newsletter

A paisagem cultural brasileira

Por Julio Cesar Macedo Amorim

Da Revista Cult

A transformação da paisagem cultural brasileira

O governo Lula foi marcado por uma política cultural de Estado e não de governo

Por Laymert Garcia dos Santos, doutor pela Universidade de Paris 7 e professor de sociologia da Unicamp. É autor, entre outros, de Politizar as Novas Tecnologias (Editora 34, 2003).

A elite brasileira costuma considerar a cultura em duas chaves: como cultura superior, ela é ornamento de luxo, ilustração, traço de distinção; como cultura de massa, é produto de consumo, mercadoria, na lógica da indústria cultural e do entertainment. E foi também nessa perspectiva que os sucessivos governos trataram a cultura brasileira, desde os tempos da ditadura. Até o governo Lula. Por isso mesmo, em termos propriamente culturais, o Ministério da Cultura foi irrelevante desde sua criação em 1985. Foi preciso esperar a ascensão de um presidente-operário e a nomeação de um ministro “negromestiço”para que, enfim, o país tivesse uma política de Estado para a cultura, à altura da riqueza, da diversidade e da inventividade do povo brasileiro. Como se a elite colonizada-colonizadora fosse incapaz de reconhecer a importância estratégica da cultura para a construção de uma nação e de um futuro.

Basta ler o discurso de posse de Gilberto Gil como ministro da Cultura, em 2 de janeiro de 2003, para perceber que uma página foi virada e que entrávamos numa nova era. Olhando pelo retrovisor, sete anos e meio depois, fica evidente que tudo já estava lá, nesse discurso que as gerações vindouras certamente vão definir como histórico. Com efeito, descartando as concepções dominantes, Gil colocou a cultura numa outra dimensão e o ministério num outro patamar. E se isso até hoje não foi captado com clareza por todos os setores da sociedade brasileira, foi porque a existência de uma política cultural verdadeira contou com a incompreensão, mas também com a má fé dos lobbies e dos interesses estabelecidos, que não queriam mudança alguma e desejavam a manutenção de uma hegemonia anacrônica, que passava a ser contrariada. Gil entendeu que fora escolhido precisamente por um homem do povo “e que, como o seu povo, jamais abriu mão da aventura, do fascínio e do desafio do novo”. “E é por isso”- disse ele - “que assumo, como uma das minhas tarefas centrais, aqui, tirar o Ministério da Cultura da distância em que ele se encontra, hoje, do dia a dia dos brasileiros”.

ValvaValendo-se de um conceito antropológico de cultura (à maneira de Darcy Ribeiro), ancorado no nosso saber e no saber fazer, nos nossos gestos, nos nossos jeitos, Gil pensa a cultura como “usina de símbolos de um povo” e, por isso, propôs que o ministério fosse “como uma luz que revela, no passado e no presente, as coisas e os signos que fizeram e fazem, do Brasil, o Brasil”. E formulou, com a cúpula do MinC – que tinha como secretário-executivo Juca Ferreira, posteriormente seu sucessor na pasta -, as linhas mestras de uma estratégia que encarasse de frente o paradoxo central da questão cultural no Brasil: um povo detentor de imensa criatividade, mas sem acesso à produção cultural! Um povo que nunca pôde ir ao cinema, nunca entrou num teatro, nunca viu uma exposição e que, no entanto, inventou, por exemplo, a escola de samba (“escola da vida”), essa ópera de rua fantástica, encenada por milhares de pessoas, que transforma miséria em riqueza, falta em abundância, negatividade em afirmação. Enfrentar o paradoxo significava colocar a pergunta: o que faria um povo com tanto potencial e capaz de tanta potência se tivesse, além do acesso aos meios, o reconhecimento de seu valor?

Nem o Estado nem o mercado haviam até então colocado a questão nesses termos. Assim, durante os primeiros anos, foi preciso desenhar uma estratégia cultural de Estado, não de governo, isto é, um conjunto de políticas públicas que tornasse o MinC uma instituição capaz de mobilizar as forças culturais existentes no país, em vez de continuar como mero repassador de verbas públicas para o setor privado, no velho esquema clientelista. Para tanto, foi preciso, antes de tudo, construir inteligência no âmbito do próprio ministério, atraindo jovens profissionais bem preparados e entusiasmados com a nova proposta, e refuncionalizando as estruturas remanescentes. Foi preciso, ainda, elaborar um amplo diagnóstico das condições de produção e de acesso aos bens culturais em todo o país, identificar os agentes culturais, as carências, os obstáculos e os pontos de estrangulamento, rever as legislações pertinentes (como a Lei Rouanet e a Lei do Direito Autoral). Foi preciso atentar para as manifestações da cultura não oficial, para as formas de expressão das periferias, como a pichação, o funk e o hip-hop, e construir as condições e os espaços para que a juventude e as populações tradicionais marginalizadas, como os povos indígenas e os quilombolas, começassem a articular o potencial da diversidade cultural com o potencial da cultura digital. Foi preciso abrir uma discussão pública nacional sobre o estado da cultura no Brasil, por meio do Conselho Nacional de Política Cultural. Foi preciso estimular as pesquisas sobre os temas contemporâneos e o papel das novas tecnologias por meio da abertura de editais que visavam financiar novos projetos. Foi preciso re-estruturar os museus, apoiar a arqueologia, repensar o incentivo ao cinema e ao teatro, reavaliar o papel das artes plásticas, encontrar uma solução para salvar a ameaçada Bienal de São Paulo, com uma parceria público-privada.

Em suma, o MinC passou, portanto, a investir na elaboração e execução de um apolítica cultural como parte de um projeto geral de construção do Brasil contemporâneo, isto é, de construção de uma nação que afirma a sua presença no mundo globalizado por meio de uma diferença específica, de seus potenciais, de seus recursos e de sua visão de futuro. Nesse sentido, vale também assinalar que, desde o início do governo Lula, a estratégia do ministério sempre esteve em sintonia direta com a nova política externa desenhada pelo Itamaraty e que agora se explicita com a entrada do Brasil no tabuleiro geopolítico mundial como um país de peso. Por isso, o MinC teve um papel central na promulgação da Convenção sobre a Proteção e Promoção da Diversidade das Expressões Culturais da Unesco, aprovou em 2009 o selo Mercosul Cultural, realizou o Ano do Brasil na França, em 2005, e a Copa da Cultura na Alemanha, em 2006.

Um rápido balanço das realizações levadas a cabo pelo MinC durante as gestões de Gilberto Gil e Juca Ferreira permite captar de que modo a estratégia se traduziu em ações concretas e avaliar a atuação do ministério em várias frentes. Num plano mais geral, cabe assinalar que a consolidação institucional de uma política cultural pública se dá numa época em que a cultura se torna cada vez mais relevante do ponto de vista econômico. Assim, de 1994 a 2008, a participação do setor no PIB aumentou de 0,8% para 4%. Outro indicador importante: entre 2003 e 2008, a renúncia fiscal mobilizada para a produção cultural aumentou de 300 milhões de reais para 1 bilhão de reais. Portanto, o projeto do MinC inscreve-se num processo de transformação socioeconômico que o crítico literário e político marxista americano F. Jameson qualificou como “a virada cultural”do modo de produção.

Ora, o esforço de mobilização e de atualização dos agentes culturais de todo o Brasil para essa nova realidade se fez por meio da realização da primeira Conferência Nacional de Cultura, em 2007, e a segunda em 2010. Esse amplo processo de discussão e de consulta desembocou, por um lado, no Plano Nacional de Cultura, que visa implementar o Sistema Nacional de Cultura (já apoiado por 21 Estados e 1.971 Municípios) e, por outro, no projeto de lei do Programa Nacional de Fomento e Incentivo à Cultura (Procultura), enviado ao Congresso Nacional, que visa corrigir as distorções da Lei Rouanet. Os adversários da nova política do MinC costumam combatê-la agitando o velho espantalho do “dirigismo estatal”, do “perigo”do “autoritarismo”, da ameaça à “liberdade de expressão”e à “livre-iniciativa”; mas ignoram sistematicamente o caráter democrático de uma proposta que pretende promover uma melhor distribuição do dinheiro público captado por meio da Lei Rouanet, combatendo a exclusão e a concentração cultural no Brasil.

Com efeito, pouca gente sabe que:

  1. de cada 10 reais investidos em cultura, 9,50 reais são públicos e 50 centavos são dinheiro do patrocinador privado;

  2. do 1 bilhão de reais anuais de renúncia fiscal, 80% vão para a Região Sudeste;

  3. só 14% dos recursos da renúncia fiscal vão para 30 segmentos que, somados, compreendem, entre outros, patrimônio, cultura popular, cultura afro-brasileira, cultura indígena, acervos, artesanato, bibliotecas, restauro, distribuição e exibição audiovisuais;

  4. a constituição de fundos setoriais permitiria uma redistribuição mais justa e quantitativa dos recursos, beneficiando regiões, populações, atividades e áreas até então excluídas ou desfavorecidas pelos mecanismos atuais;

  5. critérios explícitos e transparentes de aplicação desses recursos fortalecem a cidadania cultural e estimulam a inclusão sem demagogia, assistencialismo e a “filantropia” marqueteira que caracteriza muitos dos projetos financiados hoje pela Lei Rouanet.

O congresso deve se pronunciar proximamente sobre o novo enquadramento jurídico da cultura. Se aprovado, as bases para um salto cultural do país estarão lançadas. Mas o disparo já foi dado: de todas as iniciativas do MinC, a meu ver a mais original e promissora foi a criação de 2.500 Pontos de Cultura pelo Brasil afora, abrindo para 8 milhões de pessoas oportunidades de acesso à produção e à fruição de bens culturais. A meta é criar 5 mil pontos adicionais, no mínimo um por município. Se pensarmos que a eles devem se somar a adoção do Vale-Cultura e a ampliação do acesso à banda larga móvel para 125 milhões de pessoas, não restam dúvidas de que o MinC está mudando a paisagem cultural brasileira. O surto de criatividade que deve surgir nessas condições será contaminado pela dinâmica de um país emergente que já emergiu. Em termos de nossa inserção na segunda globalização, isso é importantíssimo. Afinal, será por meio da sua cultura que o Brasil poderá, mundialmente, dizer a que veio.

Média: 5 (1 voto)
30 comentário(s)

Comentários

Comentar

O conteúdo deste campo é privado e não será exibido ao público.
+30 comentários

proprio nome ja diz cultural
sao aquelas que não foram desenhadas  pela propria natureza
as dunas as praias as montanhas... enfim tudo que vc ve por ai que tenha  o dedo do homem no meio e cultural feita pela propria mão do homem. uma  paisagem cultural  que vc pode observar é o sapato o carro enfim tudo isso que esta escrito deve ser uma coisa de paisagem cultural de verdade tenho 11 ano mais gosto de responder quando sei!Equando o homem não modifica(deixando o que é natural por cultural)natural é uma coisa que é plantada pela natureza e cultural uma coisa feita pela mãodo homem....

 

eu queria saber se tem um texto menor para se explicar isso                                                                                      

 

sou uma criança

 

As políticas do MinC tiveram resultados excepcionais, e reconhecidos em todo o mundo.

Só faltou Laymert ou Nassif apontarem um aspecto importantíssimo em tempos de eleição: se o mandato presidencial era de Lula, ao longo dos oito anos o ministério foi dirigido por dois ministros do PV (Gil e Juca Ferreira), e estes foram vistos com séria desconfiança por setores do PT no início.

Estavam mais afeitos à ideia da "contrapartida social" de Gushiken, que por sorte perdeu a queda de braço pro Gilberto Gil, e pro desenvolvimento cultural em si como "contrapartida":
http://www.al.rs.gov.br/Dep/site/materia_antiga.asp?txtIDMateria=43976&txtIdDep=94

 

Pois é

Eu ando por ai e vejo por todos os lados essa"imensa revolução" realizada pelo MINC na cultura.

O povo escuta o que ha de melhor na musica brasileira.  Tom, João Gilberto, Milton são oferecidos para a massa. É uma maravilha.

No teatro então, não temos palavras. São milhares de novos autores incentivados pelo MINC.

O povo finalmente deixou de ser refém da sub cultura televisiva. As telenovelas estão em baixa, porque as massas invadem os teatros. Extraordinário.

Quanto as artes plasticas, não existem adjetivos para tantos êxitos. Grandes autênticos artistas surgem por todos os lados incentivados pelo MINC.

Nunca vi tanta cultura. Finalmente somos "reconhecidos em todo o mundo".

 

processo similar ocorreu quando a saude deixou de ser politica previdenciaria de governo, e passou a ser política universal de estado.

dai eu me referir sempre a Reforma Cultural, que é o que vivemos hoje. Ao menos muito claramente na Bahia

 

Bem

Eu só queria dar o meu modesto depoimento.Dizem que quem agrada meus filhos adoça minha boca. Tenho uma filha de 15 anos fã de cinema.Lembrei muito do Nassif perguntando sobre os atores da nova geração, ela sabe de tudo, entende de direção, de ângulo, usa termos técnicos que eu bóio completamente. Começou a se interessar de verdade por roteiros, por câmeras. Aí eu vi uma notinha minúscula no jornal falando de umas oficinas que iam ter no Teatro Solar Boa Vista, no Engenho Velho de Brotas( local histórico onde viveu o poeta Castro Alves na sua infância), inclusive com uma de Vídeo. Já tinha visto uns cursos, mas eram caros, exigiam material,eram longe. Pensei que era uma oficina "quebra-galho", mas já serviria pra dar uma idéia real do tema. Estou agradavelmente surpresa: professores excelentes, pontuais, assíduos, currículo rico, material de qualidade. Os alunos estão tendo a oportunidade de conhecer de verdade teoria e prática de cinema, como se fosse uma oficina dada na universidade ou bem paga. O Ponto de Cultura não é  demagogia pras massas, é curso sério com resultado visível, palpável.

aqui o link da Fundação Cultural , responsável pelo Solar

http://www.fundacaocultural.ba.gov.br/projetos/pontodecultura.htm

aqui o link do Blog do Solar e do Ponto de Cultura

http://blogdosolar.wordpress.com/ponto-de-cultura/

Ah, as oficinas?

Oficinas

Entre os dias 7 e 21 de junho estão abertas as inscrições para as oficinas do Ponto de Cultura. As oficinas oferecidas serão: Artes Visuais, Circo, Gestão Cultural, Produção Cultural, Comunicação, Design, Pesquisa e Memória, Direção Cênica, Cenografia , Criação de Figurino, Confecção de Figurino, Maquiagem Cênica, Criação de Trilha Sonora, Criação de Texto para teatro, Iluminação cênica e Vídeo. As inscrições poderão ser feitas das 10h as 19h, e as aulas começam dia 5 de julho e vão até outubro….

Estão abertas ainda inscrição para atores, que passarão por seleção nos dia 28, 29 e 30 de junho para participar do Núcleo de Formação de Atores – NUFA. Cheque as ementas e os horários das oficinas.

As inscrições são gratuitas!

Os professores são todos feras, Direção Cênica com Fernando Guerreiro, Iluminação Cênica com Marcelo Marfuz, Design Gráfico em Linux, ah, quanto custaria um curso desses se pago?Quatro meses!

E isso está acontecendo em todos os lugares da cidade e em todas as cidades, essa efervescência, essa POSSIBILIDADE.

 

isso é uma das pontas, ou eixos, da Reforma Cultural Bahiana de Sêo Marcio Meirelles.

 

Aninha Franco reclama. O baronato do Axe-Sistem nem reclama mais, e até ja ta contribuindo (o Eva sai sem corda terça-feira de carnaval de 2011...). Mas Aninha Franco fica de birra. É a Heloisa Helesa bahiana... 

 

Revista do Brasil n˚ 49/julho 2010

 

Entrevista: Celeiro de Cultura – por Antonio Martins

 

A secretária de Articulação Institucional do Ministério da Cultura (MinC), Silvana Meireles, tem uma pedreira pela frente. Depois de coordenar a Segunda Conferência Nacional de Cultura, realizada em março em Brasília, está incumbida de fazer andar no Congresso as leis que sacodem as relações entre o Estado e a cultura popular – e que podem repercutir muito na vida de milhões de brasileiros. As transformações começaram em 2003, quando Gilberto Gil assumiu o ministério. Desde então, os recursos públicos destinados pelo governo federal à área saltaram de R$ 287 milhões para R$ 2,5 bilhões, avançando de 0,2% para 1% do Orçamento da União. Mais importante, porém, foi a mudança na distribuição do bolo. Ministério recente, o MinC, criado em 1985, quase sempre reproduziu a visão bacharelesca e elitista de cultura que marcou o Brasil desde sua fundação. Seu papel era “iluminar o povo”, “levando” a ele as obras que supostamente expressavam o saber artístico da humanidade – depois, é claro, que essas produções circulassem comercialmente nos meios “eruditos”. Os recursos do ministério praticamente só patrocinavam filmes e peças teatrais de grandes diretores, orquestras sinfônicas, grandes mostras, museus.

Gil abriu os olhos (e o bolso) do MinC para a riqueza e a diversidade cultural brasileira. E o novo conceito adotado pelo ministério é muito bem expresso pelo programa Cultura Viva e seus Pontos de Cultura. O MinC reconhece como cultura todas as criações originais do ser humano. Enxerga numa moqueca capixaba, na obra de uma bordadeira, numa rádio comunitária ou num software inovador tanta sabedoria, habilidade, talento e poder de criação quanto pode haver numa sinfonia. E movido por essa ideia iniciou uma pequena revolução no uso dos recursos públicos. Por meio de concursos, mais de 2 mil iniciativas comunitárias espalhadas pelo país, foram transformadas em Pontos de Cultura. Recebem durante três anos um apoio financeiro que, embora pequeno em termos de orçamento público (R$ 60 mil anuais), é capaz de mover montanhas no trabalho de quem o recebe.

São, na maioria dos casos, coletivos culturais das periferias das metrópoles ou de regiões remotas. Vistos antes como meros espectadores das “belas-artes”, agora revelam a força e a diversidade da cultura brasileira. Utilizam os recursos públicos para se converter em grupos musicais, dedicados tanto a manifestações tradicionais, como o maracatu ou coco-de-umbigada, como ao rock ou ao rap. Articulam grupos de teatro e de dança. Animam rádios livres, sites e blogs. Produzem vídeos e jornais. Montam cooperativas especializadas em criar programas de computador. Atuam em quilombos e comunidades indígenas.

A transformação tem desdobramentos econômicos. Para os grupos ou comunidades participantes, significa novas ocupações (às vezes criativas e bem-remuneradas) e a possibilidade de desenvolver o empreendedorismo coletivo. Para o Brasil, abre a janela para uma nova vocação e um novo papel internacional. O país que sempre foi dependente no momento em que a indústria era o setor mais dinâmico da economia, pode ser um produtor destacado de bens simbólicos – cultura, conhecimento, comunicação, ideias, técnicas e afetos – na era pós industrial. Nesta entrevista, Silvana fala em detalhes sobre a Conferência Nacional e aborda um tema que agitará o ambiente da cultura nos próximos meses: a elaboração de uma nova lei de direitos autorais, após amplas consultas à sociedade – para desconforto de alguns cartéis da indústria cultural.

 

Qual o sentido de realizar uma Conferência nacional de Cultura a menos de um ano do fim de um governo?

Silvana: As conferências visam sacudir uma visão arcaica de política, segundo a qual a sociedade limita-se a eleger os governantes e deve esperar deles as decisões. O governo Lula não as inventou, mas realizou mais de 70 delas. São uma janela para a expressão direta da sociedade civil em meio ao nosso sistema institucional ainda fechado e baseado apenas na representação. Em nosso caso específico, a Conferência Nacional de Cultura comprova que a sociedade está disposta a debater temas complexos, sempre que há espaços reais de participação. Mais de 206 mil pessoas compareceram nas etapas municipais, estaduais – em todos os estados e em 3.117 municípios – e nacional. Se ainda faltava algum sinal de que cultura não é assunto apenas das elites, esse foi dado agora. Os trabalhos também mostraram que a sociedade está pronta para formular alternativas. Foram aprovadas centenas de recomendações, entre elas, a aprovação de um conjunto de leis e emendas à Constituição capazes de consolidar as conquistas dos últimos anos.

 

O que estabelecem essas propostas?

SM: Vamos começar pela Proposta de Emenda Constitucional (PEC) 416/05. Estabelece o Sistema Nacional de Cultura, que representa para nossa atividade algo tão importante quanto o SUS para a saúde. Na tradição do Estado brasileiro, cultura sempre foi tema secundário. Da União aos Municípios há estruturas permanentes para a educação, a saúde, a segurança e outras áreas. Mas nem todo município tem uma Secretaria de Cultura. Quando existem, as estruturas e políticas são vistas como concessões do prefeito. Se seu sucessor tiver outra proposta, a secretaria morre. Mas essa PEC não se limita a instituir secretarias de Cultura nos estados e municípios. A proposta determina a criação de fundos de apoio à cultura. Sintonizada com os novos tempos, institui a participação. Em cada esfera de governo haverá Conselhos de Política Cultural. Neles, 50% dos participantes deverão ser eleitos democraticamente e representar a sociedade civil. A PEC deixa para trás as visões bacharelescas de cultura e arte ao estabelecer 11 princípios para o Sistema Nacional de Cultura. Entre eles, o reconhecimento da diversidade das expressões culturais e garantia da universalização de acesso aos bens e serviços da cultura.

 

Qual a diferença entre o Sistema e o Plano Nacional de Cultura?

SM: O Sistema reprsenta uma mudança institucional profunda e de longo prazo. O Plano Nacional de Cultura, expresso no Projeto de Lei (PL) 6.835/06, é um planejamento também ambicioso, mas com horizonte de 10 anos. Determina, por exemplo, que os próximos governantes continuem adotando políticas para garantir acesso de todos à cultura, e que se respeite e se promova a diversidade artística e cultural.

 

A mudança na Lei Rouanet é uma prioridade?

SM: Sem dúvidas. Essa lei está há 18 anos sem mudanças, e nesse período a cultura passou por enormes transformações. As mudanças estão expressas no Projeto de Lei (PL) 6.722/2010, que cria o Pró-Cultura, democratiza a política de financiamento, estabelece processos públicos para definir quais iniciativas receberão apoio financeiro e desconcentra a destinação dos recursos, evitando que a maior parte das verbas disponíveis irrigue um pequeno número de produtores. Ao longo dos anos, acumularam-se inúmeras distorções. Em tese, a Lei Rouanet estimula as empresas a investir em cultura. Na prática, poucas tiram do próprio bolso o que destinam ao setor. A maior parte dos recursos, quando não a totalidade, vem do Estado, por meio de renúncia fiscal. A empresa faz mecenato com dinheiro da sociedade. Criou-se uma indústria de projetos. Metade dos recursos – cerca de R$ 1 bilhão, em 2010 – é captada por apenas 3% dos produtores culturais, e 80% das verbas são canalizadas para Sul e Sudeste. Ao Nordeste, de enorme riqueza cultural, restam 6%. Os projetos têm méritos reais, mas que sejam, então, executados também com recursos da própria iniciativa privada.

 

Quais as alternativas?

SM: O projeto republicaniza a destinação do apoio cultural. Em vez de depender das empresas, artistas e produtores poderão buscar recursos num Fundo Nacional de Cultura, que além de patrocínio oferecerá bolsas e prêmios. A destinação dos recursos não será decidida apenas pelo Estado, mas por um conselho, no qual estarão representados 20 setores da sociedade com interesse nos financiamentos. E as obras que forem financiadas por recursos do Fundo Nacional de Cultura poderão ser oferecidas gratuitamente à população três anos depois de lançadas – ou em 18 meses, se o objetivo for educacional. Isso vale, por exemplo, para a reedição de um livro ou a exibição de um filme pela TV pública.

 

No processo de debate da nova Lei Rouanet surgiu a ideia do Vale-Cultura. A que se destina?

SM: O Vale-Cultura surgiu na mesma trilha, mas já se transformou num projeto próprio: é o PL 5.798/09. Apesar de todos os nossos avanços, não foi possível reverter, em oito anos, a elitização do acesso à cultura no país. É algo que tem a ver com a péssima distribuição de riqueza e renda. Assistir a um filme pesa muito no orçamento de uma família. Por isso, apenas 5% dos brasileiros já foram a museu, 13% vão regularmente ao cinema, e 17% compram livros. A nova lei oferece R$ 50 mensais a quem ganha até cinco salários mínimos. É um vale utilizável apenas para aquisição de bens culturais – um livro, o ingresso para um filme, peça ou show. Vem em cartão magnético, não pode ser convertido em dinheiro. Além de beneficiar dezenas de milhões de brasileiros, criará um circuito novo de cultura, onde estarão as maiorias, excluídas do mercado tradicional. Como costuma lembrar o ministro Juca Ferreira, este circuito viabilizará, por exemplo, a criação de cinemas nos bairros populares, a multiplicação de companhias de teatro e de pequenos editores de livros.

 

Há uma emenda específica para vinculação de berbas à cultura. Por quê?

SM: A Cultura recebe hoje 1% do Orçamento da União, cinco vezes mais do que no último governo. É preciso garantir esse patamar e ampliá-lo. A economia contemporânea tende cada vez mais para a produção simbólica. A efervescência e a diversidade cultural do Brasil podem ser uma grande vantagem internacional. Mas, para isso, é preciso estimular os produtores. Viver da produção de cultura deve ser uma alternativa, algo que um adolescente possa levar em conta tanto quanto ser metalúrgico ou servidor público, por exemplo. A PEC 150/2003 cria para a cultura uma vinculação de verbas semelhante à que existe em favor da educação ou da saúde. A União deverá destinar 2% de seu orçamento para a atividade; estados, 1,5%; e municípios, 1%. O pensamento tradicional rejeita a vinculação orçamentária porque ela restringe a margem de manobra dos gestores políticos e o desejo de liquidez da área econômica dos governos. Mas a Conferência Nacional de Cultura aprovou a PEC 150 em três instâncias – talvez por julgar que a vocação cultural da sociedade brasileira deva falar mais alto.

 

Por que o MinC está realizando consultas públicas visando a reforma da lei do direito autoral?

SM: A atual lei brasileira do lei autoral está defasada. O texto em vigor foi aprovado em 1998 e é uma atualização da legislação criada em 1973. Já não garante plenamente o direito do autor e não atende às necessidades da sociedade brasileira contemporânea. Coloca na ilegalidade uma série de práticas atuais, costumes banais como transportar músicas de um CD original adquirido para um tocador de MP3; copiar um CD para o pen-drive; fazer xerox de um livro esgotado para fins de estudo; ou exibir partes de um filme, com objetivos pedagógicos. Isso não pode perdurar, simplesmente porque a lei não acompanhou o surgimento e a evolução do ambiente digital e as novas possibilidades de trocas simbólicas e econômicas decorrentes. Queremos garantir os direitos aos criadores, permitindo a eles maior controle sobre sua criação. Ao mesmo tempo, julgamos que é indispensável assegurar aos cidadãos o acesso a bens culturais com segurança jurídica para usuários e investidores. A ampliação da segurança jurídica para investidores estimulará o desenvolvimento de novos modelos de negócios no ambiente digital, promovendo o fortalecimento da economia da cultura.

 

De que forma a mudança dessa lei poderá contribuir para um maior acesso da sociedade às obras artísticas?

SM: A proposta apresentada pelo Ministério da Cultura para consulta pública reconhece o direito da cópia individual e com isso garante o acesso da sociedade ao conhecimento, com segurança jurídica. A regulação estatal proposta no anteprojeto acaba com certos excessos dos detentores de direitos sobre determinadas obras. Por isso, ampliará as possibilidades de seu uso para fins didáticos. Por fim, o novo texto prevê a criminalização do “jabá” (pagamento para execução de determinadas músicas nas rádios e emissoras de TV). Todos sabem que esse vício submete a programação das rádios a um sistema de remunerações pouco ético e impede o usuário de ter acesso à diversidade cultural.

 

Saiba em que pé estão projetos que podem ampliar a produção cultural no país

 

Projeto

A quantas anda

Sistema Nacional de Cultura

PEC 416/05. Já passou por comissões especiais da Câmara e aguarda votação em plenário. Se aprovado, vai para o Senado.

Plano Nacional de Cultura

PL 6.835/2006. Já aprovado pela Câmara. Foi enviado ao Senado em junho.

Pró-Cultura

Altera e renova a Lei Rouanet. Está em debate na Câmara (PL 6.722/2010), comissões de Educação e Cultura e de Desenvolvimento.

Vale-Cultura

PL 5.798/2009. Aguarda votação no plenário da Câmara.

Vinculação de Verbas para a Cultura

PEC 150/2003. Sofre oposição dos setores que julgam ser prerrogativa de cada governante definir as prioridades orçamentárias. Apresentada há sete anos, passou apenas pela Comissão de Constituição e Justiça.

 

Obs.: a nova lei dos direito autoral ainda não está no legislativo. O governo está promovendo, antes, uma série de debates com a sociedade civil.

 

Li. ha algum tempo, numa discussão aqui no blog sobre cultura. uma afirmação do atual ministro dizendo que aprovava patrocínios com verbas publicas de shows de Ivete Sangalo,"porque não era Madre Teresa de Calcutá para financiar artista sem sucesso".

Jamais pensei escutar de um ministro uma declaração tão fora de proposito, em todos os sentidos.

Acredito não se tratar de algo inverídico, pois jamais foi negada a autoria da descabida afirmação.

O "doutor da universidade de Paris 7" que assina o post  viu acontecer uma enorme revolução na cultura desse pais. Não sei se ele assistiu tudo isso daqui mesmo ou sentado em alguma mesa de bistrô na França. Segundo ele, "foi preciso atentar para as manifestações da cultura não oficial, para as formas de expressão das periferias, como a pichação, o funk e o hip-hop".

Eu já acho que se ha tanta "pichação" e "hip-hop", que alias pouco tem de cultura brasileira, é exatamente porque trata-se do que sobra para o povo, sem o menor  apoio para as suas verdadeiras manifestações culturais.

Diferentemente do "doutor da universidade7" ando por esse pais e vejo maravilhosos artistas trabalhando sem o menor incentivo do governo, enquanto milhões e milhões são investidos em shows de "artistas de sucesso", como em espetáculos de teatro que nada mais são do que  uma extensão da programação da televisão e filmes realizados por diretores de telenovelas.

É uma tremenda inversão de valores. Atividades da industria do entretenimento são travestidas de culturais e promovidas com verbas publicas.

Esse pais empobreceu terrivelmente culturalmente. O senhor Gilberto Gil é  apenas bom cantor, mas como ministro não conseguiu nem melhorar uma virgula nas condições de trabalho dos próprios músicos.

Agora quando vejo tão rasgados elogios nos comentários a "essa imensa revolução cultural que aconteceu no pais", começo a pensar que ou estou no lugar errado ou estou discutindo em idiomas diferentes. Pessoas estão vendo um sol ardente, enquanto enxergo apenas um túnel escuro.

Mas afinal de que estou reclamando tanto? O "doutor da universidade 7" talvez tenha razão. "Pichando" muros e cantando "hip hop" "o povo" esta finalmente tendo acesso a "cultura".

Viva o glorioso Gil.

 

Caro Luiz Nassif,

Tenho a sorte de ser amigo do Célio Turino, criador, junto do Gil, do Programa Cultura Viva e do Ponto de Cultura. Hoje em dia é mais fácil entender e digerir essas ações, já que alguns países estão implantando essas ferramentas, o que por si só já demonstra a qualidade e seriedade dos mesmos. No The Guardian, da Inglaterra, em matéria de página inteira, a pergunta "o que a Inglaterra tem para aprender com o Brasil: Ponto de Cultura.

Programas como esses, que não receberam atenção da grande mídia (creio que por motivos óbvios de inversão de valores e  poderes contidos neles) deveriam se tornar, com os ajustes cabíveis, política de estado, permanentes, porém sem se engessar. Cultura é processo! Enquadrar a cultura é emparedar seu movimento, que deve ser livre e progressista.

Espero mesmo que as pessoas se atentem e se apeguem a cultura como vetor transformador do ser humano. Com a boa cultura podemos sim transformar essas pobres cabelas que pensam que a vida é dinheiro, aparências, celulares, shoppings, sobrenomes, consumismo alucinado, deuses que vão descer dos céus, políticos que vão salvar a pátria, entre outras atrocidades cometidas em nome de "uma vida feliz".

Parabéns pela matéria! Boa sorte sempre!!!

Cabeto Rocker- Músico/Produtor Cultural 91285656  Campinas- SP (19) 33685657 91285656

 

 

Apesar de apoiar consistentemente o processo de transformacoes positivas pelas quais o pais vem sofrendo, e de respeitar muito o Gilberto Gil como produtor e pensador da cultura brasileira, ainda nao consegui ler nenhum artigo que explique para um leigo essas grandes realizacoes do Minc.

Esse artigo da revista Cult, por exemplo, e' uma coisa  muito sacal e burocratica, dificil de ler e depois sair com alguma ideia concreta do que o autor esta querendo dizer. Quero muito concordar com o autor mas ele nao esta' conseguindo alcancar a minha limitada compreensao. Me parece mais aqueles textos introdutorios de relatorios anuais de prestacao de contas da instituicao, que ficam enchendo liguinca por falta de alguns "bullet points" decisivos para o resolver de uma vez o argumento em questao.

Talvez seja por isso que as realizacoes do MinC sejam tao desconhecidas, sem desconsiderar as pressoes dos interesses tradicionais que militam contra as mudancas do status quo na area cultural. E da campanha do PIG contra o projeto da ancinave, ou coisa assim.

Seria otimo que alguem que entende desse riscado explicassem de uma maneira menos complexa e utilizando argumentacoes mais diretas, de que forma a imensa cultura popular de nosso pais - nos seus aspectos de producao e difusao - sairam mais fortalecidas com a politica cultural do governo atual.

Hip-Hop e grafitagem pode ser uma forma de expressao cultural, importada dos ghettos americanos, mas do MinC eu espero muito mais do ficar promovendo  as"novidades" da cultura pop americana ou europeia nos nossos centros urbanos.

Repito, sou leigo no assunto e ficaria grato a quem trocasse em miudos essa complexa questao de entender a politica cultural do Gilberto Gil / Juca de Oliveira.

 

J. Humberto

Não sei se posso ajudar com o que vou lhe dizer, até porque a cultura é cheia de gurus, uns com fundamentos relevantes e, outros, apenas carregadores de canudos. O que posso dizer com toda a sinceridade é que a cultura é essa coisa complexa mesmo, tuim de pegar com a mão. Imagina você governando e o Estado com sua estrutura cultural em frangalhos. De um lado as antigas práticas coloniais, suas múmias e seus mármores. De outro, os municípios e estados fazendo de suas secretarias de cultura restos de campanha aonde se deposita aspones para fazer daquilo comitê eleitoral permanente. Pois bem, além dos pontos de cultura que são fomentadores das novas criações conjuntas, eles resgatam e valorizam o caldeirão de manifestações espontâneas seculares que são a base de toda a nossa caligrafia, por mais que os chiques torçam o nariz. Esses elementos espontâneos tradicionais foram a base sólida para a construção do mais alto padrão da nossa música erudita, por exemplo, vide Villa Lobos e tantos outros fantásticos compositores. E o MinC, com os pontos de cultura reacendeu, ou melhor, fertilizou essas sementes, o que nos garante o fortalecimento da nossa identidade. O que ficará, o próprio tempo dará conta de depurar.

Mas posso lhe falar de uma experiência concreta, pois participei das conferências municipal, estadual e nacional de cultura. E o que isso significa? O governo reestruturando o Estado através da sociedade. As plenárias estiveram inflamadas como nunca havia visto. Isso é um vulcão, pois somatizam-se sentimentos que se fortalecem numa mesma direção, e aí sim, teremos força representativa para discutir com o estrelato da cultura de massa ou do mercado financeiro que se apropriou do espaço cultural, via Lei Rouanet, ou seja, com recursos públicos.

Gostaria que você considerasse que, enfrentar através da mídia, grupos como Itaú, Organizações Globo e mais um punhado de filhotes de Milleniuns é uma parada indigesta, sem dizer é lógico, dos medalhões, sobretudo os globais que viram as suas contas engordarem com mega produções e que, não querendo perder privilégios, andaram utilizando todos os espaços da mídia que lhes são francamente favoráveis para vociferar contra qualquer mudança. Mas elas, Humberto, estão acontecendo e em muitas frentes. Agora mesmo o MinC enfrenta os interesses do ECAD, um grupo poderoso com poderosas vozes de artistas que querem muito mais criar pânico do que discutir democracia. Este é um assunto que nos consome quase diariamente.

O que posso afirmar é que estávamos sendo conduzidos, na era FHC, por uma ideologia plantada no Brasil pelas transnacionais, pelos grandes grupos que patrocinaram pensamentos absolutamente enviesados sobre a cultura neoliberal.

Não sei se ajudei ou se piorei com a minha tentativa de esclarecer. Mas a coisa da cultura é confusa porque é mesmo complexa.

 

O jornalista Jotabê Medeiros, do Estadão, fez uma análise do Pós-Lula na área cultural. Vale a pena ler seu post na íntegra:

http://medeirosjotabe.blogspot.com/2010/08/perspectivas-culturais-do-pos-lula.html

"O Ministério da Cultura, que não existia no governo Itamar, que foi claudicante (para não dizer inexpressivo) no governo Fernando Henrique Cardoso e finalmente se tornou atrativo no governo Lula (orçamento de mais de R$ 2 bilhões, cheio de estruturas influentes, como a Ancine, o novo Iphan e o Ibram), pode ser encarado de duas maneiras por Dilma: 1) como uma área estratégica, influente, fundamental no desenvolvimento, na afirmação geopolítica, e de grande potencial econômico; ou 2): um ministério de aluguel que pode ser usado como moeda de troca na consolidação de alianças políticas, emprestável a quem falar mais alto."

 

Senão for o setor em que houve a mudança mais radical em relação ao governo anterior, A cultura é sem dúvida um dos que viram ocorrer uma mudança radical. É claro que muito se poderá levantar como crítica, mas os avanços e as mudanças (para melhor, do ponto de vista da diversidade e da democracia) são realmente significativos.

Talvez um termometro pertinente seja uma tese sobre a politica cultural do governo FHC em que a autora se esforçava em responder aos críticos culturais que afirmavam que não tinha existido política cultural na era FHC-Wefort, argumentando que a renuncia fiscal (Lei Rouannet) era sim uma política cultural.

Parabéns ao Julio pelo Post, Parabéns ao Laymert pelas reflexões e esclarecimentos e saudações também ao Carlos Henrique Machado pela defesa da diversidade e de politicas publicas de cultura realmente democráticas aqui e em outros blogs (Sou seu leitor no Cultura & Mercado).

Pesquiso política cultural aqui no Vale do Paraiba paulista e posso também dar o testemunho das mudanças que estão ocorrendo na cultua local, em função da politica implementada por Gil, Ferreira e Turino.

 

Poxa Andre-Luiz, estive tocando no SESC Taubaté semana passada, podiamos ter nos encontrado. Abração

 

Eh sempre um prazer ler a revista Cult. Alias, tem sempre entrevistas com sociologos e filosofos e essaios dos mesmos.    

 

Na modesta tentativa de enriquecer ainda mais o especial post com que fomos presenteados aqui, para além da influência dos fundamentos antropológicos de Darci Ribeiro, eu destacaria ainda a forte influência em toda aquela geração de baianos da querida e saudosa professora Lina Bo Bardi quando de seu trabalho na restauração do Solar do Unhão e em outros pontos específicos no Pelourinho ainda nos anos setenta.

Foi fundamental.

 

Adauto, Murilo e demais comentadores,

 

Sou professor do Departamento de Arte da Universidade Estadual de Londrina e há 25 anos estou envolvido com a área da cultura. Além disso, pesquiso políticas públicas de cultura no Brasil há mais 17 anos e ocupei cargos de gestor cultural por mais de 8 anos. Entre dezembro de 2008 e agosto de 2009  fiz uma pesquisa de campo visitando pontos de cultura nas cinco regiões do país. Mais 8 meses de viagem de carro, 23 mil km rodados do Paraná à Ilha de Marajó e do Tocantins à Recife. Uma pesquisa qualitativa com permanência em média de 25 dias em cada Ponto de cultura. Posso te garantir que são surpreendentes os resultados. As ações estão chegando aonde nunca chegavam: nas aldeias, nos quilombos, nas pequenas cidades, nas periferias dos grandes centros, de forma silenciosa para alguns e ensurdecedoras para muitos que compartilham essa experiência e que antes não se consideravam e nem eram considerados sujeitos do processo de produção e consumo cultural. Muitos pesquisadores estrangeiros estão encantados com a experiência inovadora dos Pontos de Cultura. Os Brasileiros também podem e devem se encantar, porque há razões para tanto. Pode crer, existe muita coisa boa acontecendo para além dos meios de comunicação de massa/industria Cultural. Precisamos estar atentos. Gostaria ainda de ressaltar a importância do Célio Turino, Ex-secretario de Cidadania Cultural do Minc, grande mentor dos Pontos de Cultura, servidor público incansável na tarefa de implantar essa política cultural. Por Fim, segue o link do blog da nossa pesquisa/viagem de 8 meses pelas entranhas de um Brasil que está sendo redescoberto. No Blog dá pra ter uma noção do que foi esta encantadora viagem.

 

http://tateiota.blogspot.com/

 

Um abraço,

 

Piau

 

 

 

Pois é, Kennedy. Por que a grande mídia insite em ignorar os Pontos de Cultura?

Fica parecendo não existir. Mas nem mesmo os blogs progressistas ressaltam os avanços na Cultura.

Lamentável!!!

 

epa! Ledo & Ivo engano vosso, o Último Baile dos Guermantes (http://ultimobaile.com) discute quase que apenas Política Cultural.

 

E é assim com quase todos os blogs bahianos de Política. Porque aqui a Reforma Cultural era questão tão premente, e tem sido tão massiva e agil, que está na boca-de-cena político-eleitoral. 

 

Prezado Murilo C,

procure meu amigo, provavelmente mais perto de sua casa do que você poderia imaginar inicialmente, existe uma tradução concreta do avanço extraordinário que a mudança do eixo na política Cultural Pública, definida e desenvolvida inicialmente por Gilberto Gil no Minc, promoveu e consolidou no Brasil. 

Um modesto cine-clube, um pequeno Teatro Escola, aquele grupo de hip-hop com aulas aos sábados ali na esquina, o Curso inocente de bonecões carnavalescos para os farristas do bairro, você poderá descobrir ali um ponto de cultura ou uma atividade que se desdobra sob sua orientação e difusão.

O salto neste Ministério, no Governo que se encerra, é pouco divulgado, reconhecido e valorizado. Mas pode acreditar, é sem dúvida nenhuma mais um grande legado do Governo Lula, sem dúvida!

 

 

 

A grande revolução da era Gil se deu pela interiozação de nossa cultura. Antes ela era um bibelô para alguns escolhidos e extremamente elitista. Agora nosso país foi totalmente descoberto pelo editais de cultura com peso tanto para áreas urbanas e rurais, ou vcs acham somente que só existam talentos urbanos?

Outro ponto forte foi o programa Monumenta onde pela primeira vez houve um sistemático plano para recuperação de nosso patrimônio material em sítios históricos tombados pelo IPHAN. Pena que nossa imprensa somente se preocupe na invenção de mentiras e vislumbre mais o esgoto do que boas notícias, e se esqueça de ações como esta, onde até imóveis privados de cárater histórico foram recuperados dando para a cidade alternativas para um turismo sustentável.

Com a política de editais se tornou mais justo o acesso a vários tipos de mídia sem precisar do famoso "amigo" que abria as portas para muito trabalho discutível.

Sem dúvida alguma, o MINC fêz a diferença no governo Lula e todos nós esperamos que estas ações sejam mais abrangentes no sentido de preservar nossa cultura.

 

Todos devem considerar o que a grande mídia faz conosco. Primeiro o Gil só se divulgava quando pegava a viola no saco e dava um show de improviso. Política do Minc nunca foi divulgada, até  porque se distribuiram os investimentos em cultura em relação à concentração no eixo Rio-SP. É um país de TODOS.

 

Haja grafite.

 

Confesso que é a primeira vez que vi a gestao Gilberto Gil no MinC ser elogiada. Talvez o lobby contra tenha sido muito pesado mesmo...

 

Gostei do artigo mas, como disse alguem acima, tambem nao percebi mudanças significativas (ainda)

 

Nassif foi nesta direção que comentei o Palel fundamental do Ministerio da Cultura sobre o tema  de ontem As eleições e a democracia da massa

 

Democracia de massa

Vou aproveitar esse gancho e falar de um Brasil que ferve em sua raiz cultural a partir do investimento sistemático do Ministério da Cultura e sua estratégia prioritária de fortalecer essa massa magnífica em ebulição no principal setor identitário de um país, sua cultura, a espontânea, sobretudo com a aquisição de novos atores que fortalecem como fios uma teia de interfecundação extraordinária para o Brasil.

Diante da cultura de encenação de um imediatismo "realizador" proposto pela cultura do espetáculo privado, aderido e encarnado por determinado tipo de pensamento intelectual comprometido com os seguidores do mercado cultural, essa rede que se constrói na massa terá papéis principais em uma outra estrada que o Ministério da Cultura criou, dando temáticas sociais e críticas do registro de um Brasil imenso, do agreste aos pampas. Um estímulo de trocas e toques de uma nação que estava fora da exposição e que ganhou, de forma revolucionária, nesses oito anos de governo Lula volume substancial com um brilho inflamado nos espíritos e corações da cultura do povo brasileiro. Nos debates políticos pouco ou nada se fala sobre essa nova síntese da cultura chegada com o governo Lula, no avanço ambicioso de tornar mestres populares, que são a nossa própria língua, em fontes concretas de política afirmativa da sociedade. Esse sentimento autêntico com vários sotaques de repente ganha, mais do que o direito à integração, a condição de protagonista de um novo poder que se ergue da base.

O que percebo é a difícil assimilação da sociedade sobre esse gigantesco trabalho do Ministério da Cultura e seu significado para o Brasil. É preciso compreender melhor toda a história do poder dentro da cultura. Há um novo diálogo desvinculado da matriz que nos reduzia a disposição das escolas predominantemente europeias ou novayorkinas. A nova forma de diálogo introduzida pelo MinC tem mais do que somente nos apresentar novas noções de arte, o que está empregado no novo título de nobreza é a voz do povo brasileiro, soberano em sua cultura. Isso é marcante e deve ser visto como grande salto para o Brasil, um trabalho profundo de tirar da marginalidade os nossos sentimentos espontâneos e dar ênfase ao novo mapeamento artístico e cultural em atividade no Brasil. A expressão popular é o principal patrimônio simbólico de uma nação e, fortalecida como o Ministério da Cultura vem fortalecendo, é uma das principais alavancas de transformação que uma leitura ciosa sobre o Brasil contemporâneo deve fazer, tudo isso sem fronteiras de valores, o que é mais expressivo. Longe da ideia de estilos, mas dos giros, dos movimentos, do encontro da nossa verdadeira herança e linguagem, uma das marcas mais acentuadas dentro da aldeia global.

A cultura do Brasil tem uma identidade que o mundo não só respeita como admira e frequentemente é citada para nos descrever como sociedade. O território cultural do Brasil é um campo de batalhas, aonde pela primeira vez na sua história um governo fortaleceu o povo colocando-o como protagonista. Não precisamos ser profetas para entender que essa nova e imensa estrutura que o Ministério da Cultura do governo Lula, Gil e Juca criaram virá acompanhada, além da arte das mais refinadas, um pensamento crítico autônomo, luminoso e renovado. Ou seja, vem aí, através dos pontos de cultura, um Brasil que será cada vez mais um vulcão em erupção de ideias, arte e criatividade. Precisamos entender melhor o quanto isso enriquece a nossa biografia como nação

 

Pois é uma pena, pois eu devo pertencer a um daqueles setores que foram prejudicados pela imcompreensão e também pela má fé dos lobbies e dos interesses estabelecidos que não queriam mudança alguma, já que não vi neste 7 anos absolutamente nada de diferente, que fosse relevante,  na nossa política cultural.

Ou talvez, já que o brasil é grande, talvez eu esteja em algum lugar culturalmente irrelevante, que não foi atingido por esta "nova" política cultural.

 

Adauto

Tenho dito que um trabalho sério sobre cultura se compara ao de uma dona de casa, é aquele que ninguém vê, que não está diante dos nossos olhos como um obelisco, ao contrário do trabalho fogueteiro de cultura que ergue nas principais avenidas das grandes capitais esfinges como as novas mamas das letras e das artes, mas que constrói um cronograma efêmero sem a devida continuidade e engajamento. Digamos que este seja um tipo novo de alienação culta, aonde determinado tipo de política é apresentado para que um determinado e reduzido grupo de pessoas possa usufluir sem muito envolvimento.

Veja só que interessante, está aqui o Nassif que não me deixa mentir: dia desses Désirée nos brindou com um belíssimo post aqui: O Blues, o Jazz e Garoto. 

 http://advivo.com.br/blog/luisnassif/o-blues-o-jazz-e-garoto

Observe que quae todos os comentários seguiram a tendência de trazer informações sobre o blues e o jazz. Se não me engano, eu fui o único a falar sobre Garoto, isso não quer dizer que seja alienação de quem não falou de Garoto. E aí, volto ao Nassif: o jornalista que priorizou a monumental obra de Garoto na imprensa. Foi a partir desse artigo dele absolutamente solitário que em 2001, eu, ao lado de amigos, mergulhei na obra fantástica de um dos gênios da nossa música que eu, mesmo desde os 16 anos envolvido com este universo que foi base fundamental para a obra de Garoto, não tinha a menor ideia, até que o artigo Nassif nos alertou sobre este patrimônio brasileiro que estava não só para nós, mas para a maioria dos músicos, jogado em algum depósito. Precisou o Nassif fomentar, através de uma matéria que dava conta da obra de Garoto, para que produtores, artistas e pesquisadores mergulhassem nesse universo e, a partir de então, percebessem a linha revolucionária de Garoto e se ligassem àquela forma de criação emplementada pelas novas técnicas melódicas e harmônicas e seu sentido evolutivo no universo da música brasileira. Ainda assim, como observamos aqui, mesmo que muita gente a partir disso tenha regravado Garoto, sua reintegração nos espaços de debate sobre essa nova rede de construção informal que corre nos bastidores da música instrumental brasileira ainda não chegou a um grau de ampliação, dentro do processo natural, que permita a observação comum do quanto a modernização de Garoto é um marco que compreende um universo de valores dos mais altos da música instrumental contemporânea no mundo.

O mesmo podemos dizer de obras como as de Mário de Andrade, obras fundamentais que começam novamente a engatinhar dentro do novo cenário cultural brasileiro e nos devolver a uma capacitação de autoanálise que perdemos, sobretudo a partir da década de 60.

Mas não há dúvida, Adauto, hoje há um dínamo, um pião que o Ministério da Cultura jogou na arena da sociedade, fecundando a terra do Brasil com as suas especificidades, seu regionalismo e sua diversidade. A nós também cabe prestar mais atenção nesse processo público que está aberto às novas comissões criativas adequadas ao povo brasileiro. Por isso é bom nos equiparmos de novas informações. Há um espaço entre a memória, as cadeias contemporâneas e o mergulho para o futuro, uma integração artesanal que resgata, sem sombra de dúvida, a nossa autoestima como povo, sem qualquer traço de fechamento de fronteiras ou xenofobias, até porque o povo brasileiro sempre esteve cioso em construir um universo cultural distante da unilateralidade, reafirmando os nossos sentimentos, mas com diálogo permanente com todas as informações que nos chegam.

 

Que bom então que o artigo vai servir para você se atualizar, Adauto. Aproveite! Procure um Ponto de Cultura perto de você e converse com o povo de lá. Vai ser muito esclarecedor.

Abraços.

 

Olá Júlio e Nassif, esse número da Cult está mesmo excelente.

É bom saber que é possível partilhar informações e análises aqui pois elas vão e vem com muita generosidade e qualidade.

Abraços, Gustavo Cherubine.

 

Gustavo Cherubine