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A UDN no pós eleição, segundo Wanderley Guilherme

Por Fernando Trindade

O Prof. Wanderley Guilherme, já em 2008, avaliava bem que a oposição poderia resistir a aceitar a derrota nas eleições de 3 de outubro próximo, conforme pode ser visto no trecho abaixo de artigo publicado no Valor em 11 de julho de 2008

Brigada Ligeira: Na hipótese plausível de acirrada competição e vitória apertada de um candidato petista ou apoiado pelo PT, como reagirão os profetas do apocalipse? Por certo não há limites para a sugestão de teses desesperadas

Das eleições normais às mais polêmicas

Wanderley Guilherme dos Santos (jornal Valor 11/07/2008)

(...)

Para efeitos de análise, estou menos interessado em quem vai vencer do que na atitude posterior dos perdedores. Entre 1945 e 1964, a minoria eleitoral liderada pela UDN foi derrotada em três eleições sucessivas (em 1945, pelo general Eurico Dutra, em 1950, por Getúlio Vargas e, em 1955, por Juscelino Kubitschek) e foi lograda, em 1960, quando seu candidato vitorioso, Jânio Quadros, renunciou ao mandato sete meses depois da posse. O vice-presidente, João Goulart, a substituí-lo, fora eleito pela chapa adversária, da anterior maioria, agora minoria. O fracassado golpe militar, incentivado por civis, para impedir a posse de João Goulart expressava também o inconformismo da minoria histórica em permanecer fora do poder mais uma vez.

Em 1964, finalmente, a derrubada do governo Goulart não trouxe a consagração da minoria udenista, mas a instalação do que Tancredo Neves chamou de o "Estado Novo da UDN", sem a UDN e sem nenhuma das forças políticas até então organizadas.

A estabilidade da democracia depende crucialmente do comportamento dos perdedores, entre outras razões porque, em contabilidade rigorosa, significativa maioria dos governos democráticos é eleita com minoria de votos, transformada em maioria por artefatos institucionais.

No Brasil, a exigência de maioria absoluta dos votos válidos, alcançada mediante coligações, não tem assegurado que o vencedor represente a maioria das opiniões políticas. É importante esclarecer que não há vacina legislativa contra esse fenômeno, ou seja, nenhuma reforma eleitoral é capaz de evitá-lo. No que diz respeito ao Legislativo, aliás, o sistema proporcional é o que reduz ao máximo a distância entre vencedores e perdedores (ver Christopher Anderson e colegas, "Losers' Consent - Elections and Democratic Legitimacy", Oxford University Press, 2005).

Pelo clima em gestação nesta prévia das eleições municipais, temo que a atual oposição resista a aceitar outra derrota em 2010, caso ocorra. A sistemática difusão da tese de que o governo não tem candidato viável e, por isso, a oposição certamente ganhará a próxima eleição presidencial contribui para cristalizar no eleitorado oposicionista o sentimento de que só por artes ilegais ou vícios institucionais o atual governo pode ser ratificado pelo eleitorado. O aparelhamento atual dos órgãos de imprensa pelo partidarismo tucano facilitará, como em oportunidades anteriores, a agitação do arsenal de teses golpistas de que são proprietários. Por essa razão, a reação dos oposicionistas aos resultados das eleições municipais deste ano talvez prefigure o que pretendem fazer em 2010.

O consentimento da oposição a nova vitória petista dependerá, em primeiro lugar, da extensão da derrota. Embora nas duas eleições presidenciais anteriores a decisão tenha exigido um segundo turno, a vitória do presidente Luiz Inácio foi absolutamente indiscutível. As costumeiras dúvidas sobre a lisura do processo não tiveram chance de aparecer. Além disso, a derrota era esperada, tendo em vista as pesquisas sobre a tendência do eleitorado e sobre a avaliação do governo.

Novidade é a enorme distância entre a opinião pública, favorável ao governo, e o crescente otimismo oposicionista, fundado em pesquisas sobre candidaturas hipotéticas. Como os jornais e revistas pensam da mesma forma, seus editorialistas e comentadores imaginam que toda a população pensa como o colega da mesa ao lado, não obstante as pesquisas da primeira página registrarem o contrário. Cria-se um coro de iludidos que transborda para a fatia oposicionista do eleitorado, levando-o à certeza de vitória próxima. Aí mora o perigo.

Na hipótese bastante plausível de acirrada competição e vitória apertada de um eventual candidato petista ou apoiado pelo PT, como reagirão os profetas do apocalipse? Por certo não existem limites para a sugestão de teses desesperadas. Na eleição de Vargas e de Juscelino, por exemplo, os derrotados defenderam a anulação dos resultados porque ambos teriam recebido o voto dos comunistas e o Partido Comunista era ilegal. A exigência de maioria absoluta também foi lembrada como justificativa para o impedimento dos vitoriosos. Agora, quando os comunistas estão na legalidade, com volume de votos legais conhecido, e na vigência do requisito de maioria absoluta, que teses sustentarão os perdedores?

Uma derrota petista não trará ameaças à democracia. O Partido dos Trabalhadores perdeu três eleições presidenciais e o aprendizado de que política se faz a curto e longo prazo não lhe deve ser estranha. Uma derrota da atual facção oposicionista, sobretudo se for por diminuta margem de votos, tem tudo para reativar as inclinações históricas dos conservadores pelas soluções extralegais. Se as regras eleitorais não forem responsabilizadas, ou a apuração eletrônica, resta o eleitorado.

Já embutida nas análises das pesquisas sobre avaliação do governo repete-se a tese de que a consciência dos pobres e miseráveis, largamente representados entre os eleitores, está sendo corrompida por políticas sociais assistencialistas. Pouco importa que não se conheça política social na ausência de assistência aos carentes. A ênfase está posta na índole corruptível do eleitorado pobre, sem atenção para a simétrica possibilidade de que banqueiros e especuladores estejam sendo corrompidos pela taxa de juros e pela política cambial. A proximidade de uma vitória que, ao final, escapou produz prodígios de imaginação.

As eleições municipais deste ano serão muito concorridas, com comparativamente reduzidas taxas de abstenção e votos em branco, e normais. Em 2010, tudo dependerá de qual seja o vencedor, com que vantagem, e da resistência das instituições democráticas. 

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18 comentário(s)

Comentários

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O professor Wanderley Guilherme dos Santos é um dos cientistas políticos que eu mais gosto. Esta foi até uma profecia. Mas os descobramentos certamente serão diferentes dos de 64. O principal fator desta diferença? Na minha opinião: os militares tem uma mentalidade diferente.  Este elemento (o militar) nos golpes de estado da história republicana brasileira foi sempre mister. Se eles amargarem mais uma derrota desta vez - o que eu e muitos querem - são imprevisíveis!! Mas com muito penos poder de "bala".

 

Ainda assim, não nos enganemos: tivessem os tucanos e a velha mídia conseguido a possibilidade de dialogar com militares golpistas, um golpe aconteceria. Já teria acontecido em 2002 ou depois em 2005 e 2006. Agora, esta possibilidade não existe. Contra um governo de um Lula com uma aprovação de no mínimo 80%? (isto sem levarmos em consideração que muitos dos que acham o governo regular aprovam mais ou menos em seus respectivos lugares na porcentagem, o que só acrescentam números positivos ao governo Lula - um governo já apoiado por pela grande maioria da população)

 

Não acontecerá. A propaganda deles está ridícula e o povo não é imbecil.

 

 

Nassif, você não poderia entrevistá-lo e postar aqui em seu blog? Tenho certeza de que ele tem algo a dizer muito importante para todos nós meditarmos.

 

.

SÓ QUE, AO CONTRÁRIO DO QUE IMAGINOU O BRILHANTE PROFESSOR WANDERLEY GUILHERME,

A DERROTA DA OPOSIÇÃO NÃO SE DARÁ POR PEQUENA MARGEM DE VOTOS.

ESTAMOS PRÓXIMOS DE UMA AVASSALADORA AVALANCHE DE VOTOS NA CANDIDATA DO PT, DILMA ROUSSEFF, JÁ NO 1º TURNO. E, SE NÃO AGORA NO 1º, MAIOR AINDA NO 2º TURNO. 

O QUE, DE ACORDO COM A TESE ACIMA EXPOSTA, SERIA UMA VITÓRIA INCONTESTÁVEL.

PORÉM RESIGNAÇÃO COM A DERROTA É A ÚNICA COISA QUE NÃO ESTAMOS VENDO DA PARTE DA OPOSIÇÃO POLÍTICA, ESPECIALMENTE A PAULISTA, E DA MÍDIA ETERNAMENTE GOLPISTA QUE A APOIA.

TANTO QUE AGORA ESTÁ ABUSANDO DOS SUBTERFÚGIOS, RECORRENDO ESCANCARADAMENTE À ILEGALIDADE, COMO NUNCA ANTES NA HISTÓRIA DESTE PAÍS.

SERRA E A MÍDIA ESTÃO TRATORANDO A DEMOCRACIA.

E ISTO É INADMISSÍVEL NUMA REPÚBLICA CONSTITUCIONAL.

SE A OPOSIÇÃO POLÍTICO-MIDIÁTICA SEGUIR NESTE RITMO DE DESABALADA IRRACIONALIDADE, NOS PRÓXIMOS 10 DIAS, E TUDO LEVA A CRER QUE PROSSEGUIRÁ DE FORMA CADA VEZ MAIS ACENTUADA,

O PRESIDENTE DO BRASIL TERÁ OBRIGATORIAMENTE DE CONVOCAR A POPULAÇÃO, EM REDE NACIONAL DE RÁDIO E TELEVISÃO, PARA A DEFESA DO ESTADO DE DIREITO, SOB PENA DE VERMOS CONSUMADO UM GOLPE MIDIÁTICO, AO ESTILO VENEZUELANO OU, PIOR, NOS MOLDES HONDURENHOS.

.

 

Mas tem uma diferença grande de 64... Antes vivíamos o auge da guerra fria. Hoje, não só somos parte da economia global como somos um personagem importante dela. O Brasil é hoje considerado como o país com instituições democráticas mais sólidas na América Latina (depois do Chile). A comunidade internacional (G-8) não conseguiria "aceitar"/reconhecer um golpe anti-democrático de direita tão facilmente como aceitou os golpes militares latino americanos das décadas de 60 e 70. Lembremos que a direita Venezuelana ficou a ver navios mesmo contra o "personagem" bolivariano.

 

Concordo que várias peças no tabuleiro se alinham com 64... mas as regras do jogo mudaram de lá pra cá. 

A classe média conservadora brasileira vai ter que tomar essa dose de democracia à seco dessa vez... O chato é que provavelmente vai acontecer com a Dilma o mesmo que aconteceu com o Obama desde que foi eleito... Ela vai ter que enfrentar uma oposição estridente e persistente que desde o primeiro dia vai fabricar escândalos e marterlar as rachaduras da represa petista (que não podemos fingir que não existem). Espero que a Dilma faça um melhor serviço em rebatê-los do que o "socialista, racista, queniano, mussulmano" Obama. 

 

 

estou impressionada.

 

1 - A análise do Wanderley é irretocável e está mais atual, hoje, que quando foi escrita.

2 - Nassif, incompetẽncia é o que sempre ajudou as forças progressistas a irem para o buraco. O seu blog tinha direito de dar bug em todas as épocas do ano. MAS AGORA NÃO!!! Agora, é imperdoável. Não está sendo possível ler os comentários a partir do vigésimo; o troço tá lento que só, muitas vezes nem abre. Você contratou algum parente da Soninha pra cuidar de seu sistema?

 

Que texto bonito! Que texto bom!

 

Acho que tocou no cerne da questão. Seria ingênuo supor que a oposição, representada nestas eleições presidenciais pela candidatura Serra, ainda não seja extremamente poderosa e, provavelmente, auto-iludida. O poder que eles ainda têm, em mistura com uma certeza (ilusionária) de um logro (semelhante a algo como "estão nos passando perna") pode levar a conseqüências trágicas, como uma permanente contestação do diploma legitimamente conquistado nas urnas. Seria um quadro de inciiativas permanentes que tentassem sempre levar a uma crise - ou seja: uma crise permanente do governo vencedor. Seria um enfrentamento áspero, provavelmente de baixo nível. O que talvez pudesse amenicar os efeitos disto seria uma "ley de medios"?

 

Se tivéssemos imprensa, o Wanderley estaria sendo entrevistado agora mesmo para aprofundar essas ideias. Mas, como não temos... ele deu entrevista ao PH Amorim em 2007 -- guardei esse trecho, mas o link, do iG (http://conversa-afiada.ig.com.br/materias/454501-455000/454586/454586_1....), não funciona mais.

"Por que, na opinião do senhor, a mídia se considera inatacável, indestrutível ?
Ela se considera indestrutível porque ela tem razões para isso. Ou seja, uma das instituições que até agora vem resistindo à democratização, à republicanização do país é a imprensa. Um país moderno e democrático é um país em que não existe instituição ou pessoa com privilégio de direitos, pessoa que não seja submetida à lei. Na medida em que a democracia se implanta nos países, se reduz o número de instituições e grupos sociais que não se submete à lei. Todo mundo fica, de fato, igual diante da lei. Isso vem acontecendo gradativamente, vagarosamente, mas inapelavelmente no Brasil. Na realidade, nós temos até que as Forças Armadas hoje, no Brasil, estão mais democraticamente enquadradas, mais juridicamente contidas do que a imprensa. Hoje, é muito mais difícil para um representante das Forças Armadas violar impunemente as leis do que a imprensa."

 

Que texto brilhante !

 Continua a máxima que no Brasil esquecemos muito rápido o passado e as mudanças sociais são lentas, diferente das mudanças tenológicas ou mesmo econômicas. A sociedade ainda engatinha no caminho de uma verdadeira evolução moral.

 

 

que homem brilhante! que profundo conhecedor da alma golpista da oposição!  genial a lembrança do leitor Fernando Trindade! Obrigada!

 

A sigla PIG nasceu de uma sua constatação de que a mídia grande havia se tornado o partido da mídia golpista. E serviu para abrir os olhos de meio mundo de gente relativo ao caráter extralegal das quatro famílias a nos dominar sem que nenhum deles tenha recebido um só voto.

 

O professor, ao analisar, deve ter o devido cuidado para não ferir a suscetibilidade de LULA; afinal, deste vídeo, LULA, parece, copiou o discurso de Carlos Lacerda.

ASISTAM E DIGAM AO CONTRÁRIO. É um desafio.

Então, é bom não colocar o "QI 150" nisso. Inteligente como ele, até agora, só surgiu JOSÉ DIRCEU (inevitável, os opostos se atraem).

PS.: Mesmo, em Plena Revolução, observem o respeito do entrevistador e a tranquilidade de CL e a rapidez e precisão das respostas. Além, da aula de Português, comum em seus pronunciamentos.

 

Ou eu encontro um caminho ou eu o faço! Philip Sidney.

Pesquisa Datafolha dá hoje 49% a 28% pró Dilma. Saiu na Glogo e no Terra.

A candidata à presidência pelo PT, Dilma Rousseff, lidera a corrida eleitoral com 49% das intenções de voto, segundo pesquisa Datafolha, divulgada nesta quarta-feira (22) no Jornal Nacional. Se comparado à pesquisa anterior, a petista caiu dois pontos. O candidato tucano José Serra atingiu 28% da preferência do eleitorado, subindo um ponto. Em terceiro lugar, vem Marina Silva (PV) com 13%, subindo dois pontos. Nenhum dos outros candidatos somou 1% dos votos.

A diferença dos pontos de Dilma para a soma dos pontos dos outros candidatos caiu de 12 para 7 pontos. Mesmo assim, a petista ainda seria eleita no primeiro turno.

Brancos e nulos somam 3% e 5% dos eleitores não sabem ou não quiseram responder.A margem de erro é de 2 pontos para mais ou para menos.

Num possível cenário de segundo turno entre os candidatos Dilma Rousseff e José Serra, Dilma também venceria com 55% e Serra alcançaria 38% da preferência do eleitorado.

A pesquisa foi registrada junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o número 31.330/2010. O levantamento foi realizado entre os dias 21 e 22 de setembro. O Ibope ouviu 12.294 eleitores em 444 municípios.

 

http://www1.folha.uol.com.br/poder/803202-dilma-segue-na-frente-mas-vantagem-sobre-adversarios-cai-5-pontos-diz-datafolha.shtml

A manchete mostra que Dilma caiu 5 pontos sobre (a soma dos adversários). Todos variaram dentro da margem de erro! Mas quem lê rapidamente a manchete pode pensar em virada.

Eita povinho sem vergonha! A cada dia mais apelação. E a gente aqui com o coração na mão...

Hoje teve essa marcha contra o "autoritarismo".  D. Paulo Evaristo Arns, que Deus nos livre de vocês!

 

 

     As teorias de conspiração que estão pululando, de ambos os lados, não estão se refletindo fora de um pequeno espaço, restringido a São Paulo, Rio, e partes do sul do país, a mídia tradicional perceberá que sua força, se eé que não percebeu ainda, está restrita a pequenos nichos influenciaveis nas classes média e média-alta, que acreditam em "analises" completamente desfocadas da realidade, e principalmente não tem memória, consomem uma informação que não possuem capacidade de analisar, e para não parecer ignorantes em suas rodinhas sociais, vomitam o que leram ou ouviram como verdades estabelecidas.

     Estou há anos no mercado financeiro, sou economista e investidor, alguem em sã consciencia acha que acreditamos em Mailson da NObrega, Miriam Leitão, Sardenberg, Mendonção & Mendoncinha, Joelmir (este nem matematica sabe), Porchmann e assemelhados dando palpites travestidos de verdades em jornais, revistas ou televisão - todos se movem através de seus interesses ou de terceiros, assim como os "colunistas" de politica, fornecem a seus "fãs", diariamente uma pilula de informação e estes se acham bem informados.

     É como alguns professores universitários, tipo Villa (conheço a + de 30 anos, quando ele cursou economia na PUC/SP e não foi aprovado em nenhuma matéria de matemática, era ligado a tendencia Caminhando do PCdoB), estabelecem verdades montados em curriculums de doutorado dados por mestres que pensam como eles, vomitam a decadas as mesmas teses, e partes da classe média treme ao ver um titulo de DR., então compram verdades que não existem.

 

O Wanderley Guilherme dos Santos está melhor do que o polvo na Copa do Mundo: suas previsões corretas antecedem o fato em dois anos.

 

Que profético!