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Cláudio Lembo e a reintegração de posse do Museu do Índio

Do Terra Magazine

É preciso botar o iaiurapora*

Cláudio Lembo

Imperdoável. É o único adjetivo capaz de registrar, de maneira tênue, os acontecimentos verificados no Rio de Janeiro na última semana. Uma velha edificação, ocupada, desde 2006, por índios foi o cenário.

É inadmissível o uso extremado da força para um mero ato de reintegração de posse, mesmo que esta estivesse autorizada pelo Poder Judiciário. Há formas de agir, quando existe sensível componente social.

As cenas estampadas em todos os veículos de comunicação, independente da filosofia de cada um, foram deprimentes. Alguns poucos indígenas – inclusive crianças – foram agressivamente retirados.

Em plena antiga Capital Federal, foi exposto como as minorias são tratadas em nossa sociedade. Nenhum pudor em agredi-las. Retirá-las à força para higienizar os redores do Maracanã.

Os primitivos donos da Terra, com sua presença, agridem a minoria detentora do Poder. Querem tornar as circunvizinhanças da praça esportiva em lugar de fantasia.

Sentem vergonha da indigência a que foram levados nossos irmãos índios. Uma realidade brasileira. Ela explode, aqui e ali, a todo o momento. É preciso embelezar, a tudo o custo, os locais freqüentados pelos bem nascidos.

Não adiantou todo o processo democrático iniciado nos anos 80. Foi meramente aparente. As oligarquias ainda dominam o panorama social. Não possuem piedade. Não se apiedam em nenhuma situação.

Seria tão mais salutar um diálogo intenso e produtivo com os posseiros da casa a ser reintegrada na posse do Estado do Rio de Janeiro. O mero uso da força faz recordar todos os atos de dominação desde 1500.

Já existiram em nossa História figuras como as do Marechal Rondon, um humanista. Defensor dos indígenas e desbravador de terras sem violência.

Por que voltar aos tristes tempos da colonização? É atavismo ou despreparo dos governantes? Em situações idênticas às verificadas nas margens do Rio da Carioca, as administrações públicas se perdem.

Parece haver um ódio às nossas verdadeiras raízes. Ou as unidades de pacificação, tão cantadas em prosa e verso, fizeram com que a violência se refugiasse em determinados segmentos da tropa.

Não se ouviu uma só palavra do Governo do Rio de Janeiro. O silêncio foi absoluto. Nenhuma alta autoridade foi ao local na busca de paz e respeito aos posseiros.

Uma tragédia. Mais amarga é a realidade quando se constata que tudo isto acontece porque a FIFA quer o entorno dos estádios de acordo com seu modelo genebrino.

Tudo limpo. Frio e austero como um dia desejou o conquistador Villegaignon na baáa da Guanabara. Ele foi expulso pelos índios e os brasileiros deixaram de ser uma mera colônia afrancesada.

Agora, porém, muitos acostumados com os rituais parisienses não querem dividir seu tempo com estes pobres mortais, mas donos da terra por direito de nascimento.

É tempo de as autoridades se prepararem para situações difíceis sem recorrer ao mero uso da força. Este traço da cultura nativa precisa ser superado.

Respeitar a pessoa independente de sua origem ou etnia é o mínimo que se quer de um governante democrático. Parece que pouco se aprendeu em vinte e cinco anos de Constituição democrática.

Falta muito para que o brasileiro, detentor do Poder, saber que este não lhe pertence e deve ser usado com sensibilidade e respeito ao outro. Ainda se queimam choças, tal como nos tempos da colonização.

Os capitães do mato revivem sempre que podem. Querem prestar bons serviços aos seus patrões. Agora, é a vez de servir a FIFA.

* Iaiurapora: colar dos guerreiros

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