Revista GGN

Assine

A desumanização dos usuários de crack

Do Portal Luis Nassif
Página de Rodrigo Mesquita de Alencar

Visita à cracolândia, no dia do churrascão dos diferenciados. 

Visita à cracolândia.

Há pouco mais de seis meses comprei uma câmera. Desde então saio para fotografar aos finais de semana, com um amigo. Estamos sempre pelo centro, mas nunca tínhamos ido à cracolândia. É natural, todos têm medo de ir até lá, a desinformação é grande. Vemos pela TV e pelos portais da internet sempre as mesmas cenas de degradação, pessoas vivendo como animais, sujas, agressivas, o que faz com que muito de nós aceitemos, sem contestação, que chamem a essas pessoas de “zumbis”.

Pois escrevo, para dizer que ontem conversei e vi vários viciados em crack perfeitamente capazes de entender a realidade em que vivem.

Paramos na Avenida Rio Branco, arredores da cracolândia, para tomar uma cerveja e ganhar coragem para fotografar na Rua Helvétia, o olho do furacão, onde se concentram a maior parte dos viciados em crack de Sâo Paulo. Eu e o meu amigo estávamos com nossas câmeras à mostra, o que fez com que Luís, um viciado em crack, se aproximasse, achando que a gente fosse da imprensa. Meu amigo o convidou para sentar, eu acompanhava a conversa distante, sem saber o que fazer com todos os meus preconceitos.

Luís, contou que era viciado em crack há mais de 10 anos. Foi quando a conversa ficou interessante para mim. Luís estava lá, de pé, com os músculos que o seu exercício diário de empurrar carrinho de papelão lhe deu. Usuário de crack há mais de uma década, vivo e forte. Ao contrário do que se ouve por aí, de que essa droga mata em poucos anos.

Luís contou que já roubou, foi preso, mas se reerguia. Não roubava mais, trabalhava como catador de material reciclável para viver. A essa altura o que havia não era mais uma experiência exótica com um crackeiro e sim uma conversa entre três pessoas. Luís nos aconselhou a assistir ao filme “expresso da meia noite”, também citou Bukowski e nos deu uma aula sobre a história do crack, até a droga chegar no Brasil. Luís queria se livrar do vício, mas lutava contra o crack sozinho. Disse por que não acreditava no tratamento oferecido pela prefeitura “eles têm dinheiro para te dar um remédio que custa 200 reais a dose e depois te jogam na rua, parceiro. Tem dinheiro pra isso, mas não oferecem uma cama para você dormir, um banho para você tomar”. Sobre a ação da prefeitura e do governo estadual na cracolândia, ele disse “eles põem a polícia lá, mas não levam o pessoal para ver um cinema”.

Fomos, com Luís, a caminho da Rua Helvétia, onde acontecia o “churrascão dos diferenciados”. Esperávamos encontrar hostilidade por parte dos viciados, que têm fama de serem agressivos. O que faltava era saber do ponto de vista deles, o por quê dessa agressividade. Não é só por conta do crack, eles simplesmente não querem ser fotografados naquelas condições, usando a droga. É óbvio, ninguém gostaria. O difícil é entender isso, pois, em muitos casos, já os desumanizamos. Foi o que ouvimos de Luís no bar, “vai lá e olha o lado humano do cara”, “e não vai com a câmera apontando”, palavras que a imprensa e a sociedade precisam ouvir, pois quando não é a câmera apontando, é a arma da polícia, o cassetete dos seguranças e o preconceito das pessoas.

A imprensa não pensa que se tratam de seres humanos ao abordá-los, querem sempre a foto mais impactante, alguém acendendo um cachimbo, de preferência sujo e degradado, um zumbi. Ou, o que é pior, a polícia entrando em ação, prendendo, abordando um viciado, para todo mundo ver e registrar.

Muito da hostilidade deles vem daí. Sentimos isso na pele, ao encontrarmos um grupo de mais de 10 usuários numa esquina. Os encontramos ao mesmo tempo em que a polícia apareceu. Foi o primeiro policial descer da viatura e todos saíram andando, fugindo dos pms, em direção à Rua Helvétia. No caminho, alguns dos viciados nos ameaçaram, vieram para cima da gente para cobrar explicações, outro veio dizendo que poderíamos tirar uma foto dele caso pagássemos.

Foi um momento de grande tensão, até aparecer o Luís para dizer que não éramos da imprensa e apaziguar os ânimos. No mesmo momento a postura dos viciados mudou e ao invés de ameaça, fomos abraçados por alguns, cumprimentados por outros, rapidamente aceitos. Caminhamos com eles por 4 quadras até chegarmos na Rua Helvétia, onde estava acontecendo o churrascão da cracolândia.

Lá, vimos muito do que se fala. Imediatamente veio a minha cabeça todo o imaginário que se tem do purgatório, junto com um cheiro nauseante de material plástico queimado. Pessoas absolutamente degradadas, algumas descontroladas, brigas e discussões entre os viciados acontecendo aqui e ali. Gente sangrando, com perfurações superficiais, gente consumindo a droga, flagrantemente, a poucos metros das viaturas policiais.

Vimos também segregação, dentro do próprio evento. Havia cavaletes e faixas separando a Rua Helvétia em duas, de um lado os dependentes, do outro as demais pessoas. Era possível transitar livremente entre as duas áreas, mas havia essa separação. Talvez ela servisse mais para controle, organização. Havia um receio natural de todos diante dos viciados, havia muita tensão no ar, de qualquer forma era desagradável encontrar uma separação ali. O bom é que foi um viciado que, educadamente, retirou alguns desses cavaletes, dizendo que ali não havia diferença entre viciados e as demais pessoas, que ali era todo mundo igual, simplesmente isso.

Vi viciados conterem outros usuários que ameaçavam agredir um rapaz com uma câmera amadora, dizendo que os cinegrafistas estavam ali para o bem deles, registrando o trabalho da polícia, pois eram dos direitos humanos.

Conversemos também com um travesti, outro que disse consumir crack há mais de 10 anos, que criticou a postura paternalista para com os viciados. Ele tinha consciência da situação em que vivia, não queria a piedade de ninguém, nem moralismo. Por falar em paternalismo, vimos gente pintando o rosto de alguns viciados, fazendo uma espécie de terceiro olho na testa deles, outros davam cartazes com frases políticas para que os viciados empunhassem. Na sua grande maioria, frases que foram pensadas por outras cabeças.

Falamos com jovens também, uns aparentando serem menores, outros, maiores, um disse fumar há mais de 5 anos. Todos diziam que depois que fôssemos embora a polícia ia chegar lá descendo a porrada. Um deles, mostrou o dente da frente, que estava mole, frouxo na boca, e disse “isso aqui, a polícia que me deu”.

O que fica dessa visita é esta experiência que só foi possível por ter conhecido o Luís e ido até lá.

O Luís nos fez romper o medo, o preconceito, sentar ao lado deles, dialogar, interagir, ouvir. Vimos usuários conscientes, críticos. Pela TV, acompanhando os noticiários, os grandes portais da internet, isso não seria possível.

O crack é uma droga relativamente nova, não sabemos ainda como conviver com ela e a postura de parte da imprensa e da sociedade, estigmatizando essas pessoas, que sempre são mostradas como animais, incapazes de falarem por si próprios, nas condições mais degradantes possíveis, não ajuda a entendermos o problema. Ajuda, isso sim, a convencer a opinião pública de que é preciso fazer uma “limpeza” na região, internando todo mundo, tanto faz onde e em quais condições.

É preciso dar voz a essas pessoas. Saber o que elas acham do tratamento que o estado oferece. Respeitá-las como seres humanos capazes de entender o problema em que vivem e de fazer as suas escolhas.

É preciso mostrar o usuário de crack por esta outra ótica à sociedade.

Não estamos aprendendo a vê-los como dependentes químicos, como um problema social, mas como marginais, animais, zumbis. O que desumaniza essas pessoas. E isso, a história mostra que é um erro gravíssimo.

Sem votos
23 comentários

Comentários

Espaço Colaborativo de Comentários

Comentar

O conteúdo deste campo é privado e não será exibido ao público.
CAPTCHA
Esta questão é para testar se você é um visitante humano e impedir submissões automatizadas por spam.
+23 comentários

Fácil vir com esse papinho de sociólogo quando você não tem esses filhos da puta em frente de casa.

 

Tratamento de drogado só existe um: porrada e cadeia.

 

Podemos comparar a dependência do crack à dependência do alcool, nem todos os alcoolistas são iguais e  quando alcoolizados se comportam de maneira distinta, o organismo tambem é diferente, alguns usam alcool durante 30 anos e estão mais preservados do que outros que começaram há menos tempo.  Agora no geral a Dependência do Crack deve ser estudada com muita seriedade,  não é só porque conversei com o João da esquina que é dependente,  que já conheço todos os dependentes.  Estou trabalhando com Dependentes de Drogas e especialmente o crack e a cocaina há 16 anos,  só atendo quem quer deixar a dependência, tem consciência de que perdeu a liberdade de escolha, que não pode mais escolher não usar,  porque tem que usar,  só não está encontrando o caminho de volta. Nós estamos ai para ajuda-los,  desde que queiram.  O tipo de ajuda pode ser de diversas maneiras,  ninguem tem a receita pronta,  o caminho de um dependente para deixar a droga pode não ser o mesmo caminho do outro. Uma coisa eu aprendi a Dependência Quimica,  como qualquer outra doença é democratica,  atinge qualquer pessoa de qualquer classe social, economica, cultural, idade, sexo, raça etc.......Vamos nos unir para ajudar QUEM QUER SAIR DA DEPENDÊNCIA e quem não quer,  deixa-lo  livre para  escolher, desde que não prejudique a  sociedade,  pois a nossa liberdade termina onde começa a do nosso semelhante.


                                                     CIIIIIII


 

 

Este assunto é sério demais e até pouco conhecido, em sua essência, para ficar sendo tratado como desumanização ou demonização.


O que é preciso que a sociedade faça, é rever os velhos conceitos de que quem "caiu"na desgraça de "provar da mardita" e depois viciar-se, precisa somente de apôio, que começaria na família, passaria pelo tratamento adequado e a chance de recuperar sua auto-estima, na comunidade de onde saiu.


Perguntem a quem tem um parente viciado, o que ele fez, para tentar recupera-lo, e se do alto da sua(dele)hipocrisia,ele penetrou no âmago da situação daquele dependente.


Achar simplesmente que "droga-se quem quer" assim como eu e muitos daquí, que  fazemos uso de drogas menos perigosas que o crack e/ou a cocaína,como o álcool e o cigarro, e achamos que podemos parar com as mesmas, na hora em que bem quisermos, é baixar demais o nível da discussão proposta pelo Rodrigo, cuja "bola"foi levantada pelo Nassif.


Repito: Tudo começa em casa,na mais tenra educação; Depois passa pela educação formal na escola; Depois na administração pública, que tem que estar preparada, para cuidar destes "abandonados"pela sociedade, e esta obrigação, só pode ser exigida, quando escolhemos nossos administradores públicos, nas urnas.


Ficar "isolado" em nossas casas, distante do problema, como se ele não fosse nosso tambem, é não aceitar que fazemos parte da comunidade, e nesta há coisas boas e ruins.

 

Os poderosos  vieram na escuridão, e destruiram a única rosa do meu jardim; Depois vieram novamente às escondidas, e destruiram todas as minhas roseiras, porem jamais conseguirão impedir, a chegada da primavera.

 


Pessoal, gostaria de agradecer a todos vocês que comentaram por aqui. Fico feliz de ver que mais gente teve essa experiência que eu tive. Um lado que, infelizmente, é pouco mostrado.


Em nenhum momento quis minimizar o efeito devastador que o crack representa na vida de qualquer pessoa. Muito menos sugerir que é totalmente seguro conversar com um usuário de crack. Gente, em crise de abstinência, é potencialmente perigosa sim. 


O que quis foi alertar para essa questão da desumanização do viciado e o perigo que isso representa. É importante que a cidade seja segura para todos. Mas segurança pública não se resolve apenas com polícia, se resolve com políticas públicas, um guarda-chuva imenso, onde cabe educação, saúde, acesso a cultura, trabalho, moradia, enfim, tantas e tantas coisas.


Viciado ou não, todo mundo é cidadão e deve ser tratado assim. 


Fico muito feliz por ter ajudado a discutir o assunto. Sinto que o que eu escrevi tocou alguns. Saibam que essa interação que tive com vocês também foi muito valiosa para mim.


 


Abraço a todos.

 

O Luís nos fez romper o medo, o preconceito, sentar ao lado deles, dialogar, interagir, ouvir. Vimos usuários conscientes, críticos. Pela TV, acompanhando os noticiários, os grandes portais da internet, isso não seria possível (Rodrigo Mesquita de Alencar, sobre sua experiência de conversar com um usuário "anti-social" do crack)

Amigo Rodrigo, também tive esta experiência dias atrás. Foi quando concluí que é necessário ouvirmos  os usuários "anti-sociaiais" do crack. Ficarmos restritos à TV e à internet é como estamos presos à teorias. Dias atrás tive esta experiência. Foi quando vi que eu era bem preconceituoso quanto ao assunto, mesmo acompanhando as postagens no Nassif. Sem a conversa com o "Edu Trevas" meus preconceitos não teriam desabado. É no contato real que nós nos colocamos no lugar do outro. Foi gratificante ficar por mais de uma hora ouvindo o "ET", uma pena que, por não dar-me conta de que seria tão importante,  não gravei a conversa. Lembro-me que ele me disse coisas tais como: O bom do crack é a "lirica" (grupo de usuários) mas, bom mesmo, é ficar de fora, apenas observando, sem usar nada. Hoje não consigo. Perdi tudo. Sou jornalista. Sou também locutor, sei imitar várias vozes (e fez várias vozes, imitou vários personagens, quando vi que ele realmente era locutor).

Este seu texto me fez lembar do ET, eu já havia me esquecido dele, preciso reencontrá-lo. Eu o conhecia de vista há muito tempo, afinal de contas é um destes "loucos de rua",  no entanto ao ouvi-lo vi que não é nada disso, são sim, bastante conscientes quanto a própria realidade que vivenciam, os preconceitos dos quais são vítimas no dia-a-dia. Ele me disse: Eu nunca havia contado isso prá ninguém.  Eu sofro muito por não poder me livrar do crack, uma droga muito barata que termina ficando cara por que você tem que consumir repetidas vezes. Aí você leva a própria camisa para trocar por uma pedra. Depois leva a calça. Por isso ando assim. 



 

 

...spin

 

 

Não é através de medidas desumanas que conseguiremos tirá-los deste buraco. O governo necessita tomar medidas. A sociedade não pode conviver com essa situação desoladora. Eita mundo moderno !Tenho medo dele!!!!!!!

 

O que é talvez cômodo demais é dizer que 'o governo precisa tomar alguma providência'. A sociedade não é só o governo, ela cria os problemas coletivamente e precisa aprender a resolvê-los do mesmo modo, sem atribuir a um só ente tal culpa ou responsabilidade. O crack, como droga barata, está se proliferando nas camadas mais baixas da sociedade - não que exclua gente de outras, mas encontra aí seu lugar mais trágico de atuação. O rico pode pagar uma clínica de ressocialização e para se desintoxicar, o pobre depende quase que exclusivamente das iniciativas públicas, quando elas existem. Só que o número de viciados tem aumentado exponencialmente e como há uma evidente ligação entre a situação de viciados e marginalizados, há essa responsabilidade coletiva em tentar achar uma solução ao menos para essa possível causa. O governo sozinho tem inúmeras atribuições e não dá conta de resolver isso: cadê as milhares de ongs que recebem grana e isenções para fazer algo de útil? Cadê a UNICEF e a OMS? Qual é a 'esperança' de uma criança que já nasce no crack? (é proposital a alusão). E as pastorais, onde andam? E os evangélicos? Vamos lá: problemas sociais se criam coletivamente, devem ser resolvidos do mesmo modo. Quem tem dois carros e paga mal a seus empregados, tem celular mais caro, casa com todo conforto ... e não se acha culpado ou responsável é que teria que entender que faz parte do problema de quem vive na miséria por não ter como ser incluído em uma sociedade tão desigual, individualista e egoísta. Enquanto isso, na CARAS, QUEM e outras revistas, você vê as casas dos milionários da tv, do jet set, da indústria, etc.

 

Gostei mto do texto e acho q esse seu ponto de vista precisava chegar para mais gente... mas não dá pra esquecer que qdo essas pessas estão na "nóia", se precisarem de dinheiro, não pensarão duas vezes em matar vc ou qm estiver perto para conseguirem mais droga. Não são demônios,  não são anjos tb. 

Tenho uma amiga policial que pegou um caso e ficou deprimida... um menino usuário de crack, com 11 anos pediu dinheiro a uma mulher no semáforo, a mulher recusou, ele matou seu bb na cadeira do banco de trás com uma facada. Não dá pra dizer que existe só um lado da moeda, o lado deles serem humanos... tb não dá pra demonizar com essas pessoas. 

Penso q não deixa de ser, sim, um caso de polícia. Não da forma como está sendo levado, mas sim um caso de saúde pública, de educação, de segurança e de polícia também.

 

  Gostei muito, muito mesmo do relato. Muito obrigado, Rodrigo.


  E NÃO, não vou levar para casa, não vou dizer que a culpa é da sociedade (a esse respeito há outro post interessante hoje mesmo), não vou esquecer que para muitos os viciados são um incômodo.


  O que vou fazer: repensar um ou outro conceito, no que for pertinente, em vista do que o colega do blog talentosamente descreveu.

 

Pois é só agora vc viu a realidade da cracolândia.


Mas vc percebeu que há comércio naquelas imediações


e as pessoas que trabalham ficam com medo pois sob o


efeito do crack se tornam violentas.


Há um espanhol, com mais de 80 anos, q vende


revistas que já passou muitos apertos, assim como


seus funcionários jovens.


Até onde vai a liberdade de cada um?

 

A Musa Chapada


Tomo a liberdade de reproduzir aqui o artigo de Cláudio Daniel publicado na revista de Poesia & Debates Zunai sobre o livro A musa chapada, que reúne poemas de Ademir Assunção e Antônio Vicente Seraphim Pietroforte com ilustrações do artista plástico Carlos Carah. Ademir Assunção é poeta e jornalista e sempre teve a coragem de olhar de perto a questão das drogas até por sua influência da literatura Beat e pelo convívio com "as criaturas da noite" na Praça Roosevelt desde antes do projeto de revitalização cuja obra, aliás, se tornou possível depois da polêmica iniciada com a repercussão de um assalto em 5 de dezembro de 2009 à sede do grupo de teatro Parlapatões, feito por viciados em crack, que deixou o dramaturgo Mário Bortolotto ferido com quatro tiros à queima-roupa. 

UMA VIAGEM A INFERNOS POSSÍVEIS

 

 

Claudio Daniel

 

 

A musa chapada é um livro insólito que reúne poemas de Ademir Assunção e Antônio Vicente Seraphim Pietroforte com ilustrações do artista plástico Carlos Carah, que traduziu a alta temperatura dos textos em imagens brutais, próximas a um figurativismo expressionista. As narrativas poéticas do volume estão divididas em quatro seções: Grogues e noturnosViagem através da neblinaClube do Pico Bagana’s Blues, que abordam o consumo de drogas no cenário de miséria e violência dos centros urbanos.

 

Os poemas fazem referência a lugares conhecidos de São Paulo, como o Largo de São Bento, o Parque do Carmo, o Bexiga, por onde circulam personagens criados pelos autores, como Igor, Lili Maconha ou Mister Morfina, em cenas que recordam a velocidade narrativa do videoclipe e da história em quadrinhos.

 

Em Clube do Pico, poema de Antônio Vicente Seraphim Pietroforte (título que ecoa o lendário Clube do fogo do inferno), o autor imagina um casarão abandonado na Zona Leste, onde adolescentes se reúnem à noite para beber, fumar baseado ou fazer sexo: “vai chegando gente / só vai menina gostosa / só vai moleque bonito / menina beijando menina / vão lá no Clube do Pico”. Os versos são breves, coloquiais e permitem uma aproximação com o poema Osso & liberdade, de Roberto Piva, outro clube imaginário freqüentado por ”adolescentes vestidos de veludo negro e rosa” que dedicavam-se a orgias e à leitura de Mário de Andrade.

 

Roberto Piva, aliás, é a principal referência intertextual da Musa chapada, e em especial o livro Paranóia, de 1963, onde encontramos um poema chamado Visão de São Paulo à noite. Poema antropófago sob narcótico, que se insere numa tradição marginal da literatura que teve início em meados do século XIX. Conforme escreve Virna Teixeira no prefácio à Musa chapada, o consumo de drogas é “tão antigo quanto a civilização”, mas sua presença na literatura “surgiu após os avanços da Revolução Industrial, sobretudo a partir do uso de ópio na época do Romantismo inglês”. As Confissões de um comedor de ópio, de Thomas De Quincey, publicado em 1821, inaugurou essa linha temática na literatura ocidental, e atingiu um ponto de ebulição na época do Simbolismo, especialmente com o livro Paraísos artificiais, de Baudelaire.

 

No século XX, as drogas marcaram presença nos escritos de autores como Huxley, Artaud, Ginsberg, que, assim como os simbolistas, consideravam a ingestão de alucinógenos um método para a obtenção de estados alterados de consciência, além da atitude de ruptura com o cristianismo e as normas da civilização burguesa. Para poetas como Camilo Pessanha ou Henri Michaux, a droga foi um estímulo à criação poética, e ainda hoje se discute a influência dos entorpecentes na escrita desses autores.

 

A visão ingênua em torno das drogas atingirá o seu ápice nas décadas de 1960-70, com a contracultura, que colocou o uso do LSD no mesmo plano que a liberação sexual, a contestação política, o rock e a busca de antigas religiões, como o xamanismo. Nos tempos pós-modernos, a mitologia da droga não exerce o mesmo fascínio, pela divulgação de informações médicas sobre os seus efeitos na saúde física e mental e pelo vínculo entre drogas e narcotráfico. O charme de se beber absinto num cabaré parisiense cedeu vez às imagens de meninos de rua cheirandocrack debaixo de viadutos.

 

É neste cenário desolado que se desenrolam as narrativas poéticas da Musa chapada, que não ignoram a guerra em curso nas periferias dos centros urbanos, que Ademir Assunção retrata muito bem no poema Paisagem crivada de balas: “As rajadas podem ser ouvidas de Pirituba ao Pontal. / Escopetas, uzis israelenses e fuzis russos / sangram as bordas da Noite Drogada”. A violência é sintetizada por Ademir num verso notável: “Deus está solto. E dizem que Ele está armado”. 

 

A musa chapada, porém, não se resume a um rude naturalismo, por maior que seja a aproximação entre arte e realidade proposta no livro. Os autores dominam as técnicas poéticas, e vamos encontrar recursos como a elipse, a paródia, a citação intertextual, a enumeração caótica, a espacialização das linhas, o diálogo com outras artes, e em especial a música, o cinema, o comic book, a pintura, bem como a simultaneidade de informações da televisão. Virna Teixeira aponta ainda a incorporação de gírias extraídas do mundo da droga, como talco, granizo, farinha ou nariz nervoso, que trazem a marginalidade da temática ao próprio campo semântico. 

 

Nos poemas de Ademir Assunção a enumeração caótica é um elemento estrutural, como no poema de abertura do livro, Noturno com marijuana, que mescla o jazz de Charles Mingus aos sacos de lixo, filmes de Hollywood ao monte Fuji e as deusas do Olimpo às ogivas nucleares. Já nos poemas de Antônio Vicente vamos encontrar sex shops, pôsteres, metralhadoras, calcinhas, aparelhos de TV e outras referências simbólicas e culturais, que formam um bric a brac da cidade caótica.

 

A paródia é um recurso utilizado com freqüência pelos dois autores, com ênfase na dessacralização religiosa, como na antiprece Santa Maria Joana, de Ademir Assunção (“erva santa dos xamãs / pode ser treva / pode ser canto / pode ser trava / pode ser cura”) ou na Reza n. 2 de Antônio Vicente Seraphim Pietroforte (“irmão Fogo / brasa do cigarro acesa / asa do carvão / sopro do carvão ao vento / na fumaça preta”).

 

O diálogo com a tradição literária também aparece em poemas como A volta do anjo torto, em que Ademir faz referências irônicas a Drummond e Torquato Neto (“mas eis que um anjo torto / aquele mesmo, com asas de avião / entrou pela porta / um baseado na mão”).

 

A presença da linguagem da história em quadrinhos é recorrente em todo o volume, não apenas nas ações rápidas e fragmentárias, como também pela citação de personagens como o Hulk, o Coringa, o King Kong, entre outros, em cenários reduzidos a poucos traços, como no poema O fim da história em Gotham City, de Ademir Assunção (“enquanto Coringa injeta no braço esquálido / a última gota da ampola / e Batman se retorce como uma cobra / picotada pelas garras das Iguanas de Hong Kong”).

 

“O clima de horror e ficção científica” da Musa chapada, segundo Virna Teixeira, “traz as marcas de uma escrita psicodélica”, em que as fronteiras entre o universo simbólico e o real são tênues. Porém, lendo com atenção este livro, o que notamos não é a fuga da realidade ordinária em busca de “estados alterados de consciência”, mas sim o mergulho lúcido e crítico numa realidade cada vez mais próxima dos pesadelos de uma bad trip.

 

 

*

 

 

Claudio Daniel, poeta e jornalista, publicou o livro Figuras Metálicas (Perspectiva, 2005), entre outros títulos.

 

 

já havia reparado nisso. mas não falo em desumanização, falo em demonização mesmo. além de mostrarem os usuarios como se fossem loucos, também tentam a todo custo passar a impressão de que são todos bandidos. tem jornal que ultimamente só noticia crimes cometidos por usuarios de drogas (desde o alcool até o crack), como se só eles cometessem crimes, e como se a responsabilidade disso fosse exclusivamente da droga. a midia quer reforçar a (falsa) ideia de droga altera carater (falsa porque ninguém prova). pelo visto ela está em campanha contra a legalização das drogas, e a favor de mais controle do consumo de drogas licitas. porque disso? eu quebro a cabeça e não descubro. as tvs ganham tanto dinheiro com propaganda de bebida, não entendo porque apóiam restrições ao seu consumo. se alguém puder me dar uma luz... (ps.: suspeito que tenha interesse politico-religioso por trás, já que as igrejas são as mais interessadas em abocanhar usuarios de drogas, e é de conhecimento publico que as tvs tão flertando com elas em busca de apoio das igrejas para os partidos da imprensa)

 

Comecei a ler e parei no 4º parágrafo. Depois de ler "Usuário de crack há mais de uma década, vivo e forte. Ao contrário do que se ouve por aí, de que essa droga mata em poucos anos" não tinha mais como continuar. É uma irresponsabilidade alguém escrever "ao contrário do que se ouve por aí" quando o assunto é droga. As pessoas que utilizam crack mesmo poucas vezes correm riscos de sofrer infarto, derrame, problemas respiratórios, câncer e problemas mentais sérios. Isso sem contar os que morrem assassinados pelos mais variados motivos relacionados às drogas. São MILHARES todos os anos! Sei lá qual é a intenção do texto mas usar um, dois ou dez exemplos de pessoas que sobrevivem e tirar disto que "ao contrário do que se ouve por aí" a droga não mata ou não mata rápido é um desastre que compromete todo o texto. Lamentável.

 

 Uso de crack supera 10 anos na Cracolândia, mostra pesquisaMortalidade dos usuários está mais ligada à violência do que aos prejuízos à saúde:

 

http://saude.ig.com.br/minhasaude/uso-de-crack-supera-10-anos-na-cracola...

 

É bom vc começar a revisar os seus conceitos.

 

Carlos, nao existe prática mais ignorante do que combater um mal com alarmismo. O mínimo que precisamos é encarar o problema sem usar de mentiras e exageros. 

Passou a impressão que você ficou decepcionado em saber que o crack não mata invariavelmente. 

Como dizia Zaratrusta:  o mundo é o que é e não o que queríamos que fosse. 


 

 

mas e se for a verdade? E o digo que é. Conheço várias pessoas que usam cocaína e crack diramente há muito mais de dez anos. Isto mesmo, várias. E não são a exceção não. Exceção é quem vai parar no fundo do poço. Mas é claro, pode-se considerar que a verdade é irresponsabilidade. Um dos maiores motivos que estas campanhas contra as drogas não terem efeito nenhum é justamente por quê ignoram a verdade.

 

Claro, eles não podem ser gente. Não podem ser conscientes. Se forem, como obrigá-los a se internar? Como justificar descer a borracha neles? Como justificar para nossos filhos aqueles bordões exagerados de que drogas acabam com a pessoa? Precisamos manter a hipocrisia. 

 

Se quiser ver uma clara (e repulsiva) desumanização dos usuários de crack basta ler os comentários dos leitores da Folha/UOL nas manchetes sobre a Cracolândia. O mínimo que pedem é espancamento para os craqueiros. Isso pra não falar dos que pregam pena de morte para os usuários e recebem centenas de "joinhas" dos demais leitores...

 

Primeiramente: FORA TEMER! E pra encerrar: FORA TEMER!

 

 Caro Rodrigo

 Parabéns pela inicitiva e a sinceridade em relação ao preconceito, que vem cheio de medos e estereotipias, veiculados pela nossa grande mídia e pelo distanciamento que temos da realidade. Quando enfrentamos os fantasmas de nossa mente não precisamos mais correr de medo deles. Já trabalhei com dependentes químicos há muitos anos atrás, no tempo que não existia o crack, e para que se tenha algum êxito no tratamento é necessário que nós também nos humanizemos, ou seja, a medida que nos relacionamos com o humano, nós também trabalhamos para nossa própria humanização.

Em relação à nossa cultura, paternalista e autoritária, fechada em si mesma tanto no aspecto subjetivo quanto objetivo ao viver cercados em bairros e condomínios, essa sua atitude rompe com séculos de atraso e na apropriação do espaço público em que se dá o exercício da cidadania. Estamos diante pois, não somente de um grupo de viciados em crack, mas de uma nova concepção de sociedade feita para seres humanos. E isso exige muita luta contra o arcaico que tenta se manter compulsivamente.

abraço,

Paulo

 

 

Raí,

"Aqueles excluídos não escolheram este tipo de vida, eles foram "jogados"lá, pela nossa hipócrita sociedade, que teme sequer passar algumas horas ao lado deles e saber o que se passa por suas mentes."

Ora Raí, eles escolheram sim o tipo de vida que querem. Usa droga quem quer. Eu bebo porque quero. Não fumo nem uso outra droga qualquer, porque não quero.

Acho que o estado deve oferecer tratamento, mas também deve reprimir a esculhambação que se tornou o lugar. Não se pode simplesmente anular um pedaço de São Paulo e liberar para os usuários de drogas. As outras pessoas também tem o direito de frequentar as ruas que ficaram ocupadas pelos usuários de crack, e que tem medo, acho que com justa razão, de andar por ali.

Sou a favor da liberação de qualquer droga. Usa quem quer.

 

Todo viciado fala essas coisas: "eu faço porque quero", "eu paro quando quiser"...

 

Raí, mas para que as pessoas possam fazer melhor suas escolhas políticas elas precisam de informação, que com certeza não virá da grande mídia, não concorda?

 

Eu morei durante um ano numa rua em Curitiba com grande concentração de usuários de crack. Circulava com frequência de noite e só fui abordado uma única vez por um usuário. Ele me pediu uma blusa pois fazia muito frio. Foi muito educado pedindo desculpas por me abordar em frente a minha casa. Conversamos um pouco e ele me contou que também morava em um apartamento, tinha emprego, família, mas que agora estava afundado no carck. Tinha perceita noção de sua situação. estava longe de ser um pobre coitado. Via pessoas de todos os tipos consumindo a droga e elas estão longe da demonização proposta pela grande mídia.

 

Rodrigo, do meu humilde cantinho, e de  uma certa e aparentemente segura distancia, acredito que a solução para este grave problema social, é mais do que o da pêrda do medo da aproximação com aqueles desamparados pela sociedade, é a vontade política, não só dos nossos administradores, mas tambem a dos eleitores, que na hora de escolherem seus representantes, não colocaram clara e textualmente, o que queriam deles: o comopromisso de começar um programa social amplo e contínuo de ataque a este mal, que ameaça os nossos filhos e netos, o de ver a droga e seus distribuidores, contaminar o futuro do país.


Se continuarmos a votar sempre nos "mesmos" e deles não exigir este compromisso, tudo continuará como dantes, na terra de Abrantes.


Aqueles excluídos não escolheram este tipo de vida, eles foram "jogados"lá, pela nossa hipócrita sociedade, que teme sequer passar algumas horas ao lado deles e saber o que se passa por suas mentes.


Teremos eleições municipais, no próximo ano, e gostaria de ver esta reinvindicação( um programa voltado para este sério problema, e não promessas inexequíveis) ser apresentada a quem porventura vier pedir o seu voto. Do contrário, não adianta reclamar. Você(eleitor) tambem é responsável ! 

 

Os poderosos  vieram na escuridão, e destruiram a única rosa do meu jardim; Depois vieram novamente às escondidas, e destruiram todas as minhas roseiras, porem jamais conseguirão impedir, a chegada da primavera.