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A renovação da esperança com Obama, em texto de Militão

Por José Roberto Ferreira Militao

OBAMA LAH!! A Audácia da Esperança II (2008 - 2012)

       Muitos já não creem na Audácia da Esperança II, mas, comungo das lições de grande pensador pré-iluminismo, FRANÇOIS RABELAIS: "Conheço muitos que não puderam quando deviam por que não quiseram quando podiam.". Acredito que OBAMA quer um mundo melhor e ele pode.

       Dentre as esperanças reiteradas - as do verbo esperançar e não do verbo esperar conforme Mário Sérgio Cortella - é a decretação do fim dos embargos a Cuba, ainda com Fidel, sobrevivente, o recebendo em Havana com os famosos charutos da paz!

 

Obama, lá!
Por: José Roberto F. Militão - 18/1/2008

http://www.afropress.com/colunistasLer.asp?ID=470 

“É verdade que, muitos na comunidade afro-americana tem duvidas quanto a sua negritude. Principalmente porque ele é um mestiço, e por ter passado boa parte de sua vida fora dos centros urbanos das grandes cidades. Muita gente acredita que ele não compartilha com a comunidade urbana dos afro-americanos suas idéias em relação ao relacionamento entre negros e brancos nos EUA.” Impressões de Nova York - É ele o Homem? (Edson Cadette - 11/1/2008, Afropress)

A partir do artigo do colega Cadette, de Nova Iorque, acima referido, temos o perfil do senador Obama e suas credenciais políticas por uma visão privilegiada de um afro-brasileiro, empenhado na luta contra o racismo e com visão privilegiada do ambiente pois residente em NY, e partícipe dos sentimentos dessa campanha presidencial de 2008, nos EUA.

De fato, o mundo, surpreso e incrédulo, a quem foi apresentado uma novidade extraordinária, um jovem político, de cor, Senador Barack Obama com real possibilidade de ser escolhido candidato a Presidente dos Estados Unidos e nós, militantes por direitos humanos e ativistas contra os ideais do racismo, temos mais uma oportunidade de reflexão sobre o que representa a estampa de um homem de cor, afro-descendente que não se trata de um "afro-americano" genuíno, nem descendente de ex-escravos como nós, condição que o diferencia: nascido nos EUA, é filho de um preto africano com uma mãe branca norte-americana, os pais separados, ainda foi levado com a mãe em novo casamento para viver na pobre Indonésia, um país tão pobre quanto o Brasil, de maioria muçulmana. Sua família, entretanto sempre foi cristã.

O perfil nos revela que foi um dedicado estudante, graduado por duas Universidades, profissionalmente, optou por ser ativista por Direitos Humanos, atuando em bairros pobres da periferia de Chicago. Desde o início da carreira política, as demandas por inclusão social é o núcleo de sua plataforma eleitoral que reitera em todos os discursos como sendo “o mensageiro da esperança e o instrumento de mudanças”. A novidade da trajetória de baixo para cima, parecida com a de Abraham Lincoln e com estampa de pessoa miscigenada e vínculos políticos com a periferia urbana, lembra ser essa mesma a plataforma que levou à vitória a campanha de Lula em 2002.

Chama a atenção na candidatura que traz o cunho sócio-racial, por sua condição de afro-descendente oriundo de família modesta, militante por direitos sociais na periferia de Chicago e que, a partir dessa militância, se transforma numa importante liderança política. Uma questão que pode assustar a conservadora e racialista sociedade norte-americana é que se afirma com o discurso da "esperança e da mudança" que tem semelhanças (e não identidade ideológica) com a ascensão de Hugo Chavez, na Venezuela, e de Evo Morales, na Bolívia, além do nosso Lula. O que distingue o doutor Obama é ser um bem conceituado advogado, com sólida formação acadêmica na Universidade de Harvard, tradicional formadora das elites.

Com os referidos políticos da América do Sul, tem em comum, além da origem modesta, a simbologia da mesma improbabilidade que um operário metalúrgico, um jovem militar, um líder indígena e um afro-americano, tivessem de fato, a possibilidade de assumirem lideranças nacionais ainda jovens, com menos de 50 anos. E, menos ainda que tal probabilidade se dê nos EUA, de secular história de conflitos raciais, da mais poderosa potência econômica e militar. Independente dos resultados eleitorais de 2008, o jovem Senador Obama, aos 46 anos, prenuncia que todos serão personagens políticas que vieram para ficar e influenciar o mundo nos próximas trinta anos.

Diante dessa realidade, o que significará para nós, afro-brasileiros, uma eventual vitória do doutor Obama? A primeira constatação é que ele não representa setores do nosso movimento "negro" adeptos da racialização do Estado. Ele nem foi militante dos "blacks moviments", o movimento afro-americano e para ser eleito Senador concorreu e venceu um antigo político apoiado pelos movimentos blacks e o fez com a defesa de políticas públicas universais e sem levar avante nenhuma bandeira de "cotas raciais", apenas acenando com empenho em políticas públicas de Ações Afirmativas que sejam promotoras da igualdade e que neutralize todo tipo de discriminações correntes.

O Senador construiu a carreira política, como parlamentar e mantém vínculos e compromissos com movimentos sociais. Uma evidente característica estampada no perfil humano de Obama é o fato de ser miscigenado tal como é a maioria dos brasileiros. O fato de não ser descendente de ex-escravos é uma situação inédita que o diferencia para a população branca e para os latinos, asiáticos e africanos pois não tem o raivoso discurso dos descendentes de escravos, vítimas do racismo institucional nos EUA, nem se apresenta como militante dos "direitos dos pretos", mas na defesa de direitos dos excluídos, que além dos afro-americanos, contempla também os demais segmentos: mulheres, índios, homossexuais, deficientes e idosos.

É o que se deduz de seu livro (A Audácia da Esperança, 2005), verdadeira plataforma política, em que destaco duas frases simbólicas. A primeira revela o caráter da responsabilidade ética com a formação da juventude distante de conflitos e de violações de direitos: "Eu sonho com uma América com mais engenheiros e menos advogados." A segunda, é a síntese de uma plataforma de superação de crenças negativas baseadas na crença em raças, no machismo, sexismo e homofobia que sustentaram as culturas defeituosas dos séculos 19 e 20: "Eu rejeito a política baseada apenas na identidade racial, na identidade homem-mulher ou na orientação sexual. Eu rejeito a política baseada na vitimização."

De seu discurso político, recolho lições que servem à nossa disputa política-racial da última década. Desde o início da vida política, a questão racial jamais foi tema principal cujo núcleo tem sido a inclusão, a promoção da igualdade, a garantia de oportunidades, o combate à pobreza e melhor distribuição de rendas, naquela que é a maior economia do mundo. No campo social, sua principal proposta é um imenso programa de transferência de renda, no formato "bolsa-família/ renda mínima" de fazer inveja ao Presidente Lula e ao Senador Eduardo Suplicy com a promessa de transferir U$ 80 bilhões de dólares por ano para as famílias mais pobres. O programa de Lula, dispõe de cerca de U$ 6 bilhões por ano e altera substancialmente a realidade social brasileira.

Esse programa, se autorizada a implementação pelos votos do povo norte-americano, contrariando toda a cartilha liberal vigente nos Estados Unidos, far-se-ia, em poucos anos, a maior distribuição de rendas jamais imaginada no mundo capitalista. Para viabilizá-lo, promete mobilizar cada distrito, cada cidade, cada Estado e ainda recorrer-se de milhares de organizações civis e também à consolidada rede de fraternidade das igrejas católicas, protestantes e evangélicas, especialmente, nas periferias urbanas.

Na América de maioria protestante, Obama tem repetido sua adesão à fé cristã, afastando os preconceitos de seu nome africano, que lembra o Islã, e tem ainda como compromisso o fim da Guerra do Iraque e a retirada de todos os soldados, no prazo de 18 meses. Seu mais aclamado discurso, proferido na Convenção do Partido Democrata de 2004 e que o transformou em estrela política, é um ato de declaração de orgulho e de amor à América e, mais ainda, de fé nos valores democráticos da Declaração de Independência dos Estados Unidos.

Ninguém imaginava em 2004, que um jovem desconhecido, então simples candidato a Senador por Illinois, um afro-descendente, desejava viável a própria candidatura presidencial em 2008, cujo estrelato, nasce declarando seu amor pelos Estados Unidos, por seu povo e pelos valores daquela sociedade: "Esta noite, nos reunimos para afirmar a imensidão da nossa nação — não por causa da altura de nossos arranha-céus, nem pelo poder de nosso exército, nem pelo tamanho de nossa economia. Nosso orgulho é baseado numa premissa muito simples resumida numa declaração feita há 200 anos: "que todos homens são criados semelhantes, e que a eles são concedidos por seu Criador certos direitos inalienáveis, entre estes a vida, liberdade e a busca da felicidade". Isso é o gênio verdadeiro de América — uma fé em sonhos simples, uma insistência em milagres pequenos."

"Não há uma América liberal e uma América conservadora — há os Estados Unidos da América. Não há uma América Negra e uma América Branca, uma América de latinos e América de asiáticos — há os Estados Unidos da América. Isso é o gênio verdadeiro da América, uma fé nos sonhos simples das suas pessoas, a insistência em milagres pequenos... Que podemos participar no processo político e que, na maioria das vezes, nossos votos serão contados..." dizia aos emocionados delegados da Convenção aquele jovem afrodescendente.
(Convenção nacional do PD, 2004, nomeando John Kerry candidato à Presidência).

De fato, viveremos meses de grande emoção, e a confirmar-se a ascensão da candidatura do Senador Obama, os norte-americanos estarão elegendo mais que um político do Partido Democrata. O eleito será um cidadão do mundo, pessoa cosmopolita, símbolo do que, pasmo, testemunhou em 1832 o francês Alexis de Tocqueville em "A Democracia na América". Ao ver a nova sociedade na América, Tocqueville, filho da aristocracia ele próprio Visconde de Tocqueville, conscientizou-se e decretou, em definitivo, as boas novas republicanas e que o tempo da nobreza havia passado, que a sua classe nada mais tinha a dizer ao futuro: "formamos parte de um mundo que se despede", escreveu ele à mulher..." "não somos senão que restos de uma sociedade que está se convertendo em pó e que logo não deixará vestígios". (Raimond Aron).

A já vitoriosa campanha do doutor Obama, mais que as "esperanças e mudanças" prometidas na plataforma política, também traz esse significado de uma "nova era" em prol do conceito da espécie humana, desmoralizando os que dividem a humanidade em "raças" e condicionados pelo vício da crendice em "raças humanas", ainda defendam, singela e piamente, a ideologia do racismo.

Doravante, todos os racistas do mundo, como categoria social, fazem parte de uma sociedade que está virando pó nesta primeira década, do primeiro século do 3º. Milênio, no ano de 2008 d.C. após séculos de império do racismo, da desigualdade, da hierarquia entre os humanos.

Enfim, por tudo o que representa, e pelo que representará de novidade para as possibilidades humanas no mundo, como cidadão, como brasileiro, como afro-descendente, como militante por Direitos Humanos, como ativista contra a crença em raças humanas e pelo fim de todo tipo de preconceitos e discriminações, também entrei nessa campanha: Obama, lá!!!

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O Obama não pode 

(Enviado por Oswaldo Conti-Bosso, sab, 17/11/2012 - 11:56)

Caro e nobre Militão,

Gostaria de fazer um comentário sobre a introdução de seu texto, mas tenho uma pequena historinha antes. Entrei no mundo da política com onze anos com o meu pai, em 1972, nessa ultima década descobri coisas minhas que nem eu mesmo sabia que tinha quardado na cabeça, que por um detalhe, dois terço da década passada, vivi no tio sam.

Lembro do discurso histórico de Obama na convenção democrática em 2004, (...)"There are no blue state or red state, there are the Unites States of America",  que tomei conhecimento logo após a convenção, por vídeo. O N.Y. Times estampou manchete perguntando quem era Barack Obama, entre os quais, que tinha sido o primeiro negro eleito Presidente da Associação de Literatura (algo sobre) da Escola de Direito de Harvard, e com críticas de amigos da época que participou com ele e ajudou-o a ser eleito.

Assim como em 2008, na Pennsylvania, o disrcurso, "More perfect Union", que consagrou-o, como estadista antes da eleição.

No início de 2007, Hillary Clinton tinha por volta de 80% nas pesquisas para ser a indicada do partido para as eleições de 2008, na época em que Barack Obama fez seu pronunciamento de concorrer para a Casa Branca, na noite fria de Chicago (Fevereiro 2007).

Para entender o processo político eleitoral dos EUA, que não tem cacique, e sim eleições primárias em todos os estados, na qual o voto é o que tem menos valor no proceso, é o de menor importancia no processo, está na ponta, é preciso enteder o "Pragmatismo americano" de Peirce, W. James, Veblen e pricipalmente, na questão social e política, John Dewey, mas mesmo o voto, na ponta final do processo, é feito por mobilização das comunidades, pois não é obrigatório.

Eu já não tinha dúvidas que ele tinha "café no bule", comentei com os gringos e amigos, entre eles, pequenos empresários, a maioria só tinha a visão da mídia, Obama era carta fora do baralho para a grande maioria. Desde 2007 comecei a doar 50 dólares por mês para a campanha dele. A energia das pessoas era como a energia da campanha de 1989 no Brasil: "Lula-lá", ou como diria Augusto Boal, o pensamento sensível e simbólico: “Reflexões errantes sobre o pensamento do ponto de vista estético e não científico”, “atores somos todos nós, e cidadão não é aquele que vive em sociedade: é aquele que a transforma”: Noite republicana impagável: "Eles não usam black-tie", meu caro, os ventos das mudanças no mundo, vem do sul do equador.

Mas minha opinião é um pouco mais pessimista que a sua hoje, compartilho com você das esperanças dele ter sido reeleito, concordo e compartilho das esperanças de um mundo melhor, não só dele, mas as suas, as minhas e de muitos, porém ele não pode, ou só o Obama não pode, o sistema e as estrututras do império não vão mudar em nosso tempo de vida, vejamos a nossa realidade ao sul do equador, estamos num momento chave de nossa história. Será que estamos assistindo as mudanças sonhada e esperadas por séculos, escorrer como água entre dedos das mãos e dos pés?

Quem viver verá!

 

Menino de Engenho - engenharia de idéias e laços sociais. “A leitura do mundo antecede a leitura da palavra”. Quem sou e de onde vim?: http://www.advivo.com.br/blog/oswaldo-conti-bosso/quem-sou-e-de-onde-vim

Amigo Militão,

É extraordinário ler a verdadeira Força das Palavras que trazem junto um Coração Humano.

Relendo estes trechos senti novamente a mesma emoção Forte de quando as li pela primeira vez.

Mesmo sendo um Brasileiro que sabe dos muitos malfeitos do estado Norte Americano contra meu país (que hoje luta para ser Nação) senti orgulho pelos Norte Americanos e seu líder.

Obrigado pela lembrança e Esperança (do verbo Esperançar).

Silvio

 

A reeleição de Obama é uma prova de que o governante, mesmo trazendo um mínimo de cidadania para o cidadão, como Obama, que inovou na área da saúde, ao conseguir implantar um esboço de SUS nos EuA, recebeu o voto para continuar. Não há golpe do de julgamento do  "mensalão" via suprema corte que impeça o povo de fazer valer sua vontade, que o diga a eleição de Haddad. Falando nisos, o professor Militão, se não me engano, do PSB, seria um bom nome para ajudar o Haddad. Apoiado.

 

Eu gostaria de saber de onde sai tanta esperança do autor do texto. Como muitos, acreditei que o governo Obama traria renovação e uma esperança de uma postura mundial melhor dos EUA, menos belicista. Com o tempo me curvei diante do óbvio: ninguém chega ao poder nos EUA sem concessões. E mais, o Obama encarna a postura de que se espera de um chefe de estado. Considero seu governo próximo de um fiasco: não emplacou a reforma da saúde, não fechou Guantánamo, reforçou a presença no Afeganistão, não mudou a postura de apoio incodicional à Israel, etc... Ou seja: o Obama é aquilo que os EUA representa, e nesse ponto de vista me pareceu ingênuo acreditar em grandes mudanças, como eu acreditara.

Resta-nos agora a esperança de que, não mais movido por uma reeleição, ele consiga imprimir sua marca pessoal, governar com mais ousadia. Mas o que seria esta ousadia? O tempo dirá. Por ora, não vejo grandes mudanças no horizonte. Me chamou a atenção que o texto foi retirado do site afropress. Como não conheço o comentarista, não sei se ele é negro. Digo isso pois eu vejo que ele realmente acredita que o Obama fará uma grande difrença.... e acredito que esta esperança do autor está lastreada no fato do Obama ser negro.

Infelizmente a coisa não é tão maniqueísta como desejaríamos. Um pobre que ascende de classe pode ser um dos mais preconceituosos com relação a outros pobres. O mesmo pode acontecer com os negros, índíos, trabalhadores e quem quer que seja. Uma vez vi um post aqui de um rapaz que, sendo descendente de nordestinos, pobre e que nunca teve acesso a nenhum programa governamental, mas venceu na vida e, se não me engano, estava cursando o doutorado. Ele usou sua história como credecial para criticar as ações afirmativas como as cotas. Vejo o caso do Obama de um ângulo parecido: colocamos esperanças nele por ele serr negro, pois realmente representava uma grande mudança para os EUA elegerem um presidente negro.

O mesmo discurso de Obama na boca de um branco soaria comum, mas na dele teve o dom de encantar a maioria de uma nação, a ponto dela crer em mudanças, mudanças estas que ainda não veio. A história irá julgá-lo.... e ele tem o espaço de 4 anos para mostrar que não foram vãs as esperanças nele depositado.

 

"ele tem o espaço de 4 anos para mostrar que não foram vãs as esperanças nele depositado":

Serao.