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A propaganda disfarçada de artigo científico

Por Lisandra Guedes

Hoje em dia eu fico com dúvida de propaganda: política, de alimentos, de drogas e de remédios, sob a forma de artigos simpáticos e com pouco critério, pouco olhar crítico.

Da Folha.com

Artigo científico faz propaganda de droga

A indústria farmacêutica está novamente no centro de um escândalo. Documentos confidenciais da gigante Wyeth --hoje incorporada à Pfizer-- mostram que a companhia sistematicamente plantava artigos favoráveis a seus medicamentos em periódicos científicos.

O caso mais emblemático é o do remédio Prempro, usado para reposição hormonal em mulheres na menopausa. Nos EUA, o produto gerou uma ação pública, movida por 14 mil pessoas, que acusam a droga de aumentar o risco de câncer de mama.

ParaPara garantir opiniões positivas sobre a substância, a Wyeth pagava para empresas especializadas produzirem textos que ressaltassem suas qualidades --algumas não comprovadas-- e escondessem efeitos colaterais, como casos de câncer.

O material pronto era oferecido a pesquisadores "de verdade", que assinavam como autores do trabalho.

Essas "pesquisas" eram submetidas a diversos periódicos científicos, que publicavam o material como se fosse independente. Alguns acabaram em veículos renomados, como a "Archives of Internal Medicine".

A mecânica completa do esquema é apresentada pela médica americana Adriane Fugh-Bergman, da Universidade Georgetown, na revista "PLoS Medicine". Fugh-Bergman se debruçou sobre 1.500 documentos confidencias da Wyeth --liberados sob ordem judicial para a revista.

A papelada contém rascunhos de artigos, troca de e-mails e até a contabilidade do esquema. Em um dos e-mails, uma funcionária da DesignWrite --principal empresa contratada pela Wyeth-- descreve o trabalho a um pesquisador.

"A beleza deste processo é que nós nos tornamos o seu pós-doutorando! Nós fornecemos um rascunho geral, ao qual você sugere mudanças e revisa. Nós então desenvolvemos um rascunho com os contornos gerais. Você tem todo o controle editorial sobre o trabalho, mas nós lhe forneceremos materiais para crítica e revisão."

Segundo Fugh-Bergman, a realidade era bem diferente: eles só podiam fazer mudanças simples e que não descaracterizassem as mensagens de marketing pretendidas pela farmacêutica.

IMORAL, E DAÍ?

Usar "escritores fantasmas" não é ilegal, embora seja considerado antiético.

As empresas aproveitam uma brecha na regulamentação nos EUA. A FDA (agência responsável pela liberação de remédios) não considera artigos científicos como marketing. Ou seja: o que acontece nesse espaço não faz parte da sua área de atuação.

De acordo com o artigo, não existem evidências de que os autores foram pagos para assinar os trabalhos.

OUTRO LADO

A Pfizer, que comprou a Wyeth em janeiro de 2009, desqualificou as críticas de Adriane Fugh-Berman. "O artigo ignora completamente --e convenientemente-- o fato de que os manuscritos publicados estão sujeitos a uma rigorosa revisão por pares feita por especialistas externos (...) e que a sua integridade e rigor científico já foram reconhecidos em vários julgamentos", disse a empresa em nota.

A Pfizer afirmou que tem uma rígida "política de transparência" científica. De acordo com a empresa, as pesquisas em que a companhia está envolvida sempre mencionam todas as contribuições e coautorias presentes no processo.

A farmacêutica afirmou que empresas especializadas em escrever textos médicos "apenas auxiliam os autores a fazerem os rascunhos" e os cientistas têm "total controle sobre os trabalhos".

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Nassif,

 

Já que o assunto é mídia é ciência, você talvez goste de ler essa manifestação publicada hoje na Sociedade Brasileira de Física (SBF):

 

http://www.sbf1.sbfisica.org.br/boletim1/msg220.htm

 

Futebol e Avaliação Tupiniquim (por Paulo Murilo Castro de Oliveira)

Saiu hoje (3/9/2010) uma reportagem em O Globo, página 4 do caderno de esportes. O título é "Futebol e Ciência", o subtítulo "Um gol finalmente explicado pela ciência", e ainda o subsubtítulo "falta cobrada por Roberto Carlos em jogo pela seleção no Torneio da França de 1997 é tema de estudo publicado por físicos franceses". A reportagem não dá a referência completa, mas trata-se da revista inglesa New Journal of Physics, volume 12, 093004 (2010), artigo de autoria de Guillaume Dupeux, Anne Le Goff, David Quéré e Christophe Clanet. Aparentemente a reportagem foi feita com dados colhidos não da citada referência original, nem diretamente dos autores, mas na segunda mão de uma reportagem da BBC de Londres, que entrevistou os autores franceses.

Meu comentário aqui se refere à mentalidade tupiniquim que conduz nossa imprensa e também, infelizmente, boa parte de nossa comunidade científica a valorizar sobremaneira o que vem do hemisfério norte. Outro artigo científico bem anterior, sobre o mesmo assunto mas referente ao famoso gol que Pelé não fez contra o Tchecoslováquia na Copa do Mundo de 1970, foi publicado aqui mesmo numa revista tupiniquim, por colegas igualmente tupiniquins, como eu e os leitores desta página em sua grande maioria. Trata-se da Revista Brasileira de Ensino de Física, volume 26, 297 (2004), artigo de autoria de C.E. Aguiar e G. Rubini. Na minha opinião, o gol não feito de Pelé foi muito mais importante do que o de Roberto Carlos, assim como Pelé foi muito mais importante do que Roberto Carlos (sem desmerecer o atual corintiano). Também acho que a Copa do Mundo de 1970 foi muito mais importante do que o Torneio da França em 1997. No entanto, o gol não feito de Pelé envolveu duas seleções do terceiro mundo (Brasil e Tchecoslováquia, enquanto o gol de Roberto Carlos foi contra a nobre seleção francesa. Além disto, a copa de 1970 ocorreu no México, não exatamente no hemisfério sul, mas abaixo do Rio Grande, enquanto o Torneio da França ocorreu na França. Daí se deduz como se faz a valorização de assuntos que mereçam aparecer na mídia do hemisfério norte: maior valor intrínseco, a priori, ao que se faz por lá.

Da mesma maneira, o artigo anterior de 2004 envolveu apenas autores tupiniquins, publicado numa revista tupiniquim. Daí se deduz como se faz a valorização do trabalho científico no hemisfério norte: maior valor intrínseco, a priori, ao que se faz por lá.

Até aí, não vejo nada além da simples ação tendenciosa dos povos do hemisfério norte, que sempre puxam a sardinha para a sua própria brasa. Tanto na imprensa ordinária como na científica. Não me agrada, mas aprendi a conviver com tal prática. Não acho que devamos fazer o inverso por aqui, retaliação. Ao contrário, acho, sim, que não devemos puxar a sardinha para brasa alguma, avaliar o que se faz independente de onde é feito, tanto no que se refere aos assuntos jornalísticos quanto aos científicos, bem como outros assuntos.

O que realmente me incomoda é que nós, tupiniquins, adotamos a mentalidade tendenciosa deles, a tendência a valorizar o que é feito ou publicado lá no hemisfério deles, em detrimento do que se faz ou se publica aqui no nosso hemisfério. No balcão de nossas agências de fomento tupiniquins, quanto vale um artigo publicado no New Journal of Physics (parâmetro de impacto maior do que 3)? (A propósito, parâmetro de impacto é uma invenção do hemisfério norte.) Quanto vale, por outro lado, no mesmo balcão das mesmas agências de fomento tupiniquins, um outro artigo publicado na gloriosa Revista Brasileira de Ensino de Física? Certamente não podemos, nem nos interessa, modificar os critérios de avaliação dos povos do hemisfério norte. Mas podemos, sim, modificar os nossos. Podemos, não! Devemos! É imperativo que adotemos nossos próprios critérios, adequados ao nosso modo de vida e às necessidades particulares de nossa região, muitas vezes bastante distintas das equivalentes no hemisfério norte. Está aí a também gloriosa EMBRAPA a mostrar de forma inequívoca que podemos fazer por nós mesmos aquilo que necessitamos, e que não se encaixa nos padrões do hemisfério norte. Inclusive com nossos próprios critérios de avaliação a respeito do que nos serve e do que não nos serve. Adotar os critérios alheios aos nossos interesses implica em literalmente jogar no lixo muito do que se faz de bom por aqui. Em particular, jogar no lixo pesquisadores competentes formados com financiamento público, com o agravante de termos ainda muito poucos pesquisadores no país para suprir nossas necessidades. Alguns acabam mesmo sendo sugados por universidades e centros de pesquisa do ... hemisfério norte.

Finalmente, uma última diferença importante entre as duas revistas citadas. A Revista Brasileira de Ensino de Física é de leitura gratuita, tanto em papel como via internet. Os autores também nada pagam por seus artigos lá publicados. O critério de seleção é apenas o da qualidade do texto, avaliada pelos pares, sobre o qual posso dar meu testemunho ser bastante rigoroso e sério como devem ser as boas revistas acadêmicas. Já o New Journal of Physics é de livre leitura via internet, mas os autores pagam por seus artigos lá publicados. Trata-se de uma nova moda, recentemente adotada por firmas editoriais do hemisfério norte para sustentar financeiramente as revistas que editam. É evidente o perigo de distorções e discriminações potencialmente advindas desta nova moda (o autor paga).

 

 

Dei uma olhada na revista. Achei artigos em português e espanhol. Salvo engano não há artigo em inglês. Infelizmente ( talvez seja criticado por isso) inglês é a língua mais falada em ciência. Revistas japonesas publicam em inglês, alemãs, etc. Existem revistas que publicam um mesmo artigo em duas línguas, a local e o Inglês. Isso faz com que o artigo seja lido no mundo todo, por alemães, franceses, japoneses, coreanos, brasileiros. Revistas em inglês recebem artigos do mundo todo, as em português recebem da américa latina, portugal, espanha...e o que mais? Daí, da maior quantidade de submissões, as revistas mais procuradas podem selecionar melhor os que serão publicados. revistas que recebem poucas submissões muitas vezes aceitam artigos de má qualidade ( ainda que o corpo editorial seja bom e rigoroso) porque simplesmente precisam fechar o volume, senão a revista não sai. Em relação especificamente a saúde, existem alguns trabalhos que não encontraram a nacionalidade como barreira à publicação. Um dos viéses mais significativos de publicação foi o resultado do estudo: estudos com resultados positivos favorecendo um novo tipo de tratamento tem maior possibilidade de publicação, e em um tempo mais curto. Esse viés não é necessariamente do corpo editorial da revista, mas sim dos autores e patrocinadores do estudo, que não enviam para publicação as pesquisas com resultados neutros ou negativos. Isso é um problema sério que vem sendo discutido (por exemplo, com a obrigação do registro público prévio de cada estudo em andamento e a sua necessária publicação). Concordo com o complexo de vira-latas da imprensa tupiniquin, afinal, o estudo do gol do Pelé, publicado em Português em um revista Brasileira mereceria alguma repercussão na imprensa leiga (até como uma forma de ser divulgada a Ciência de uma forma divertida e atraente ao leigo), mas não vejo como esse fato pode ser relacionado a um possível preconceito dos leitores (leigos e cientistas) do hemisfério norte. Fosse publicado em Inglês, certamente seria mais lido em todos os lugares. Quanto às nossas necessidades, acho que o direcionamento do financiamento para pesquisas que produzam resultados mais úteis a realidade brasileira talvez seja um caminho, enquadramdo-se ou não nas necessidades do hemisfério norte, mas sem descuidar do rigor científico, que é universal, sob pena de criarmos uma Ciência de segunda classe, portanto acho que esse caso é muito mais de objeto de pesquisa do que de meio de pesquisa. Muitos pesquisadores Brasileiros vão estudar fora e não voltam simplesmente por não serem valorizados aqui, não só em questões financeiras, mas de reconhecimento na sociedade mesmo. São vistos como "nerds" pobres e esquisitos, enquanto os ídolos são milionários jogadores  de futebol (muitas vezes medíocres), milionários (muitas vezes medíocres) e participantes de "reality shows" (na imensa maioria de vezes medíocres). Enquanto o país, sua imprensa, sua população, não der o devido valor à ciência e cientistas, esse estado de coisas não muda. O gancho do estudo fraudado, por exemplo, poderia ser utilizado para discutir maior qualidade, maior financiamento e maior rigor na produção e divulgação científica. Lamentavelmente vejo que alguns comentários (não necessariamente esse)   pegam o gancho para simplesmente "negar" a ciência. Algo como: "estão vendo, ciência é isso, não é confiável, não precisamos dela, vamos criar a nossa própria, baseada na nossa cultura popular, no respeito às nossas tradições, etc". Garanto-lhes que isso não controla epidemias, não tira aviões do chão, não produz desenvolvimento sustentável...e é perigoso...a direita radical usa exatamente esse discurso para, por exemplo negar a participação humana no buraco na camada de ozônio e no aquecimento global. Ciência não  é confiável, lembram? 

 

Caro Reinaldo,

 Sabe o que me  lembra sua argumentação? O FUD do Windows contra o software livre. Claro, toda analogia tem um momento que se rompe, mas essa parece ser bastante forte.

 Vc diz que somos detratores da Ciência. Não. Eu, pelo menos, sou contra apenas à sua visão mutilada, determinística e maniqueísta de ciência. E não, não vamos jogar a Ciência (detesto escrever isso com maiúscula) no colo da direita. Ao contrário, a intenção é exatamente arrancá-la de lá. Ah, vc pensa que a Ciência (de novo...) é pura, apolítica, sem interesse, sem ideologia? Hm. I got bad news for you, sunshine.

 Não vou comentar a incorreção ética de levantar suspeição sobre a consequência e critério dos seus colegas físicos cientistas editores da RBEF. Vou me ater apenas à especiosidade de sua argumentação.

 Primeiro argumento especioso: vc reclama que a revista não é em inglês. Problema seríissimo. Claro, não sendo em inglês, não vai ser entendida "lá fora". Bom, mas isso não impede que seja entendida aqui dentro, não? E se houver contraditório, um artigo pode muito bem ser rebatido aqui dentro, se for o caso. E o que é mais importante? Ser entendida aqui dentro, e as teses discutidas aqui dentro, e serem realmente debatidas pela imensa maioria da população aqui dentro que não fala e lê inglês, ou ser conhecido por umas duas ou três vacas sagradas lá fora?

 Segundo argumento especioso: que, para "fechar o volume", artigos de menor qualidade seriam aceitos apesar dos critérios rigorosos. Amigo, vc não tá falando da Revista de Quantumfisicobogodinâmica de Xiririca Além do Bode. Vai checar o Qualis da RBEF. Como foi dito, o fator de impacto é calculado lá fora, baseada em citação cruzada lá fora, ou seja, é uma qualidade de "lá fora". 

 E eu conheço bem essa história. Conheço uma anedota exemplar. Uma pesquisadora européia consegue publicar onde quiser e participar de congressos extremamente seletivos quando quiser. E não porque o trabalho dela seja alguma coisa de especial não. É pelo fato de ser amante de um dos caras mais conceituados da área. Evidentemente, vc vai ter q tomar essa anedota pelo valor de face, pq eu não vou citar nomes e nem sequer a área pra comprová-la. E aposto que muita gente aqui conhece anedotas semelhantes.

E mais: não é a primeira vez que essa melangê de jenessequá (como diz a Madrasta do Texto Ruim) entre revistas científicas e indústria farmacêutica é apontada. Da vez passada, aliás, foi o próprio editor de uma revista que abriu o jogo.

[]s

Mario Abramo

 

"Eu quase de nada não sei. Mas desconfio de muita coisa" Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas

Caro Mário. Nem sempre nosso texto digitado na pressa de quem não ganha um centavo com isso ( e tem que trabalhar para pagas as contas) reflete corretamente nosso pensamento. Equívocos e omissões podem levar a resultados diversos do que pretendemos. Talvez eu não tenha me feito entender corretamente, e quero acreditar que talvez não tenha entendido corretamente o que você realmente quis dizer. Senão vejamos: uma discussão que daria “pano pra manga” seria a imparcialidade ou não da ciência. Ouço freqüentemente que ela serve a ideologias. Tenho minhas dúvidas. Embora possa ser usado para fins escusos, abomináveis (como a construção de armas de destruição em massa), o método é também utilizado para, por exemplo, cura, melhoria da qualidade de vida, preservação do meio ambiente, etc. O seu uso talvez possa ser submetido a ideologias , mas a própria ciência em si.. não entendo como diabos E=mc2 possa ser machista ou feminista, de direita ou esquerda, comunista, capitalista ou facista. Se tiver tempo e paciência, gostaria sinceramente de entender isso, mas por ora é irrelevante.

Você diz que quer arrancar a ciência do colo da direita ( coloquei em minúsculas, para não causar nenhum sentimento maléfico), mas em alguns posts seus, salvo engano, e bem me lembro, em relação aos fitoterápicos, você defendia a não necessidade dos testes científicos, já que a prática estaria validada pela tradição popular. Desculpe, mas não vejo como negar a ciência possa “retirá-la do colo da direita”.  Você critica a minha visão “mutilada, determinística e maniqueísta de ciência”, e paradoxalmente me passa a mesma impressão: a de que você sim, tem uma visão ““mutilada, determinística e maniqueísta de ciência”.

Você diz que não vai comentar mas comenta uma minha  pretensa “incorreção ética de levantar suspeição sobre a consequência e critério dos seus colegas físicos cientistas editores da RBEF”.

Colo meu texto: “Revistas em inglês recebem artigos do mundo todo, as em português recebem da américa latina, portugal, espanha...e o que mais? Daí, da maior quantidade de submissões, as revistas mais procuradas podem selecionar melhor os que serão publicados. revistas que recebem poucas submissões muitas vezes aceitam artigos de má qualidade ( ainda que o corpo editorial seja bom e rigoroso) porque simplesmente precisam fechar o volume, senão a revista não sai.” Lendo com atenção, não vislumbrei nenhuma referência a revista RBEF, que sequer conheço, pois não sou físico. Descrevi um fato geral: revistas que recebem mais submissões tem mais material de escolha e portanto podem selecionar melhor os artigos para publicação que revistas que recebem poucas submissões. Revistas com versão na língua inglesa ampliam seu potencial de receber submissões em relação a revistas de língua somente portuguesa. Você pode questionar e apontar onde estão os erros nesse pensamento, mas você não pode afirmar que fiz qualquer comentário direto em relação à revista RBEF ou ao seu corpo editorial em relação a isso, porque eu não fiz.

Você: “Primeiro argumento especioso: vc reclama que a revista não é em inglês. Problema seríissimo. Claro, não sendo em inglês, não vai ser entendida "lá fora". Bom, mas isso não impede que seja entendida aqui dentro, não? E se houver contraditório, um artigo pode muito bem ser rebatido aqui dentro, se for o caso. Com certeza. Por isso escrevi: “o estudo do gol do Pelé, publicado em Português em um revista Brasileira mereceria alguma repercussão na imprensa leiga (até como uma forma de ser divulgada a Ciência de uma forma divertida e atraente ao leigo)“

Você: “E o que é mais importante? Ser entendida aqui dentro, e as teses discutidas aqui dentro, e serem realmente debatidas pela imensa maioria da população aqui dentro que não fala e lê inglês, ou ser conhecido por umas duas ou três vacas sagradas lá fora?” Acredito que as duas coisas. Uma não exclui a outra. É fundamental que sejam “entendidas aqui dentro” e serem “realmente debatidas pela imensa maioria da população aqui dentro”, da mesma forma que a expansão do debate para além nas nossas fronteiras geográficas e lingüísticas eleva o nível, atraindo mais contraditório, o que com certeza enriquece o debate. Ou não?

 Você: “ Segundo argumento especioso: que, para "fechar o volume", artigos de menor qualidade seriam aceitos apesar dos critérios rigorosos. Amigo, vc não tá falando da Revista de Quantumfisicobogodinâmica de Xiririca Além do Bode. Vai checar o Qualis da RBEF. Como foi dito, o fator de impacto é calculado lá fora, baseada em citação cruzada lá fora, ou seja, é uma qualidade de "lá fora".  Realmente, não estava falando nem da “Revista de Quantumfisicobogodinâmica de Xiririca”, nem da RBEF, nem de nenhuma em particular. Foi uma observação geral, que pode ser contestada sem que seja deturpada.

Você: “ E eu conheço bem essa história. Conheço uma anedota exemplar. Uma pesquisadora européia consegue publicar onde quiser e participar de congressos extremamente seletivos quando quiser. E não porque o trabalho dela seja alguma coisa de especial não. É pelo fato de ser amante de um dos caras mais conceituados da área. Evidentemente, vc vai ter q tomar essa anedota pelo valor de face, pq eu não vou citar nomes e nem sequer a área pra comprová-la. E aposto que muita gente aqui conhece anedotas semelhantes.” Curiosamente, agora entendo que, você sim, ofende revistas científicas e corpos editoriais.

E mais: não é a primeira vez que essa melangê de jenessequá (como diz a Madrasta do Texto Ruim) entre revistas científicas e indústria farmacêutica é apontada. Da vez passada, aliás, foi o próprio editor de uma revista que abriu o jogo.

Leia essa frase:

“Não pode haver dois tipos de medicina –convencional e alternativa. Só existe medicina que foi adequadamente testada e medicina que não foi, medicina que funciona e medicina que pode ou não funcionar. Uma vez que um tratamento tenha sido testado rigorosamente, não mais interessa até que ponto tenha sido considerado alternativo ao início. Se for demonstrado ser razoavelmente seguro e efetivo, será aceito. Mas declarações, especulações, e testemunhos não são substitutos para evidência. Tratamentos alternativos deveriam estar sujeitos a testes científicos não menos rigorosos do que aqueles necessários para tratamentos convencionais”

É de autoria de Marcia Angell, ex editora do New England Journal of Medicine, de onde foi extraída. À primeira vista a autora poderia ser classificada como é “mais-um-dos-médicos-vendidos-para-a-indústria-farmacêutica-que-é-contra-terapias-alternativas-baseadas-na-cultura-popular-porque-elas-funcionam-melhor-que-os-farmacos-e-ameaçam-o-seu-lucro.”

Ocorre que ela é a insuspeita autora de um livro chamado “A verdade sobre os laboratórios farmacêuticos”, justamente denunciando a promiscuidade entre cientistas de aluguel e companhias, poder do dinheiro influenciando publicações de resultados positivos e escondendo os negativos, perseguições a cientistas sérios, etc. Ela analisa o FDA desde o governo Reagan nos estados unidos, mostrando como foi desvirtuado como órgão de fiscalização, como a pesquisa científica foi privatizada, perdendo sua independência, etc. O faz sem negar a ciência (minúsculo, ta bom), e propondo várias soluções. Recomendo a todos os interessados.  Agora, pegar a notícia de fraude em uma pesquisa para dizer que, como a ciência é sujeita a fraude não é necessário testes científicos sobre o que quer que seja, para mim é como pegar textos mentirosos de para-jornalistas para dizer que jornalismo não presta.

E já que você colocou uma frasezinha em inglês no seu texto, tomo a liberdade:  “Don´t hate: debate”

Abraço.

PS: em tempo, achei a curva do gol do Roberto Carlos muito mais "bizarra" do ponto de vista físico do que o gol perdido no Pelé. Achei semelhante ao Gol do Nelinho contra a itália em 1982. Com todo o respeito ao Pelé e a RBFE, achei o lance que originou a pesquisa francesa mais atrativo que o que originou a pesquisa brasileira. mas isso é só uma questão de gosto.

 

Caro Reynaldo,

 Hate? Vixe, como vc pode ver, sempre escrevo de manhã cedo, depois de tomar suco de maracujá, cujas cascas conservo pra fazer a farinha (he he he, tá...) até o genérico do Liptor ser liberado. Totalmente Zen. Diferente de qd vc me pega em quizila de Oxóssi.

 Não vou entrar na discussão da parcialidade ou imparcialidade da Ciência. "Ciência" assim, com maiúscula, normalmente enunciada de forma empostada, é uma entidade abstrata e genérica demais pro meu gosto. Prefiro trabalhar com dois conceitos mais concretos: o conhecimento científico acumulado e processo de produção científica. Ops, tem um terceiro, meu predileto, que é o letramento científico.

 O conhecimento científico acumulado "em si" é relativamente neutro. Digo relativamente pq carrega uma série de mitos e crenças mais ou menos disseminados. Não tou falando de questões menores como gênero, raça, política ou religião. Tou falando da visão antropocentrica: a ciência serve para dominar a natureza e fazê-la servir à humanidade. Hum. Bacana, né? Pra quem acredita que o Homem é a criação sublime de Deus, ok. Mas xápralá: esse conhecimento é razoavelmente público e "democrático". Não tou falando do conhecimento tecnológico, claro. E não tou falando também que esse conhecimento possa ser absorvido pelas "massas" (aí entra a questão do letramento, mas é outra cerveja).  Bão. Fico com Galileu: "A função da Ciência, Andrea, é baratear a feira da dona de casa romana" (psicografado por Brecht e citado de memória por mim).

 O processo de produção científica é outra história. Aquele cientista maluco de fundo de quintal, tipo Professor Pardal, não existe há muito tempo. Produção científica hoje requer investimento, infra-estrutura, equipe, comunicação. E muito investimento a fundo perdido. E que empresa privada hoje no Brasil tem condições ou vontade de investir a fundo perdido? Apenas o Estado. É por isso, Reynaldo, que a Ciência não pode ser fraudada (ou não a longo prazo, pelo menos), mas o processo de produção científica sim, principalmente quando o único critério de validação científica é a publicação em revistas científicas de um único tipo de experimento.

 Fui casado com uma médica acupunturista. A formação dela foi tradicional, em Preventiva. Exerceu cargos de direção em Saúde Pública. Resolveu voltar a clinicar como acupunturista. Foi um choque cultural. A visão da medicina tradicional chinesa é completamente diferente da visão da medicina ocidental. São abordagens diferentes da mesma realidade. Supor a priori que uma é superior à outra é muita arrogância. As duas são complementares. E ao contrário do que diz a Marcia, podem sim coexistir, o que aliás é recomendado pela OMS.

 Várias vezes eu falei para ela publicar. Os resultados que eu testemunhei (inclusive em mim mesmo) eram inquestionáveis. O problema é que esbarrava sempre nisso: como montar um ensaio de duplo cego, em um tipo de prática onde não existe aleatoriedade. Ela sabia que um estudo estatístico teria pouquíssima chance de ser aceito. Não pq fosse incorreto do ponto de metodologia científica, mas por causa da visão limitada de uma parcela da comunidade científica. Aliás, vi esse preconceito em uma pós-doutoranda de biologia molecular na Faculdade de Saúde Pública: ela considerava os trabalhos lá "pouco científicos". Eu perguntei por que, e ela respondeu simplesmente pq os resultados eram estatísticos e não reprodutíveis...  eu sai dando risada. Tá achando q o mundo é bancada de laboratório?

 Em síntese, o problema é que vc confunde Ciência com publicação em revista científica. Mas vou fazer uma proposta indecorosa: transferir esse papo (que tou achando bastante interessante) ou para o Portal  (o que eu acho melhor) ou para um blog pessoal, fazendo um resumo dos n posts sobre fitoterápicos e mais esse daqui (e outros que porventura aparecerem). Pq post de dia passado é igual jornal de ano anterior, ninguém lê.

[]s

Mario Abramo

 

 

"Eu quase de nada não sei. Mas desconfio de muita coisa" Guimarães Rosa - Grande Sertão: Veredas

Nada de estranhar quando é a indústria farmacêutica em questão. E a "ética" médica. E os congressos pagos com todas as benesses aos médicos, em lugares bonitos como Aruba, nisto a Branca esta cheia de razão. Em uma indústria que pratica propaganda no melhor estilo Goebbels. E quem "patrocina" a pesquisa tem sempres um resultado que lhe agrada.

 

Só uma correção ao texto. Diz que não é ilegal.

Na maior parte dos periódicos, você assina um termo em que se compromete a declarar conflitos de interesses. Se você declara não haver conflito de interesses quando há, isso é crime. Vai dependender da legislação do país, e também não sou advogado, mas pode ir desde falsidade ideológica até estelionato...

Manoel

 

Só gostaria de esclarecer um pouco para que não fique no ar o preconceito contra hormônios na menopausa. A indústria farmacêutica influencia e muito os médicos em seus receituários. Mas não é tanto através de artigos científicos, porque o nível de informação hoje é muito diversificado através da internet e congressos. A influencia se dá mais através de "presentinhos simpáticos" oferecidos nos congressos e em viagens a paradisíacos locais do mundo e coisitas semelhantes. Quanto aos hormônios ninguém esconde mais esta história de câncer porque desde que eles surgiram, há dezenas de anos, esta questão é levantada. O câncer não é automático pelo uso do hormônio. Atinge pessoas predispostas, em geral, as mulheres que têm histórico familiar de câncer de mama e óvários. Os ginecologistas também não são bobos nem lesos. Eles perguntam às mulheres se elas têm ou não histórico familiar de predisposição a câncer de mama e ovário. E mandam sempre fazer exames preventivos. Se as mulheres tiverem qualquer suspeita, não receitam. Pelo menos no Brasil é assim. E hormônio minha gente para quem não é população de risco melhora muito a qualidade de vida das mulheres na menopausa. Então, vamos informar mas sem criar pânicos desnecessários.

 

Obviamente o problema deve ser discutido, as falhas apontadas e corrigidas. É possível sim "emplacar" um artigo em revistas especializadas de qualidade, mantendo uma boa  "forma" (descrição da metodologia adequada)  mas produzindo números falsos (em suma: mentindo, escondendo, deturpando). A maneira mais eficiente de se evitar isso é replicando os estudos com financiamento independente (leia-se público) e extirpando do mercado cientistas de aluguel ( sim, eles existem) e companhias que proporcionam tais práticas, ferindo onde elas mais sentem: no bolso. Multas astronômicas que inibam a incidência nesse crime, e dependendo do dano, cadeia para alguns figurões.  Para isso é preciso vontade política e  coragem, apoio popular e da imprensa (já que a briga é grande). Agora confundir Ciência com laboratórios farmacêuticos, fraude com desqualificação do método científico é de uma ingenuidade (ou oportunismo) sem tamanho. Já há alguém aqui escrevendo " já os fitoterápicos"...já os fitoterápicos o quê....? Uma empresa frauda estudos, e isso seria a prova que fitoterápicos não precisam ser estudados?! É por aí?

 

Nada mais comum. A capital comodifica tudo, desde medicina a produção científica. Mesmo a revisão por pares é fácil de ser comprada. Um farmacêutico aliciado vale mais que várias horas de comercial na TV.

 

A crise moral-ética da humanidade é bilhões de vezes maior que a crise econômica, sendo a segunda efeito da primeira.

 

Voltando à discussão sobre a medicina por evidências, temos a comprovação científica de como funciona a indústria farmacêutica (aposto que alguém vai vir correndo para dizer que  não são todas as empresas que fazem isto, o que penso também ser uma improvável verdade).

A publicação de um estudo tem como intenção intrínseca que ele possa ser refeito e assim comprovado por  cientistas independentes. Mas isto simplesmente não acontece. Além de caro, ficar refazendo pesquisas de outros cientistas não "dá camisa" prá ninguém e a indústria farmacêutica já sacou. Então o que ela faz? O que foi descrito no post, pois se sair em revistas "sérias" a maioria esmagadora dos estudos são aceitos sem perguntas ou contestações e a mentira passa por verdade, até que (Deus os livre) a falta de efetividade ou graves problemas colaterais comecem a acontecer.

Já os fitoterápicos...

 

 

E os Fitoterápicos....

Em resposta à entrevista concedida pelo médico Drauzio Varella à Revista Época, a Embrapa vem a público esclarecer que:

A Embrapa Amazônia Oriental, Unidade da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, vem trabalhando, ao longo dos seus 70 anos de história, na geração, adaptação e validação de conhecimentos e tecnologias, respeitando os saberes e tradições do povo brasileiro. continuação

 

Falaram, falara, falaram...e não disseram nada...onde estão as publicações? Entrei no PubMed, digitei "ladeira O", nenhuma artigo dele, digitei "ladeira", apareceram 82 artigos, nenhum dele...se existe ciência existe pesquisa, se existe pesquisa, ele é publicada...onde estão?

 

e  ai?  acreditar em quem?  quem nao e medico, cientista e nao sei mais o que, como que fica?

 

Pelo visto estes artigos científicos valem a mesma coisa que parecer de ex-ministro do Supremo.

 

TEm uma MUITO melhor acontecendo AGORA na TV!!! a propaganda do mercadolivre!!! comemorando mais de 45 milhões de sei la o que, o numero é apresentado a todo momento... coincidencia demais né?

 

Deixa ver ....., aonde que eu ví que a Verónica Serra é sócia do Mercado Livre ?

 

Hmm... artigos favoráveis encomendados, feitos por amigos, publicados, repercutidos e que depois são usados como evidência.

Sensação estranha... onde será que eu já vi isso?