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A guerra contra os imigrantes nos EUA

Do Envolverde

18/01/2011 - 10h01

A guerra contra os imigrantes nos EUA

Por Jorge Durand, do La Jornada

As reclamações contra os imigrantes nos EUA terminam quando o garçom serve a comida, a doméstica limpa a casa e o consumidor compra alfaces baratas no supermercado. A mão de obra mexicana é fundamental para que o sistema funcione. Mas não é indispensável. Há centenas de milhares de pobres no mundo que gostariam de estar no lugar dos mexicanos. E o sistema sabe disso, utilizando e manejando esse fato segundo sua conveniência. A única "vantagem" diferencial é que os mexicanos estão perto, são disponíveis e descartáveis. O artigo é de Jorge Durand.

Os Estados Unidos são um país guerreiro; saem de uma guerra para entrar em outra. Pode ser que esse seja o destino dos impérios, também em período de queda. Mas além dos inimigos externos, os EUA precisam de inimigos internos. Lembremos a época da proibição e da luta contra o álcool, o macarthismo, a guerra fria e o anticomunismo. Agora o perigo está na fronteira e os inimigos são os imigrantes ilegais.

Do mesmo modo que em outras épocas, as forças mais obscuras do conservadorismo levam o país do norte a situações extremas, a cometer erros históricos gigantescos que fomentam fanatismo, perseguição e violência. Muitos políticos republicanos se anunciar como verdadeiros conservadores, enquanto que os liberais, entre eles Barack Obama, sentem-se encurralados e não se atrevem a defender suas posições, e menos ainda a atacar frontalmente seus opositores.

Nas estradas dos Texas, enxergam-se anúncios com o rosto de Barack Obama desfigurado e agressivo com a legenda “socialista”. As campanhas mais absurdas, como a de acusar o presidente Obama de socialista por sua proposta de reforma do sistema de saúde, de acesso generalizado, encontram eco em amplos setores da população. E se Obama não soube ou não pode se defender, os imigrantes muitos menos, pois são os mais indefesos e vulneráveis.

A retórica da invasão de imigrantes pela fronteira com o México é acompanhada das operações Bloqueio, Guardião e, a mais agressiva, Defender a linha (Hold the line). Sobre esse tema, o antropólogo Leo Chávez analisa em seu livro Covering immigration dezenas de capas de revistas que falam de uma fronteira em crise, da necessidade de fechar a porta, de prevenir uma “invasão desde o México”, da preocupação porque a “América está mudando de cor”, e, a mais irônica, com a chamada “English spoken”, como se o país tivesse perdido a sua identidade.

Mas as reclamações contra os imigrantes terminam quando o garçom serve a comida, a doméstica limpa a casa e o consumidor compra alfaces baratas no supermercado. A mão de obra mexicana é fundamental para que o sistema funcione. Mas não é indispensável. Há centenas de milhares de pobres no mundo que gostariam de estar no lugar dos mexicanos. E o sistema sabe disso, utilizando e manejando esse fato segundo sua conveniência. A única vantagem diferencial é que nós, mexicanos, estamos perto, disponíveis e somos descartáveis. Trazer mão de obra da China, da Índia ou África teria custos adicionais e ela não poderia ser descartada com tanta facilidade.

A experiência indica que o melhor trabalhador é aquele sem documentos, que é tratado como ilegal e tem que se esconder, vive com medo, não pode reclamar e carece de direitos. As batidas policiais ocorrem nas fábricas, no comércio, nos restaurantes onde há trabalhadores em excesso, facilmente substituíveis. Há anos que não há batidas em zonas agrícolas, onde os trabalhadores são mais escassos e não há substituição. Cerca de 85% dos trabalhadores agrícolas dos EUA nasceram no México e a maioria deles não tem documentos. Esse é o nicho do mercado de trabalho que nos tem sido destinado há mais de um século.

Uma parte do problema reside no fato de que os imigrantes se tornaram visíveis e se dispersaram por todo o território estadunidense. No Texas e na Califórnia sempre houve presença mexicana, fazem parte da sociedade, da diversidade racial e cultural. Em Arkansas, Georgia, Alabama, Carolinas e outros novos estados de destino, os migrantes são os recém chegados, os estrangeiros. A raça de bronze altera o equilíbrio racial e ancestral entre brancos e negros. Mas por trás das atitudes contra os imigrantes e medidas legalistas há um conflito racial evidente.

Os afroamericanos aprenderam a levantar a voz contra qualquer evidência clara de agressão ou discriminação contra seus irmãos. Os latinos, muitas vezes, se inibem como grupo, carecem de suficiente representação política e os migrantes suportam calados as agressões. Há alguns anos, consegui compreender por que, quando se perguntava a um migrante mexicano se ele já havia se sentido discriminado, quase sempre respondia que não. A resposta me foi dada por outro migrante que já estava há muitos anos nos EUA e que me explicou que era uma questão de linguagem: se você não entende o insulto ou a agressão, o impacto é muito menor...Se não pode respondê-lo em inglês, fique quieto e aguente.

A reforma migratória converteu-se em um mito. Os republicanos afirmam que o tema só começará a ser debatido quando a fronteira estiver protegida. O que nunca vai ocorrer. Sempre haverá incidentes de fronteira. O muro está incompleto e não foi a solução. Além disso, por trás do muro é preciso ter um exército para vigiar 3 mil quilômetros de fronteira.

Não apenas isso. No interior dos EUA é preciso controlar e verificar que só se contrate gente com os papéis em ordem. Mas o sistema de verificação E-Verif é lento, complicado e tem muitos erros. Além disso, a tramitação tem que ser feita em linha, exigindo uma consulta telefônica e a espera de confirmação. Muitas pequenas empresas e empregadores não têm capacidade de fazer isso. São cerca de 10 milhões de trabalhadores que trabalham com um número falso da Previdência Social ou utilizam o número de outra pessoa, mas a imensa maioria paga impostos.

Os imigrantes irregulares subsidiaram com aproximadamente 200 bilhões de dólares o sistema de seguridade social. Esse dinheiro vai para um fundo, onde se acumula e se utiliza quando há solicitações. Mas os ilegais não podem solicitar e nunca terão direito a esse dinheiro ou à aposentadoria. Sem este dinheiro, o sistema de pensões dos EUA está quebrado.

Mas os argumentos monetários não contam quando se trata de migrantes irregulares. A falta de documentos é um pecado original que mancha para sempre a história de uma pessoa.

Tradução: Katarina Peixoto

(Envolverde/Agência Carta Maior)

http://www.envolverde.com.br/materia.php?cod=85660&edt=1

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  Embora o texto se refira somente aos E.U.A, o problema é de todo o mundo rico e branco, na França, a lei que proibe o uso do véu em locais públicos, na Itália a lei anti-imigração que possibilita que cidadãos façam "patrulhas" atrás de imigrantes ilegais, a retórica xenófoba na Alemanha, na Áustria, o muro que estão para construir na Grécia, o preconceito e racismo do mundo branco e rico contra todo o resto está, tomando dimensões alarmantes. 

 

Nassif,

alguma notícia sobre o tal muro entre a Grécia e a Turquia?

 

É realmente uma questão complexa, todos tem uma parte da razão. Os EUA são tradicionalmente um pais de imigração, foi construido por imigrantes que vieram em grandes ondas desde o fim da Guerra Civil, irlandeses, italianos, suecos, alemães, de todos os paises da Europa do Leste, mexicanos e latino americanos de todos os paises, são 40 milhões de imigrantes hoje, pessoas que moram nos EUA mas não nasceram nos EUA, estimados em 20 milhões de ilegais e 20 milhões de legais. É impressionante a visão de chineses em São francisco nas ruas, shoppings, restaurantes, o americano tradicional é exceção. Em Los Angeles e San Diego, iranianos, estima-se que um milhão vivam nos EUA, a maioria na California. 25% dos medicos e dentistas nos EUA são indus e paquistaneses. Na região de Dallas e de Houston, arabes da Peninsula e do Golfo Persico em abundancia, na primeira semana de janeiro vi uma festa de aniversario em um hotel com cerca de 400 arabes vestidos a carater, que moram em Dallas. Na Florida americano de origem inglesa é exceção, a base é cucaracha de todo lugar. Brasileiros são estimados em dois milhões nos EUA, em Washington dominam o setor de carpitaria e marcenaria, o patrão português e os empregados brasileiros. Taxista em Washington é 90% somali ou etiope, em New York paquistanês, afgão, arabe, tudo menos americano.

Para vc encontrar americanos tradicionais só em clubes de golfe, aonde barram imigrantes, mesmo ricos. Nenhum outro Pais do mundo tem tanto imigrante em numeros absolutos ou relativos ao total da população, portanto fica dificil outros paises quererem dar lição aos EUA nesse assunto.

Eles retrucam que continuam sendo um pais aberto que dá VISTO de entrada para um milhão de imigrantes por ano, pessoas que viajam aos EUA já com autorização para lá viver e trabalhar.

A loteria do greencard sorteia todo ano um bom numero de autorizações de residencia para quem se inscreve.

E não param de chegar migrantes, com crise ou sem crise.

É um macro problema e dentro deles surgem os idiotas, os radicais, os xenofobos mas a realidade é que o problema existe, não tem tanto emprego para mais gente entrar nos EUA e o problema é a posterior sobrecarga dos serviços de saude, escolas, policia, etc.

Os outros paises deveriam se perguntar porque não conseguem reter seus nacionais ao invés de criticar o Pais para onde seus jovens vão arricando tudo em buca de oportunidades, quer dizer, ainda acham que os EUA "decadente" como a esquerda adora falar é melhor que seus paises de nascimento.

 

Blá, blá, blá!
Os EUA pagam o preço da sua própria propaganda massiva pós segunda-guerra (filmes e publicidade) e exploraçao dos pobres do mundo. Para se extender o "padrao americano" de vida para todos no mundo, seriam necessários "apenas" 4 planetas iguais ao nosso. O "sistema americano" de ser/viver, se alimenta das diferenças brutais entre as naçoes...
Sempre digo que, um cidadao americano, trabalhando igualzinho à um brasileiro de mesma qualificaçao, ganha muito mais para fazer a mesma coisa. E pode comprar produtos muuuito mais baratos, pois sao produzidos por mao de obra quase escrava pelo mundo. Nao há praticamente mais nada "made in USA", podem reparar...
Mas aí, quando a conta chega, através das imigraçoes em busca do "Eldorado", nao querem mais brincar!

 

E me vem à lembrança o "Mi Viejo" Piero, em LP de 1972.

 

Esses imigrantes devem ser enquadrados como ?

Seriam os bárbaros que comeram ROMA por dentro e provocaram sua queda ?

Ou o exército industrial de reserva , profetizado por MARX ?

 

O tempo passou, não se reconstroe o passado no presente. Este ensinamento a historia dos grandes impérios nos dá. Assim virá neste processo um ditador para reconstruir o passado no presente e futuro. O problema é a necessidade de ter um inimigo para ser culpado pelas inglorias do presente.

 

Um império doente tem sintomas estranhos... enxerga inimigos externos, internos, escondidos e frontais, menos os próprios defeitos. Reflexo da natureza humana: estou sempre certo, errados estão os outros.