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A importância da leitura e da escrita

Do Envolverde

04/01/2011 - 10h01

A importância da leitura e da escrita

Por Vilmar Berna*, do Portal do Meio Ambiente

Para compreender, adequadamente, a importância da leitura e da escrita em nossas vidas, precisamos compreender que assim como o nosso corpo material precisa de alimento, o espiritual também. É importante aqui corrigir uma falsa idéia, a de que os termos 'espiritual' ou 'espiritualidade' referem-se exclusivamente ao seu sentido religioso. É compreensível que isso ocorra, por que é aí que os que têm fé na divindade elaboram e abrigam suas idéias e sentimentos em relação ao sagrado.

Entretanto, ateus também tem fé, por exemplo, de que o mundo pode ser melhor e de que as pessoas podem mudar. Possuem seu lado espiritual, só que no sentido não religioso do termo, onde elaboram idéias, afetos, esperanças. E também espiritualidade, no sentido da religação com a natureza, com o Cosmo.

OqueO que ressalto aqui é que nós e o mundo não somos feitos apenas de uma parte material que pode ser percebida pelos cinco sentidos, mas também das visões que temos desse mundo, de nós e dos outros. Por isso, nunca estamos prontos, mas na medida em que recebemos informações e estímulos, e vivenciamos experiências, construímos ou reconstruímos nossa visão de mundo.

Outra falsa idéia é a de que podemos comunicar a verdade. Podemos percebê-la, mas ao comunicar sobre ela, levamos junto uma parte de nossa subjetividade como observador. Então, não existe comunicação imparcial. O que é verdadeiro para um pode não ser para o outro. Por que, ao contrário do que se possa imaginar, a realidade como percebemos está em constante processo interno onde permanente é só a própria mudança.

Entre os grandes desafios para a humanidade é conseguir respeitar as diferenças entre os povos, as pessoas, as visões de mundo para que elas não se tornem obstáculos às relações. Por que não existe uma pessoa igual à outra, e também não pode existir verdade única, religião única, pensamento único. E isso inclui esta própria afirmação que acabo de fazer, daí a dificuldade de se andar em terreno firme e seguro quando o assunto é a subjetividade.

Então, ler e escrever é muito mais que dominar técnicas literárias, é obter as chaves desse mundo interior, de nossa verdade, e ter acesso a dos outros. Uma forma de nos ajudar a perceber, compreender e elaborar nossa própria subjetividade contribuindo para dar sentido ao mundo, a nós próprios e aos outros. Claro que existem outras formas de fazer isso, principalmente nas culturas orais, mas na cultura letrada, ler e escrever são fundamentais para ser e sentir-se adequadamente inseridos no mundo.

Precisamos disso, pois ao contrário do que possa imaginar, o processo de formação do sujeito é na verdade uma auto-formação. A educação, os livros, a cultura, os meios de comunicação exercem influências sobre nós, mas o que somos resulta de nossas escolhas. Comunicadores em geral, educadores, e escritores, em particular, cumprem com o papel social de nos ajudar a construir nossa subjetividade, nossa compreensão da verdade e utopias e, embora não escolham por nos, contribuem para iluminar nossos caminhos.

Outra falsa idéia é que a pratica é mais importante que a teoria. A prática começa nas idéias. A motivação para agir não está na própria ação, mas em nosso mundo interior. E como a leitura e a escrita nos conectam a este mundo, nos incentivam - ou não - a agir seja para manter as coisas como estão ou para mudá-las. Por isso, os primeiros a sofrerem censura e prisões em regimes opressores são os jornalistas, os artistas, incluindo os escritores, por que idéias podem ser armas mais poderosas que fuzis e granadas. Não é por um acaso que nos regimes democráticos exista tanta preocupação dos donos do poder de controlar os meios de comunicação.

A internet tem sido uma arma poderosa de resistência, uma forma de driblar a censura, algo inimaginável em outras épocas. Os poderosos estão tentando encontrar um jeito de impedir a liberdade na internet. Em países de regime totalitário certas palavras são bloqueadas pelos servidores e em países democráticos os poderosos estão buscando meios para impedir que informações desfavoráveis a eles continuem circulando na internet. Assistimos isso recentemente no episódio do Wikileaks, que criou um mecanismo aparentemente à prova de censura para a divulgação de segredos de Estado. Em vez dos poderosos escandalizarem-se com o fato de funcionários públicos estarem tramando em segredo contra o povo e a paz - usando funções públicas para cuidar de interesses privados, para se corromperem – para tentarem aperfeiçoar sistemas de controle democrático a fim de  se livrarem das falhas do sistema, tentam por todos os meios - inclusive ocultos - de criminalizar os que democratizaram a informação secreta.

Um de nossos maiores desafios é aos escrevermos, ou falarmos, expressarmos o que estamos pensando ou sentindo. Por mais incrível que pareça, tem gente que diz uma coisa e pensa ou sente outra diferente. Por isso não nos comunicamos apenas com a fala ou a escrita, mas também com os gestos, os olhares, o tom de voz. E é aí que a internet e a escrita, por mais importantes que sejam para a comunicação, não substituem o contato pessoal, o olho no olho.

Espressar-se na forma escrita não é um simples ato de colocar palavras num papel ou digitar num teclado. A maior parte da ação de escrever é invisível para os olhos, acontece no mundo interior de quem escreve e pode refletir este esforço de buscar o equilíbrio entre as emoções, o pensamento e as praticas.

E mais. Com os blogs e as ferramentas de busca, escrever e ser lido tornaram-se atos quase simultâneos. Antes, o intervalo de tempo entre um e outro podia levar anos e dependia do escritor ter a sorte de encontrar um editor para intermediar seu acesso aos leitores. Além de contribuir para a democratização da informação e do pensamento, a internet, os novos celulares, a banda larga, tem facilitado a vida de quem gosta de escrever e quer ser lido. Publicar deixou de ser privilégio de poucos.

Escrever assemelha-se a alguém que organiza uma casa desarrumada. Arrasta e empurra idéias de um lado para o outro, constroem e reconstroem pensamentos, sonhos, como quem movimenta os móveis. E só depois de estar cheio dessas idéias, e quando elas começam a fazer sentido, é que a pessoa se sente pronta, na verdade, quase que obrigada a escrever, como uma espécie de libertação da mente. E aí começa outra etapa importante, a de garimpar as palavras mais certas e apropriadas para transmitir a mensagem. A chance de acertar logo de primeira é a mesma de um garimpeiro achar uma pepita de ouro na primeira tentativa.

Alguns chegam a comparar o ato de escrever com o nascimento de um filho. O período da gestação é o tempo gasto na elaboração das idéias e o parto é o ato de colocá-las para fora.

Pablo Neruda dizia que escrever é fácil, começa com letra maiúscula e acaba com um ponto e no meio se colocam idéias.

As idéias nascem em nós, nos outros autores e também estão por aí, ao alcance de todos que estiverem dispostos a ser veículo para elas.

Algumas idéias são tão universais que se repetem em vários escritos, povos e culturas diferentes, e independente do tempo e lugar, permanecem atuais e válidas para todos.

O ideal é quando o escritor consegue reunir à sua volta pessoas que compreendem que o ato de escrever não é apenas físico, mas requer recolhimento, silêncio interior, para ouvir-se e ouvir seus fantasmas, angústias, desejos, 'conversar' com seus amigos espirituais. Assim, para quem não conhece sobre o ato de escrever, pode parecer estranho quando o escritor se recolhe neste seu mundo, pois externamente, pode parecer que está distante e desinteressado sobre as pessoas ou ao que acontece à sua volta, mas pode ocorrer exatamente o contrário. Para um escritor os acontecimentos do cotidiano não costumam passar despercebidos, pois a vida é o seu laboratório.

E, assim como construimos redes de afetos no mundo físico, também o fazemos no mundo espiritual. Os escritores que gostamos formam nossa espécie de rede de 'amigos' espirituais, com os quais compartilhamos idéias, afinidades e valores, ainda que muitos já possam ter morrido a milênios ou vivam do outro lado do Planeta. Por isso, um escritor nunca esta só em seu mundo interior e ainda que tirem tudo dele, e aprisionem seu corpo, como já aconteceu muitas vezes nas Ditaduras, podem se refugiar em seu mundo interior, onde são livres, e, assim, sobreviverem espiritual e intelectualmente.

Mais que escrever para seu próprio prazer escreve-se por necessidade e dever. Escrever é a função social do escritor, seja para entreter, seja para ajudar na analise da conjuntura, mostrar alternativas, denunciar as falsas idéias e injustiças. Por isso, um texto não está completo quando é divulgado, mas quando é lido. E quando isso acontece, nenhum texto é igual ao outro, pois ao passar pelos olhos e pelo mundo interior do leitor, ganha nuances e identidade própria e particular.

Um mesmo texto lido por diferentes leitores será compreendido de forma diferente. Um texto que alguém ache maravilhoso pode ser comum para outra pessoa.

Sem os leitores, os textos não vão a lugar algum, não transformam coisa alguma, não amam nem são felizes. Não são os textos que mudam as coisas. São as pessoas.

* Vilmar Sidnei Demamam Berna é escritor e jornalista, fundou a REBIA - Rede Brasileira de Informação Ambiental e edita deste janeiro de 1996 a Revista do Meio Ambiente (que substituiu o Jornal do Meio Ambiente) e o Portal do Meio Ambiente (http://www.portaldomeioambiente.org.br/).  Em 1999, recebeu no Japão o Prêmio Global 500 da ONU Para o Meio Ambiente e, em 2003, o Prêmio Verde das Américas –http://www.escritorvilmarberna.com.br/

(Envolverde/O autor)

http://www.envolverde.com.br/materia.php?cod=85208&edt=1

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Comentários

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LKNDS e nois Mermo mané

 

amo  a lua  amo  o  luar  amo  vc  em prrimeiro  lugar

 

Bom, mais ci língua a jenti devi iscrevê? A língua di Portugau, ou a du Braziu?

Na iscola a jenti pasa a vida aprendendu a  falá uma coiza i iscrevê outra.  Daí, pra jenti pensá uma coiza i iscrevê  outra, é só um picenu pasu...

 

Pois é, esse direito Lula esqueceu de proporcionar ao povo brasileiro. Poderia ter sido o quarto presicente da América do Sul( e até o primeiro) a acabar com o analfabetismo.

Já pensou a cara da Zélite se o ''analfabeto'', depois de tantos doutores, ociólogos presidentes, se o ''ignorante'' desse a seu povo o direito de expressar seus sentimentos através da escrita. Fica pra 2018...

NÃO,isto é muito importante ,não dá pra esperar!

 

Bacana o texto.

 

“Um mesmo texto lido por diferentes leitores será compreendido de forma diferente. Um texto que alguém ache maravilhoso pode ser comum para outra pessoa”.

Concordo com a primeira frase. Com a segunda... acho difícil alguém achar comum ou não gostar deste texto. Ele é de uma compreensão profunda, qualidade bem inerente ao autor. Não é à toa que Vilmar Sidnei Demamam Berna desenvolve um trabalho tão rico e importante na área ambiental através da Rebia, da Revista do Meio Ambiente e do Portal do Meio Ambiente. A mídia carece de Bernas, Nassisfes e outros jornalistas comprometidos com a difícil tarefa de comunicar educando.

 

Martim Assueros

Raquel, não sei se caberia aqui, mas achei o texto lindo. 

SAbe, não sei se vem ao caso mas gostaria de contar uma histórinha que vivenciei com o meu filho....quando ele era pequeno, uns 6-7 anos, ele atravessou uma porta de vidro.  Entrei em pânico pois era sangue pra todo lado.  Minha primeira reação foi pegá-lo no colo,imediatamente  colocá-lo no carro e levá-lo  para o hospital.  Felizmente era mais sangue que machucados mas mesmo assim levou um bom tanto de pontos....mas, enquanto segurava sua mão, enquanto o médico e as enfermeiras o limpavam, iniciei um bombardeio de perguntas...querido, tudo bem??  Aonde dói?? Vc tá sentindo alguma coisa esquisita??  E, por aí vai....e de repente, ele, deitadinho ali, naquela maca, vira e me fala...mão eu não sei falar!!!!  Naquela pequena frase, tive um clique....não é que ele não sabia falar, ele simplesmente não possui as palavras que eu queria ouvir...ele não tinha palavras para me explicar...acredito que no pequeno mundo dele, dentro do seu pequeno conhecimento, ele não sabia me responder o que eu queria ouvir...pois na verdade eu gostaria que ele me dissesse... minha costela não dói....minha barriga tá tudo bem....estou enxergando normalmente....não sinto dor alguma no coração e por aí vai...meu mundo adulto, cobrava dele palavras,informaçoes que ele, naquela idade e naquele estado não sabia responder....depois disto, depois deste despertar....sempre me pego imaginando como é difícil para uma pessoa ser privada do conhecimento....como é injusto.....uma pessoa que não tem acesso à informação por não saber ler e escrever ou simplesmente não ter acesso por não ter uma bagagem que lhe permita entender o que acontece....é muito triste.  Privar alguem do conhecimento, na interpretação de um texto, da leitura de um livro, jornal, revista, blog...seja lá o que for.... até de um outdoor....é simplesmente um crime. 

Agora, por outro lado, sempre desconfio daquele que usa seus títulos para pautar algum debate......se precisa usar de tal expediente, provavelmente não sabe nada.

 

Justo a mim coube ser eu!!! Mafalda

Dê:

Seu depoimento me fez lembrar de quando trabalhei em uma campanha de combate a dengue, na periferia de Brasilia. Tinhamos de dar explicações de como evitar a proliferação do mosquito e eu falava, falava e ao final via nos olhos das pessoas que elas não tinham entendido nada ! E eu falava português ! Eu saía arrasada, com vontade de chorar, sentido-me inútil, pois o que explicava era como da água limpa acumulada nascia o mosquito. Mas ao final, aprendi uma forma eficaz de me fazer entender, acho. Mas os olhos daquelas pessoas quando, depois da explicação, eu perguntava sorrindo: você entendeu ? E elas abaixavam os olhos para o chão... nunca esquecerei. Por fim, concordo com o texto. Parabéns a Raquel que nos apresentou tão bom trabalho.

 

Dê,

Você é muito gentil. Eu sei que eu ponho textos grandes e de temas que não dão ibope. Só que eu acho os assuntos bem pertinentes e o Nassif também deve achar, né? Senão não transformaria em posts.

O mundo adulto as vezes é meio cruel, sabe? Conveciona certas coisas como padrões e tudo o que fica de fora...

Bem, fica de fora e é renegado.

Leitura e escrita são parametros de linguagem aceitos na nossa sociedade. E não todo escrever e ler que é o certo. Apenas a "norma culta". Cabe aos renegados, as crianças e os poetas, subverter essa situação para nos livrarmos da chatice.

Achei que o seu filho devia ter ficado mais nervoso com a situação do que qualquer outra coisa. Como vc disse a pressão que ele sentia era de te confortar na língua que você entendia.

Tem criança que joga essa convenção para o alto e cria uma lingua própria.

Uma vez no trabalho, uma menina me contou ( ela não tinha idade de menina, mas eu chamo quase todas de menina) que o filho dela quando estava aprendendo a falar criava palavras próprias. Um exemplo: quando era para se referir a água, ele dizia (tô inventado) : grara. Ele fazia isso com diversas outras palavras. O que achei mais interessante de todo o relato era como a linguagem para nós é uma coisa inata. O menino devia ter uns dois aninhos mais ou menos e já tinha um poder de síntese   para  convencionar aquela coisa do cotidiano dele em uma palavra inventada. E ele sempre lembrava do que tinha inventado e fazia bom uso do seu próprio termo.

O ser humano já nasce com a habilidade para a linguagem. Só que ela moldada através da cultura de leitura e escrita. E isso fez com diversas das nossas atividades pudessem ser realizadas apenas por esses parâmetros. Talvez se tivessemos inventado outra maneira de nos comunicarmos, desenvolveriamos outras ações que hoje nós desconhecemos.

Não conheço muita coisa de semiótica, nem de história da escrita para te falar com maior profundidade. Mas o papo é bom e se galera pudesse contribuir , as coisas poderiam ficar mais divertidas.

 

Beijos e fico muito feliz que tenha gostado do texto que eu achei.

 

"Para ser tolerante, é preciso fixar os limites do intolerável." (Umberto Eco)"

Minha filha chamava água de agú, leite de bit e assim por diante..o mais engraçado é que passei a entender tudo.  Uma vez que estabelecemos contato, falamos em qualquer língua.  Incrível!!!

bjus

PS. o importante é que o texto é muito bom, tão bom que já colei e passei para uma grande amiga minha  que, tenho certeza, irá adorar.  Pelo mesmo para mim, foi ótimo!!!

 

Justo a mim coube ser eu!!! Mafalda

O que esse camarada escreve aqui, acho que tem um pouco a ver com o texto publicado..:

.

HUMILDADE intelectual

* Marcos Fabrício Lopes da Silva

Crítica construtiva é redundante. Quando é destrutiva, não existe mais a crítica. A discussão de ideias sai de cena. Entram em campo a concentração ideológica e a fulanização do debate. Os debatedores se esquivam do diálogo radical e promovem a desconversa superficial. Isso pode piorar quando o lance descamba para um triste combate, transformando os envolvidos em adversários ou combatentes. Um festival de farpas e agressões gratuitas, além de injúrias, calúnias e difamações passam a invadir o espaço que deveria ser propício ao distanciamento analítico e ao envolvimento argumentativo de questões relevantes ao bem comum.

Oscar Wilde tem um aforismo desconcertante que sinaliza para a noção de que a inteligência, diferentemente da expectativa cristalizada do senso comum, é a arte de plantar pontos finais para colher reticências: “só os que perderam a cabeça sabem raciocionar”. Cabeça feita é oficina da cretinice.

Ousado, com determinação, sem ser determinista – assim caracterizo o livre-pensador. Para este sujeito criativo, não há simplesmente um objeto de estudo a ser explorado, e sim uma causa de vida a ser esmiuçada. Pesquisar é namorar o silêncio de ouro e não “ficar” com a fala de touro. Integrando esse ritual reflexivo, o método se configura como um professor de dança que pode contribuir com a disciplina necessária à liberdade dançarina de quem pesquisa. Pensador não descarta, recicla. Respeita o acaso sem temê-lo. Diferentemente de remoer, quem filosofa matuta, rumina. Digere com vagar o alimento, misteriosamente estranho, deliciosamente familiar.

Saber pensar não é dominar o assunto, mas compreender as entrelinhas do tema em discussão. É saber interferir inteligentemente no andamento dos fatos, abordando zelosamente as feridas biopsicossociais do nosso cotidiano, diagnosticando-as com esmero e espírito de superação, buscando também enaltecer os feitos coletivos que merecem ser ressaltados de maneira ampla e exemplar. Conforme adverte Ricardo Evangelista, no poema Profecias de um sertanejo, “quem poda a esperança semeia indignação”. A indignação está para a cultura da reclamação e o passageiro calor da hora, assim como o inconformismo está para a perene chama transformadora e a cultura da crítica embasada. Quem sabe pensar não age por mero fazer ou por força do hábito. O pensador procura sair do automatismo da ação pela ação. É preciso saber por que e como se faz o que se pretende realizar. Ou seja, o que interessa é a reflexão especulativa e a potência do agir, disciplinando os sentimentos de impotência e onipotência que fundamentam as extremidades da condição humana. Nesse sentido, convém trazer à baila a sábia dúvida, que tem o importante papel de desarticular o vício da convicção. Para além da escolaridade, saber pensar exige principalmente educação. Muito mais do que possuir berço esplêndido, é preciso adquirir sabedoria de manjedoura, conhecida também como humildade intelectual.

Com humildade intelectual, o conhecimento se transforma em sabedoria. Com esforços acadêmicos e não acadêmicos, saber pensar significa reconhecer de maneira sagaz as relevâncias contextuais do fato a ser contemplado e experimentado de forma ativa.

O educador Pedro Demo, no livro Saber pensar, aponta ainda outras características caras à virtude reflexiva como enfrentamento da força do hábito: a) ver longe para além das aparências; b) perceber a greta das coisas; c) inferir texto inteiro de simples palavra; d) olhar por trás, fazer o caminho inverso, desfazer a trama, ler o problema; e) surpreender a luz escondida na sombra; f) deduzir da falta a presença de alguém. Quem sabe pensar não busca apenas a convergência entre os pontos de vista. Mais interessante do que isso é identificar e avaliar as divergências, os nós conflitantes existentes nas vozes autorais expressas e silenciadas.

Anda em baixa no processo educacional a humildade intelectual devido à deformação continuada de indivíduos especialistas em endeusar ou demonizar algo ou alguém e analfabetos em humanizar os fatos e os envolvidos em tais episódios. Na preocupação de se encontrarem os culpados, encobre-se a responsabilidade solidária a respeito de tudo que se passa entre nós. Enquanto o parasitismo social vigente alimenta o sistema competitivo, marcado pelo padrão “perde-ganha”, eliminam-se oportunidades valiosas para a prática do mutualismo comunitário, que encontra respaldo no princípio cooperativo, simbolizado pela relação “ganha-ganha”, sendo esta a tônica do verdadeiro espírito esportivo.

Sabido é o humilde que sabe que o sabichão não sabe nada. Como, então, identificar os soberbos de plantão? Na voz marcante de Aline Calixto, a composição Saber ganhar, de Eduardo Krieger, oferece o mapa da mina: “Você sabe perder/ Tem fé pra recomeçar/ O difícil pra você/ É saber ganhar/ É saber ganhar/ Se você perde/ Na humildade se apresenta/ E de novo você tenta/ Sem vaidade e sem rancor/ Mas quando ganha/ Chega a me causar espanto/ Pois seu ego infla tanto/ Pensa que é superior/ Põe sua cabeça no lugar/ É fácil saber perder/ Difícil é saber ganhar”.

Para os prepotentes, a escola da vida é uma agência fomentadora de egos e os diplomas são tapetes vermelhos por onde desfilam vaidosos “com um anel no dedo e um DR no nome”, conforme bem observam Accioly Neto e Santana, na canção Xote universitário. Para os humildes, a escola da vida forma sujeitos descolados, eternos aprendizes de como se dá nó em pingo d’água, sem chover no molhado, como faz o mandachuva. Nesse tipo de estudo, recebe certificado quem sabe construir alianças para que todos desfrutem do tapete mágico rumo ao mundo encantado da instrução compartilhada.

* Jornalista formado pelo Centro Universitário de Brasília (UniCEUB). Doutorando e mestre em Estudos Literários/Literatura Brasileira pela Faculdade de Letras da UFMG.

 

Muito bom texto!