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A biografia de Raúl Prebisch, o grande economista argentino

Por Andre Araujo

RAUL PREBISH - Uma biografia impedivel, de Edgar Dosman, editora Contraponto - 650 paginas.

O grande economista argentino faz parte integral da historia economica da America Latina dos anos cruciais do pós guerra, ao lado de Celso Furtado, que com ele trabalhou e sobre quem muito fala em ARES DO MUNDO.. Prebish criou as bases teoricas para a primeira grande onda de industrialização dos anos 50, do desenvolvimentismo juscelinsta, da substituição de importações que foi o eixo da economia brasileira entre 45 e 90, o grande homem da CEPAL é biografado de forma excelente por um economista canadense que ao contar a historia de um homem conta tambem a historia do continente e muito da historia economica do Brasil e de suas relações com o mundo desenvolvido nos anos do pós guerra.

O livro traz o complicado enredo das idas e vindas, dos embates ideologicos entre o conservadorismo e a heterodoxia na condução da nossa economia, das crises periodicas, da politica interferindo na economia, do drama economico e social da Argentina, pais de Prebish e ao qual foi tão ligado, do dominio economico dos Estados Unidos nos anos dificeis das decadas de 50 e 60, dos erraticos governos sul americanos, suas contradições e incapacidade de formular politicas racionais.

Um livro que vale a pena, pela narrativa e pela nostalgia dos anos de esperança.

Controponto Editora

A trajetória de Raúl Prebisch preenche completamente o período histórico que Eric Hobsbawm chamou de o breve século XX, desde a chegada a Buenos Aires em 1918, no fim da Primeira Guerra Mundial, até a morte em 1986, no ocaso da Guerra Fria. Nesses 66 anos de intensa atividade ele nunca obteve reconhecimento pleno em seu próprio país, mas se tornou uma referência no mundo.

Foi o latino-americano mais influente na diplomacia internacional de sua época. Sua ação prática está consolidada na Comissão Econômica para a América Latina (Cepal) e na Conferência das Nações Unidas para Comércio e Desenvolvimento (Unctad), órgãos da ONU, e sua obra teórica permanece surpreendentemente atual. Sem ter sido um acadêmico, formou uma nova geração de pensadores latino-americanos.

A pesquisa de Edgar J. Dosman sobre sua vida se estende no tempo e no espaço. Combina o retrato de um homem com suas raízes, seu ambiente, seus sonhos e suas contradições e a história de um século. Começa na Argentina e dá a volta ao mundo.

Antes de completar quarenta anos, Prebisch já havia ocupado alto cargo no Ministério da Fazenda, participado de duras negociações internacionais, atuado na Liga das Nações, criado e dirigido o Banco Central, sempre movido pela ideia de edificar um Estado moderno a serviço de um projeto nacional. Conhecia as fraquezas de seu país: a economia primário-exportadora, o domínio oligárquico, a injustiça social, o atraso institucional. Foi derrotado. Experimentou o ostracismo, enfrentou dificuldades para sobreviver e partiu para um exílio que se mostrou muito longo.

Trabalhando na ONU, amadureceu sua visão sobre o sistema internacional e propôs uma interpretação teórica alternativa àquela que era apresentada pelos países desenvolvidos, pois a vida lhe havia ensinado que a harmonia das trocas mercantis escondia relações desiguais de poder. O sistema-mundo reproduzia e ampliava as distâncias entre os centros industrializados e a enorme periferia produtora de bens primários. Dedicou enorme esforço para mudar esse quadro.

Não era um revolucionário. A seu ver, a solução teria de ser buscada dentro do sistema, alterando gradativamente a divisão internacional do trabalho, sem rupturas. Isso exigia uma ação estatal eficaz, mas prudente, capaz de produzir mutações sem sufocar a iniciativa privada, sem estabelecer protecionismo excessivo, sem proteger a ineficiência e sem fazer concessões à inflação. Defendeu uma criteriosa combinação, caso a caso, de substituição de importações e promoção de exportações. Foi um crítico do populismo e do socialismo de tipo soviético: Deve haver um equilíbrio razoável entre o papel do Estado e a atuação de interesses individuais na vida econômica.

Essa combinação de ousadia e cautela na promoção de reformas foi a marca registra de Prebisch, que sempre se equilibrou na complexa política internacional de seu tempo, desagradando radicais de todos os lados. Terminou a vida reconhecido como um dos grandes estadistas do século. Recebe agora, graças a Edgar J. Dosman, uma biografia à altura, escolhida como um dos livros do ano por The Economist.

César Benjamin 


Dizer que a apresentação de Prebisch em Havana [em 1949] eletrizou a plateia é diminuir seu impacto. Surgindo como uma figura misteriosa, ele criou uma tensão quase insuportável quando prolongou o silêncio antes de começar um discurso em tom baixo e voz profunda, sem ler. Os delegados vivenciaram coletivamente uma experiência inesperada e hipnótica. Prebisch apresentou conceitos econômicos complexos sem cair no jargão, envolvendo a plateia enquanto desenvolvia o tema da independência regional. Ninguém ficou impassível. Seu Manifesto abalou os representantes mais graduados dos Estados Unidos e da ONU, que perceberam sua força. O marco estruturalista apresentava uma nova abordagem ao desenvolvimento. Os especialistas perceberam que um novo debate havia sido lançado.

Edgar J. Dosman

 

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Raul Prebisch, um dos maiores e mais destacados pensadores econômicos do século XX. De suas inúmeras contribuições ao pensamento econômico, poderia e gostaria de citar apenas a tese das trocas desiguais e combinadas, fonte da perenização do subdesenvolvimento dos países periféricos em detrimento da industrialização dos países centrais. Quebrar a 'ordem natural' da divisão internacional do trabalho era o seu objetivo primeiro, nada, absolutamente nada mais atual do que esse objetivo preconizado tão bem por Raul Prebisch! 

 

Raul Prebisch representa a antítese da Teoria da Dependência, esse lixo ideológico imundo e mistificador, de oitava categoria, cujo maior representante no Brasil é o colonizado Fernando Henrique Cardoso e seu mais colonizado ainda PSDB.

 

Diogo Costa

Quando a nostalgia recupera a esperança

Cesar Benjamin comenta a biografia de Raul Prebisch, referência para todos que trabalharam na formulação das principais políticas públicas no Brasil, desde o primeiro governo civil em 1985. Período efervescente de debates e ideias que serviram de fundamento para a redação de nossa Constituição.

Caberia a redação de um artigo comparativo sobre as proposições formuladas, referidas ao pensamento de Prebisch, e o atual quadro de políticas adotadas pelo governo anterior e o atual governo. Análises comparativas são importantes para não perdermos a perspectiva da adoção de um modelo sócio-econômico que efetivamente combata as desigualdades sociais.

"Um livro que vale a pena, pela narrativa e pela nostalgia dos anos de esperança."

 

Ivanisa Teitelroit Martins