correio Braziliense - 26/12/2012 

Aos poucos, a população afrodescendente conquista importantes espaços na sociedade brasileira e de outros países. Contudo, muitas distorções precisam ser superadas

Se alguém, por um motivo qualquer, tivesse passado os últimos 10 anos dormindo e acordasse no fim de 2012, certamente teria uma surpresa com o destaque dado a personalidades negras no país e no mundo. Essa pessoa veria o rosto de Barack Obama estampado na capa da revista Time, e descobriria que o homem de raízes africanas, eleito personalidade do ano pela publicação, comanda a mais poderosa nação do mundo. No Brasil, ela testemunharia os elogios frequentes feitos nas ruas e nas redes sociais a Joaquim Barbosa, e saberia que um afrodescendente preside hoje a mais alta Corte do país, o Superior Tribunal Federal (STF).

Mesmo que Obama e Barbosa possam ser considerados casos excepcionais, suas histórias estão conectadas a um movimento real — ainda que lento — de ascensão dos negros em vários países. Aos poucos, eles deixam de ser importantes apenas nas artes e nos esportes (áreas às quais pareciam limitados pelo preconceito social) e passam a influenciar os destinos da economia, da política e do pensamento mundial. Esse processo dá esperanças de que uma sociedade mais igualitária esteja se formando e, a curto prazo, tem um impacto direto na autoestima dessa população, que passa a não ter mais vergonha de assumir sua origem.

No Brasil, esse fenômeno é nítido. "Durante muito tempo, persistiu o absurdo de pessoas com a tez negra ou com os traços afros se declararem como brancas", afirma Nelson Inocêncio, coordenador do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (Neab), da Universidade de Brasília. "À medida que a situação social melhora, mais pessoas assumem sua identidade", completa. A fala de Inocêncio é amparada por dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No último censo, de 2010, pela primeira vez na história, o percentual de pessoas que se declararam de cor preta ou parda (50,7%) foi maior do que o de indivíduos que se consideravam brancos (47%).

O estudo Dinâmica demográfica da população negra brasileira, feito pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), aponta que esse fenômeno pode ser em parte explicado pela maior fecundidade das mulheres negras em relação às brancas. Contudo, ressalta a pesquisa, é fato que houve um aumento do número de pessoas que agora se declaram pardas e que antes preferiam dizer que eram brancas.

Desafios
Apesar dos avanços, ainda há um longo caminho a ser percorrido. Embora 75% das pessoas que ingressaram na classe média nos últimos anos sejam negras, segundo dados da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República, essa parcela da população ainda ganha menos, enfrenta maior desemprego e tem menor escolaridade. Ainda segundo o Censo 2010, os rendimentos mensais médios de brancos (R$ 1.538) e amarelos (R$ 1.574) são quase o dobro dos de pretos (R$ 834), pardos (R$ 845) e indígenas (R$ 735).

A realidade ainda desigual, reproduzida em maior ou menor escala em diversas outras nações, justifica a decisão das Nações Unidas de declarar os próximos 10 anos a Década das Pessoas com Ascendência Africana. Com a iniciativa, a ONU espera acelerar o processo de construção de uma sociedade mais igualitária e ajudar no reconhecimento internacional da importância do continente africano na constituição do mundo contemporâneo.

Para o antropólogo Milton Guran, pesquisador do Laboratório de História Oral e Imagem (Labhoi) da Universidade Federal Fluminense (UFF), a África vem tendo, aos poucos, esse destaque. "A presença da África no mundo, em todos os campos, será cada vez maior. O mundo ocidental não existiria sem a incomensurável contribuição dos africanos, tanto no campo econômico quanto nos planos espirituais e culturais", afirma. "O reconhecimento da África como protagonista maior da construção do mundo ocidental é um processo irreversível", completa o professor.

História
Assim, a visão eurocêntrica da história, ou seja, contada a partir do ponto de vista europeu, ganha contornos mais diversos, seja fora ou dentro do Brasil. "O país é tão negro quanto indígena e europeu. Como se diz à exaustão, é essa multiplicidade de raízes que faz a nossa força, a nossa singularidade como nação", afirma Guran. Essa diversidade vem deixando de ser um mero discurso para virar um instrumento de transformação social do Brasil. "Nas últimas décadas, temos assistido a um aumento progressivo da consciência e da ação reivindicatória dos afrodescendentes e dos povos indígenas, com um apoio cada vez mais amplo do conjunto da sociedade, apesar das resistências de setores mais conservadores."

Independentemente da cor da pele ou das origens de seus antepassados, reescrever a história do país e do mundo de maneira mais democrática é um processo que interessa a todos ."A reconstrução de uma memória coletiva — não só dos afrodescendentes diretos, mas de toda a nação — deve induzir toda a sociedade a reavaliar seus valores e preconceitos. Repensar a história da escravidão e das suas consequências é repensar toda a história do Brasil, nossa trajetória como nação", afirma Guran, que é o representante brasileiro no Comitê Científico Internacional do Projeto Rota do Escravo, da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). "Hoje, temos uma memória nacional que não se sustenta completamente por subdimensionar ou mesmo deixar de lado a força positiva da contribuição dos africanos e de seus descendentes para a construção do país e da nossa identidade nacional", completa.

Assim, não faz sentido valorizar tantos aspectos ricos da cultura brasileira, como a música, a dança, a culinária, a agricultura e a engenharia sem valorizar aqueles que contribuíram de maneira direta para o desenvolvimento dessas áreas. "Mesmo com toda a violência que foi a escravidão, é inegável que ela produziu uma troca sem precedentes entre os diversos povos envolvidos nesse processo", afirma Irina Bokova, diretora-geral da Unesco. "Assim, é preciso dar um lugar mais positivo e respeitoso para o continente africano."

O segundo
Barack Obama, que já havia sido escolhido a personalidade do ano pela Time quando foi eleito presidente dos Estados Unidos pela primeira vez, é a segunda pessoa negra a receber essa homenagem nos 86 anos da publicação. A outra foi o ativista americano Martin Luther King Jr., assassinado em 1968.

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porque chamar um brasileiro negro de afrodescendente se ele não é africano, nunca morou na africa e nem tem nenhuma relação em especial com a africa??? só pelo fato dele ser negro?? mas ninguem chama um branco de lusodescendente, francodescendente ou teutodescendente. logo o fato de alguem ser negro não faz dele um africano, ele pode ser negro e não lutar capoeira e ser cristão, da mesma forma que um branco pode lutar capoeira e ser de uma religião africana

 

Mas qualquer branco faz questão de salientar a sua origem européia, tipo, sou descendente  de Portugueses, sou descendente de Italianos, sou descendente de Alemães.

Porque não posso me declarar Afro-descendente? Afinal meus antepassados foram Africanos, talvez se eu soubesse poderia dizer, sou descendente de Ganeses... ou de Moçambicanos... ou de Egípcios!

A expressão "Afro-descendente" reafirma a minha origem e o meu orgulho, queira ou não queiram!

 

"Não existe testemunha tão terrível, nem acusador tão implacável quanto a consciência que mora no coração de cada homem." Políbio

A maioria da população de Salvador, oitenta  e nove por  cento, é de  afrodescendentes,  relação sanguínea  com  os  escravos  que vieram nos navios  negreiros.

Acho os termo  "afrodescendente" muito  esnobe, prefiro negro, preto, mulato, moreno. Todos da mesma origem,  e   não  acredito   em brasileiros  sem mestiçagem.

O tráfico negreiro viabilizou a escravidão na história do Brasil Colonial

 

 

 

 

 

A participação dos negros no Brasil Colonial aconteceu a partir do momento em que a experiência colonial portuguesa estabeleceu a necessidade de um grande número de trabalhadores para ocuparem, em princípio, as grandes fazendas produtoras de cana-de-açúcar. Tendo já realizada a exploração e dominação do litoral africano, os portugueses buscaram nos negros a mão de obra escrava para ocupar tais postos de trabalho.

Foi daí que se estabeleceu o tráfico negreiro, uma prática que atravessou séculos e forçou diversos negros a saírem de seus locais de origem para terem seus corpos escravizados. Além da demanda econômica, a escravidão africana foi justificada pelo discurso religioso cristão da época, que definiu a experiência escravocrata como um tipo de “castigo” que iria aproximar os negros do cristianismo.

Em terras brasileiras, a força de trabalho dos negros foi sistematicamente empregada pela lógica do abuso e da violência. As longas jornadas de trabalho estabeleciam uma condição de vida extrema, capaz de encurtar radicalmente os anos vividos pelos escravos. Ao mesmo tempo, a força das armas e da violência transformavam os castigos físicos em um elemento eficaz na dominação.

Durante a exploração colonial, a mão de obra negra foi amplamente utilizada em outras atividades como na mineração e nas demais atividades agrícolas que ganharam espaço na economia entre os séculos XVI e XIX. Mesmo destacando tais abusos, também devemos sinalizar a contrapartida desse contexto exploratório, com a presença de várias formas de resistência à escravidão.

As rebeliões eram realizadas a partir das articulações dos escravos e, em diversos relatos, aparecem como uma preocupação constante dos senhores de escravo. Paralelamente, as fugas e a formação de quilombos também se tornaram práticas que rompiam ativamente com o universo de práticas que definia o sistema colonial. De tal forma, vemos a presença de uma resposta a essa prática que cristalizou o abuso e a discriminação dos negros em nossa sociedade.

Do século XV ao século XIX, a escravidão foi responsável, em todo o continente americano, pelo trânsito de mais de 10 milhões de pessoas e pela morte de vários indivíduos que não sobreviveram aos maus tratos vivenciados já na travessia marítima. Ainda hoje, a escravidão deixa marcas profundas em nossa sociedade. Entre estas, destacamos o racismo como a mais evidente.


Por Rainer Gonçalves Sousa
Colaborador Mundo Educação
Graduado em História pela Universidade Federal de Goiás - UFG
Mestre em História pela Universidade Federal de Goiás - UFG

Por Rainer Gonçalves Sousa

http://www.mundoeducacao.com.br/historiadobrasil/o-negro-1.htm

 

            Arghhhh.... Márcia:

       Que linguagem mais racializada.

      Márcia, os dados revelam que basta o estado atuar para assegurar oportunidades que os pretos/pardos ocuparão os espaços sociais. Bastam as boas ações afirmativas, com tem sido o Bolsa Família em que 80% dos beneficiários são pretos e pardos e ninguém diz que são políticas raciais.

      Quanto à linguagem, perdoem, mas ´negro´ não é, na origem, sinônimo da cor preta, é designação racial, imposta no Brasil aos pretos da Costa D´África, que conforme o sistema, eram destinados à escravidão. É o que diz o artigo 10 do ´Directório do Índio´, de 1.755, outorgado pelo Marquez de Pombal: http://www.nacaomestica.org/diretorio_dos_indios.htm

      Conforme a lei, ficava proibido designar aos índios de ´negros´, por ser infamante, aviltante e degradante e reservada a ser empregadas aos ´pretos´ da Costa D´África.

      A data de 1755 não é simples acaso, esta é a época de nascimento da ideologia do racismo, significando, portanto, a ´raça negra´, aquela que seria a ´raça inferior´, base da pirâmide na classificação humana, sem a inteira humanidade, por isso, destinada à escravidão e à opressão, conforme a ideologia da hierarquia racial.

        Etmológia: radical nicro. Significado que se encontram nos antigos dicionários: Sombrio. Lúgubre; fúnebre; triste. Funesto; maldito; execrável.

        Tem origem no mesmo radical: necrosar; necrose; necrotério; necroscópico etc. sempre alusivo a local execrável, sortuno, sem vida.

          Somente após o racismo no século 18 é que passou a significar ´raça negra´.

Provérbio com a palavra negro - http://www.dicionarioweb.com.br/negro.html

"Nem cão negro, nem moço galego"

"Não pode o corvo ser mais negro que as asas"

"O diabo é negro"

         Outro dicionário ´Priberam´ assim define a palavra ´negro´:

http://www.priberam.pt/DLPO/default.aspx?pal=negro

negro |ê| - adj.

1. Que recebe a luz e não a reflecte.reflete.reflete.2. Preto, escuro.3. Sombrio.4. Trigueiro.5. Triste.6. Infeliz, mofino.7. Fúnebre, tétrico.8. Nefando.9. Aflito, apoquentado.
       Exceto o número 2, nenhuma definição tem relação com a ´cor´ da pele.

 

José Roberto F. Militão, ativista contra o racismo e contra a ´raça estatal´. "Numa sociedade com a cultura de raças a presença do racista será, pois, natural." (Frantz Fanon, 1956).

Todos os irmãos  do meu falecido  marido  ( doze irmãos)  tem nível  superior, incluídos  socialmente, com raízes no  recôncavo  baiano. Temos  quase  todas   as profissões, de médico  a geólogo. O patriarca, homem    que cursou  até o ginásio,  tinha  enorme  visão  e  inteligência,soube  criar  e orientar  a prole. Muito  digno  e respeitadíssimo por  sua  sabedoria.

Hoje  a  vida  dos  afrodescendentes  está mais fácil  com  as políticas de inclusão  social implementadas pelo  grande  Lula.