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A união precipitada, por Martin Wolf

Por Marco Antonio L.

No Valor Econômico

Sequelas de uma união precipitada

Martin Wolf

"Casamento apressado; arrependimento demorado". Cheios de ardor impetuoso, os parceiros da Alemanha seduziram - alguns poderiam dizer chantagearam - a economia mais poderosa do continente e a convenceram a sacrificar sua independência monetária há 20 anos. Porém, como observou o príncipe do livro "O Leopardo", de Giuseppe di Lampedusa, sobre sua própria união indissolúvel: "Fogo e chamas por um ano; cinzas por 30". Agora, chegou a hora das cinzas para a região do euro.

Os chefes de governo do G-20 que não são da região do euro devem estar se sentindo como conselheiros matrimoniais, tentando reconciliar cônjuges cujas personalidades e valores são diferentes demais para viverem felizes juntos. Empréstimos imprudentes anteriores a 2007 agravaram os perigos. As imprudências, amplificadas pela noção de que o casamento tornava a todos iguais, tornaram a crise ainda pior.

Aqueles cujas captações lhes permitiram um padrão de vida superior ao que poderiam arcar, agora estão sendo obrigados a aceitar um mergulho rumo à pobreza. Não é de surpreender que se sintam ressentidos com a mudança.

Há tempo disponível para impor novas regras e procedimentos, tendo em vista os imensos desequilíbrios internos? Além disso, será que a Alemanha tem alguma flexibilidade sobre suas posições que são, em parte prudenciais, em parte constitucionais e em parte morais?

Os gregos, os mais descontentes entre todos, aparentemente escolheram um governo de partidos ligeiramente menos insatisfeitos do que os demais com os programas acertados para o país. Antonis Samaras foi um oponente oportunista da austeridade quando na oposição, embora seu partido, o Nova Democracia, tenha responsabilidade total pela má administração pré-crise. Há muitos problemas ainda à frente: Alexis Tsiparas, do partido de extrema esquerda Syriza, teve 27% dos votos. Ele se mostrará mais do que satisfeito em explorar a crescente ira pública.

A Espanha espera pelo pacote de socorro financeiro de €100 bilhões para seus bancos, embora infelizmente se trate de um programa que beneficia os credores das instituições bancárias à custa da capacidade creditícia do governo. Pelos juros atuais, é apenas uma questão de tempo até a Espanha solicitar um resgate fiscal. Isso exauriria os recursos disponíveis da região do euro. Também traria o risco de transformar um país altivo em um dependente, o que poderia ter resultados assustadores para a estabilidade.

O déficit fiscal da Itália é bem menor que o da Espanha, mas seu problema de rolagem é maior. De acordo com o relatório "Monitor Fiscal", do Fundo Monetário Internacional (FMI), a Itália precisa de novos financiamentos equivalentes a 28,7% do Produto Interno Bruto (PIB) neste ano, bem superior aos 20,9% da Espanha. Além disso, é um enigma o que se seguirá ao governo de Mario Monti, programado para deixar o cargo em 2013.

A isso, deve somar-se a divergência de opiniões entre França e Alemanha sobre política econômica. A vitória parlamentar de François Hollande intensificará o estresse. O debate por vir sobre o que significa estratégia de crescimento, embora necessário, corre o risco de tornar-se bastante acalorado.

 

Por que, então, alguém pode imaginar que um casamento tão complicado como esse pode durar? Uma resposta é porque a maioria dos cidadãos da região do euro quer assim. A mais forte, no entanto, é porque as pessoas estão (corretamente) aterrorizadas com as consequências de um desmembramento. À medida que o tempo passa, as finanças tornam-se mais domésticas. As economias, contudo, estão altamente integradas. Além disso, a União Europeia (UE) de hoje foi construída em torno do euro. Não se pode presumir que a integração sobreviveria a um desmembramento. Representaria, certamente, uma violação dos compromissos acertados em tratados.

O casamento pode ter sido tolo, mas o divórcio seria assustador. É com esse pano de fundo que precisamos avaliar as opiniões do parceiro dominante: a Alemanha. De acordo com uma tradução que recebi da embaixada alemã, Angela Merkel, a cautelosa primeira-ministra da Alemanha, disse ao Bundestag, Parlamento alemão, na semana passada que ela desejaria dizer a "todos os que [...] estão empenhados em persuadir a Alemanha de que precisamos de eurobônus, fundos de estabilidade, um esquema de garantia de depósitos europeus, vários bilhões adicionais e muito mais: sim, a Alemanha é forte". Também acrescentou: "Estamos convencidos de que a Europa é nosso destino e nosso futuro [...] Mas também temos consciência de que a força da Alemanha não é infinita". Ainda mais: "Além do fato de que essas propostas aparentemente simples [...] são inviáveis em termos constitucionais, elas são completamente contraproducentes. Elas tornariam a mediocridade parâmetro para a Europa. Seríamos, portanto, forçados a abandonar nosso objetivo de manter a prosperidade diante da concorrência internacional."

A isso tudo, ela agregou: "O pacto fiscal é o primeiro passo em direção a combinar uma maior unidade com um maior controle no plano europeu. E será vital que apenas se abdique dos poderes nacionais quando estiver claro que isso envolverá uma supervisão independente das instituições europeias". Ela expôs três pontos: primeiro, a Alemanha não tem intenção de despejar mais dinheiro; segundo, todos na região do euro precisam se tornar uma Alemanha; terceiro, a Alemanha poderia aceitar mais perdas de soberania nacional quando, e apenas quando, houver regras fortes e controles confiáveis no plano europeu.

Esses posicionamentos levantam grandes questões: Há tempo disponível para impor essas novas regras e procedimentos, tendo em vista os imensos desequilíbrios internos, amplas diferenças de competitividade e profundas pressões fiscais? Além disso, será que a Alemanha tem alguma flexibilidade sobre suas posições que são, em parte prudenciais, em parte constitucionais e em parte morais? Meu palpite para a resposta a essas questões é que não.

Quaisquer que sejam as respostas, no entanto, é evidente que a abordagem alemã promete continuidade nas políticas de forte austeridade nos países vulneráveis e, com toda probabilidade, no crescimento medíocre na região do euro. Isso, por sua vez, assegura a recorrência de crises econômicas e políticas, mesmo se a região do euro sobreviver. Se os conselheiros matrimoniais se perguntarem por que há disposição em suportar tudo isso, a resposta é clara: desta vez, a Alemanha quer assegurar o comportamento que gostaria de ver em seus parceiros.

Consigo contemplar cinco resultados: primeiro, um casamento feliz, sob os termos da Alemanha, embora após doloroso período de ajustes; segundo, um casamento miserável, que sobreviverá porque uma separação seria custosa demais; terceiro, chegar a certo grau de acomodação mútua, em que o norte se torne mais sulino e o sul, mais nortenho; quarto, uma separação parcial, com os membros restantes entrando em uma das três alternativas anteriores; e, por fim, uma separação total. É certo que a Alemanha não conseguirá uma região do euro como a que deseja com tanta facilidade ou rapidez. Caso se consiga evitar uma separação parcial ou total, o período de dificuldades será longo e doloroso. A crise da região do euro provavelmente vai ser uma longa novela - caso não acabe em tragédia.

Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do FT.

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Há um mês atrás já se comentava que com a saída da Alemanha da zona do Euro  os problemas acabam como por um passe de mágica.

A Alemanha vai sair do Euro. 

Os outros países vão imprimir como se não houvesse amanhã e vão viver felizes para sempre, até que uma guerra os separe.

 

Follow the money, follow the power.

Cadê a maravilhosa "industria do turismo" que fazia com que Espanha e Grécia fossem sempre citados como exemplos a serem seguidos por nós?

O barbudo alemão, quando classificava os setores em produtores de valor e consumidores de valor, não estava de bobeira, não. Gera emprego de qualidade que investe nos setores que produzem valor. Por isso que a Alemanha está com o dedo no nariz dos outros.

 

Algum historiador do blog conseguiria um comparativo da Alemanha antes da 2a. Grande Guerra e a atual situação alemã??

Mais: há paralelos entre o desejo de Hitler e o q está a acontecer com este euro??

 

O mandato da Dª Ângela não termina ano que vem?

Quero ver o que acontecerá. Pelo que tenho lido, a perda de renda da classe trabalhadora alemã tem sido obscena. Operários acostumados a ganhar algo como 2,9 a  3,6 mil euros mensais estão sendo substituídos por outros ganhando menos da metade. Famílias que viviam com até 5,7 mil euros por mês estão sendo obrigadas a conviver com rendas de 3 mil euros. Em algum momento isso vai explodir na política. E eu acho que vai ser na próxima eleição federal (eleições estaduais têm apontado para isso).

 

>>>> Aqueles cujas captações lhes permitiram um padrão de vida superior ao que poderiam arcar, agora estão sendo obrigados a aceitar um mergulho rumo à pobreza.

Bingo. A frase resume o que se passou por la. O resto é vitimismo boco.

 

A união não foi precipitada. Ao contrário, demorou demais.

Se (sempre o "se") tivesse sido feita 10 anos antes, ainda no contexto da Guerra Fria, os trabalhadores não teriam perdido tanto. Era o "medo do Comunismo" que ainda segurava os excessos das elites do continente.

Um bocado mais de salários, demanda firme, investimentos em infra-estrutura. Foi o que eu imaginei que aconteceria tanto em Portugal quanto na Espanha, por exemplo.

Mas os tempos são outros e a maior parte desse dinheiro foi para a especulação financeira. A demanda foi deprimida, como relata o insuspeito Lucas Mendes, da BBC ( http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2012/06/120621_lucasmendes_tp.s... ):

"Preço de Nova York, mas a classe média e a classe C [em Portugal] sentem a crise europeia. Entre os jovens, o desemprego está na faixa de 40%, salários foram cortados, os serviços reduzidos (...)

No Portugal do século 20, metade das casas não tinham água corrente e só 30% tinham eletricidade."

É a receita da desgraça.