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A questão do acordo de livre comércio entre os EUA e a UE

Do Valor

Uma aliança comercial ocidental anti-China?

Humberto Saccomandi

O mundo está prestes a ser atropelado por uma negociação que visa criar a maior área comercial do planeta. Mas o acordo de livre comércio entre os Estados Unidos e a União Europeia, se for concluído, ameaça ser muito mais do que isso. Pode criar regras e standards que terão de ser seguidos pelo resto do mundo. Se, em 1949, os EUA e a Europa ocidental criaram a Otan para fazer frente à ameaça militar soviética, esse acordo parece surgir como uma espécie de Otan econômica, uma aliança ocidental para enfrentar o crescente desafio do China.

Tanto os EUA como a UE já aprovaram o início das negociações, que deve ocorrer nos próximos meses. Não é a primeira vez que as duas maiores economias globais tentam um acordo comercial. E nunca deu certo. Mas agora ele parte de altíssimo nível, impulsionado pelo presidente Barack Obama e pelos principais líderes europeus, e as ambições são bem maiores do quem antes. "Ambos os lados estão fortemente motivados", afirmou Susan Schwab, que foi a principal negociadora comercial americana de 2006 a 2009. O prazo para conclusão é 2015, em tempo de ser votado nos EUA antes do fim do governo Obama.

Além de serem as duas maiores economias, EUA e EU são também os dois maiores importadores do mundo. E, em comércio, importa quem importa. Os EUA e a UE perfazem mais de 50% do PIB global. Em 2012, o comércio bilateral de bens representou US$ 650 bilhões. Os EUA são o maior mercado para os europeus, e vice-versa. O investimento de empresas americanas apenas na pequena Irlanda, entre 2000 e 2012, foi seis vezes superior ao investimento americano na China nesse período. Na verdade, nos últimos dois anos, as empresas americanas desinvestiram da China, enquanto investiram centenas de bilhões na Europa.

Acordo EUA-UE deve forçar liberalização comercial no mundo

O acordo deve incluir uma redução de tarifas de importação. "As tarifas, na verdade, são maiores do que se pensa, que os 3% que vêm sendo ditos. Giram em torno de 5% a 7%. Como o fluxo de comércio é bem grande, se elas forem eliminadas, os ganhos serão grandes. Além disso, haverá um incremento da competição nos dois mercados", disse o economista sueco Fredrik Erixon, diretor do European Centre for International Political Economy (Ecipe) e que assessorou a Comissão Europeia nos estudos preliminares do acordo.

Segundo ele, porém, o ganho maior não virá da eliminação de tarifas, mas da redução de barreiras tarifárias e da redução da divergência regulatória entre os EUA e a UE. "Se for possível se livrar de boa parte das restrições de acesso a mercado que existem no setor de serviços, então haverá ganhos substanciais."

Um exemplo disso é a questão dos standards. Para vender um carro nesses mercados, é preciso passar por uma série de testes de segurança. Os testes diferem em cada área, mas visam garantir padrões similares de segurança. Nesse caso, pode-se chegar a um standard comum ou então cada lado pode manter o seu, mas aceitar também o standard do parceiro. Isso traria às empresas economia substancial e facilitaria o acesso aos mercados.

Ao definir standards, regras e padrões de investimento e comércio para os seus mercados, EUA e EU na prática vão impor essas definições ao mundo. "O sentimento que se tem é que, com Doha bloqueado, os americanos e europeus vão fazer um grande acordo à parte. E, como a parte de tarifas está quase resolvida, eles vão fazer acordos em outras áreas, como serviços, investimento, propriedade intelectual, regras de concorrência, de energia, ambientais. Se eles conseguirem um acordo em todos esses capítulos, o resto do mundo não terá outra opção, se quiser continuar exportando, a não ser respeitar essas regras", afirmou uma fonte na Europa que acompanha as negociações e que pediu para não ser identificada.

Erixon reconhece esse efeito de pressão sobre os demais países. "O grande prêmio virá se os EUA e a UE conseguirem um acordo que ajude a promover e a forçar mais liberalização do comércio em outras partes do mundo", disse. Que partes? Principalmente a China, mas também outros emergentes, como Índia e Brasil.

"Tenho 100% de certeza de que [conter a China] foi uma consideração que levou os EUA e a UE a decidir negociar uma agenda de liberalização comercial. Mas não estou certo de que foi o motivo principal. Mesmo porque ambos os lados têm conversas bilaterais com a China, ambos sabem que não podem tomar medidas que prejudiquem o acesso ao mercado chinês, que é onde crescerão as vendas das empresas americanas e europeias. Eles estão cautelosos para não fazer coisas que tenham uma repercussão negativa na relação com a China. Mas a análise geral é que, para conseguir melhorar o acesso a mercado chinês, é preciso um modo diferente de mudar a posição da China, para que permita mais liberalização do seu mercado e introduza mais disciplina em relação a práticas chineses que distorcem o comércio, como ajudas estatais. Não foi possível conseguir isso com as negociações de Doha."

A fonte na Europa é mais direta em ver a China como alvo do acordo. "A ninguém escapa o fato de que a negociação coincide com a notícia de que a China se tornou o maior país comerciante do mundo. Isso é uma coalizão ocidental contra a china. Essa é uma das leituras. É o Atlântico Norte em toda a sua força."

Para Schwab, ninguém faz um acordo comercial, que é uma negociação difícil, apenas para pressionar terceiros. "Os EUA querem o acordo pois ele eleva a competitividade americana". Ela rejeita essa visão de que o acordo seria uma Otan comercial, uma aliança ocidental contra a China. Diz que os EUA prefeririam que o acordo fosse multilateral, na OMC, mas isso não foi possível.

Tanto Erixon, como Schwab e a fonte an Europa são cautelosos sobre a possibilidade de o acordo EUA-UE ser realmente concluído. Lembram que a negociação será difícil, especialmente para os europeus. Mas dizem que nunca houve tanta disposição política e das comunidades empresariais.

Para o Brasil, esse acordo "seria péssimo", diz a fonte. "Por um lado, o país fica cada vez mais isolado e menos competitivo, pois o mundo está correndo, fazendo acordos, e as indústrias se movem de maneira integrada." Isso tende a deixar o Brasil ainda mais dependente das commodities. "Mas, mais do que isso, há a questão de quem se senta à mesa onde as regras de comércio estão sendo definidas. O Brasil não está participando dessa mesa."

"O Brasil precisa ficar atento para não perder competitividade por causa desse isolamento em acordos", disse Schwab. "O país corre o risco de ficar para trás."

Humberto Saccomandi é editor de Internacional. Escreve mensalmente às quintas-feiras

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A questão geopolítica: Quem tem o pode e a reação neoliberal

Enviado por Oswaldo Conti-Bosso, sab, 23/02/2013 - 12:51

Autor:  

Prezados geonautas,

Comentários aos posts: Economia brasileira estaria vivendo seu eclipse? (ÉPOCA, 23-02-13), e A questão do acordo de livre comércio entre os EUA e a UE(VALOR: Uma aliança comercial ocidental anti-China?, 22-02-13).

 

Nada se entende fora da história”, nos lembra Alfredo Bosi. A situação geopolítica em nossos dias, guardadas as devidas proporções, lembra a reação do sistema econômico global (estrangulamento econômico, político, seguido de golpe sangrento), liderada pelos EUA (Nixon) ao projeto do socialismo democrático do Chile, de Salvador Allende.

A aliança ocidental hoje, entre EUA e Europa, não é somente anti-China, mas anti todas as forças contrária a hegemonia geopolítica dos últimos dois séculos, do modelo eurocêntrico anglo-saxão, de mundo euro-americano. É onde entramos.

Em agosto de 2012, no auge das greves dos “organizados’, dos que tem sindicatos, o funcionalismo público, professores das universidades, polícia federal,..., de quem ganhava no período,  entre 8 mil reais a 14 mil reais, e não da massa de sub-proletário e sem organização,  criei um post para alertar sobre essa questão comparando com o Chile de allende: Brasil em greve: retrato do Chile de Allende?, juntamente com uma imagem poderosa, uma montagem de foto, que remonta o início dos anos 70 de Allende no Chile, aos final dos anos 70 no Brasil das greves do ABC, com Lula:

Portanto, as matérias do VALOR e da ÉPOCA (da mídia em geral), contam a versão de quem tem o poder econômico e a hegemonia da geopolítica e não o outro lado da história, como a fala da Presidente Dilma Rousseff na África (como o Lula e FHC em outras oportunidades), reinvindicando reforma da ONU. Como diz uma frase nos meios de negócios, "não existe almoço grátis". É bom lembrar que não existe democracia no mundo da geopolítica global, existe correlação de forças, quem pode mais chora menos, essa é a realidade dos fatos.

Lembro de uma frase na camiseta dos bichos que criamos no início dos anos 80, quando estudante de engenharia no D.A. dos estudantes: "liberdade não se mendiga, se conquista". Essa retórica de falar "ad nauseam" sobre reformas, pedindo reformas, tal qual a tática do Ministro da Fazenda nos últimos anos, reclamando aos banqueiros dos países ricos, e a nossa taxa de câmbio no período, em relaçãoao dólar era R$1,60, uma elite mediocre. Essa é nossa realidade, nossa elite intelectual, adolescente, e marginal.

A pergunta a inteligentsia (zero à esquerda) ao lulismo do PT: E agora José? 

 

Menino de Engenho - engenharia de idéias e laços sociais. “A leitura do mundo antecede a leitura da palavra”. Quem sou e de onde vim?: http://www.advivo.com.br/blog/oswaldo-conti-bosso/quem-sou-e-de-onde-vim

Anti-China não: ANTI-MUNDO.

 

Com o acordo, o dolar vai acabar de uma vez com o euro....Pobre UE.

 

Celso

"Mas a análise geral é que, para conseguir melhorar o acesso a mercado chinês, é preciso um modo diferente de mudar a posição da China, para que permita mais liberalização do seu mercado e introduza mais disciplina em relação a práticas chineses que distorcem o comércio, como ajudas estatais. Não foi possível conseguir isso com as negociações de Doha."

Engraçado ... reclamam das ajudas estatais da China que distorcem o comércio, mas ... não revisam os subsídios aos agricultores de seus país . Isto não é "ajuda estatal" ?

O problema de certos negociadores é que querem tudo de nós , mas não cedem um centímetro no que nós queremos. Basicamente, não foi por isso que as negociaçõe de Doha não foram para frente ?

 

Não vai rolar, se sem a crise não conseguiram acertar os ponteiros não vai ser no meio de uma que vão ajusta-los.

 

Srªs Senadoras e Srs. Senadores, a Transparência Internacional divulgou, nesta terça-feira, a classificação anual dos países mais corruptos do mundo, e a situação do Brasil, sob o império do “lulismo”, só piorou. Demóstenes Torres 08/10/2003

Ultimamente, se analisarmos setores produtivos ao invés de economias inteiras, vemos que os standards produtivos estão sendo negociados e discutidos em arenas privadas, principalmente nas grandes mesas-redondas. Muita da dificuldade, na minha visão, vêm dos contrangimentos que o peso importador da China detém sobre os setores produtivos nacionais. Como harmonizar regras internacionais com um importador tão relevante que não se importa com padrões produtivos como os europeus e estadunidenses? Os acordos em relação à standards produtivos se tornam muito difíceis quando não há blocos importantes de consenso. A China e o peso de suas importações em alguns setores acaba por inviabilizar qualquer tentativa de harmonização regulatória. Bom, desse ponto de vista, talvez esse acordo sirva para algo..

 

Uma das últimas medidas para evitar a bancarrota. Tá me parecendo uma parceria Caracu. Tenho a impressão que sei qual o papel de cada um dos atores.

 

UE - 500 milhões

EUA - 300 milhões

Japão - 180 milhões

Coreia do Sul - 50 milhões

total = 1,03 bilhões de pessoas.  Voce acha que isso é uma aliança caracu?

me diga para quem a China vai vender?  para nos?

 

 

 

Brasil 193 milhões

Russia 142  milhões

India 1.180   milhões

China 1.338   milhões

Africa do Sul 49  milhõe

__________________________________

         2,9 Bilhões

 

   A economia dos BRICS estão crescendo, a dos EUA-UE não.

 

¨Liberdade é a liberdade dos que pensam diferente¨ -- Rosa Luxemburgo

vc acredita nessa lenda do BRICS???

acha mesmo que a Russia e India queram uma china colossal do outro lado da fronteira?

alem disso olhe a diferença educacional, economica dos blocos e novamente, para quem o BRICS vai vender suas quinquilharias mesmo?

 

Tenho dó deste MB. Não enxerga um palmo na frente do nariz.

Ele acha que o mundo é estático. Coitado.

Dá uma olhada nisto aqui.

http://www.resistir.info/crise/geab_72.html

 

 Esse texto, e os comentários que ouvi nos jornais do PIG dessa semana, dizem que isso vai ser péssimo para o Brasil, etc, . . . 

 Eles querem que o Brasil entre de cabeça num acordo deste tipo. Qurem uma ALCA remasterizada.

 Sei lá se esse acordo vai ser bom para os EUA-UE. Os  dois agora não estão muito bem agora.

 Vai que eles acabam somando os problemas e fica pior do que está.

 

 Acho  que se fizermos a UBRICS -- união dos BRICS -- ficamos quase do mesmo tamanho que eles.

 

 

¨Liberdade é a liberdade dos que pensam diferente¨ -- Rosa Luxemburgo

Mais um texto puxando a sardinha para a brasa escolhida e de forma canhestra.

Vamos analisar essa negocicação com um pouco mais de conteúdo? Lendo o texto parece que todo ele foi escrito para chegar na conclusão de que o Brasil precisa ceder às exigencias Norte Americanas e Europeias. Quem acompanha as intermináveis negociações comerciais da OMC sabe que os principais responsaveis pelos entraves à liberalização são justamente USA e Europa. Eles querem preservar sua reservas de mercado na Industria e na Agricultura e obter dos outros livre trânsito em serviços, royalties, compras governamentais e outros lucrativos ramos de comercio

Nesse acordo agora em discussão devemos nos perguntar : A Europa vai abrir seu mercado à agricultura americana? Vai aceitar ver seu equilibrio precario na agricultura (altamente subsidiada e protegida) se desfazer e levar mais alguns milhões de desempregados para os bairros pobres de suas cidades?

O USA que perderam milhares de industrias para os paises perifericos vão traze-las de volta porque os Europeus vão comprar suas bugigangas? E os Europeus vão seguir fechando suas fabricas para dar espaço aos produtos americanos?

São somente duas questões ainda não esclarecidas. Muitas outras perguntas esperam respostas serias e sem atropelos ideologicos. A simples vontade de mudar o rumo do comercio internacional não quer dizer que seja possivel da forma como esta proposto ao publico. Não sera um passeio de milhonários zangados pelo crescimento da periferia. Na minha opinião uma reação muito mais séria à perda de hegemonia economica dos paises Centrais são suas ações de guerra tentando preservar seu dominio politico das fontes de recursos naturais como ja estava em curso antes no Oriente Medio e agora se espraia para a Africa. Essas guerras sim são uma ameaça real ao livre comercio entre nações.

 

 

Não adianta fazer emparelhamento, com sentenças diferentes como no Mercosul.

O mercado (que vive do próprio trabalho) se traduz com o crescimento da demanda de emprego, produção e consumo, como se fosse um corpo. 

EUA e EU são os rotulos da ideia de medidas externas, em que nela tem que ser preservado um saldo fictício; que só pode haver em razão de outro mercado (financeiro).

Os déficits públicos (saldos acumulados) ramificam indefinidamente entre a diferença do crescimento e a formulação de tamanho do conjunto financeiro "interno e externo".

Quanto a nós, há que se manter o significado do crescimento x potencial, através das riquezas que agregam valores externos, além de sermos a estimulação compartilhada dos fatores empirístas.  

 

Uma ideia ou intuição dita de modo próprio pode servir de via de acesso em direção a percepção metafísica do ser e o quanto no universo ele é capaz de constituir por si mesmo para tal transcendência existencial.

Caro Nassif, o que ocorre é como uma moça bonita sem maquiagem que agora vai usar maquiagem, porém continua uma moça bonita. As relações entre EUA e Europa Ocidental sempre foram livres e desimpedidas e essa ação corresponde apenas numa demonstração de visibilidade procurando afirmar, aos que não sabiam, que virá uma grande troca econômica entre os dois blocos. Certamente uma ação irrelevante por quem conhece as formas comerciais entre eles.

 

O que o México ganhou com a liberalização comercial? Mais desigualdade (pobreza, baixos salários) abuso do poder econômico e uma violenta guerra as drogas.

Tá o certo o Brasil em ficar aonde estar

 

Esse acordo tem a seguinte lógica, do ponto de vista dos eua: se não podemos mais sugar o sangue da América Latina, vamos sugar o sangue da Europa.

 

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Roberto Locatelli

Profissional de computação gráfica, modelador digital

ai meu Deus!!!!  dai-me paciencia!!!!