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As novas tecnologias e as revoltas burguesas

Por Walber F. dos Santos

As revoltas consolidadas neste século com o uso de novas tecnologias só foram possíveis dentro das classes burguesas que absorveram boa educação e domínio dos meios magnéticos da comunicação. No século XXI é a disseminação do conhecimento que rompe os paradigmas das relações de trabalho, lutas de classe e mobilidade social, desfazendo mitos do marxismo e do capitalismo.

fato, servindo de agente catalizador  de uma onda de revoltas, motivadas pelo desejo universal de liberdade individual.

No imediata.org

A era das revoltas burguesas, por Slavoj Žižek

A era das revoltas burguesas

Por Slavoj Žižek
Fonte: internazionale.it n. 937, de 24 de fevereiro de 2012
Tradução: Mario S. Mieli


Grosz

Como Bill Gates conseguiu tornar-se o homem mais rico da América? Sua riqueza não tem nada a ver com a produção de software de qualidade a preços inferiores aos da concorrência ou com a “exploração” mais eficaz de seus funcionários (a Microsoft paga salários relativamente altos aos trabalhadores intelectuais).

O software da Microsoft continua a ser comprado por milhões de pessoas porque conseguiu impor-se como um padrão quase universal monopolizando, na prática, o setor, quase uma personificação daquilo que Marx chamava de “intelecto geral”, referindo-se ao saber coletivo em todas as suas formas, da ciência ao know-how prático. Bill Gates efetivamente privatizou o intelecto geral e enriqueceu embolsando os lucros.

A possibilidade de privatizar o intelecto geral não tinha sido prevista por Marx em seus escritos sobre o capitalismo (sobretudo porque tinha negligenciado a dimensão social). Mas é justamente esse o núcleo das disputas contemporâneas sobre propriedade intelectual: à medida que, no capitalismo pós-industrial, o papel do intelecto geral – baseado no saber coletivo e na cooperação social – continua a crescer, a riqueza se acumula de modo totalmente desproporcional respeito ao trabalho despendido para a sua produção. O resultado não é, como parecia esperar Marx, a autodissolução do capitalismo, mas a gradual transformação do lucro gerado pela exploração do trabalho em uma renda obtida graças à privatização do conhecimento.

O mesmo é verdade para os recursos naturais, cuja exploração é uma das maiores fontes de renda do mundo. Há uma luta permanente a respeito de quem teria o direito de auferir essa renda, se os cidadãos do terceiro mundo ou as grandes multinacionais ocidentais. Paradoxalmente, explicando a diferença entre o trabalho (que no uso produz mais-valia) e outras mercadorias (que consomem o seu valor no uso), Marx fala justamente do petróleo como exemplo de uma mercadoria “ordinária”, cujo consumo diminui ao se elevar o preço. Hoje qualquer tentativa de conectar o aumento e a diminuição do preço do petróleo ao crescimento ou à queda dos custos de produção ou ao custo da mão-de-obra utilizada não teria sentido: os custos de produção são insignificantes respeito ao preço que pagamos pelo petróleo, um preço que, na realidade, é a renda de que os proprietários do recurso podem dispor graças à sua limitada disponibilidade.

Uma das consequências do aumento causado pelo impacto, em crescimento exponencial, do conhecimento coletivo, é a mudança do papel do desemprego. É o sucesso do capitalismo em si (maior eficiência, crescimento da produtividade) a gerar desemprego, tornando inútil um número sempre maior de trabalhadores: aquilo que deveria ser uma bênção – ser preciso menos trabalho árduo – vira uma maldição. Ou, para dizê-lo em outros termos, a oportunidade de ser explorado em um trabalho a longo prazo é hoje percebida como um privilégio.

O mercado mundial, como observou Fredric Jameson, é “um espaço no qual todos foram, numa determinada época, trabalhadores produtivos, e no qual o trabalho começou, em toda parte, a ser demasiadamente custoso para o sistema”. No processo de globalização capitalista que estamos vivendo, a categoria dos desempregados não está mais limitada àquilo que Marx chamava de “exército industrial de reserva”. Inclui também, como observa Jameson, “aquelas exterminadas populações de todo o mundo que foram deliberadamente excluídas dos projetos modernizadores do capitalismo do mundo desenvolvido e postas de lado como casos desesperados”: os chamados estados falidos (Congo, Somália), vítimas das carestias ou dos desastres ecológicos, aqueles presos nas armadilhas de lutas étnicas pseudo-arcaicas, no centro das atenções dos filantropos e das ongs, ou alvos da guerra contra o terror.

Desse modo, a categoria dos desempregados foi ampliada até abranger uma gama enorme de pessoas, dos temporariamente desempregados aos não mais empregáveis e aos permanentemente desempregados, até os moradores dos guetos e favelas (todos aqueles que Marx tendia a liquidar, definindo-os “lumpenproletariat”) e a inteiras populações excluídas do processo capitalista global, como os espaços vazios nos mapas antigos.

Alguns creem que esta nova forma de capitalismo ofereça novas possibilidades de emancipação. Pelo menos essa é a tese de Multidões, de Michael Hardt e Antonio Negri, que procuram radicalizar a tese de Marx segundo a qual bastaria cortar a cabeça do capitalismo para se obter o socialismo. Marx, segundo eles, era vítima de um condicionamento histórico: pensava em termos de trabalho industrial centralizado, automatizado e hierarquicamente organizado, de modo que para ele o intelecto geral era algo parecido com uma agência central de planejamento.

Segundo os autores, somente hoje, com a consolidação do “trabalho imaterial”, tornou-se “objetivamente possível” uma reversão revolucionária. Esse trabalho imaterial estende-se entre dois polos, do trabalho intelectual (a produção de ideias, textos, programas para computador, etc.) ao trabalho de cura (como aquele desempenhado por médicos, baby-sitters e assistentes de voo). Hoje o trabalho imaterial é hegemônico, no sentido em que Marx afirmava que, no capitalismo do século XIX, era hegemônica a grande produção industrial: não se impõe com a força dos números, mas desempenhando o papel central, estrutural e emblemático. O que emerge é um domínio amplo e novo, definido “comum”: o saber compartilhado e novas formas de comunicação e cooperação. Os produtos do trabalho imaterial não são objetos, mas novas relações sociais ou interpessoais; a produção imaterial é biopolítica, é a produção da vida social.

Hardt e Negri descrevem o processo que os ideólogos do atual capitalismo pós-moderno celebram como a passagem da produção material àquela simbólica, da lógica centralista-hierárquica àquela da auto-organização e da cooperação multicêntrica. A diferença é que Hardt e Negri são fiéis a Marx: procuram demonstrar que ele tinha razão, que o emergir do intelecto geral é incompatível a longo prazo com o capitalismo. Os ideólogos do capitalismo moderno sustentam exatamente o oposto: a teoria (e a prática) marxista, afirmam, permanece nos limites da lógica hierárquica do controle estatal centralizado, portanto, não pode ser medida com os efeitos sociais da revolução da informação.

Há boas razões empíricas para sustentar-se essas tese: o que, de fato, condenou os regimes comunistas foi a sua incapacidade de adaptar-se à nova lógica social. Tentaram governá-la, fazer inúmeros projetos de planificação estatal centralizada em ampla escala. O paradoxo é que aquilo que Hardt e Negri celebram como uma oportunidade para superar o capitalismo é celebrado pelos ideólogos da revolução da informação como a ascensão de um novo tipo de capitalismo “sem atritos”. A análise de Hardt e Negri tem alguns pontos fracos que nos ajudam a compreender como o capitalismo tenha conseguido sobreviver àquela que (nos clássicos termos marxistas) teria podido ser uma nova organização da produção que o rendia obsoleto. Os dois estudiosos subestimam a dimensão do sucesso do capitalismo de hoje na privatização do intelecto geral, assim como o fato de que os próprios operários, mais que a burguesia, estejam se tornando supérfluos (são cada vez mais os trabalhadores que passam a se encontrar não só temporariamente desempregados, mas estruturalmente não empregáveis).

Se idealmente o velho capitalismo pressupunha um empreendedor pronto a investir dinheiro (seu ou emprestado) na produção que ele mesmo organizava e dirigia para embolsar um lucro, hoje um novo modelo está se afirmando: não mais o empreendedor que possui uma empresa, mas o gerente ou manager especialista (ou um conselho de gerentes presidido por um CEO) que dirige uma empresa que está nas mãos de bancos (por sua vez, guiados por um gerente que não é proprietário do mesmo) ou a investidores individuais. Nesse novo tipo ideal de capitalismo, a velha burguesia, tornada não funcional, adquire uma nova funcionalidade nas condições de gerência ou management assalariado: os exponentes da nova burguesia recebem um salário, e ainda que possuam parte da própria empresa, recebem ações a título de integração de sua compensação (”prêmios” para o respectivo “sucesso”).

Essa nova burguesia continua a se apropriar da mais-valia, mas na forma (mistificada) daquilo que foi definido como “mais-salário”: são pagos muito mais que o salário mínimo proletário (um ponto de referência puramente mítico, cujo único exemplo real na atual economia global é o salário dos operários explorados nas fábricas da China ou da Indonésia), e é essa diferença com relação aos proletários comuns a determinar o status deles. A burguesia em sentido clássico tende, portanto, a desaparecer: os capitalistas reaparecem como um subconjunto de trabalhadores assalariados, managers habilitados a ganhar mais em virtude de sua competência (e é por esse motivo que a “avaliação” pseudocientífica se torna crucial”, ela legitima as disparidades). A categoria dos trabalhadores que ganham um “mais-salário” não se limita, obviamente, aos gerentes, mas se estende a todos os tipos de especialistas, administradores, funcionários públicos, médicos, advogados, jornalistas, intelectuais e artistas. O “mais” ou “plus” assume duas formas: mais dinheiro (para os gerentes e similares), mas também menos trabalho e mais tempo livre (para alguns intelectuais, mas também para os administradores públicos, etc.).

O processo de avaliação usado para decidir quais trabalhadores tenham que receber um mais-salário é um mecanismo arbitrário do poder e da ideologia, sem qualquer relação séria com a verdadeira capacidade do sujeito. O mais-salário não existe por motivos econômicos, mas por motivos políticos: serve para manter uma “classe média” em função da estabilidade social. A arbitrariedade da hierarquia social não é um erro, mas o verdadeiro xis da questão, e a arbitrariedade da avaliação desempenha um papel análogo à arbitrariedade do sucesso de mercado. A violência ameaça explodir não quando há demais contingência no espaço social, mas quando se procura eliminá-la.

Em “La marque du sacré” Jean-Pierre Dupuy define a hierarquia como um dos quatro procedimentos (“dispositivos simbólicos”) utilizados para tornar não humilhante a relação de superioridade: a hierarquia (uma ordem imposta a partir do exterior que me consente de perceber a minha condição social inferior como independente do meu valor pessoal); a desmistificação (o procedimento ideológico que demonstra como a sociedade não é uma meritocracia mas o produto de objetivas lutas sociais, consentindo-me assim de evitar a dolorosa conclusão de que a superioridade de alguém seja o resultado de seu mérito e de seus resultados); a contingência (um mecanismo parecido, que nos consente de entender como a nossa posição na escala social depende de uma loteria natural e social: os felizardos são aqueles nascidos com os genes certos em famílias ricas); e a complexidade (forças incontroláveis têm consequências imprevisíveis: por exemplo, a mão invisível do mercado pode levar à minha falência e ao sucesso do meu vizinho, ainda que eu trabalhe muito mais e seja muito mais inteligente).

Apesar das aparências, esses mecanismos não contestam ou ameaçam a hierarquia, mas a tornam aceitável, pois “o que faz desencadear a inveja é a ideia de que o outro mereça a sua sorte e não a ideia oposta, a única que pode ser expressa abertamente”. A partir dessa premissa, Dupuy chega à conclusão que é profundamente errado acreditar que uma sociedade razoavelmente justa, possa ser isenta de rancor: ao contrário, é próprio de uma sociedade desse tipo que quem ocupa posições inferiores dará vazão ao seu orgulho ferido com violentas explosões de ressentimento.

A este fenômeno está associado o impasse em que se encontra a China de hoje: o objetivo ideal das reformas de Deng Xiaoping era introduzir o capitalismo sem a burguesia (porque se teria tornado a nova classe dirigente). Mas agora os líderes chineses têm que lidar com a dolorosa descoberta de que o capitalismo sem a sólida hierarquia tornada possível pela existência de uma burguesia gera uma instabilidade permanente. E então que caminho tomará a China? Os ex-comunistas estão demonstrando ser os gerentes mais eficientes do capitalismo porque sua inimizade histórica com relação à burguesia enquanto classe se adapta perfeitamente com a tendência do capitalismo atual de se tornar um capitalismo gerencial sem burguesia – em ambos os casos, como disse Stalin há muito tempo, “os quadros decidem tudo” (uma diferença interessante entre a China e a Rússia de hoje: na Rússia, os professores universitários são ridiculamente mal pagos – na realidade, já fazem parte do proletariado – ao passo que na China eles têm um confortável mais-salário, o que garante a docilidade dos mesmos).

A ideia do mais-salário lança nova luz também sobre os persistentes protestos “anticapitalistas”. Em tempos de crise, os primeiros candidatos a apertar o cinto são os níveis mais baixos da burguesia assalariada: o protesto político é o único caminho possível se quiserem evitar de se unir ao proletariado. Mesmo que seus protestos com palavras sejam dirigidos contra a lógica brutal do mercado, estão de fato protestando contra a gradual erosão de sua posição econômica politicamente privilegiada.

Na “Revolta de Atlante”, Ayn Rand imagina uma greve de capitalistas “criativos”, uma fantasia que encontra a sua realização perversa nas greves atuais, muitas das quais têm como protagonista uma burguesia assalariada movida pelo medo de perder os seus mais-salários. Esses não são protestos proletários, mas contra a ameaça de se verem reduzidos ao status de proletários. Quem ousa fazer greve, hoje, quando ter um trabalho estável é por si só um privilégio? Não os operários mal pagos naquilo que sobra das fábricas têxteis ou lugares similares, mas aqueles trabalhadores privilegiados que têm lugar garantido: professores, operadores do sistema de transporte público, policiais. Isso explica também a onda de protestos dos estudantes: sua motivação principal é presumivelmente o medo de que no futuro a instrução superior não garanta mais um mais-salário.

Ao mesmo tempo, é claro que a enorme onda de protestos do ano passado, da primavera árabe à Europa ocidental, de Occupy Wall Street à China, da Espanha à Grécia, não deveria ser qualificada simplesmente como uma revolta da burguesia assalariada. Cada caso deve ser considerado individualmente. Os protestos estudantis contra a reforma universitária na Grã-Bretanha eram claramente diferentes dos choques de agosto, que foram um festival consumista de destruição, uma verdadeira explosão dos excluídos.

Poderíamos argumentar que a sublevação no Egito tenha começado em parte como uma revolta da burguesia assalariada (com os jovens com educação formal que se manifestavam devido à falta de perspectivas), mas esse foi só um aspecto de uma rebelião mais ampla contra um regime opressor. Por outro lado, o protesto não envolveu uma verdadeira mobilização dos operários e dos camponeses pobres, e a vitória eleitoral dos islamistas deixa evidente a limitada base social da origem do protesto laico. A Grécia é um caso especial: nos últimos decênios foi criada uma nova burguesia assalariada (especialmente na paquidérmica administração estatal), graças aos auxílios financeiros da União Europeia, e os protestos foram motivados em grande parte pela ameaça de que tudo isso possa acabar.

Paralelamente à proletarização da pequena burguesia assalariada, ocorre no extremo oposto a remuneração irracionalmente alta dos top managers e dos grandes banqueiros (irracional porque ela tende a ser inversamente proporcional ao sucesso de uma empresa). Em vez de submeter essas tendências a uma crítica moralista, deveríamos lê-las como sinais do fato de que o sistema capitalista não é mais capaz de garantir uma estabilidade auto regulamentada. Em outras palavras, ele corre o risco de escapar ao controle.

http://imediata.org/?p=1274

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Dois pontos em que eu considero que o texto de Zizek distorce a realidade para sustentar sua tese de que o capitalismo contemporâneo contradiz a essência das análises clássicas do marxismo:

1º) Ele apresenta a tese de que não há mais uma burguesia proprietária absolutamente diferente do proletariado assalariado. As empresas seriam geridas por pessoal assalariado - essencialmente, empregados de um capital impessoal -, uma burocracia privilegiada, mas sujeita à mesma precariedade dos empregados em geral, arriscando-se a ser despedidos pelo "patrão". Melhores pagos que o proletariado tradicional, mas não essencialmente diferentes desses.

O que ele não menciona é que os "top executives" dos grandes oligopólios capitalistas e empresas financeiras que gerem a economia mundial se atribuem prêmios, bônus e opções de compra de ações que os fazem, além de imensamente mais ricos que os assalariados normais, grandes acionistas dessas empresas. Além disso, mesmo que sejam "despedidos" delas, têm trânsito e contatos que garantem o seu virtual "emprego" em outras das empresas oligopolistas ou no aparelho do Estado burguês (tomem como exemplo Timothy Giethner, atual Secretário do Tesouro de Obama, que transita do governo federal estadunidense para o Banco Central de Nova Iorque, para o "think tank" Conselho de Relações Exteriores e possui participações em inúmeros conglomerados privados:

http://www.politico.com/news/stories/0109/18074.html

ou outro assessor econômico de Obama, Lawrence Summers, Secretário do Tesouro de Bill Clinton, responsável pela desregulamentação dos mercados financeiros, nos anos 90, com participação em fundos de investimentos, como D. E. Shaw:

http://online.wsj.com/article/SB123879462053487927.html

ou ainda o Secretário do Tesouro de Bush filho, Hank Paulson, que presidiu à debacle financeira de 2008, transitando do Goldman Sachs para o "establishment" governamental e de volta para o mercado financeiro, sempre mantendo participações nos oligopólios financeiros:

http://www.wsws.org/articles/2008/sep2008/paul-s23.shtml )

Esses caras não são meros assalariados. São homens riquíssimos e com interesses patrimoniais imensos. Qualificá-los como "meros assalariados" é uma simplificação de proporções mastodônticas.

2º) Zizek repete a tese do fim do proletariado, assinalando que a economia capitalista contemporânea, supostamente, dispensaria com os trabalhadores, produzindo cada vez mais riqueza com menos operários. O autor omite que o objetivo do capitalismo não é produzir riqueza em si (valor de uso), mas lucro capitalista, valorização do valor (valor de troca), que pode ser acumulado para aumentar o capital. Esse processo só pode se dar pelo emprego dos trabalhadores. A lei da queda tendencial da taxa de lucro (Capital, volume III) indica que o aumento da produtividade pelo aumento da composição orgânica do capital (ou seja, emprego de mais máquinas, equipamentos, etc., capital constante em relação ao emprego de mão de obra) leva à redução da taxa de mais-valia (consequentemente, da taxa de lucro), reduzindo o retorno sobre o capital investido, o que, no longo prazo leva à crise, ao abandono do investimentos produtivo e o desvio do capital acumulado para a esfera financeira (onde há a ilusão da geração de dinheiro a partir do dinheiro). A redução dos empregos produtivos que Zizek aponta ocorre nos núcleos capitalistas mais antigos, mas é mais do que compensado pela entrada maciça de novos trabalhadores no mercado de trabalho nas fronteiras do capitalismo, na China, na Índia e em outros lugares do Terceiro Mundo onde está ocorrendo uma proletarização em massa de imensos contingentes arrancados do campesinato. A análise de Zizek peca por não enfocar a questão de uma perspectiva global. Eu arriscaria a dizer que a classe proletária jamais foi tão numerosa como hoje. Nos tempos de Marx, a imensa maioria da humanidade era composta de camponeses (e, mesmo na Europa, possivelmente só a Inglaterra tinha uma maioria da população não camponesa).

Se enfocarmos por esses aspectos, o capitalismo contemporâneo, embora diferente daquele dos tempos de Marx, não é tão diferente como pressupõe Zizek.

Aliás, pessoalmente, conquanto ache algumas formulações de Zizek interessantes e seus textos, sem dúvida, um prazer de ler pelo seu estilo provocativo, considero que se trate, na maioria das vezes, de um "poseur", cujo principal objetivo é dizer algo polêmico, que o coloque em evidência (mas sem ser polêmico demais ao ponto de comprometê-lo com uma posição que o coloque contra uma hegemonia discursiva "aceitável" como rebeldia acadêmica). Na hora do quero ver, eu só vejo o Zizek denunciando aqueles que o discurso "mainstream" condena (sejam os palestinos, quando palestra em Israel:

http://www.counterpunch.org/2011/07/14/zizek-and-the-gaza-flotilla/

sejam os excluídos britânicos:

http://www.lrb.co.uk/2011/08/19/slavoj-zizek/shoplifters-of-the-world-unite

sejam quaisquer revoltas contra o capitalismo:

http://www.conjur.com.br/2011-fev-18/ideias-milenio-revolta-capitalismo-... ).

Mesmo que as revoltas e protestos não tenham um programa claro e uma organização estruturada, elas são manifestações das contradições concretas da realidade. Zizek não as diagnostica. Ele as condena do alto de uma suposta posição privilegiada de análise, mas não apresenta uma alternativa. A impressão que fica é que toda a sua atenção está voltada para o processo - eu diria estético - de parecer um rebelde e um revolucionário sem tréguas. Mas que não se compromete com nada (essencial para que sua posição jamais possa ser criticada).

 

Morales (terça-feira, 03/04/2012 às 00:44),
Antes de voltar ao texto e se for o caso dizer alguma coisa sobre o segundo ponto que você analisa no texto de Slavoj Žižek, qual seja, sua crítica ao que Slavoj Žižek apresentou como o fim do proletariado, eu diria já agora que de início eu tendo a concordar com você, pois, aliás, no sentido em que eu concordo com o termo globalização ou mundialização, ou seja, no sentido do espraiamento e intensificação do capitalismo pelo mundo que nada mais seria do que a internacionalização do capital de Karl Marx, há, na periferia, o aumento do proletariado.
Já em relação à sua crítica a idéia de Slavoj Žižek de que não há mais uma burguesia proprietária absolutamente diferente do proletariado assalariado, eu considero que ela, sua crítica, não me pareceu apropriada, uma vez que a burguesia não assalariada que para você existe é uma burguesia resultante de uma indicação nominal de pessoas (É numerus clausus) e isso, a meu ver não faz uma classe e que além disso, apesar de essas pessoas estarem nas empresas e como dona de ações, estão na verdade ligadas ao sistema financeiro em uma relação um tanto promíscua em que nem se sabe se qual o vínculo que elas mantém com o sistema financeiro (Se de posse ou de subordinação).
Clever Mendes de Oliveira
BH, 03/04/2012

 

Morales, mas cada vez mais os pequenos e médios são engolidos pelos grandes grupos, que ele acredito é fato que ele está se baseando. Estão concentrando o controle do capital em mega-corporações, que sofrem menor concorrência e produzem em grande escala, o que garante lucros polpudos. Mesmo que o capital seja pulverizado em ações, esse tipo de empresa é a tendência. Dai a vc ter o crecimento do número de super-ricos e a classe média cada vez mais pobre e trabalhando mais do que antes. O indíce Gini só cresce.

Quanto ao proletariado, vc tem razão, penso que apenas migraram para a periferia do mundo, em busca de redução de custos. Mas acho que a afirmação tem base no fato que mesmo na China o setor industrial representa apenas 30% do PIB e ocorreu um aumento do número de autônomos (que não sei se chega a ser relevante). Acho que o único empecilho para a redução do número de proletários, substituidos por máquinas são as grandes revoltas que podem surgir e ameaçar o sistema. Mais interessante são pessoas trabalhando 60 horas semanais, com pouco descanso, consumindo e sem ameaçar o sistema..

Entendo essa visão de que revoltas apenas fortalecem o capitalismo por outro pensamento dele, que é sobre o incrível poder de mutação/adaptação do capitalismo à adversidades, não dimensionado por Marx. Quando a situação exigia, alguns anéis foram passados. Vencida a batalha, estão retomam os anéis. Na visão dele, pequenas revoltas não irão promover grandes mudanças. Tem que ser algo grande e fulminante para que o sistema não tenha tempo para se adaptar. Acho que ROBESPIERRE - VIRTUDE E TERROR, EM DEFESA DAS CAUSAS PERDIDAS, ELOGIO DA INTOLERANCIA, etc dão o tom.

Ah, lembro dele eufórico com os acontecimentos na praça Tahir e são dezenas de textos em apoio aos palestinos e contra os sionistas (vários no The Guardian), tanto não faltam videos dele em palestras na Palestina. Mas ele é anti-sionista, não anti-semita. Não faz muito sentido essas falas. Até vou colar uma fala dele que acho que normalmente vejo: "Nenhum acordo com o anti-semitismo é possível. Nenhuma razão pode ser invocada para tolerar o anti-semitismo. Também não se pode minimizar Auschwitz em nome do apoio aos palestinos. Isso é uma obscenidade. Mas existe um anti-semitismo sionista que critica os judeus que não se identificam totalmente com o projeto do Estado de Israel, utilizando a mesma retórica dos ‘antidreyfusards’ no fim do século 19: a mesma acusação de cosmopolitismo, de traição à pátria".

Quanto a apresentar alternativa, vai ai o que ele pensa sobre ser filósofo: "Zizek pensa que o trabalho do filósofo não é dizer o que é o mundo, mas questionar permanentemente e pôr em dúvida suas próprias formulações ideológicas." Tirado de um caderno Mais da FSP.

 

Pois eu já tenho uma implicância com o Slavoj Zizek. Em época ainda tão profundamente anticomunista, o esloveno contribui com este amontado de insights inconclusos ao agrado do pessimismo dos desgarrados ex-comunistas, ou, ao mesmo tempo, com as argumentações de neoliberais modernetes. Neste texto, de marxismo pós-modernista, tenta reinventar a roda, ou a pólvora. Podemos afirmar que o “trabalho imaterial” foi inventado no século XXI? Ora, o iluminismo, ascentral das ideias de Marx, não foi possível graças aos Bill Gates daquela época? O surgimento dos “chefes”, na velha produção industrial, gerentes, a chamada aristocracia operária já não faziam sua opção de classe, escolhendo a burguesia? Marx, Engels e Lênin o sabiam, e analisaram. Onde está a grande novidade? Sim, a tecnologia introduziu acelerados processos de automação na indústria, o velho operariado perdeu boa parte de sua importância. Mas entre em uma empresa do novíssimo mundo da era digital. Verá apenas cabeças altamente pensantes? Talvez Zizek não tenha entendido que fazer linhas de código é também tarefa de um novo proletariado. Sócios? Novos estímulos à participação? Nova burguesia? É tarefa de cabeça, como também existia na lide do mundo industrial, mas muitos braços, ou apenas dedos agora. Oh, tempos modernos! Mas exemplares são as fontes que Zizek gosta de citar, dizem muito sobre o que o próprio pensa. Veja o caso de Antonio Negri como exemplo: autor de Império (Impero: il nuovo ordine della globalizzazione), defende clara e precisamente ideia de um “superimperialismo” vindouro. Nesta ideia, guerras seriam eliminadas, um único inimigo sobraria, a pax permitiria uma nova etapa de desenvolvimento e ascensão dos descapitalizados e desburguesados. Que tese nova é esta? Pois era esta exatamente a tese de Kark Kaustky (1854-1938). Sim, o chamado Renegado Kautsky por Marx, que Lênin em sua obra “Imperialismo,fase superior do capitalismo” a destrói em intermináveis argumentos. E não é oque vemos hoje? A tentativa desesperada da nação mais bem armada do planeta de conquistar a hegemonia dos recursos planetários esbarra em novos players. Tudo indica que, apesar deste enorme esforço, os EUA e aliados fiéis tendem a afundar na História, apesar de todo o seu “potencial” de “privatização intelectual”. Algo que o autor em outros textos contraditoriamente concorda. O esforço de Zizek, que lhe rende muitas palestras e livros vendidos, pode ser considerado por alguns como um novo marxismo pós-modernista. Mas não passa de um velho revisionismo com cheiro de naftalina.  

 

O mendigo de hoje será o milionário de amanhá,inexplicavelmente.Isso vem acontecendo no Brasil.Por outro lado,o milionário de hoje será o mendigo de amanhã.São paradigmas que estamos vendo hoje em razão das mudanças inexplicáveis ocorridas em diversas partes do mundo. Hoje,o chines que ganhava só para comer vira empresário.No Brasil tem pobres a dar com pau se tornando rico.Vivemos um processo de bonanças em algumas partes do mundo que não tem explicações nas teorias econômicas e não polariza com as ideologias existentes.Estes resultados mostram que há outros modos de explicar a gênesis e o fim dos sistemas econômicos q fogem do controle do homem: É Deus! 

 

 


Walber F. dos Santos,


Há cerca de dois meses, vi um post com um título que me interessava.  Trata-se do post “Internet: tecnologia impulsiona revoluções no mundo” de domingo, 12/02/2012 às 14:00, aqui no blog de Luis Nassif e originado de um comentário de Marco Antonio L., que tinha um título “A internet é o melhor lugar para começar uma dissidência” e fazia referência a autoria do que se tinha sob aquele título. Tratava-se de matéria do jornalista Cory Doctorow, do The Guardian, UK, cujo título em inglês era “The internet is the best place for dissent to start” e teria sido traduzido pelo pessoal da Vila Vudu.


Pelo título que o post ganhou eu não o leria. Apenas faria um comentário crítico ao Marco Antonio L. por trazer um texto tão mísero como o título indicava que o artigo seria. Como se tratava do jornal The Guardian que tinha certa fama, achei melhor ler o texto. No início me surpreendi porque a parte inicial dizia exatamente o contrário do título. Só mais à frente percebi que a parte inicial era a introdução feita por Marco Antônio L. E então vinha o texto do jornalista Cory Doctorow. Os ingleses só nos têm decepcionado. E o texto, apesar de originado de The Guardian era realmente horrível , mas o título estava bem de acordo com o que pregava Cory Doctorow.  O post “Internet: tecnologia impulsiona revoluções no mundo” pode ser visto no seguinte endereço:


http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/internet-tecnologia-impulsiona-revolucoes-no-mundo


Deixei um comentário lá que enviei domingo, 12/02/2012 às 17:51, para Marco Antonio L. Não disse nada muito mais do que já disse aqui. Importante lá no meu comentário é a transcrição de um comentário que eu fiz para o post “Passagem para o futuro” de sexta-feira, 25/02/2011, no blog de Alon Feuerwerker e que reforça a minha crítica aos que avaliam que as revoluções que estão ocorrendo no mundo árabe são catapultadas pela internet. O endereço do post “Passagem para o futuro” é:


http://www.blogdoalon.com.br/2011/02/passagem-para-o-futuro-2502.html


Em meu comentário eu faço menção a vários posts ou artigos, deixando os links deles. Três deles eu menciono aqui. Primeiro, o artigo "Why Russia Should Be Worried About a Coup" em que Chrystia Freeland apresenta uma metodologia de medir uma revolta desenvolvida por ela e Peter Rudegeair em que ela considera quatro fatores:


- Liberdade política


- Corrupção,


- Vulnerabilidade aos choques de preços e


- Penetração de Internet.


O endereço do artigo "Why Russia Should Be Worried About a Coup" é:


http://tinyurl.com/5vj42l2


O Segundo é o post “Jânio de Freitas, clássico” de 23/09/2010 no blog de Na Prática a Teoria é Outra onde eu discuti muito a validade da tese levantada no artigo “Democracia e Cultura: Uma visão não culturalista” de Adam Przeworski, José Antonio Cheibub e Fernando Limongi em que há a seguinte afirmação: “Acima de 6.000 dólares, as democracias podiam esperar durar para sempre”. O endereço do post “Jânio de Freitas, clássico” é:


http://napraticaateoriaeoutra.org/?p=7094


E o terceiro o link é para o artigo “Democracia e Cultura: Uma visão não culturalista” de Adam Przeworski, José Antonio Cheibub e Fernando Limongi e que pode ser visto no seguinte endereço:


www.scielo.br/pdf/ln/n58/a03n58.pdf


Dou destaque para este link porque o trabalho acadêmico “Democracia e Cultura: Uma visão não culturalista” torna o ser humano muito passível. Se se tem democracia e uma renda média de hoje superior a U$15.000,00, por pior que seja a distribuição de renda ou a exploração de uma classe sobre outra, ou seja, por pior que seja a democracia para um determinado país, em que uma casta teria condições de permanecer no poder, mantendo só a fachada de democracia, uma vez que com uma renda média superior a U$6.000,00, nada mudará. Pelo teor do seu comentário, se você fosse comentar o trabalho “Democracia e Cultura: Uma visão não culturalista”, você diria que na época que o trabalho foi feito nada mudaria, mas hoje com Facebook e Twitter a mudança seria imediata.


É claro que o limite de U$6.000,00 pareceu bastante atrativo para quem como a mim acredita na questão econômica como catalizadora dos movimentos sociais no mundo, embora tenha achado exagerado estabelecer o limite de U$6.000,00 de renda média como fator de segurança para a democracia. Digo exagerado não pelo valor de U$6.000,00 que correspondiam, em dinheiro da época de referência, 1980, ao que corresponderiam hoje, se deflacionado, mais de U$15.000,00, mas por colocar um limite assim. Isto significaria que qualquer potência no mundo poderia financiar a democracia em um país, pois bastaria pagar uma renda média de U$6.000,00 para a população. Além disso, o limite seria ruim em termos estatísticos, pois poucos países têm esse padrão de renda hoje, e no passado mesmo que deflacionado esse valor ainda seria mais difícil de ser alcançado, pois há mais tempo o mundo era muito mais pobre do que é hoje. E o limite seria ruim também em termos estatísticos se considerarmos o tempo de democracia no mundo para se tirar conclusões estatísticas.


Bem, dito isso volto ao seu comentário introdutório. Eu considero insubsistentes essas relações das novas mídias como os processos revolucionários existentes no mundo árabe. Não é essa, entretanto, a maior crítica que eu faço ao seu comentário introdutório ao texto de Slavoj Žižek, “A era das revoltas burguesas”. A crítica que eu tenho é que me pareceu que não há nada no texto de Slavoj Žižek que corrobore a introdução que você fez. Aqui neste post “As novas tecnologias e s revoltas burguesas” de segunda-feira, 02/04/2012 às 10:30, ocorreu o contrário do que se deu no post "As alternativas dos eleitores nos Estados Unidos" de 25/03/2012 às 08:47 em chamada de Marco Antonio L. Lá eu concordava com o comentário introdutório de Marco Antonio L. que me parecia fazer a crítica correta ao texto “A internet é o melhor lugar para começar uma dissidência”. Aqui eu discordo da sua introdução por fazer loas, em meu entendimento, equivocadas ao que eu considero o ótimo artigo “A era das revoltas burguesas” de Slavoj Žižek.


Clever Mendes de Oliveira


BH, 02/04/2012

 

Há boas razões empíricas para sustentar-se essas tese: o que, de fato, condenou os regimes comunistas foi a sua incapacidade de adaptar-se à nova lógica social. Tentaram governá-la, fazer inúmeros projetos de planificação estatal centralizada em ampla escala.

Os ex-comunistas estão demonstrando ser os gerentes mais eficientes do capitalismo porque sua inimizade histórica com relação à burguesia enquanto classe se adapta perfeitamente com a tendência do capitalismo atual de se tornar um capitalismo gerencial sem burguesia – em ambos os casos, como disse Stalin há muito tempo, “os quadros decidem tudo” (uma diferença interessante entre a China e a Rússia de hoje: na Rússia, os professores universitários são ridiculamente mal pagos – na realidade, já fazem parte do proletariado – ao passo que na China eles têm um confortável mais-salário, o que garante a docilidade dos mesmos).

Os trechos acima parecem indicar que o modelo de Zizek é o stalinismo e a casta burocrática que criou e que governou os países da Europa do Leste e a própria Rússia por tanto tempo. O problema não estava na planificação, mas na ausência de democracia. Tanto na Ex União Soviètica como na China atual os resultados são garantidos pela mais violenta repressão. É esse o dilema chinês como continuar garantindo o exerccício do poder da casta burocrática sem democracia e com uma população de camponeses pobres que cansaram desse jogo?

Toda a modelagem da análise da constituição das hierarquias feitas por Zizek é baseada na casta burocrática stalinista, que "não percebeu que os tempos (ou a lógica) eram outros". Em todo o texto não existe uma só referência à questão da democracia e dos processos/procedimentos democráticos. E onde não existe democracia a coerção tem origem politica ou mercadológicas. Esse é o drama europeu de hoje: a imposição mercadológica e a necessidade das organizações financeiras sufocam os processos de democráticos.

 

Pois eu já acho sensacional o texto.


Sou funcionario público de alto nivel e salário e enxergo a concretude do que ele fala


A irracionalidade do meu trabalho, a não correspondência entre o que produzo e o que ganho


O absurdo de ser forçado a cumprir um horário que nada tem a ver com resultados e produtividade


A centralização de decisões em pessoas que não necessariamente são as mais capazes


Por outro lado, lido com empresas as mais diversas


Pornográficas relações de trabalho, ainda que em poucos casos "dentro da lei"


Ausência qualquer de brilho nos olhos dos lumpen assalariados


E a impressão de que o sistema, se é que vai mudar, não mudará em bases organizadas, mas sim numa implosão/explosão


 


 


 

 

Estão privatizando até o ar que respiramos. Afinal qual é a lógica do "crédito carbono"?

Chegou a vez da água - criam a escassez - posteriormente a cobrança de taxas e sobretaxas - uma operação financeira qualquer e os habitantes pobres do planeta é quem acaba pagando. As naturais e sucessivas inundações tem postergado mais este crime de lesa humanidade. A água não é um bem finito. O Sol evapora a água dos oceanos que volta a Terra na forma de chuva ou neve. É óbvio que nem sempre a chuva cai na hora, no lugar e na quantidade que desejamos. Temos de nos adaptar ao seu ciclo (muitas vezes erráticos). São questões de meteorologia, hidrologia e de engenharia como prevenção, açudes, barragens, irrigação, drenagem, tratamento, saneamento, esgotos, distribuição, navegação, piscicultura, lazer, indústrias etc.

Vamos ver o que a Rio+20 e sua agenda (para o Brasil) neo-neo liberal da "economia verde" e "sustentável" do decrescimento. Enquanto isso americanos e europeus consomem de quatro a cinco vezes (per capita) mais água que a média mundial. Nós brasileiros consumimos involuntariamente muita água nas enchentes e nos enchugamos nas cíclicas secas do nordeste. São fenômenos anteriores a era industrial, nada a ver com ações antropogênicas.

 

E daí? Que artigo mais tortuoso. São observações e observações sem nenhuma conclusão.

 

Vera Lucia Venturini

Trata-se de um artigo de revista ou de comentário blogueiro ,como eu, às vezes, solto? No primeiro caso, exigo um trabalho mais abrangente de coleta de evidências e não  apenas uma cadeia de argumentações. No segundo caso, porque citar longamente pitacos de outros países? Pitaqueiros temos aqui aos montes (me incluindo...)

 

Joaquim Aragão

Teses e mais teses. Praticamente nenhum trabalho empírico para comprovar o que não pode ser considerado além de um quadro de hipóteses. Especialmente a "privatização do intelecto geral" me parece uma idéia muito pobre.

Nem todo o texto que se transveste de "crítico", de "esquerda", merece crédito de qualidade...

 

Joaquim Aragão

 


Joaquim Aragão (segunda-feira, 02/04/2012 às 11:29),


Tenho certa admiração por Slavoj Žižek. Na verdade tenho admiração por uma declaração dele a que fiz menção recente junto ao post "As alternativas dos eleitores nos Estados Unidos" de 25/03/2012 às 08:47 em chamada de Marco Antonio L. para matéria que saiu no blog de Paulo Nogueira Diário do Centro do Mundo intitulado "Por que os americanos não estão nem aí para as eleições". O endereço do post "As alternativas dos eleitores nos Estados Unidos" é:


http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/as-alternativas-dos-eleitores-nos-eua


Em comentário que eu enviei domingo, 25/03/2012 às 12:27, para junto do comentário de Assis Ribeiro enviado domingo, 25/03/2012 às 09:07 no post"As alternativas dos eleitores nos Estados Unidos" há a seguinte menção a Slavoj Žižek:


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“E aqui eu faço menção a um post aqui no blog de Luis Nassif intitulado "A revolta que reforça o capitalismo" de sábado, 19/02/2011 às 12:34 em que Raquel_ traz uma entrevista do filósofo Slavoj Žižek no programa Milenio de Jorge Pontual no Globonews. Não sei direito, mas pareceu-me que o título da entrevista é "Revolta contra o capitalismo é forma de reforçá-lo". O endereço do post "A revolta que reforça o capitalismo" é:


http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/a-revolta-que-reforca-o-capitalismo


Na entrevista há uma passagem muito interessante em que ele responde a seguinte questão:


"Jorge Pontual — Uma coisa sobre a qual você fala brevemente no seu livro e que gostaria que elaborasse um pouco mais é o capitalismo populista da América Latina. O que é esse capitalismo populista de que você fala?"


A passagem na resposta dele que me interessa aqui fez-me lembrar um argumento que eu tinha em defesa de George Walker Bush, o filho. Diz lá Slavoj Žižek no trecho que interessa:


" .  .  .  O que está acontecendo graças ao imortal presidente George Bush, o filho? Por causa de uma coisa que ele fez, todo esquerdista deveria rezar pela alma dele todos os dias. Nos seus oito anos de governo, ele, com certeza, enfraqueceu a hegemonia e a liderança mundial dos EUA. Depois de seu governo, os EUA são, cada vez mais, apenas um entre muitos.  .  .  . "


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Coloquei tudo isso ai porque me pareceu que este artigo dele “A era das revoltas burguesas”, que diga-se de passagem é um tanto antigo, pois foi publicado no “internazionale.it”, nº 937, de 24/02/2012, não é tão fraco como o seu comentário deixa entrever. Talvez você tenha sido iludido pela introdução de Walber F. dos Santos que também me deixou um tanto resistente ao texto de Slavoj Žižek. Li e não vi nada no texto de Slavoj Žižek que corroborasse o que Walber F. dos Santos dissera.


Você tem razão em dizer que são várias teses e também em dizer que não há trabalho empírico de comprovação. É difícil a um filósofo realizar esses dois papéis, de desenvolver uma idéia e avaliar se ela realmente ocorre na prática, se é que isso é possível.


Agora, quanto à expressão “privatização do intelecto geral”, talvez ela possa ser questionada se tomamos que o termo "intelecto” se refere a cada indivíduo e a expressão “intelecto geral”, não estaria na esfera do Estado e, portanto, ainda seria algo privado e ai não teria muito sentido o termo privatização.


Se consideramos o uso dos tipos móveis na impressão por João Gutenberg e fizermos uma comparação da plataforma do Windows e os demais softwares da Microsoft parece que a expressão “privatização do intelecto geral” poderia ser mais bem entendida como a “comercialização do intelecto geral” que teria ocorrido com a tecnologia desenvolvida por Bill Gates, mas não houve com a tecnologia desenvolvida por João Gutenberg. Com João Gutenberg a comercialização se daria com o “intelecto individual”. E João Gutenberg nada ganhou com a “negociação do intelecto individual”, pois cada negociação é uma relação contratual definida para um caso concreto entre as partes envolvidas gerando direitos no máximo apenas para os descendentes.


O problema talvez resida só na expressão “privatização do intelecto geral”, que só faz sentido quando se considera que o intelecto geral é um intelecto coletivo ou mais especificamente é o intelecto público e ai em antagonismo com o privado cabe dizer em “privatização do intelecto geral”. O que Slavoj Žižek diz é que essa produção do conhecimento que ele fazia na divulgação deste texto dele é comercializada e uma parte dela vai para o bolso de Bill Gates. De fato, seria uma apropriação do intelecto geral. O que não me parece uma idéia tão pobre como você diz que é.


Clever Mendes de Oliveira


BH, 02/04/2012

 

Joaquim,


A questão do intelecto geral, a meu ver, começa por decorrer da expansão do ensino universitário do qual surgem massas de gente com formação superior que não a transformam em propiedade capitalista mas que são, antes, apropriados como assalariados de grandes multinacionais, isto significa que em cada multinacional, de quem realmente tem poder de decisão fundado em propriedade do capital - ou seja, accionistas maioritários, que são sempre uma vasta minoria -, há uma enorme apropriação da "mais-valia" intelectual fornecida pelos ensino superior - e aqui nem sequer precisamos ficar pela graduação, mesmo ao nível do doutoramento, a sua saída profissional é muito menos para a propriedade de capital do que para o assalariamento - julgo mesmo que a saída para a apropriação capitalista é insignificante em comparação com a saída para o assalariamento.


Parece-me ainda que o desenvolvimento tecnológico cujo progresso é cada vez mais de tipo geométrico colocará ao mesmo tempo sob pressão o próprio ensino superior cujas primeiras consequências são primeiro a desvalorização da graduação, depois com esta desvalorização e com os aumentos dos mestrados, a desvalorização destes até que com o tempo se chegue mesmo aos doutorados - isto se esta dinâmica prosseguir ao ritmo actual. Neste momento, na Europa e talvez nos EUA, já se assiste a uma clara desvalorização das graduações. No Brasil ainda não mas, com o tempo, lá chegará também É esta desvalorização que a meu ver vai construindo o intelecto geral, ou seja, uma massa crescente de gente com formação superior que não encontra saída profissional no chamado trabalho produtivo e que, portanto, ou fica no desemprego ou em trabalho não produtivo.


Julgo que a recorrente conversa do liberal capitalismo contra o serviço público, que chama de trabalho não produtivo, muitas vezes até de parasitário, esquece que este vai ser cada vez mais a alternativa à mera permanência no desemprego com os riscos sociais que isso tem para o capitalismo.


Por enquanto o liberal capitalismo vai conseguindo reduzir ao rótulo de extremistas de esquerda os diversos movimentos jovens de protesto na Europa - nomeadamente no sul da europa - mas com o tempo, mantendo-se a expansão da desocupação entre a juventude graduada é possível que este rótulo comece a ser cada vez menos convincente para os jovens mais reticentes em aderir a estes movimentos.


Acredito ainda que em desespero de causa o capitalismo comece a tornar o acesso ao ensino superior mais difícil de forma a diminuir as expectativas dos jovens mas isto naturalmente não leva em conta as expectativas não ainda de aceder a um emprego depois da graduação mas as de aceder ao ensino superior. Ou seja é como puxar a manta para tapar o pescoço deixando com isso no entanto os pés de fora.