Do Valor Eixos dinâmicos da inovação

David Kupfer 05/05/2010

Um diagnóstico da economia brasileira para os próximos anos indica alguns eixos com potencial dinâmico para fazer girar a atividade industrial na direção do desenvolvimento tecnológico. Um primeiro eixo é dado pelas forças represadas no mercado interno. Como evidenciado no passado recente, são múltiplas as oportunidades de novos negócios associadas ao novo padrão de consumo trazido pela expansão da renda nacional e pela melhoria do perfil da sua distribuição. Isso não significa, evidentemente, retirar do mercado externo qualquer papel relevante: significa apenas o reconhecimento de que, em vista das suas implicações mais diretas sobre a produção de commodities, este tenderá a reforçar trajetórias já estabelecidas, dotadas, portanto, de menor poder transformador.

O segundo eixo com grande potencial dinamizador de desenvolvimento tecnológico está ligado ao imperativo do aumento da disponibilidade, eficiência e confiabilidade da infra-estrutura nacional. Isso porque, muito além do enorme déficit causado por anos de sub-investimento na expansão e modernização da infra-estrutura existente no país, coloca-se hoje a necessidade de trazê-la para o século 21, incorporando novas fontes de energia, novas logísticas de transporte, novas soluções para a questão urbana, que está ganhando dimensões de calamidade no Brasil, e assim por diante. A necessidade de soluções inovadoras mais eficientes, mais limpas e mais sustentáveis e, acima de tudo, adaptadas às especificidades brasileiras, poderá fornecer um campo extremamente fértil para atrair esforços mais expressivos de P&D e inovação.

O terceiro eixo dinamizador é diretamente vinculado às condições de desenvolvimento da economia do conhecimento no país. Diferentemente dos anteriores, o Brasil encontra-se em um estágio muito mais incipiente nesse campo: são atividades que, se no passado mostraram-se as mais inalcançáveis, constituem agora um desafio ainda mais formidável. Isso porque, na comparação com outros países, são hoje ainda maiores as fragilidades do sistema empresarial, as insuficiências do sistema de C&T, as lacunas de conexão entre produtores e usuários, enfim, são enormes as carências de recursos requeridos para alavancar a capacidade social de aprendizado e inovação.

Se explorar esses potenciais já constitui um enorme desafio, formular políticas torna-se ainda mais difícil quando se sabe que esses eixos em conjunto podem conduzir a uma dinâmica auto-contraditória. O potencial do eixo do mercado interno depende de manutenção de taxas elevadas de crescimento e do processo de estruturação do mercado de trabalho, com aumento do salário real e da formalização do trabalho. Porém, é necessário reverter a tendência de apreciação do real sob pena de o aprofundamento do hiato de competitividade cambial transferir para o exterior os impulsos dinâmicos esperados. A explosão de importações de bens mais intensivos em inovação dos últimos meses é um preocupante indicador dessa possibilidade. O eixo da infraestrutura exige um padrão de financiamento e um arcabouço regulatório que consigam harmonizar custos baixos de expansão do sistema com a necessária rentabilidade das iniciativas inovadoras viáveis em um horizonte temporal maior. O eixo da economia do conhecimento exige conciliar o avanço na universalização do acesso às suas bases constitutivas (educação, saúde, informação, cultura, etc.) com os pesados investimentos requeridos pela sua contínua qualificação.

O problema é que os atores efetivamente interessados no progresso tecnológico da indústria nacional distribuem-se em diversos grupos, todos muito introjetados na dimensão técnico-científica da questão. Para o grupo dos "ativistas", já existem instituições e instrumentos demais, faltando ação, isto é, iniciativas concretas que dêem vida a parafernália de instrumentos já disponíveis. Para os "linearistas", para os quais prevalece a concepção do chamado modelo linear: invenção (pelo laboratório) - inovação (pela empresa pioneira) - difusão (pelas demais empresas), o problema está no padrão de geração de conhecimento no país, que o mantém represado nas Universidades, sem que se consiga fazê-lo fluir para as empresas e transformá-lo em capacidade para inovar. Para os "construtivistas", que vêem o progresso tecnológico como uma sequência planejada de etapas de complexidade crescente, falta continuidade aos programas de pesquisa e desenvolvimento, que usualmente são esvaziados ou mesmo interrompidos antes de gerarem seus frutos.

Embora todos esses grupos tenham parcela de razão, está mais do que na hora de se encontrar as linhas de convergência para avançar no desenho de um modelo mais efetivo de fomento ao desenvolvimento tecnológico da indústria brasileira. Ainda mais em um momento em que os jornais noticiam que o governo federal está prestes a baixar mais um pacote de apoio às exportações e, como todos sabem, o manejo de incentivos tributários e financeiros com essa finalidade provavelmente já deve estar alcançando o seu limite.

David Kupfer é professor do Instituto de Economia da UFRJ e coordenador do Grupo de Indústria e Competitividade (GIC-IE/UFRJ. Escreve mensalmente às quartas-feiras. www.ie.ufrj.br/gic

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Não é verdade que a ligação entre as universidades e institutos de pesquisa e as indústrias seja um passo natural. Não é o caso de se colocar a culpa nos pesquisadores (dizendo que falta treinamento de marketing ou administrativo). A grande quantidade de empresas de alta tecnologia no Brasil é sediada no estrangeiro e mantém suas pesquisas lá fora, porque hoje em dia a parte mais importante dos lucros vem da propriedade intelectual.
Essas empresas não vão contratar Universidades e Institutos de Pesquisa para desenvolver seus novos produtos, só as empresas que são obrigadas por lei a investir em P&D é que o fazem, com exceção das empresas brasileiras que tem sua alma no país, como a Tecsis ou a Petrobras, além de muitas outras...
Faltam incentivos direcionados "verticalmente" a essas empresas, nas áreas que poderiam abrir os gargalos e construir pontes por cima das tecnologias que ainda estejam atrasadas no nosso parque fabril, e falo aqui de "bens de produção", não de incentivar empresas a comprar equipamento tecnológico lá fora, mas atrair aquelas que estejam dispostas a correr riscos e investir nas tecnologias que estão amadurecendo agora! Ao mesmo tempo que também estão amadurecendo lá fora...

 

Eu entendo que as inúmeras inovações gestadas em nossas universidades nem sempre chegam a resultar em produtos ou serviços para toda a sociedade, pelo simples fato de o inovador acadêmico não conseguir entender o mercado potencial de um produto.

Ao mesmo tempo se percebe que muitas empresas, desejosas de inovar não conseguem dialogar com o meio acadêmico.

Ou seja, são dois universos distintos. Daí, para acabar com este problema, sugiro o seguinte:

a) treinar os inovadores por meio do Sebrae em técnicas de preço, de custo, de planos de negócios e outros cursos similares,;

b)contratar marqueteiros para as universidades, que se responsabilizariam em achar mercados para estas inovações; e

c) fazer com que a patente de uma inovação seja compartilhada entre seu criador e a organização (p. ex. universidade) patrocinadora.

O mercado faz o resto.

Quanto a marqueteiros, cabe lembrar que alguns xilindrós americanos, quer dizer cadeias, possuem em seu quadro funcional, gerentes de marketing. Aparentemente sem sentido, mas estes são responsáveis para obter verbas e presos do governo para seus empregadores ...