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A personalização do conteúdo na internet

Da Época

"A internet esconde quem discorda de você" 

Autor do livro O filtro invisível, o ativista digital americano Eli Pariser alerta contra a personalização do conteúdo em sites como o Google e o Facebook

DANILO VENTICINQUE

Numa tarde em 2011, ao acessar seu perfil no Facebook, o americano Eli Pariser, de 31 anos, notou uma mudança repentina. Sem aviso, todos os posts de seus amigos republicanos tinham desaparecido. A fórmula usada pelo site para decidir que posts eram mais relevantes determinara que, como ele clicava mais em links enviados por democratas, as atualizações desses amigos eram mais importantes que as dos outros e deveriam receber mais destaque. A mudança não lhe agradou. Embora trabalhasse num site que arrecadava doações para as campanhas de candidatos democratas, Pariser não queria deixar de ter acesso às opiniões de colegas conservadores, que considerava igualmente importantes para seu trabalho.

A busca por uma explicação para o sumiço dos amigos republicanos inspirou o livro O filtro invisível, que aborda os perigos da personalização do conteúdo em sites como o Facebook e o Google. Quanto maior for o esforço para oferecer informações personalizadas a cada usuário, maior o risco de que os filtros isolem as pessoas em bolhas virtuais, sem nenhum acesso a opiniões diferentes das suas. Além de transformar o autor num dos palestrantes mais populares do mundo da tecnologia, o livro provocou um debate intenso nas redes sociais e inspirou pequenas mudanças no sistema de buscas do Google.  "Na prática, nós não estamos todos na mesma internet." 

ÉPOCA – O título de seu livro, O filtro invisível, sugere que as informações que acessamos na internet são filtradas antes de chegar a nós. Quando isso começou a acontecer?
Eli Pariser –
 Costumo dizer que a internet não é a mesma desde dezembro de 2010, quando o Google ativou as buscas personalizadas para todos os usuários. Foi o momento em que deixamos de ter um Google para todos, com os mesmos resultados, e passamos a ter resultados filtrados para cada pessoa. Duas pessoas procurando as mesmas palavras ao mesmo tempo podem receber resultados muito diferentes. Foi uma mudança importante, pois os usuários imaginam que o Google seja neutro e imparcial e ofereça respostas universais. Mas ele deixou de fazer isso há algum tempo.

ÉPOCA – Como esses filtros digitais funcionam?
Pariser –
 A personalização surgiu como uma forma de tentar adivinhar o que o usuário quer, mesmo que ele faça uma busca incompleta. Se você buscar por “Egito” e suas informações pessoais armazenadas no banco de dados do Google indicarem que você costuma viajar com frequência, é mais provável que os primeiros resultados sejam sites de companhias aéreas que vendam passagens para lá. Isso pode até ser bom. Mas informações importantes podem ficar de fora dos resultados. Se a situação interna no Egito estiver tensa e houver algum tipo de revolta naquele dia, essa informação é tão importante para você quanto para um amigo seu interessado em política internacional. O mesmo vale para o Facebook. O site edita o conteúdo de sua linha do tempo para dar mais ênfase aos amigos com quem você costuma interagir mais e esconder os posts de amigos com quem você interage menos. Isso é feito por fórmulas matemáticas complexas, que levam em conta cada um de nossos cliques quando estamos no site, e funciona de acordo com regras obscuras para o usuário. Sabemos de concreto apenas que, quanto mais tempo passamos no Facebook, mais temos acesso apenas às opiniões de nossos amigos. E, entre nossos amigos, as pessoas com quem interagimos mais ou concordamos mais têm um peso maior. Isso nos coloca num ciclo: quanto mais vemos os posts de algumas pessoas, mais interagimos com elas e mais destaque elas têm. No fim das contas, os sites escondem quem discorda de você, e sua visão de mundo acaba ficando distorcida.

ÉPOCA – Fora da internet, também é comum dar mais atenção a pessoas cujas opiniões são parecidas com as nossas. Esse fenômeno nas redes sociais não seria apenas a repetição de um hábito comum a todos?
Pariser –
 Isso sempre existiu, mas o agravante da internet é que existe uma suposta neutralidade. Quando você lê uma revista ou liga a televisão, você tem uma ideia de qual é a linha editorial daquela publicação ou canal. O mesmo vale, mais ainda, quando você conversa pessoalmente com um amigo cujas opiniões políticas você conhece. Você sabe quais pontos de vista estão lá e quais não estão, e sabe onde encontrar os que ficaram de fora. No Google e no Facebook, nada é explícito. Você não sabe em que perfil de usuário os sites te enquadram nem em que informações se basearam para chegar àquela conclusão. Não é possível saber o que você está perdendo, que partes da internet estão fora de seu alcance. As informações desaparecem sem aviso.

ÉPOCA – O livro compara a ação dos filtros à censura. Não é exagero?
Pariser –
 É uma forma muito sutil de censura. Você não é proibido de ver nada, mas sua atenção é dirigida de forma que você não note que a informação existe. Como dependemos cada vez mais dos resultados de busca ou de indicações nas redes sociais para chegar a um conteúdo na internet, o filtro invisível pode esconder páginas e pessoas definitivamente. As consequências disso podem ser muito graves.

ÉPOCA – Isso muda a visão romântica da internet como um espaço livre e sem fronteiras para a troca de informações?
Pariser –
 É pior que isso. Nós, na prática, não estamos todos na mesma internet. Duas pessoas podem acessar o mesmo site ao mesmo tempo e ver informações diferentes, adaptadas a suas opiniões. Cresci com grandes expectativas em relação à internet. Esperava que ela fosse um lugar em que todos pudessem expandir sua visão de mundo. A personalização excessiva não permite que isso aconteça. E a tendência é que ela aumente, porque os sites que fazem isso são muito lucrativos. É mais fácil vender publicidade num site quando o anunciante sabe que o público que chegou a ele foi filtrado e gosta do produto anunciado. Também existe um mercado enorme para empresas que vendem nossas informações pessoais para outros sites. Quanto mais empresas compram essas informações, mais nossas preferências continuam a ditar o que nos é mostrado. Há muito dinheiro nesse mercado. Mas o mais lucrativo não é necessariamente o melhor para a sociedade. As grandes empresas de tecnologia são comandadas por pessoas muito jovens, com uma capacidade técnica impressionante, mas que não têm a formação humana necessária para perceber que existe um dilema ético na personalização dos sites.

ÉPOCA – Que riscos corremos quando não temos contato com opiniões diferentes das nossas?
Pariser –
 A primeira coisa que você perde é seu senso de falibilidade. Quando todas as pessoas a seu redor concordam com você, é fácil acreditar que sua opinião é a verdade para todos, e não apenas para alguns de seus amigos. E, se ninguém enfrenta seus argumentos, é natural que você imagine que está certo e que não há espaço para discussão. Isso vale para tudo, desde as grandes questões políticas aos pequenos preconceitos. Com o tempo, essa falta de debate pode tornar as pessoas mais intolerantes.

ÉPOCA – É possível reverter esse fenômeno ou a era de ouro da internet acabou?
Pariser –
 Não sou um pessimista. Acredito que as empresas precisam achar uma maneira de dar poder aos usuários, e não apenas aos anunciantes. É possível encontrar formas de personalizar o conteúdo e, ao mesmo tempo, permitir que os usuários saibam o que é deixado de fora. Assim, poderíamos decidir se queremos os resultados filtrados ou não. Depois que lancei meu livro, o Google passou a permitir que as pessoas tivessem acesso aos resultados sem filtro mais facilmente. Algumas pesquisas que fizemos mostram que vários usuários preferem esses resultados. Fiquei feliz com a mudança. Quando tive minhas primeiras conversas com executivos do Google para escrever O filtro invisível, era muito difícil convencê-los de que havia dilemas éticos na maneira como os resultados das buscas eram apresentados. O Twitter é outro bom exemplo de como o usuário pode estar no controle. Ao contrário do Facebook, ele não atribui maior ou menor relevância aos tweets de quem concorda conosco. Quando você decide seguir alguém, passa a receber todo o conteúdo produzido pela pessoa. Se quiser deixar de ver os posts de alguém, precisa deixar de segui-lo. É uma relação menos passiva entre usuário e serviço.

ÉPOCA – O que podemos fazer para evitar esses filtros quando estamos na internet?
Pariser –
 É muito difícil acessar a internet sem fornecer informações pessoais. O Facebook não existe sem isso. Alguém que quisesse escapar do filtro invisível teria de ficar fora dessa rede social. Para algumas pessoas, seria uma perda muito grande. O Google também depende muito dessas informações para funcionar. Se você fizesse uma busca por “pizza” sem que o Google tivesse acesso a dados sobre sua localização, seria impossível indicar uma pizzaria perto de sua casa. Um pouco de personalização ajuda a fornecer resultados mais úteis. O que precisamos fazer não é evitar usar esses sites, mas sim lutar para que eles nos permitam escolher se acessaremos a versão personalizada ou não. Também deveríamos ter mais controle sobre o que é feito com nossas informações pessoais. Elas são valiosas. Quando acessamos um serviço teoricamente gratuito, como o Gmail ou o Facebook, na verdade estamos pagando com nossos dados, que têm um valor de mercado. Essas informações ajudam a construir filtros de conteúdo ainda mais elaborados, usados para vender publicidade. Não sabemos o preço que estamos pagando para acessar um site gratuito, mas as empresas sabem.

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Por isso é importante ter leituras como o Nassif, que abre para o contraditório, e como o prof. Renato Janine Ribeiro.

Veja o que o professor escreveu no Facebook:

Renato Janine RibeiroSobre o mensalão (1). A meus amigos PETISTAS do Facebook: Concordo com vcs que há uma campanha para condenar o PT pelo mensalão, para omitir que outros partidos também fizeram uso dele e, ainda, para condenar sem provas e sem defesa. Tudo isso é errado. Mas quero lembrar que a indignação com o mensalão expressa dois valores importantes: primeiro, o repúdio à corrupção, que mata gente por falta de hospitais e degrada a sociedade. Segundo, o empenho em punir poderosos, que sempre foram os maiores responsáveis pela corrupção e que geralmente ficam impunes. Um partido com a história do PT não podia ficar do lado errado nessa discussão. Vocês, simpatizantes do PT, não podem renegar o passado do partido que era o maior defensor da ética no Brasil. E também gostaria de observar que este mês li, na revista “Piauí”, uma reportagem sobre o mensalão mineiro ou do PSDB, que a meu ver deixava claro o ponto principal dessa denúncia: o desvio de dinheiro público. Este, se ocorre, é errado a qualquer título. É essa a questão nos vários mensalões. O mínimo que lhes sugiro é que, respeitado o direito de defesa dos réus, não cheguem a celebrar quando um deles dribla as acusações só porque estas foram feitas de maneira tecnicamente errada, ou porque tal ato errado não era crime na época, ou depois deixou de sê-lo, ou ainda por outras razões que sem dúvida são válidas juridicamente, mas nem por isso tornam éticos atos que são errados. Surgiu uma torcida pela absolvição que acaba deixando de lado a preocupação ética. Peço que ninguém perca a indignação ética só porque o seu lado está sendo atacado. Isso significa colocar a ética a serviço de interesses políticos, o que é errado.
Observo que também colocarei um post para os amigos anti-petistas.  Renato Janine RibeiroSobre o mensalão (2). A meus amigos ANTI-PETISTAS do Facebook: As condenações que começam a sair no processo indicam que o STF provavelmente irá mais para o lado da condenação que o da absolvição. Acredito, e creio que concordem comigo, que a indignação com o mensalão expressa dois valores importantes: primeiro, o repúdio à corrupção, que mata gente por falta de hospitais e degrada a sociedade. Segundo, o empenho em punir poderosos, que sempre foram os maiores responsáveis pela corrupção e que geralmente ficam impunes. Mas peço que nunca esqueçam que é errado condenar só com base em acusações ou suposições. Fico chocado ao ler, no FB, pessoas que querem um julgamento célere, que desqualificam a defesa (não essa defesa, mas toda e qualquer defesa de tais réus) e até ofendem juízes que votam pela absolvição. Uma das fronteiras entre a decência e a indecência está justamente aí: o direito de defesa. Repito que sabemos quanto fica impune na sociedade brasileira, mas essa não é uma razão para apelarmos a justiceiros. É só isso o que sugiro: lembrem que sentenças condenatórias somente serão respeitadas se ampla defesa for garantida. Não basta o STF condenar, é preciso que seja punida a corrupção de todos os partidos, inclusive a dos mensalões do PSDB e do DEM. A indignação ética, quando é instrumento para favorecer um lado e não outro, pode ser indignação, mas se torna antiética. Observo que também coloquei um post para os amigos petistas.   

 

Isso só é válido para usuários com pouco conhecimento sobre internet, não é preciso fazer nenhum alarde...

Quem não quer ser filtrado (e rastreado) pelo google tem alternativas, o www.duckduckgo.com é uma delas.

 

Ainda bem! Eu quero distância de certas pessoas..hahhaaha

 

O macho adulto branco sempre no comando
E o resto ao resto, o sexo é o corte, o sexo
Reconhecer o valor necessário do ato hipócrita
Riscar os índios, nada esperar dos pretos ♪♫

Tenho tido imensas dificuldades em pesquisar pelo google por causa desse direcionamento.

Sempre que busco páginas discordantes do comumente usado por mim ela redireciona para o que acesso com mais frequência.

 

E por aquí alguns criticaram o Ivan Moraes.


Achavam que ele estava com mania de perseguição.


Ele  tinha ouvido o galo cantar e sabia onde.

 

Acho q esse cara tá aumentando um pouco qdo fala: "Se você fizesse uma busca por “pizza” sem que o Google tivesse acesso a dados sobre sua localização, seria impossível indicar uma pizzaria perto de sua casa."


E se digitarmos "pizza bairro x" pizza cidade y" aparecem as pizzarias do bairro ou cidade solicitadas. Sempre funcionou para mim. 


No mais tb, temos q nos figiar pra continuar ouvindo as vozes discordantes. É difícil e sempre será.

 

 

Fico feliz de ver que o que eu discutia na minha monografia de especialização e na minha dissertação de mestrado esteja em discussão nos dias de hoje. Porém, com todo respeito ao autor, sua premissa já começa equivocada, atribuindo a culpa a ferramenta e não aos usuários e ooperadores.

 

A primeira lei de Kranzberg  diz que atecnologia não é boa, nem ruim e também não é neutra. Em outras palavras, a personalização não é boa nem ruim,e também não é neutra. Ela interfere na forma como recebemos a informação, mas somos nós mesmos enquanto usuários ou os operadores dos sistemas de personalização que os tornam bons ou ruins e aumentam ou diminuem o seu grau de interferência na forma como conhecemos o mundo.

 

Além disso, o autor também mostra uma certa ingenuidade quando diz que acreditava que a Internet era uma ambiente imparcial e de acesso a informação. Mesmo antes dos sistemas de personalização, as redes sociais já se apresentavam imparciais. Desde os grande portais de notícias ou blogs que ao publicaram notícias e informações reafirmavam as teorias de gatekeeper e agendamento das Teorias da Comunicação.

 

Os próprios mecanismos de busca já faziam uma filtragem quando apresentavam os resultados mais acessados. Em outras palavras, o filtro não era a pessoa, mas o todo. A ordem de apresentação dos resultados não eram os interesses do usuário, mas o dominante no todo.