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A capoeira em pinturas, gravuras e desenhos

 

ICONOGRAFIA

 

Abaixo vemos pinturas, gravuras e desenhos que marcaram época, de 1822 até 1981.  Ao mesmo tempo, hoje, nos deixam "entrever" algo da capoeira praticada em determinado período; ou, então, como determinados artistas, mestres, ou estudiosos gostariam de apresentá-la à sociedade:

    - enfatizando seu lado de "luta";

    - ou o de "tradição";

    -realçando seu aspecto "ritual", ou "lúdico", ou de "eficiência técnica (de luta)", etc. 
 

    "Negros lutando, Brazil"

    Augustus Earle, 1822 (Biblioteca Nacional da Australia) 

    Augustus Earle, em uma aquarela de 1822, "Negros lutando, Brazil", nos apresenta um negro atingindo violentamente outro com um chute (hoje conhecido como "benção").

    Alguém identificado apenas por A.P.D.G., em 1826, descreve como um escravo se defende, e ataca, dois brancos, usando esquivas e chutes: "O negro acertou-o com a planta do pé no estômago com tal força e destreza que prostou-o morto" (A.P.D.G., Sketches of Portuguese life, manners, costumes, and character, Londres, 1826).

    Esta aquarela, de Earle, e este relato primam pela violéncia (e também pela ausência do berimbau).  Isto pode nos levar a conclusão de que a "capoeira mais antiga" era algo extremamente violento; da mesma forma que também foi a capoeira praticada pelas maltas cariocas no final dos 1800s. 

    No entanto, o francês Dennis (Ferdinand J. Dennis, Histoire et descrption du Brésil, Paris, F. Didot frères, 1839, p.147), em 1839, embora sem mencionar o berimbau ou as rodas, descreve a capoeira como um "combate de mentira". 

    "Negros Volteadores"

    DEBRET. Voyage pittoresque et historique au Brésil. Paris: Didot Firmin et Fréres, 1824. 

    Os "negros volteadores" saiam, aos pulos e saltos acrobáticos, à frente dos enterros de personalidades importantes da comunidade escrava negra.

    Embora a capoeira dos 1800s não ter o , ou saltos acrobáticos, estes elementos já estavam presentes na cultura negra dos 1800s. 
 
 

    Escravo tocando berimbau.

    DEBRET. Voyage pittoresque et historique au Brésil. Paris: Didot Firmin et Fréres, 1824. 

    Estas gravuras de Debret ("Negros Volteadores"e "Escravo tocando berimbau") demonstram que acrobacias e o berimbau - elementos inexistentes na capoeira descrita por Rugendas (1834), de cabeçadas "mais ou menos como bodes" (que veremos a seguir) -  já existiam no Brasil no começo dos 1800s, entre os africanos e seus descendentes mas, ao que tudo indica,  estavam dissociados da capoeira. 

    O mesmo se pode dizer dos golpes de pé, documentados por Augustus Earle (1822), mas inexistentes na descrição de Rugendas (1834).

    Cem anos depois,  por volta de 1920, estes elementos já tinham sido assimilados pela capoeira baiana, segundo as descrições de mestre Noronha dos "bambas da era de 1922"  (O ABC da capoeira angola, os manuscritos de mestre Noronha, Brasília, DEFER CIDOCA/DF, 1993), que Noronha conheceu na sua meninice. 
 
 


 

    "Jogar Capüera ou Dance de la Guerre"

    RUGENDAS, J.M. Voyage pittoresque et historique dans le Brasil. Paris: Engelmann et Cie, Paris, 1834. 

    Eis a descrição da capoeira vista por Rugendas (quando esteve no Brasil pela primeira vez, entre 1822 e 1825), que acompanha a gravura na edição francesa de seu livro (1834). 

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          Os negros tem ainda um outro folguedo guerreiro muito mais violento, a capoeira: dois campeões se precipitam um sobre o outro procurando dar com a cabeça no peito do adversário que desejam derrubar.  Evita-se o ataque com saltos de lado e paradas igualmente hábeis; mas lançando-se um contra o outro mais ou menos como bodes, acontece-lhes chocarem-se fortemente cabeça contra cabeça, o que faz com que a brincadeira não raro degenere em briga e que as facas entrem em jogo ensangüentando-a.* 

    Novamente, a violência está presente no jogo. Por outro lado, Rugendas também não menciona o berimbau (desenhado por Debret, em 1824), nem os golpes de pé (desenhado por Earle, em 1822), nem os floreios acrobáticos (por Debret, em 1834), nem o jogo no chão.

    Podemos chegar à conclusão que estes elementos foram absorvidos pela capoeira entre 1834 e 1920. 
 
 

    METER O ANDANTE

    Kalixto, 1906.

    Ahi não conversei, grudei na parede, escorei o tronco, e meti-lheo andante na caixa de comida. O dreco bispando que eu não era pecco, chamou na canella que si bem corre, está muito longe...  Eu voltei p'ro samba garganteando:

    "Meu Deus que noite sonorosa" 
 
 
 

     A LAMPARINA

    Kalixto, 1906.

     Grimpei, perdi a estribeira, cocei-me, dei de mão na barbeira e... ia sapecar-lhe um rabo de gallo, quando o cabra cascou-me uma lamparina que eu vi vermelho! 
 
 
 

    O CALÇO OU A RASTEIRA

    Kalixto, 1906.

    Cahi no baniano rente a poeira, e isquei-lhe um rabo-de raia que o marreco voôu na alegria do tombo, indo amarrotar a tampa do juizo n'uma canastra, e ahi gritei: -- Entra negrada! O turuna enfeitou-se outra vez... Oh! cabra cutuba!

    L.C., muito provavelmente Lima Campos, na luxuoso revista Kosmos, Revista Artística, Scientífica e Literária (Rio de Janeiro, nº3, março de 1906), escreveu um artigo apresentando a capoeira como "nacional", "esporte" e "mestiça"; definindo-a como uma luta defensiva e de esquiva; e realçando o caráter escarnecedor da capoeira carioca.

    O artigo veio ilustrado com excelentes gravuras de Kalixto (Calixto Cordeiro).  Kalixto também escreveu os textos que "dão voz" as gravuras, usando os termos e as gírias da capoeiragem da época. 
 
 
 


 

    Capa do livro "Gymnástica Nacional (Capoeiragem) Methodizada e Regrada", de Anibal Burlamaqui, publicado em 1928. 

    Anibal é parte de uma corrente carioca de intelectuais que tentaram tirar a capoeira do contexto da marginalidade transformando-a num "esporte" - com regras, competições, juízes, uma confederação nacional, etc, -; ou, melhor ainda, na "Luta Nacional", semelhante a esportes "nacionais" de outros países como o Judô no Japão, o Box na Inglaterra, ou o Savate na França.

    Para isto, achavam necessário "eliminar", ou pelo menos "nacionalizar", e "branquear" , as raízes africanas da capoeira.  Daí, a ênfase na mestiçagem (como base da cultura brasileira), e no  mestiço como o capoeira ideal: pois a tese da mestiçagem também pode servir para disfarçar e ocultar o racismo, no Brasilo; que muitos afirmam "não existir" uma vez que somos "um povo mestiço". 
 
 
 
 


 

    Desenhos do artigo "Nosso Jogo", que saiu na revista EdFex (Rio de Janeiro, 1935), mostrando, numa sequência de desenhos, dois movimentos da capoeiragem da época: a "pantana de esquiva" e a "pantana de cócoras".

    Repare que estes últimos itens (Burlamaqui, 1928; e os da EdFex, 1935), não só eram representantes da corrente carioca que queria instituir a "Luta Nacional" no começo dos 1900s; mas também, curiosamente, foram veiculados no período em que a capoeira era proibida por lei (1890 até aproximadamente 1940). 
 

    O Vôo-do-morcego, desenho do livro "Capoeiragem, a arte da defesa pessoal brasileira", de Lamartine Pereira da Costa.  Mais tarde, o livro foi reeditado, com relativo sucesso para a época, com o título "Capoeira sem mestre" (Rio de Janeiro, Tecnoprint, sem data, aprox. 1960).

    Lamartine é mais um da corrente carioca da "Luta Nacional", dissociada das raízes negras, e da cultura da malandragem.  Era oficial da marinha e, também, intrutor de Educação Física e defesa pessoal. 


 

    Desenhos de Carybé, em grande parte inspirados na capoeira da roda no barracão de mestre Waldemar da Paixão (que Carybé frequentava como "observador"), no bairro da Liberdade, em Salvador, por volta de 1960.

    Aqui, ao contrário da "Luta Nacional" propagada por uma certa corrente de intelectuais cariocas, temos a capoeira apresentada como "jogo", como "arte popular", com seu ritual, seus aspectos lúdicos, sua música, etc.   Carybé (que era uruguaio) faz parte de um grupo e uma geração de artistas baianos, entre estes, Jorge Amado. 
 


 

    Rasteira e benção; e banda de frente; desenhos do panfleto que acompanhava o disco LP "Curso de Capoeira Regional", de mestre Bimba (Salvador, JS Discos, sem data, aproximadamente 1960). 


 

    Deseho da Nestor Capoeira baseado nnuma foto do panfleto que acompanha o disco LP de Traíra e Cobrinha Verde (aprox. 1960) 

    Foto de Nestor Capoeira, "herói" no filme "Cordão de Ouro" (dir.  A.C.Fontoura, Embrafilmes, 1979).

    Esta imagem ficou famosa, por volta de 1980, por simbolizar o status, e o sucesso, de uma nova e "moderna" geração de capoeiristas que, na época, tinham aproximadamente 35 anos de idade.

    Entre estes se destacaram o Grupo Senzala, do Rio de Janeiro; Acordeon, formado de Bimba que ensinou em São Paulo e, já na década de 1980, se firmou piojneiramente em San Francisco (California, USA); Suassuna, baiano de Itabuna, que é uma das mais importantes figuras da capoeira de São Paulo, e do Brasil.  
 

    Cruz, desenho de Sillas de Oliveira para a 1ª edição de "Capoeira, o pequeno Manual do Jogador", de Nestor Capoeira (Rio de Janeiro, Ed. Ground, 1981; ed. ampliada e rev. pela Record, 1998).

    Este livro tornou-se um "fenômeno" editorial (no que concerne aos livros enfocando a capoeiragem): já foi publicado em 8 línguas: já vendeu 14.000 exemplares no Brasil, 31.000 nos Estados Unidos, 13.000 na Alemanha, e 3.500 na França, entre outros países como Polônia, Dinamarca, Holanda e Finlândia. 

http://www.centroreferenciacapoeiracarioca.net/fotos.php

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Comentários

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sou capoeirista aluno de mestre paulao ceara pratico por amor e por ser brasileiro.

 

a capoeira é a arte de ser livre,...

ela te leva a uma viajem quase que sem vouta,quando jogo(brinco) me sinto em outro lugar,

so vouto pra realidade por causa dos problemas do dia a dia!

 

sou capoeira a 10 anos e quando penso em parar e ai que eu recomeço...

 

 

capoeira é saude;vida.eu pratico caporira e amo o q faço

 

gostei sobre a materia q li pois ainda nao havia encontrado nada sobre o assunto do ponto de vista mostrado aqui,parabens

 
 

Se nos 1800 tinham kalimbas no Brasil...  o que aconteceu com elas que desapareceram totalmente da cultura?!

 

ECHELON saiu da internet. ECHELON agora esta no seu proprio computador.

Olhaí Rafael, acho que vai lhe interessar.

 

Pequena nota autobiográfica:
Lá pelos meus dez, onze anos, fazia capoeira com Mestre Bimba. Regional, não Angola do Mestre Pastinha. Regional era mais dura, mais luta, menos dança, menos tradição. Só começava a lutar depois do mestre dizer o tema. Não tinha essa de lutar enquanto o mestre cantava. Ele falava, a gente prestava atenção, depois saia no pau.
Normalmente, eu treinava com dois amigos, paulistas tb, duros de cintura, mais ou menos da mesma idade.
Mas um dia o mestre me botou pra lutar com um menino, branco e cabeludo também, de 15 anos. Eu devia ter um metro e meio, se tanto, ele já com um e setenta, por aí. Tomei um couro bravo. Nunca apanhei tanto na minha vida. Levei uma sequência de três rasteiras, a última eu dei um salto mortal triplo carpado (não hermenêutico), caí de bunda no chão feito um saco de batata.
 Não chorei, claro. Depois de engolir dor e vergonha, fui falar com o Mestre. Pô, me botar pra lutar com gente maior que eu... ele olhou pra mim com aquele olho calmo, fez o charuto eterno rodar de um lado pro outro, cuspiu na escarradeira, e foi definitivo:
 - Apanhar na roda é lição. Apanhar na rua é que é vergonha.
Muita saudade desse homem quase analfabeto que me ensinou muito mais que doutores diplomados.

[]s

 

"Eu quase de nada não sei. Mas desconfio de muita coisa" Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas