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Carnaval de Salvador, por Caetano Veloso

Estou longe agora, mas me orgulho de que se precise golpear tanto o carnaval da Bahia

Li com interesse e carinho a entrevista de João Jorge, o fundador e presidente do Olodum e meu amigo, à “Folha de S.Paulo”. A chamada de primeira página dava um gosto tipicamente “Folha” à matéria: Ivete Sangalo seria a única artista do carnaval baiano. Ser esse um carnaval de uma artista só, completava o corpo da reportagem amparado em falas de João, tinha um motivo: a artista era branca. Para um baiano que vive e observa o carnaval de Salvador desde 1960, essas declarações parecem absurdas. Passei uma noite na rua em Ondina, onde culmina o circuito Barra-Ondina do carnaval soteropolitano.

Brinquei na pipoca ao som e à luz do Psirico, de Daniela, do 8794 e de um outro cujo nome não lembro mas que tinha a ver com música sertaneja. Psirico e Daniela são estrelas das ruas carnavalescas da Bahia pelo menos tão grandes quanto Ivete. Acho que João Jorge usou a Sangalo como metonímia da concentração de riqueza e atenção de que parte da folia baiana desfruta porque ela é atualmente a única diva do nosso carnaval que tem status de estrela nacional. Bem, Daniela também tem. Mas Daniela não é a bola da vez, embora não esteja tão esquecida dos brasileiros de todas as regiões não ligadas à Baía de Todos os Santos quanto Luiz Caldas, que também já foi sucesso do Oiapoque ao Chuí.

Acabo de chegar a Sanremo, na Itália, vindo direto do Recife, onde cantei para a multidão que enche o Marco Zero. A mera visão dessa multidão recifense teria feito a viagem valer a pena. Mas ainda conseguimos interessá-la com nossa mistura de samba carioca (Trio Preto +1), frevo baiano trieletrizado, uma obra-prima de Antônio Maria e os tratamentos indie-roqueiros de canções minhas recentes (bandaCê). Nem quero falar no Recife. O espírito pernambucano está me dando muito.

Impressiona-me que o carnaval da Bahia seja alvo de críticas muito exigentes. O fenômeno da axé music sem dúvida exaltou os ânimos críticos dos brasileiros presunçosos, e isso desencadeou uma avalanche de reações contra a existência de cordas em blocos (coisa que sempre houve, sendo que os desfiles das escolas de samba do Rio chegaram à construção de algo bem mais sólido do que uma mera corda), de camarotes (como se isso tivesse sido inventado na Bahia), de racismo (como se o carnaval fosse um período de expressão privilegiada dessa nossa doença histórica). Estou num hotel à beira-mar, sozinho num quarto, sentindo-me triste por causa de coisas desse período da minha vida. Penso no carnaval de minha terra como em algo de repente distante.

Não apenas Psirico e Daniela são grandes. Xande do Harmonia do Samba e Caudia Leitte também. Sem falar no Chiclete com Banana, Brown e a Timbalada. Por que João Jorge atribui o êxito de Claudia e Ivete ao fato de elas serem brancas se Márcio Vítor é preto e é um rei das ruas e dos vídeos? Meu desejo era discutir aqui, trazendo um pouco de racionalidade, as questões que estão encapsuladas na entrevista de João Jorge e difusas em conversas e artigos. Não tenho muito como me concentrar para fazê-lo bem, já que preciso relembrar a letra e as harmonias de “Piove” e treinar com uma orquestra italiana “Você é linda” para cantar hoje à noite. Isso sem ter dormido quase nada entre o show de terça no Recife e a viagem de quarta/quinta para Sanremo via Lisboa e Nice. Muita coisa. Mas posso lembrar apenas alguns fatos que nos devem fazer pensar.

Os trios elétricos sempre arrastaram mais gente dos que os blocos de corda. Os afoxés estavam morrendo quando Gil fez “Filhos de Gandhi”, e isso atraiu participantes e turistas. Os blocos afro surgiram depois disso. Blocos “brancos”, como Internacionais e Corujas, tampouco tinham grande acompanhamento. Os trios arrastavam a massa. Não tinham corda. Só eles. Logo tiveram patrocínio (marcas de cachaça). A burguesada ia para os bailes. Com a fama nacional dos trios, turistas desbundados vieram a partir de 1970. Os blocos contrataram trios. Ficaram ricos e armaram equipamentos sonoros de show de rock. Viraram estouro federal. Na Avenida Sete, em 1960, os moradores alugavam cadeiras amarradas para quem pudesse pagar para assistir. Não há mais bailes. Há camarotes e blocos que vendem abadás. Há trios (mesmo estelares) que passam sem corda. Os blocos com corda atraem foliões pipoca. Estes, tudo somado, são em número e porcentagem superiores aos do passado. Quem está mesmo reclamando de quê?

A maioria foge do carnaval. A minoria que brinca é imensa. O valor simbólico da festa é inestimável. Carnaval não é uma série de passeatas pró-ordem, conforto ou justiça social. Estou longe agora, mas me orgulho de que se precise golpear tanto o carnaval da Bahia.

http://oglobo.globo.com/cultura/corda-cor-7599153

Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/cultura/corda-cor-7599153#ixzz2LBqpKOfM

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No Rio, podemos dizer, há dois movimentos carnavalescos: para a elite - o Sambódromo -, e para o povo, o resto da Cidade. São ricos e pobres que, sem cordas, avançam nos diversos bairros da Capital, e do Interior do RJ, num Carnaval digno de se ver mundo afora, tal a expressão de alegria conjunta que se apresenta desde sempre. A diferença existente hoje no Rio em relação a tempos passados, é que surgiram as bandas, altamente democráticas, fazendo uma certa diferença. É banda pra todo lado, e pra todos os gostos. O carioca, rico ou pobre, sai desprevenido num domingo de carnaval, e pode voltar cansado de tanto dançar, porque a rua tá cheia de gente comemorando a festança. Ninguém discrimina ninugém sobre nenhum aspecto. Vale tudo!

Não li o artigo de quem fez a observação sobre o carnaval da Bahia, mas eu já penso no caso de há muito. Dá pena ver que o direito de ir e vir do povão é obstruído nesses carnavais, com as ruas preparadas para aguardar os dias de folia, com camarotes prontos, apropriados para reis e rainhas, e os carros elétricos, todos tomando conta dos espaços do povo, que não irá participar de coisa alguma, a não ser ver de longe os artistas, ou, se quiser ver de mais perto - se é que dá pra ver - terá que se submeter a ganhar vinte ou trinta reais para segurar cordas, ou puxar carros, ou sei lá o quê. A maioria do povo, com certeza, pode até brincar carnaval, mas bem longe desse circuito famoso, só que, diferente do Rio, de Pernambuco, apenas dois exemplos, as imagens divulgadas de Salvador só mostram esse carnaval absolutamente anti-democrático, assemelhado ao tempo dos escravos, que carregavam os lordes em redes, ou em qualquer outro veículo, suando frio, humilhado.

Não posso dizer que sou contra esse ou aquele artista. Eles estão fazendo o que melhor servem a seus bolsos. Até que na Quarta-Feira de Cinzas, eu vi, e como sempre, Ivete e Daniella, mortas de cansada, já desfantasiadas, saíram pela manhã, juntando àquele povo disciminado nos dias anteriores, e deram ua canjinha pros coitados. A emenda ficou pior que o soneto. É como querer consertar uma gafe.

 

O carnaval(pelo menos o que assistimos na TV) se tornou uma festa previsível, chata até dizer chega e desvirtuada pela presença de burgueses e deslumbrados. Só é popular no nome. 

Ademais, por que o país todo tem que parar por causa de um evento que basicamente se resume ao Rio, Bahia e Recife? Os que querem identificar TODO o país com essa efeméride estão redondamente enganados, em especial essa parte dos desfiles no eixo Rio - São Paulo.

Carnaval já era, e particularmente para alguns patrícios, nunca foi.

 

Sou gauch, moro em salvador, e carnaval no Rio nao vejo e nem vou!!

 

Caetano nunca foi baiano na vida...Se nasceu em Santo Amaro da Purificação, se foi prá sempre depois que mandaram os malditos embora do Subaé...

No máximo, pode ser considerado um turista  na capital afro-brasileira.....

 

 

"A democracia é o pior sistema de governo do mundo. À exclusão de todos os demais” ...Churchill.

 

CARNAVAL NÃO É PASSEATA PRÓ-JUSTIÇA SOCIAL" Caetano, rebate, entrevista, João Jorge, artigo

 

O cantor e compositor Caetano Veloso pede desculpas a seu "amigo" João Jorge, mas discorda de praticamente toda a sua 'bombástica' entrevista à Folha de São Paulo, na qual disse que "O carnaval de Salvador é festa de um artista só", em referência a Ivete Sangalo; Caetano rebate o presidente do Olodum sobre a festa ser segregada e sobre o "apartheid" de negros e brancos fora e dentro das cordas do blocos, respectivamente

 

17 DE FEVEREIRO DE 2013 ÀS 13:57

 

Bahia 247

O cantor e compositor Caetano Veloso não está alheio ao carnaval de Salvador, sobretudo o deste ano, que foi sacudido com a entrevista 'bombástica' do presidente do Olodum, João Jorge, à Folha de São Paulo.

Publicada há uma semana, a entrevista teve chamada na capa do jornal paulista com a frase de João de que "O carnaval de Salvador era festa de um artista só", em referência à 'musa do axé', Ivete Sangalo.

Em artigo escrito na última quinta-feira, de forma sutil e respeitosa, Caetano pede desculpas a seu "amigo" João Jorge, mas discorda de praticamente toda sua entrevista à Folha. Não só ao quesito Ivete Sangalo, mas a todo o discurso do presidente do Olodum sobre a festa ser segregada, sobre o "apartheid" de negros e brancos fora e dentro das cordas do blocos, respectivamente.

Caetano faz comparativo da folia baiana ao carnaval do Rio de Janeiro, "onde chegaram à construção de algo bem mais sólido do que uma mera corda". O astro da MPB lembra ainda que os mais antigos e tradicionais blocos de Salvador não foram fundados por movimentos negros.

Ainda sobre o fato de Ivete Sangalo ser branca, Caetano Veloso lembra que Márcio Victor, do Psirico é negro, e que é um "rei" do carnaval de Salvador.

Abaixo a íntegra do artigo de Caetano publicado em O Globo deste domingo.

Corda e cor – Caetano Veloso

Estou longe agora, mas me orgulho de que se precise golpear tanto o carnaval da Bahia

Li com interesse e carinho a entrevista de João Jorge, o fundador e presidente do Olodum e meu amigo, à "Folha de S.Paulo". A chamada de primeira página dava um gosto tipicamente "Folha" à matéria: Ivete Sangalo seria a única artista do carnaval baiano. Ser esse um carnaval de uma artista só, completava o corpo da reportagem amparado em falas de João, tinha um motivo: a artista era branca. Para um baiano que vive e observa o carnaval de Salvador desde 1960, essas declarações parecem absurdas. Passei uma noite na rua em Ondina, onde culmina o circuito Barra-Ondina do carnaval soteropolitano. Brinquei na pipoca ao som e à luz do Psirico, de Daniela, do 8794 e de um outro cujo nome não lembro mas que tinha a ver com música sertaneja. Psirico e Daniela são estrelas das ruas carnavalescas da Bahia pelo menos tão grandes quanto Ivete. Acho que João Jorge usou a Sangalo como metonímia da concentração de riqueza e atenção de que parte da folia baiana desfruta porque ela é atualmente a única diva do nosso carnaval que tem status de estrela nacional. Bem, Daniela também tem. Mas Daniela não é a bola da vez, embora não esteja tão esquecida dos brasileiros de todas as regiões não ligadas à Baía de Todos os Santos quanto Luiz Caldas, que também já foi sucesso do Oiapoque ao Chuí.

Acabo de chegar a Sanremo, na Itália, vindo direto do Recife, onde cantei para a multidão que enche o Marco Zero. A mera visão dessa multidão recifense teria feito a viagem valer a pena. Mas ainda conseguimos interessá-la com nossa mistura de samba carioca (Trio Preto +1), frevo baiano trieletrizado, uma obra-prima de Antônio Maria e os tratamentos indie-roqueiros de canções minhas recentes (bandaCê). Nem quero falar no Recife. O espírito pernambucano está me dando muito.

Impressiona-me que o carnaval da Bahia seja alvo de críticas muito exigentes. O fenômeno da axé music sem dúvida exaltou os ânimos críticos dos brasileiros presunçosos, e isso desencadeou uma avalanche de reações contra a existência de cordas em blocos (coisa que sempre houve, sendo que os desfiles das escolas de samba do Rio chegaram à construção de algo bem mais sólido do que uma mera corda), de camarotes (como se isso tivesse sido inventado na Bahia), de racismo (como se o carnaval fosse um período de expressão privilegiada dessa nossa doença histórica). Estou num hotel à beira-mar, sozinho num quarto, sentindo-me triste por causa de coisas desse período da minha vida. Penso no carnaval de minha terra como em algo de repente distante.

Não apenas Psirico e Daniela são grandes. Xande do Harmonia do Samba e Caudia Leitte também. Sem falar no Chiclete com Banana, Brown e a Timbalada. Por que João Jorge atribui o êxito de Claudia e Ivete ao fato de elas serem brancas se Márcio Vítor é preto e é um rei das ruas e dos vídeos? Meu desejo era discutir aqui, trazendo um pouco de racionalidade, as questões que estão encapsuladas na entrevista de João Jorge e difusas em conversas e artigos. Não tenho muito como me concentrar para fazê-lo bem, já que preciso relembrar a letra e as harmonias de "Piove" e treinar com uma orquestra italiana "Você é linda" para cantar hoje à noite. Isso sem ter dormido quase nada entre o show de terça no Recife e a viagem de quarta/quinta para Sanremo via Lisboa e Nice. Muita coisa. Mas posso lembrar apenas alguns fatos que nos devem fazer pensar.

Os trios elétricos sempre arrastaram mais gente dos que os blocos de corda. Os afoxés estavam morrendo quando Gil fez "Filhos de Gandhi", e isso atraiu participantes e turistas. Os blocos afro surgiram depois disso. Blocos "brancos", como Internacionais e Corujas, tampouco tinham grande acompanhamento. Os trios arrastavam a massa. Não tinham corda. Só eles. Logo tiveram patrocínio (marcas de cachaça). A burguesada ia para os bailes. Com a fama nacional dos trios, turistas desbundados vieram a partir de 1970. Os blocos contrataram trios. Ficaram ricos e armaram equipamentos sonoros de show de rock. Viraram estouro federal. Na Avenida Sete, em 1960, os moradores alugavam cadeiras amarradas para quem pudesse pagar para assistir. Não há mais bailes. Há camarotes e blocos que vendem abadás. Há trios (mesmo estelares) que passam sem corda. Os blocos com corda atraem foliões pipoca. Estes, tudo somado, são em número e porcentagem superiores aos do passado. Quem está mesmo reclamando de quê?

A maioria foge do carnaval. A minoria que brinca é imensa. O valor simbólico da festa é inestimável. Carnaval não é uma série de passeatas pró-ordem, conforto ou justiça social. Estou longe agora, mas me orgulho de que se precise golpear tanto o carnaval da Bahia.

http://www.brasil247.com/pt/247/bahia247/93808/Carnaval-n%C3%A3o-%C3%A9-passeata-pr%C3%B3-justi%C3%A7a-social.htm




 

Porque o Olodum disse (com razão) que a Bahia virou a terra de Ivete Sangalo

 

Por Fernando Castilho, do JC Negócios

Para quem se acostumou a ver o Carnaval da Bahia como uma festa que junta o talento de artistas nacionais que se dividem em apresentações nos seus trios elétricos onde Carlinhos Brown visita Ivete Sangalo assim como Cláudia Leite recebe Bel Marques e Caetano Veloso divide o microfone com seu amigo Gilberto Gil, não deixa de ser surpreendente a entrevista publicada na edição desta segunda-feira da Folha de São Paulo onde o presidente do Olodum, João Jorge Rodrigues, afirmou que há um monopólio na divisão de recursos na folia da Bahia, que hoje ela é "terra de uma artista só": Ivete Sangalo.

Rodrigues, que lidera a banda mais internacional da Bahia com apresentações em 37 países, quatro Copas do Mundo e que tocou com os últimos 30 grandes nomes da música mundial, disse que hoje existe um segmento que tem os melhores patrocínios, maior visibilidade, todos os recursos e que desfila entre cordas separando os blocos do povo. E mais: que a capital baiana "é campeã mundial de apartheid". Sobretudo nos dias de folia.

Mas, por que Rodrigues, um carnavalesco respeitado, com título de Mestre em direito público pela Universidade de Brasília (UnB) resolveu bater de frente com a mais festejada artista brasileira, cantora, atriz, apresentadora de programas de televisão e empresária de sucessos no show bis?

Exatamente por essa ultima característica: Ivete virou, segundo Rodrigues, empresária demais para os verdadeiros interesses do Carnaval da Bahia. E, mais uma vez, por surpreendente que isso possa parecer, ele tem razão.

Nos últimos anos a cantora foi juntando aos seus negócios, os interesses do Governo e da Prefeitura de Salvador, que em 2008 entregou-lhe o direito de captar verbas para pagar as contas do Carnaval da cidade, catapultando sua força como captadora de recursos da Lei Rouanet para suas apresentações e praticamente definindo quem e em que horários devem se apresentar no Carnaval de Salvador o que inclui os horários mais nobres de TV.

Na prática, isso teve efeitos negativos, pois com o tempo o formato foi excluindo os blocos afros da Bahia do horário nobre e das transmissões ao vivo o que revolta as agremiações e de quem o Olodum se tornou porta-voz.

A experiência do Carnaval de Salvador é um bom exemplo do que não se deve seguir. Afinal, se a festa é paga pelo dinheiro do contribuinte, ninguém melhor que o próprio prefeito para pressionar as empresas que se beneficiam da festa a contribuir com a festa.

Na verdade, o que aconteceu foi que em 2008 o Consórcio OCP Mago ganhou o direito de ser responsável pela comercialização das cotas de patrocínio do Carnaval de Salvador. O consórcio é liderado pelos empresários Antônio Barreto Jr., da OCP Comunicação; e Alexandre Sangalo, da Mago Comunicação-Caco Telha, irmão e gestor da empresa de Ivete.

A Mago Comunicação é um agência de propaganda pertencente a Caco de Telha que pertence a Ivete Sangalo que ainda tem as empresas Caco Soluções Corporativas, Axé Mix, Caco Music, Caco Licenciamentos, Caco Formaturas, além da carreira individual da cantora.

Em 2009, um contrato oficializou as agências OCP Comunicação e Mago Comunicação como vencedoras da concorrência realizada para escolher os responsáveis pela comercialização de cotas de patrocínio do Carnaval de Salvador. O contrato com a empresa de turismo do município Saltur seria válido por três anos, compreendendo os carnavais de 2010, 2011 e 2012. Mas, no ano passado o consórcio conseguiu renovar por mais dois anos, e tanto em 2013 como em 2014 o consórcio OCP/Mago vai vender as cotas para a maior festa da Bahia.

Nos últimos anos, o valor arrecadado pelas cotas de patrocínio do Carnaval de Salvador até que cresceu. Em 2010, o total arrecadado pelo Consórcio OCP Mago foi de R$ 14 milhões, o que representou o expressivo percentual de 87% de aumento em relação a 2009, quando a soma foi R$7,5 milhões. Este ano, ele fechou as principais cotas com empresas privadas e instituição publica de mais de R$ 17, 7 milhões. Brahma, Itaú, Petrobras e Governo do Estado da Bahia são os principais patrocinadores da festa. A Brahma, cerveja do portfólio da Ambev, irá investir R 5, 25 milhões, o Itaú, R 3, 91 milhões e a Petrobras, R 4, 77 milhões.

Oficialmente o consórcio ajuda a colocar banheiros em containers com ar-condicionado, limpeza das ruas e do fundo do mar, segurança, incremento nos carnavais de bairros, painéis informativos e de entretenimento, zonas de internet gratuitas. Do outro lado, cuida da promoção na mídia organizando os desfiles. E foi ai que o bicho começou a pegar.

Segundo João Jorge Rodrigues, isso excluiu os blocos afros do melhor da festa. Segundo ele, o Olodum vem brigado muito para sair mais cedo e poder ser visto pela televisão. Para que empresas patrocinem de forma equitativa os blocos afros. Mas, não tem tido sucesso.

Para o presidente do Olodum, a diversidade, que antes era a riqueza do Carnaval, foi diminuindo e hoje o Ilê Aiyê, os Filhos de Gandhy, a Timbalada e o Olodum concorrem pouco para isso. Nos demais lugares você não tem novidades. "A Bahia virou a terra de uma artista só. Parece que os outros estão todos mortos", diz.

De fato, o que o presidente do Olodum diz é perceptível, pois a marca do Carnaval da Bahia virou a corda. Custa caro e põe mais de dois milhões de turistas se espremendo fora das cordas até porque, nos trios só cabem 250 mil pessoas.

O curioso é que até mesmo líderes de blocos afros optaram por tentar contornar esse efeito negativo em lugar de questioná-lo. Carlinhos Brow, que prefere não bater de frente com Ivete, com outras seis entidades, decidiram criar um espaço próprio, o Afródromo. O argumento é o de criar um novo circuito, exclusivo para os blocos afros. Ele estrearia neste ano, mas foi adiada pela nova gestão na prefeitura liderada por ACM Neto, por falta de recursos.

Para o Olodum, o Afródromo é mais um equívoco. Pois, o que a sociedade branca mais quer é que os negros escolham um gueto para ir e se afastem da disputa com eles. É como se eles soubessem o lugar em que deveriam ficar em vez de desfilar na Barra e no Campo Grande. Porque além de obrigar o poder público a ter gastos com outro circuito, o Afródromo teve um agravante: o novo circuito teria suas cotas de comercialização feitas pelo consorcio Consórcio OCP Mago que, inclusive, argumentou que ele não poderia começar este ano, pois não havia tempo para comercializar o evento. Foi demais para o Olodum.

http://correionago.ning.com/profiles/blog/show?id=4512587%3ABlogPost%3A331019&xgs=1&xg_source=msg_share_post

 

 

Porque o Olodum disse (com razão) que a Bahia virou a terra de Ivete Sangalo

 

Por Fernando Castilho, do JC Negócios

Para quem se acostumou a ver o Carnaval da Bahia como uma festa que junta o talento de artistas nacionais que se dividem em apresentações nos seus trios elétricos onde Carlinhos Brown visita Ivete Sangalo assim como Cláudia Leite recebe Bel Marques e Caetano Veloso divide o microfone com seu amigo Gilberto Gil, não deixa de ser surpreendente a entrevista publicada na edição desta segunda-feira da Folha de São Paulo onde o presidente do Olodum, João Jorge Rodrigues, afirmou que há um monopólio na divisão de recursos na folia da Bahia, que hoje ela é "terra de uma artista só": Ivete Sangalo.

Rodrigues, que lidera a banda mais internacional da Bahia com apresentações em 37 países, quatro Copas do Mundo e que tocou com os últimos 30 grandes nomes da música mundial, disse que hoje existe um segmento que tem os melhores patrocínios, maior visibilidade, todos os recursos e que desfila entre cordas separando os blocos do povo. E mais: que a capital baiana "é campeã mundial de apartheid". Sobretudo nos dias de folia.

Mas, por que Rodrigues, um carnavalesco respeitado, com título de Mestre em direito público pela Universidade de Brasília (UnB) resolveu bater de frente com a mais festejada artista brasileira, cantora, atriz, apresentadora de programas de televisão e empresária de sucessos no show bis?

Exatamente por essa ultima característica: Ivete virou, segundo Rodrigues, empresária demais para os verdadeiros interesses do Carnaval da Bahia. E, mais uma vez, por surpreendente que isso possa parecer, ele tem razão.

Nos últimos anos a cantora foi juntando aos seus negócios, os interesses do Governo e da Prefeitura de Salvador, que em 2008 entregou-lhe o direito de captar verbas para pagar as contas do Carnaval da cidade, catapultando sua força como captadora de recursos da Lei Rouanet para suas apresentações e praticamente definindo quem e em que horários devem se apresentar no Carnaval de Salvador o que inclui os horários mais nobres de TV.

Na prática, isso teve efeitos negativos, pois com o tempo o formato foi excluindo os blocos afros da Bahia do horário nobre e das transmissões ao vivo o que revolta as agremiações e de quem o Olodum se tornou porta-voz.

A experiência do Carnaval de Salvador é um bom exemplo do que não se deve seguir. Afinal, se a festa é paga pelo dinheiro do contribuinte, ninguém melhor que o próprio prefeito para pressionar as empresas que se beneficiam da festa a contribuir com a festa.

Na verdade, o que aconteceu foi que em 2008 o Consórcio OCP Mago ganhou o direito de ser responsável pela comercialização das cotas de patrocínio do Carnaval de Salvador. O consórcio é liderado pelos empresários Antônio Barreto Jr., da OCP Comunicação; e Alexandre Sangalo, da Mago Comunicação-Caco Telha, irmão e gestor da empresa de Ivete.

A Mago Comunicação é um agência de propaganda pertencente a Caco de Telha que pertence a Ivete Sangalo que ainda tem as empresas Caco Soluções Corporativas, Axé Mix, Caco Music, Caco Licenciamentos, Caco Formaturas, além da carreira individual da cantora.

Em 2009, um contrato oficializou as agências OCP Comunicação e Mago Comunicação como vencedoras da concorrência realizada para escolher os responsáveis pela comercialização de cotas de patrocínio do Carnaval de Salvador. O contrato com a empresa de turismo do município Saltur seria válido por três anos, compreendendo os carnavais de 2010, 2011 e 2012. Mas, no ano passado o consórcio conseguiu renovar por mais dois anos, e tanto em 2013 como em 2014 o consórcio OCP/Mago vai vender as cotas para a maior festa da Bahia.

Nos últimos anos, o valor arrecadado pelas cotas de patrocínio do Carnaval de Salvador até que cresceu. Em 2010, o total arrecadado pelo Consórcio OCP Mago foi de R$ 14 milhões, o que representou o expressivo percentual de 87% de aumento em relação a 2009, quando a soma foi R$7,5 milhões. Este ano, ele fechou as principais cotas com empresas privadas e instituição publica de mais de R$ 17, 7 milhões. Brahma, Itaú, Petrobras e Governo do Estado da Bahia são os principais patrocinadores da festa. A Brahma, cerveja do portfólio da Ambev, irá investir R 5, 25 milhões, o Itaú, R 3, 91 milhões e a Petrobras, R 4, 77 milhões.

Oficialmente o consórcio ajuda a colocar banheiros em containers com ar-condicionado, limpeza das ruas e do fundo do mar, segurança, incremento nos carnavais de bairros, painéis informativos e de entretenimento, zonas de internet gratuitas. Do outro lado, cuida da promoção na mídia organizando os desfiles. E foi ai que o bicho começou a pegar.

Segundo João Jorge Rodrigues, isso excluiu os blocos afros do melhor da festa. Segundo ele, o Olodum vem brigado muito para sair mais cedo e poder ser visto pela televisão. Para que empresas patrocinem de forma equitativa os blocos afros. Mas, não tem tido sucesso.

Para o presidente do Olodum, a diversidade, que antes era a riqueza do Carnaval, foi diminuindo e hoje o Ilê Aiyê, os Filhos de Gandhy, a Timbalada e o Olodum concorrem pouco para isso. Nos demais lugares você não tem novidades. "A Bahia virou a terra de uma artista só. Parece que os outros estão todos mortos", diz.

De fato, o que o presidente do Olodum diz é perceptível, pois a marca do Carnaval da Bahia virou a corda. Custa caro e põe mais de dois milhões de turistas se espremendo fora das cordas até porque, nos trios só cabem 250 mil pessoas.

O curioso é que até mesmo líderes de blocos afros optaram por tentar contornar esse efeito negativo em lugar de questioná-lo. Carlinhos Brow, que prefere não bater de frente com Ivete, com outras seis entidades, decidiram criar um espaço próprio, o Afródromo. O argumento é o de criar um novo circuito, exclusivo para os blocos afros. Ele estrearia neste ano, mas foi adiada pela nova gestão na prefeitura liderada por ACM Neto, por falta de recursos.

Para o Olodum, o Afródromo é mais um equívoco. Pois, o que a sociedade branca mais quer é que os negros escolham um gueto para ir e se afastem da disputa com eles. É como se eles soubessem o lugar em que deveriam ficar em vez de desfilar na Barra e no Campo Grande. Porque além de obrigar o poder público a ter gastos com outro circuito, o Afródromo teve um agravante: o novo circuito teria suas cotas de comercialização feitas pelo consorcio Consórcio OCP Mago que, inclusive, argumentou que ele não poderia começar este ano, pois não havia tempo para comercializar o evento. Foi demais para o Olodum.

http://correionago.ning.com/profiles/blog/show?id=4512587%3ABlogPost%3A331019&xgs=1&xg_source=msg_share_post

 

Mais um texto chato e uma reflexão inútil do mala  Caetano.

 

Caetano tem uma música linda sobre esse tema.
Gal Costa gravou em 2005.

---

Luto
Caetano Veloso, 2005

Ai, meu carnaval...
Que é que 'cê fez,
Homem ruim?
Ai, pobre de mim,
Mais uma vez
Fiquei tão mal
Do início ao fim
Dessa festa que meu pai me deu para treino espiritual.

Não fale em mágoa de amor comigo,
Ciúme, culpa, rejeição: não ligo.
Quero polir meu coração de pedra
Em frevos místicos
Na luz que medra
Por entre as máscaras, caras e lâmpadas
E mesmo a estampa das camisetas de reclame -
Não me chame, não me odeie, não me ame.

Não, meu carnaval,
Não pode ser
Que eu já perdi;
Não, ponto final:
Eu e você
Acaba aqui,
Sem carnaval -
Essa festa que meu pai me deu para treino espiritual.

Agora é só cinza na cabeça;
Desapareça, por favor, da minha frente.
A minha mente está na Castro Alves,
Na Rio Branco, no Marco Zero,
Maracatu, Sapucaí - eu quero
- E o camarote e cada anúncio de produto.
'Tou com raiva, 'tou com pena, 'tou de luto.

Ai, meu carnaval...
Vou recompor
Meu coração.
Ai, não tem perdão
Pra quem vetou
O ritual
Da inspiração -
Essa festa que meu pai legou para treino espiritual:
Meu puro amor, o carnaval.

 

Não vou entra na polêmica do carnaval baiano, porque nunca fui e nem pretendo ir. Mas a comparação com as escolas de samba do Rio, é meio de viés. Já que no Rio, em relação as escolas de Samba,  que acontece é um desfile e para esses sempre teve um publico para assistir. Depois com aumento dessas escolas, foi preciso criar um local adequado cabê-lo. Podemos compara-lo ao futebol, que começou nos campos de varzeas, mas hoje é preciso de lugar adequado para realizoá-lo. No entanto, temos o carnaval de rua e sem corda, que nos ultimos anos, para minha infelicidade, cresceu demais. Porém, está cada vez mais democráticos.