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As comparações econômicas entre Brasil e México

Da Carta Maior

O cerco ao Brasil e o mito mexicano

Virou moda fazer comparações entre Brasil e México, a respeito do desempenho econômico. Elas escoram as críticas que a imprensa internacional faz a um suposto aumento do 'intervencionismo' do governo brasileiro na economia.


Como na história do lobo e do cordeiro, no entanto, quanto mais atenção o governo dá a isso, mais a pressão aumenta. É o que explica, por exemplo, o fato de nas últimas semanas o nosso risco-país ter ultrapassado o do México que tem sido citado como principal exemplo de que o Brasil não está “fazendo bem o seu dever de casa”, segundo a pauta das agências de classificação de risco, do Wall Street Journal e dos “analistas” do mercado.

Nessa campanha, tipo gota d´água em pedra dura tanto bate até que fura, o fato de o México ter crescido três e meio por cento contra apenas 0,9% do Brasil no ano passado é o mais lembrado, mas não é o único. O México também seria mais “moderno”, mais “competitivo”, e mais “aberto” ao mundo, em contraponto com o Brasil e o “Mercosul”, símbolos de “atraso e protecionismo” na América Latina. 

Antes que essas mentiras se cristalizem como verdade na mente dos mais ingênuos, é preciso esclarecer alguns pontos. Embora o México tenha crescido mais que o Brasil nos últimos dois anos, o Brasil cresceu quase o dobro do México nos últimos dez anos, justamente no Governo Lula, e tem mais potencial do que o México para assim continuar no futuro, segundo afirmou, nesta semana, em entrevista, para citar um nome ao gosto do mercado, o economista Jim O´Neill, o “inventor” do BRICS.

Embora o comércio exterior do México equivalha a quase 50% do PIB, oitenta por cento de suas exportações vão para um único destino, os Estados Unidos. O Brasil exporta, em partes mais ou menos iguais, para a China, os EUA, a União Europeia, a América Latina, e o resto do mundo.

Outro mito difundido é o de que o México seria um grande exportador de manufaturas enquanto o Brasil é um grande exportador de matérias-primas. Nem uma coisa nem outra. O México monta peças recebidas de terceiros e as manda para os Estados Unidos, enquanto o Brasil é, por exemplo, o terceiro maior exportador de aviões do mundo, vendendo para os EUA, principal cliente do México, até aeronaves de guerra, como ocorreu há uma semana.

A abertura indiscriminada da economia mexicana também parece não ter produzido muita coisa em termos de inovação. Comparando-se o número de patentes concedidas no mercado internacional, em 2010, o México conseguiu registrar 198, contra 481 do Brasil.

A alardeada “competitividade” do México reside em seus baixos salários. O valor do salário mínimo no Brasil mais do que dobrou, com relação ao dólar, nos últimos 10 anos, enquanto no México esse valor vem diminuindo. A produtividade do trabalhador brasileiro é quase o dobro da produtividade do trabalhador mexicano, que, entre os 34 países da OCDE, ocupa o penúltimo lugar. 

O valor de uma hora de trabalho no Brasil era de quase sete dólares em 2011, contra menos de cinco dólares do trabalhador mexicano no mesmo ano, segundo estatística do Departamento do Trabalho dos Estados Unidos.

Finalmente, a outra falsa afirmação é a de que o México esteja se transformando no “queridinho” dos mercados, enquanto o Brasil – que, com 388 bilhões de dólares em reservas, é o terceiro maior credor individual externo dos Estados Unidos, depois da China e do Japão – seria o pato feio da economia internacional por causa da atuação do governo.

Embora a bolsa mexicana – muitíssimo menor que a Bovespa - tenha se valorizado mais no último ano, o Investimento Externo Direto, aquele realmente produtivo, caiu 31% no México em 2012, para pouco mais de 12 bilhões de dólares, enquanto o IED no Brasil foi de cinco vezes mais, ou 65 bilhões de dólares no ano passado, ou o terceiro maior do mundo.

Mauro Santayana é colunista político do Jornal do Brasil, diário de que foi correspondente na Europa (1968 a 1973). Foi redator-secretário da Ultima Hora (1959), e trabalhou nos principais jornais brasileiros, entre eles, a Folha de S. Paulo (1976-82), de que foi colunista político e correspondente na Península Ibérica e na África do Norte.

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