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As lições da política econômica

Da Folha

Por Antonio Delfim Netto

Lição de casa

Há visíveis discordâncias entre os economistas sobre como superar os problemas deixados pela crise de 2007-09.

Ela desempregou, no plano da economia real, aproximadamente 30 milhões de cidadãos, desarticulou ainda mais a precária condição fiscal de um grande número de países, acentuou os imensos desequilíbrios (positivos e negativos) no balanço em conta-corrente de alguns deles e introduziu sérias dúvidas sobre a continuidade do uso do dólar como unidade de conta internacional. Essa confusão não é o fim, mas o começo de um novo conhecimento econômico.

É evidente que o conhecimento só avança quando é contestado pela realidade: a ciência progride sobre suas falhas. O estado de dúvida ampla, geral e irrestrita deve levar à modéstia nas recomendações "normativas" frequentemente extraídas de modelos elegantes, mas de discutível vinculação com a realidade.

Abre-se um vasto campo de conhecimento a ser retrabalhado e explorado.

Não devemos desanimar ou nos enganar com essa visão quase niilista da economia. O conhecimento acumulado nos últimos 200 anos é rico de ensinamentos para a boa governança dos Estados.

O fracasso do "mainstream" da macroeconomia não é o fracasso da economia, mas apenas o de uma de suas "escolas". E, mais importante, não é licença para amadorísticas aventuras experimentais.

Paradoxalmente, nunca foi tão importante como agora conservar o que sobrou da boa e velha lição que fez o sucesso do Estado indutor constitucionalmente controlado:

1º) Realizar uma política fiscal com olhos no longo prazo, com moderados deficits nominais, boa qualidade no financiamento da dívida e controle da relação dívida pública/PIB;

2º) Economizar nos gastos do governo para abrir espaço ao seu investimento;

3º) Suprir com eficiência os bens públicos que o mercado não pode produzir;

4º) Realizar uma política monetária que garanta a estabilidade do valor da moeda e do sistema financeiro e que, com o conforto da política fiscal, leve a taxa de juros real interna a igualar-se à externa;

5º) Criar os incentivos corretos para estimular os agentes econômicos;

6º) Dar liberdade bem regulada aos mercados;

7º) Não tentar violar as identidades da contabilidade nacional.

Mesmo com uma boa lição de casa, a política econômica exige arte para calibrar os instrumentos disponíveis (por exemplo, as políticas fiscal e monetária), para atingir os objetivos: uma inflação parecida com a do resto do mundo e o pleno uso dos capitais humano e físico. Por uma boa razão: as políticas fiscal e monetária não são independentes.

A "arte" é juntar pragmatismo, pertinácia e paciência.

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Com o crescimento das cidades, os terrenos ou áreas próximas a uma infra-estrutura urbana mais aplicada, asfalto; água; energia, transporte...., são mais valorizados. A cada movimento urbano-estrutural, seus valores aumentam.

Pergunto: Isto é inflação ou valorização?

Se um produto é escasso, seu valor tende a crescer. Se, em busca de maior lucro, a iniciativa privada produz mais esse produto, o "mercado" tende a absorvê-lo até o ponto de saturação, daí em diante, com maior oferta, a tendência é o preço despencar. É assim, sempre foi assim 

Quando houve a corrida do ouro no oeste americano, as cidades onde prosperam as minas enriqueceram-se. Com a extração exaurida, houve a decadência.

Qual o risco que se corre ao longo do tempo? Afinal, todos estaremos mortos! (Keynes)

 

 

Uai, mas essa "crise" não foi uma marolinha?

"Num tendi o qui o hômi falô"

 

Marolinha apenas para queles que tinham o HOMI como presidente.

Para aqueles que não tinham, foi a maior e pior crise desde a grande depressão.

 

Interessante entrevista ao Estadão de Kenneth Rogoff:

 

A crise econômica global e a Grande Recessão derrubaram pontos importantes da macroeconomia?

Sim. A crise minou uma ferramenta importante e central: os modelos macroeconômicos que tanto economistas como gestores de bancos centrais utilizam. Esses modelos pressupõem um grau muito alto de desenvolvimento financeiro, tangenciando a perfeição. Eles pressupõem que os mercados financeiros funcionam de forma muito eficiente e perfeita, num sentido muito profundo. E tipicamente se pressupõe que todas as fricções, todas as imperfeições, estão no mercado de bens e de trabalho. Então, discussões salariais podem ter imperfeições, a precificação de produtos pode ter imperfeições, mas, nos mercados financeiros, as imperfeições são tão minúsculas que nós não nos preocupamos com elas. Na verdade, nós colocamos (o mercado financeiro) num pedestal e tratamo-lo como inconcebivelmente perfeito. Não é que todos os modelos façam isso, mas a vasta, vasta maioria, certamente o consenso pressupõe isso.

 

De maneira mais geral, há uma idealização do mercado?

Sim. Por exemplo, (Finn Erling) Kydland e (Edward) Prescott ganharam o prêmio Nobel (de 2004) pela sua teoria do ciclo de negócios (ciclo econômico) real, que essencialmente pressupõe que tudo é perfeito na Economia, que nós vivemos num mundo de absoluta eficiência. Um mundo no qual não existe nenhum monopólio, nenhuma imperfeição financeira, não há nem mesmo imperfeições no mercado de trabalho. É muito bonito, mas é profundamente oco em termos empíricos. Isso é um extremo, mas o trabalho de (Robert) Lucas, também considerado um grande ganhador do Prêmio Nobel, cai na mesma categoria de ser muito, muito bonito, mas com pressuposições de mercados financeiros perfeitos, mercado de trabalho perfeito, tudo perfeito. Mas tem um aspecto de absurdo. É como a velha história sobre procurar o objeto perdido apenas debaixo do poste de iluminação, com a explicação de que só ali está iluminado.

 

E por que os modelos macroeconômicos partem de pressuposições tão irrealistas?

O problema é que, quando você quer olhar para modelos mais complexos, tudo rapidamente se torna muito mais complicado. O que nós realmente entendemos em Economia, num nível profundo, e o que dá base a todos os nossos modelos, é que a demanda é igual à oferta. E, se não for, o preço se move até que a demanda fique igual à oferta. Poderia ser o preço de salários, do limão, do risco, das ações – o preço de tudo se move até que a demanda encontre a oferta. Há mais algumas pressuposições simplificadoras, como a de que não há monopólios, cuja presença cria muitos problemas, porque causa distorção. Não é uma pressuposição universal (nos modelos), mas é comum. E outra, finalmente, é que não há imperfeições na informação. Todo mundo sabe tudo, você não tem nenhum segredo. E isso é em parte a razão pela qual você pode diversificar seu risco tão bem nos modelos, porque você não pode trapacear – porque todo mundo sabe tudo.

 
 

Como bem disse o Delfim Netto, “as políticas fiscal e monetária não são independentes”. A taxa de juros não é o único instrumento de controle inflacionário e tampouco o único instrumento de estímulo ao investimento produtivo quando encontram-se as taxas de juros em queda. Mesmo quando estão próximas de zero.

 

..pois é, só este ano o país promete pagar R$ 230 bi em pagto de juros (os maiores do MUNDO) , isso quando quase todo o resto do planeta dá uma BANANA pra rentista ..pagto desnecessário  ..justo quando há alternativas mas eficientes, melhores, mais fortes e pontuais, mais econômicas 

..haja ciência e artigo  pra tentar justificar  este crime..

 

Tirando o bla-bla-bla dos empregados de rentistas que se dão ao trabalho de defender o indefensável e também as posições de outros fanáticos que não conseguem enxergar um palmo além do nariz, o que sobra é exatamente isso: CRIME DE LESA PÁTRIA.

Se algum revolução de verdade acontecesse por aqui muita gente engomadinha iria perder o pescoço.

 

 

Se mantiver o déficit fiscal corrente não tem como reduzir os juros, o governo fica dependente da poupança alheia para custear sua gastança.

Sendo os juros a diferença entre o consumo imediato e o consumo futuro, governos com vistas à eleição  gastam irresponsavelmente, deixando para o futuro o pagamento desta conta.

Estes juros balizam as decisões sobre o investimento, se o empreendedor não obtiver rendimento acima da especulação não tem pq investir em algo que lhe renderá menos.
Uma hidrelétrica privatizada, por exemplo, tem que obter rendimento superior a especulação daí temos os aumentos abusivos.

 

"Sou reacionário. Minha reação é contra tudo que não presta." Nelson Rodrigues.

Já ouvistes falar em “preferência pela liquidez” e num tal de John Maynard Keynes? Ele se dizia um liberal...

 

Ah, se fosse simples assim...

 

@DanielQuireza

 A Turquia já abriu o olho para essa chantangem dos Mercados: "Juros ou apocalipse" 

Fico me perguntando quando o Brasil vai romper esse ciclo.