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Especial CAPS: A experiência de Embu

ESPECIAL CAPS - parte III - A experiência do CAPS-Álcool e Drogas em Embu das Artes

"A reforma psiquiátrica no Estado de São Paulo não avança, pois o governo não acredita neste modelo", afirma a coordenadora do CAPS-ad de Embu, considerado referência no Estado de São Paulo.

Por Bruno de Pierro, no Brasilianas.org
Da Agência Dinheiro Vivo

O município de Embu das Artes tornou-se referência em saúde mental no Estado de São Paulo ao consolidar a gestão de seus Centros de Atenção Psicossocial. São dois CAPS que atendem à cidade: um voltado para pessoas com transtornos mentais e outro especializado em álcool e drogas (CAPS-ad). Ambos são centros de nível II e atendem das 7h as 18h, realizando o primeiro atendimento aos pacientes e familiares.

Brasilianas.org conversou com a psicóloga Marília Capponi, coordenadora do CAPS-ad de Embu e da Comissão de Saúde do Conselho Regional de Psicologia de São Paulo, para entender o funcionamento de um CAPS especializado em álcool e drogas, que atualmente tem 200 usuários ativos e 20 funcionários. Marília já trabalhou em diversos centros de atenção da capital paulista, como o CAPS III de Itaim Bibi, o que permitiu a ela desenvolver um olhar crítico e sistêmico sobre os diferentes perfis de gestão dos CAPS do Estado de São Paulo. Confira a íntegra da entrevista abaixo. E no artigo de amanhã, a experiência de São Bernardo do Campo com a República Terapêutica.



Brasilianas.org - Qual a relação do CAPS-ad de Embu com a rede de atenção para os usuários de drogas?
Marília Capponi - O CAPS de Embu era o único equipamento até 2011 que dava conta da questão de álcool e drogas. De um ano pra cá, a coordenação de saúde mental do município foi estruturando uma política para álcool e droga. Foroam abertos outros equipamentos, que não apenas o CAPS-ad. A gente matricia a equipe de saúde mental das Unidades Básicas de Saúde (UBS), com capacitação e discussão de caso, iniciamos o Consultório de Rua e a Escola de Redução de Danos. Estamos iniciando a construção de uma rede, porque o CAPS-ad não dá conta da questão sobre álcool e drogas. O município conta com CAPS de saúde mental também. No total, Embu das Artes possui dois CAPS, ambos considerados nível II.

Como é o caminho percorrido pelo usuário, desde a entrada no serviço?
A entrada da pessoa no serviço se dá mais na forma de convivência, do que de tratamento, e com a porta aberta. Esse acolhimento é feito em grupo, no que chamamos de “varanda”, a parte de entrada. Nos fundos é que se dá o tratamento, quando a pessoa é usuária do serviço. Lá ela encontra os Grupos Terapêuticos, que cuidam da dependência de drogas. Portanto, o primeiro contato é em grupo, e feito pela equipe multidisciplinar (dentro de um rodízio). Esse grupo não é formado necessariamente por usuários de drogas; são recebidos também parentes de dependentes químicos, que recebem orientação.


                                                   Fachada do CAPS-ad de Embu das Arte (Foto: Prefeitura Embu)

 

Uma das dificuldades dos CAPS, que deve ser superada, é conseguir se integrar com o sistema de saúde. Em Embu este é também o principal gargalo que vocês enfrentam?
Temos que entender qual a função do CAPS, pois ele, sozinho, não vai conseguir dar conta do tratamento de álcool e drogas. Ele é um equipamento, que tem que estar inserido dentro de uma rede de atenção. Álcool e drogas não são uma questão de saúde apenas. É uma questão da estrutura social, do esporte etc. O CAPS entra num ponto específico, que é cuidar de pessoas que fazem o uso abusivo, ou seja, cuidar clinicamente da pessoa e multiprofissionalmente, com psicólogos e assistentes sociais. Ajuda também a família que está sofrendo.

O principal problema é que não há uma política pública ainda instituida para usuário de álcool e droga. E isso explica porque eles acabam sendo direcionados para a política de saúde mental. E isso está relacionado ao fato de faltar cultura na comunidade, esporte, educação de qualidade. E o que o Estado dá de resposta é a criminalização do usuário e a internação compulsória. Não dá para entender o CAPS como o equipamento único - ele é uma fração de uma rede que deve pensar políticas públicas grandes para álcool e drogas. Desde o combate ao tráfico até o cuidado daquele que usa 30 pedras de crack por dia.

Qual o peso da psiquiatria nos atendimentos do CAPS coordenado por você?
O CAPS-ad de Embu tem psiquiatras e médicos clínicos. A medicação faz parte, mas ela entra junto com as outras atividades.Diferente de outros CAPS, nos quais o paciente muitas vezes é obrigado a tomar a medicação, ou então não recebe atenção, aqui no de Embu há muita conversa com aqueles que se recusam a usar medicamentos. Se lidarmos com a droga como uma questão moral, vamos incorrer nesses erros de obrigar a pessoa a aceitar um único modelo de tratamento. Trabalhamos aqui com os princípios da redução de danos, respeitando a autonomia do sujeito, oferecendo possibilidades sem criminalizar o uso da droga. A maioria dos CAPS trabalha assim, mas não há, oficialmente, uma política de redução de danos.

Mas não há um problema, no caso dos usuários de drogas que também possuem transtorno mental, na questão da medicação? Como vocês lidam com esse grupo de pacientes mais agudos?
A questão da medicação não é apenas para usuário de álcool e drogas. Quando recebemos um paciente, por exemplo, que é usuário de drogas e também apresenta algum transtorno mental nós não sabemos como lidar exatamente. São os comórbidos, nome feio que representa essas pessoas que tem algum transtorno mental e fazem uso de droga. São os casos mais difíceis da saúde mental, e “apanhamos” o dia inteiro por causa deles. Não temos resposta pronta [para o tratamento ideal]. É caso a caso, fazemos estudos de caso, atendemos junto com a equipe de saúde mental. Tem paciente que é esquizofrênico, mas por usar drogas frequenta o CAPS-ad. E tem paciente esquizofrênico que usa drogas e é frequentados do CAPS de saúde mental. Ou seja, há uma confusão mesmo. Porém, esses casos são minoria.

O CAPS coordenado por você recebe muitos moradores de rua?
A predominância no CAPS-ad de Embu é de homens com problemas com o álcool. No caso de Embu, os moradores de rua não representam uma parcela significativa nos CAPS, pois a cidade não tem muitos deles. Aqueles que existem chegam muito pouco aos serviços de saúde, mas com os Consultórios de Rua ficaremos mais perto deles.

Qual a relação que você, coordenadora que está na ponta do serviço, tem com os gestores públicos da prefeitura e do governo do Estado?
A conversa é tranquila com o governo municipal de Embu [o prefeito é Francisco Nascimento de Brito, do PT]. É um governo que aposta na reforma psiquiátrica, mesmo sabendo que é muito difícil ser antimanicomial, pois se trata de um embate cultural maior, é um enfrentamento o tempo todo. O município de Embu é referência também em saúde mental na região do alto Tietê, que conta com 15 municípios. Nunca teve hospital psiquiátrico, apenas hospitais-gerais, mas não há leito para álcool e drogas. Estamos lutando para conseguir isso, pois fica muito difícil trabalhar sem os leitos. Agora, o governo do Estado é contra a reforma psiquiátrica. É uma luta entre municípios e Estado, que não repassa dinheiro - os recursos para os CAPS são municipais e federais. O Estado apenas dá dinheiro para ações contra a reforma, como a abertura de leitos psiquiátricos, manicômios etc.

Na sua avaliação, qual o estágio atual da reforma psiquiátrica no Estado de São Paulo?
A reforma psiquiátrica precisa avançar, pois não se trata apenas da construção de CAPS. Precisamos de mais Residências Terapêiticas, Consultórios de Rua, equipes de saúde mental nas UBS. É muito mais complexo e custoso do que abrir um grande manicômio, diferente do que se pensa. Tem Estados que estão mais avançados, mas o Estado de São Paulo mesmo não tem reforma psiquiátrica - temos apenas ilhas de referência, como Embu das Artes, São Bernardo do Campo - que já é referência nacional-, Guarulhos. Mas no plano macro, a reforma psiquiátrica no Estado de São Paulo não avança, pois o governo não acredita no modelo da reforma. No plano federal, Recife, em Pernambuco, e o Estado de Minas Gerais são referências em CAPS no país. E os CAPS de Embu são cem por cento públicos, ou seja, a administração é feita diretamente pelos municípios, e não por Organização Social (OS).

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Para o problema das internações em hospitais para doentes mentais não há solução e, de certo modo, ficou pior do que décadas atrás.Sempre se falou que internar um paciente com esquizofrenia não é uma medida eficaz.Então imagine-se um jovem com 1 ano após o aparecimento dos sintomas da doença, quando as reações do indivíduo são muitas vezes de violência incontrolável. Na entrevista não consegui ver alguma referência a esta questão.

 

 Vc tem razão, José Adailton.  Em crise aguda a pessoa com transtorno mental precisa, sim, de internação. Os familiares não conseguem lidar com isso em suas casas. E mesmo no caso de pacientes regularmente tratados por médicos, as famílias ficam à deriva, pois falta a assistência intensiva nas situações de crise. Os CAPS não fazem esse atendimento e os hospitais gerais parecem que não estão aparelhados para essa nova demanda.


 No mais, acho importante que se avalie esse novo esquema. Mas essa avaliação não deveria ficar restrita aos relatos dos profissionais da área. Pacientes e familiares precisam tb fazer os seus relatos, expor as suas queixas. E os espaços de tratamento, públicos e privados (convenidados),  devem ser vistoriados. E é bom tb não ter muitas ilusões. Existem muitos idealistas entre os profissionais de saúde mental, mas há tb os que já enxergaram um novo "filão" e entraram com tudo. Separar o joio do trigo é fundamental. Mas não é fácil, pois os dois grupos têm em comum um belo e irretocável discurso.

 

Todo Caps, deveria fazer parcerias com o pessoal do AA e NA isso seria muito bom para o Brasil, pois juntando forças e que se consegue vencer os problemas!!