newsletter

A poesia erótica de Drummond

Amor – pois que é palavra essencial

comece esta canção e toda a envolva.

Amor guie o meu verso, e enquanto o guia,

reúna alma e desejo, membro e vulva.

 

Quem ousará dizer que ele é só alma?

Quem não sente no corpo a alma expandir-se

até desabrochar em puro grito

de orgasmo, num instante de infinito?

 

O corpo noutro corpo entrelaçado,

fundido, dissolvido, volta à origem

dos seres, que Platão viu completados:

é um, perfeito em dois; são dois em um.

 

Integração na cama ou já no cosmo?

Onde termina o quarto e chega aos astros?

Que força em nossos flancos nos transporta

a essa extrema região, etérea, eterna?

 

Ao delicioso toque do clitóris,

já tudo se transforma, num relâmpago.

Em pequenino ponto desse corpo,

a fonte, o fogo, o mel se concentraram.

 

Vai a penetração rompendo nuvens

e devassando sóis tão fulgurantes

que nunca a vista humana os suportara,

mas, varado de luz, o coito segue.

 

E prossegue e se espraia de tal sorte

que, além de nós, além da própia vida,

como ativa abstração que se faz carne,

a idéia de gozar está gozando.

 

E num sofrer de gozo entre palavras,

menos que isto, sons, arquejos, ais,

um só espasmo em nós atinge o climax:

é quando o amor morre de amor, divino.

 

Quantas vezes morremos um no outro,

no úmido subterrâneo da vagina,

nessa morte mais suave do que o sono:

a pausa dos sentidos, satisfeita.

 

Então a paz se instaura. A paz dos deuses,

estendidos na cama, qual estátuas

vestidas de suor, agradecendo

o que a um deus acrescenta o amor terrestre.

 

Drummond

Média: 3.7 (3 votos)
13 comentários

Comentários

Comentar

O conteúdo deste campo é privado e não será exibido ao público.
+13 comentários

Como bom brasileiro, Drummond também foi um bundófilo autêntico:

A Doce Bunda

No corpo feminino, esse retiro
— a doce bunda — é ainda o que prefiro.
A ela, meu mais íntimo suspiro,
pois tanto mais a apalpo quanto a miro.

Que tanto mais a quero, se me firo
em unhas protestantes, e respiro
a brisa dos planetas, no seu giro
lento, violento... Então, se ponho e tiro

a mão em concha — a mão, sábio papiro,
iluminando o gozo, qual lampiro,
ou se, dessedentado, já me estiro,

me penso, me restauro, me confiro,
o sentimento da morte eis que o adquiro:
de rola, a bunda torna-se vampiro.

* * * * *

A Bunda, que Engraçada

A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica
Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora - murmura a bunda - esses garotos
ainda lhes falta muito que estudar.
A bunda são duas luas gêmeas
em rotundo meneio. Anda por si
na cadência mimosa, no milagre
de ser duas em uma, plenamente.
A bunda se diverte
por conta própria. E ama.
Na cama agita-se. Montanhas
avolumam-se, descem. Ondas batendo
numa praia infinita.
Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz
na carícia de ser e balançar.
Esferas harmoniosas sobre o caos.
A bunda é a bunda,
redunda

* * * * *

BUNDAMEL BUNDALIS
BUNDACOR BUNDAMOR
 
Bundamel bundalis bundacor bundamor
bundalei bundalor bundanil bundapão
bunda de mil versões, pluribunda unibunda
                      bunda em flor, bunda em al
                      bunda lunar e sol
                      bundarrabil
 
Bunda maga e plural, bunda além do irreal
arquibunda selada em pauta de hermetismo
                        opalescente bun
                        incandescente bun
meigo favo escondido em tufos tenebrosos
a que não chega o enxofre da lascívia
e onde
a global palidez de zonas hiperbóreas
concentra a música incessante
do girabundo cósmico.
 
Bundaril bundilim bunda mais do que bunda
bunda mutante/renovante
que ao número acrescenta uma nova harmonia.
Vai seguindo e cantando e envolvendo de espasmo
o arco de triunfo, a ponte de suspiros
a torre de suicídio, a morte do Arpoador
                  bunditálix, bundífoda
bundamor bundamor bundamor bundamor.

* * * * *

No mármore de tua bunda

No mármore de tua bunda gravei o meu epitáfio.
Agora que nos separamos, minha morte já não me pertence.
Tu a levaste contigo.

* * * * * 

Mais sobre o erotismo em Drummond: http://www.letraselivros.com.br/index2.php?option=com_content&do_pdf=1&id=1098 

 

"Ou o Brasil acaba com a mídia canalha, ou a mídia canalha acaba com o Brasil"

J. G. de Araujo Jorge, os primeiros passos, na arte poética erótica. Tudo muito lindo!

Teus seios... quando os sinto, quando os beijo na ânsia febril de amante incontentado,
são pólos recebendo o meu desejo,
nos momentos sublimes de pecado...

E às manhãs... quando acaso, entre lençóis
das roupagens do leito, saltam nus,
lembram, não sei, dois lindos girassóis
fugindo à sombra e procurando a luz!...

Florações róseas de uma carne em flor
que se ostenta a tremer em dois botões
na primavera ardente de um amor
que vive para as nossas sensações...

Túmidos... cheios... palpitantes, como
dois bagos do teu corpo de sereia
,tem um rubro botão em cada pomo
como duas cerejas sobre a areia...

Quando os tenho nas mãos... Quantas delícias!...
Arrepiam-se, trêmulos , sensuais,
e ao contato nervoso das carícias
tocam-me o peito como dois punhais!...

Meu lúbrico prazer sempre consolo
na carne destas ondas revoltadas,
que são como taças emborcadas
no moreno inebriante do teu colo...

(Poema de J. G. de Araujo Jorge, extraído do livro
Poemas do Amor Ardente - 1961)

 

 

Não faças versos sobre acontecimentos. Não há criação nem morte perante a poesia. Diante dela, a vida é um sol estático, não aquece nem ilumina.

As afinidades, os aniversários, os incidentes pessoais não contam.

Não faças poesia com o corpo, esse excelente, completo e confortável corpo, tão infenso à efusão lírica.

Tua gota de bile, tua careta de gozo ou de dor no escuro são indiferentes.

Nem me reveles teus sentimentos, que se prevalecem do equívoco e tentam a longa viagem. O que pensas e sentes, isso ainda não é poesia.

Não cantes tua cidade, deixa-a em paz. O canto não é o movimento das máquinas nem o segredo das casas. Não é música ouvida de passagem, rumor do mar nas ruas junto à linha de espuma.O canto não é a natureza nem os homens em sociedade. Para ele, chuva e noite, fadiga e esperança nada significam.

A poesia (não tires poesia das coisas) elide sujeito e objeto. Não dramatizes, não invoques, não indagues. Não percas tempo em mentir. Não te aborreças. Teu iate de marfim, teu sapato de diamante, vossas mazurcas e abusões, vossos esqueletos de família desaparecem na curva do tempo, é algo imprestável. Não recomponhas tua sepultada e merencória infância. Não osciles entre o espelho e a memória em dissipação. Que se dissipou, não era poesia. Que se partiu, cristal não era.

Penetra surdamente no reino das palavras. Lá estão os poemas que esperam ser escritos. Estão paralisados, mas não há desespero, há calma e frescura na superfície intata. Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.

Convive com teus poemas, antes de escrevê-los. Tem paciência se obscuros. Calma, se te provocam. Espera que cada um se realize e consume com seu poder de palavra e seu poder de silêncio.

Não forces o poema a desprender-se do limbo. Não colhas no chão o poema que se perdeu. Não adules o poema. Aceita-o como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada no espaço.

Chega mais perto e contempla as palavras. Cada uma tem mil faces secretas sob a face neutra e te pergunta, sem interesse pela resposta, pobre ou terrível, que lhe deres: Trouxeste a chave?

Repara: Ermas de melodia e conceito elas se refugiaram na noite, as palavras. Ainda úmidas e impregnadas de sono, rolam num rio difícil e se transformam em desprezo.

 

(Procura da poesia, Carlos Drummond de Andrade)

P.S. Drummond para sempre. Para todo o sempre. Drummond vive entre nós!!

 

"As leis não bastam.Os lirios não nascem das leis." Que ironia né ANARQUISTA SÉRIO. Na verdade fico imaginando o que seja um ANARQUISTA SÉRIO ; sei lá o que é isso mas, deixa pra lá!! Quer dizer que pra falar de amor ,dos planetas ,das galáxias,da formiguinha, da miséria ,da violência... Você tem que ter vivido isso ,ou ter sensibilidade para compreender as coisas que nos e cercam e nos afrigem ??!! Para um cara que se intitula ANARQUISTA talvez o SÉRIO tenha te atrapalhado um pouco. No mais ,desce do palco que voce não é Xuxa!!!   " O COITO MORTE DE TÃO VIDA..."

 

Dele também o poema "Era uma manhã de setembro", que começa assim

Era uma manhã de setembro

e ela me beijava o membro.

(continua, por exemplo,  em

http://leaoramos.blogspot.com/2008/09/era-uma-manh-de-setembro-e-drummond-se.html

 

Desculpem, mas dentre as eróticas, Delírio, de Olavo Bilac, é insuperável.

DELÍRIO

Nua, mas para o amor não cabe o pejo

Na minha a sua boca eu comprimia.

E, em frêmitos carnais, ela dizia:

Mais abaixo, meu bem, quero o teu beijo!

Na inconsciência bruta do meu desejo

Fremente, a minha boca obedecia,

E os seus seios, tão rigidos mordia,

Fazendo-a arrepiar em doce arpejo.

Em suspiros de gozos infinitos

Disse-me ela, ainda em grito:

Mais abaixo, meu bem!? num frenezi.

No seu ventre pousei a minha boca,

Mais abaixo, meu bem! ? disse ela, louca,

Moralistas, perdoai! Obedeci...

OLAVO BILAC

 

e eu com voz de pidão em tom de urgencia: "Mulher, vem cá... Agora!"

 

"E coito segue"

É isso o que eu digo sempre que aqui em São Paulo sai um do psdb para entrar outro.

 

MAF

Será q transou muito??

 

ehhehe

 

POESIA erótica quem teve apenas uma mulher e uma amante escritora que se via, a cada 3 meses?

           Por favor...

         E sse é assunto pra Vinicius com seus 9 casamentos e trocentas e quinze amantes.Este escreveu com conhecimento de causa.O outro escreveu por ouvir dizer.

           Tenha santa paciência...

 

Não sei se entendi o conceito... Quer dizer que quem estupra apenas uma vez, não é estuprador? Tem que estuprar dezenas, centenas de vezes para ser considerado um bom estuprador?

 

Francamente...

 

Os poetas que me perdoem, mas a poesia erótica feita por poetisas é muito melhor do que a deles. Aprecie alguns sonetos da grande Alma Welt, por exemplo, infelizmente morta precocemente, e confirme. Drummond pede que o amor lhe guie os versos, mas Alma deixa-se guiar por ele, pelo amor, e se expõe na primeira pessoa, de verdade, para valer. Seus sonetos não são sobre fantasias, são confissões.

 

Psiqué
4
Caminho, assim nua, pela casa
Às escuras, qual castelo, sem as tochas;
Bato às portas, esbarrando minhas coxas
Procuro o leito onde o meigo monstro jaza.

Pressinto na penumbra o grande leito
Com a sombra vaga que descansa
Sem contornos, que nem mesmo a sua lança
Faz-me ver, e aquele amplo peito...

Não tenho uma lanterna, ou mesmo lume
Sutil, que me permita conferir
As formas que começo a pressentir

E logo sou colhida como a laço
Engolfada, cercada pelo abraço,
Afundando, como em lago de betume.

 

O Galgo e a Raposa
6
Penetra-me profundo, enquanto gemes
E falas porcaria em meus ouvidos.
Agarra-me, morda-me, o que temes?
Nesta cama só cercada de gemidos

Cessa o bem e a lei dos oprimidos.
Dominando tudo em nosso leito
Aqui somos bandidos assumidos,
A nós mesmos permitindo o malfeito

E se sangue fluir ( pode ocorrer )
A dor foi consentida, eu te garanto,
Teremos lágrimas, decerto, não o pranto

Pois é certo que a dor e o prazer
Correm juntos, como galgo, e feito
O coração, raposa, em nosso peito.

 

La Strega
8
Estou ficando louca de desejo
De amar e em seus braços perder-me.
Preciso, já percebo, é conter-me:
Não sobrará mais nada, agora vejo,

Se me entrego, deste modo, por inteiro
Que o coração, sendo carne, nunca mente...
Devo poupar-me, ou dar-me loucamente
Como louca que não só rasga dinheiro?

Será, pois, uma questão de grau de entrega?
Já não sei mais, não tenho a lucidez,
Perdida de paixão, como uma strega

Quero voar montada no seu falo,
Embora isso pareça insensatez,
É assim que em meu delírio devo amá-lo.

 

Alegria
13
Voltou o meu amor, voltou, pasmem vocês!
E com ele a alegria, montanhas de CDs
Eu nua pela casa, o sexo molhado,
Ele de roupão, e o circo bem armado.

Ó dias de euforia, ó noites de paixão!
Como dizer, como contar, ó meus leitores?
Orgasmos barulhentos, vivos estertores,
Penetrações vibrantes, riso e lassidão.

Tenho as ancas vivas, o lábio entumecido,
Os bicos dos meus seios apontam retesados;
Meu ânus latejando, um tanto intrometido...

Quero cantar, gritar, o amor tinha partido,
Voltou e me deseja, estamos renovados,
Eros, Psiqué... enfim reconciliados!!

 

UAU... Dizem que se o poeta quisesse ser claro, teria feito um depoimento e não uma poesia... Mas ao fazer essa, nosso Poeta Maior permitiu até aos menos sensíveis, como eu, entender perfeitamente o que ele estava querendo dizer.

 

Grande Drummond.