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Filas do INSS: explosão da demanda ou implosão dos quadros?

            A imprensa vem há anos noticiando que as filas de atendimento no INSS estão crescendo e na região Sul a espera já atingiu proporções de catástrofe social.

 http://www.clicrbs.com.br/especial/sc/jsc/19,6,3793534,Prazo-para-agendar-pericias-do-INSS-e-de-111-dias-em-Blumenau.html

 

            No última quarta-feira a cúpula do INSS mostrou em reunião os números do caos:

 

Tempo Médio de Espera do Atendimento Agendado da Perícia Médica em dias

 

            Os gráficos mostram que, se em Janeiro de 2011 a espera por perícia na região Sul era “apenas” 50% maior que no resto do Brasil, em 2012 o tempo de espera já é mais do que dobro da segunda pior região neste indicador.

            Se foi simples detectar os locais onde o problema é mais grave, descobrir as causas deste fenômeno é mais difícil, porque se faz necessário confrontar o discurso dos dirigentes do INSS com os dados estatísticos.

            Ainda na mesma apresentação do gráfico acima, os gestores informaram as causas do caos:

 

PONTOS IMPACTANTES:

-           Aumento da demanda;

-           Ampliação da população com cobertura previdenciária;

-           Redução do efetivo de pessoal;

-           Envelhecimento do quadro de pessoal;

-           Insatisfação dos aposentáveis pelo impacto da gratificação (70% da remuneração);

-           Redução de limite de diárias e passagens.

 

Nós vamos confrontar cada um destes “pontos impactantes” com o que realmente aconteceu no INSS de 2009 a 2012, usando o “INSS em Números” publicação estatística que a partir de Junho/2009 condensa os indicadores de rede, atendimento e gastos.

 

Aumento da demanda

 Alega a Direção do INSS que as filas ocorrem porque houve aumento da demanda.

As quatro figuras a seguir são a evolução mensal dos benefícios requeridos desde 2009:

 Evolução mensal dos requerimentos em 2009

  

 Evolução mensal dos requerimentos em 2010

 

 

Evolução mensal dos requerimentos em 2011

Evolução mensal dos requerimentos em 2012

 

  A evolução temporal da demanda mostra que não houve crescimento linear na demanda entre 2009 e 2012. As filas enormes no INSS não podem ser explicadas por uma suposta explosão nos requerimentos de benefícios.

Conclusão: NÃO HOUVE AUMENTO DE DEMANDA. Os dirigentes do INSS jogam a culpa da fila na população alegando uma suposta explosão da demanda que não existe.

 

 

Ampliação da população com cobertura previdenciária

 O Gráfico a seguir mostra a evolução linear do número de benefícios emitidos pelo INSS ao longo de 2010 e 2011:

 

 O Gráfico mostra que a quantidade de benefícios emitidos aumenta linearmente a uma taxa de 3,5% ao ano. Antes que os profetas do apocalipse prevejam a quebra da previdência brasileira é importante destacar que a base de contribuintes individuais, facultativos, domésticos e empreendedores individuais era de 6.088.665 indivíduos em dez/2010 e em dez/2011 passou para 6.612.204, um percentual quase três vezes maior que o do número de benefícios mantidos. Aparentemente o aumento da formalização ainda é mais rápido que o aumento da cobertura previdenciária.

Novamente a cúpula do INSS tenta jogar a culpa da fila na população, mesmo sabendo há anos que a quantidade de beenfícios em manutenção cresce inexoravelmente e é dever do Governo garantir que a máquina pública possa administrar esse crescimento, prevendo ampliação proporcional dos servidores públcios que executam esta tarefa

Conclusão: há um aumento linear e constante da cobertura previdenciária, a taxas de 3,5% ao ano.

 

Redução do efetivo de pessoal

Em dezembro de 2008, último ano em que os Peritos Médicos Previdenciários tiveram aumento salarial, existiam na ativa 5362 peritos.

Em 2012 restam 4590 peritos, supervisores e médicos. O corpo pericial que prestava serviços à população diminuiu 15%.

Conclusão: Houve redução do efetivo, porque o governo não tornou a carreira atrativa para atrair novos nem segurar os antigos e ainda não repôs com concursos os que pediram exoneração ou se aposentaram. Ao culpar a redução do efetivo de pessoal o INSS joga no MPOG a culpa pelas filas.

 

Envelhecimento do quadro de pessoal

 Para esclarecer esta afirmação recorremos ao boletim estatístico de pessoal do MPOG, comparando a situação em dez/2008 e abril de 2012.

Evitando cair no politicamente incorreto “envelhecimento”, vou dividir os peritos em três faixas etárias: os acima de 60 anos- próximos da aposentadoria; os entre 50 e 60, experientes; e os que têm menos de 50 anos, e supostamente mais energia.

Em 2008 14,1% dos peritos tinha mais de 60 anos. Em 2012, 13,4%.

Em 2008 33,1% dos peritos tinha entre 50 e 60 anos. Em 2012 26,9%.

Assim, em 2008 apenas 52,8% dos peritos tinha menos de 50 anos, em 2012 59,7% dos peritos tem menos de 50 anos.

Conclusão: O quadro pericial do INSS não envelheceu.  Ao contrário, os que ficaram são mais jovens.

 

Insatisfação dos aposentáveis pelo impacto da gratificação

 É estarrecedor que dirigentes da maior autarquia federal e uma das maiores seguradoras do mundo coloquem por escrito num relatório de avaliação de um plano emergencial um absurdo desses.

Como vimos nos números acima, mesmo perdendo 50% da gratificação e 25% da remuneração, os peritos que puderam se aposentar se aposentaram, e ao longo dos últimos quatro anos o percentual de peritos com mais de 60 anos ainda na ativa permaneceu estacionário. Os aposentáveis da carreira de Perito Médico Previdenciário se aposentaram, não ficaram na ativa “insatisfeitos”. A estratégia governamental de remunerar por gratificação para prender os servidores na ativa não apenas não conseguiu evitar as aposentadorias, como tornou a carreira menos atraente e o festival de exonerações a pedido desde 2009 apenas comprova a necessidade de se repensar a forma de remunerar os Peritos Médicos.

 

Redução de limite de diárias e passagens

 Em 2010 o INSS gastou 392 milhões com a folha de pagamento dos ativos, 12,5% dos quais são peritos. E gastou mais 79 milhões de reais em diárias, dinheiro suficiente para cobrir a contratação do DOBRO DO EFETIVO PERICIAL!

Em 2011 os gastos com diárias foram cortados para 44 milhões de reais, diante de uma folha de pagamento dos ativos de 311milhões de reais. Uma queda brutal de gastos com diárias, mas que teria sido mais bem empregado na reposição dos 750 peritos perdidos em relação a 2008.

 Ao usar o corte no gasto com diárias como desculpa para o caos, o INSS assume que o caos era tal que as diárias eram usadas para compensar a falta de recursos humanos. Mas os gastos com diárias eram (e voltarão a ser com o plano emergencial) MAIORES DO QUE A FOLHA DE PAGAMENTO DOS PERITOS!

 Encerramos com mais um gráfico extraído do “plano emergencial do INSS”:

 

 A linha azul, benefícios requeridos, encontra-se estável, e como vimos está estável desde 2009.

As linhas roxa e verde, de benefícios indeferidos e concedidos também se encontra estável na série temporal, o que significa que mesmo como quadro pericial tendo encolhido 15% os peritos tem conseguido manter o mesmo nível de produtividade.

 É a linha vermelha, de benefícios represados, que mostra crescimento contínuo e linear. O represamento é a fila. E a fila não existe porque “a demanda aumentou” ou porque “os peritos envelheceram”. A fila existe porque a capacidade de atendimento é menor do que a demanda, e isso desde 2008. Sem uma política governamental que valorize os peritos e torne a carreira atrativa nenhum plano emergencial irá tirar a sociedade brasileira do caos das filas do INSS. Ao pagar diárias de deslocamento o INSS retira um servidor do atendimento de uma cidade para outra, e no contexto de falta de pessoal vivenciamos a situação de descobrir os pés ao tentar cobrir a cabeça. E isso a um custo maior do que a folha de pagamento dos peritos já concursados que estão aguardando nomeação.

 Nos próximos posts detalharemos a situação na região Sul, onde estão as piores filas do Brasil e exporemos o que o Governo deveria estar fazendo para resolver as filas do INSS.

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Com certeza a diminuição do número de servidores é uma regra há muitos anos, apregoa-se que com o aumento de produtividade baseado na premissa de que os servidores vão produzir mais com medo das nas penalidades por meta não cumprida. Mas o que de fato acontece é um maquiamento da produção pelos servidores, o atendimento que daria trabalho e consumiria tempo simplesmente não é feito como deveria ser feito, dando-se apenas uma decisão sem qualidade técnica e empurrando os números com a barriga. Não há política de recursos humanos, nem de aperfeiçoamentoe técnico, nem de cuidado com a qualidade de vida no trabalho. O INSS não investe na qualidade técnica e no preparo emocional dos seus servidores. Até quando viverão botando a culpa em bodes expiatórios? Até quando vamos viver destes testemunhos: eu fui em uma agência e fui mal atendido, logo todos os servidores não prestam? Palhaçada e simploriedade, Quem governa tem que ter um plano para melhorar o atendimento, qual é o plano do INSS?

 

Jorge7 você razão ao falar em eficiência. Não adianta falar em aumento dos quadros de peritos do INSS sem falar em aumento da resolutividade das perícias do INSS. E é justamente onde as filas são maiores que os gestores do INSS menos investem em treinamento e educação continuada. Existem gerências executivas no Sul que estão há 3 anos sem reunião Técnica do quadro pericial. E a onda de " a fila está grande, não podemos parar 1 dia para fazermos reunião técnica trimestral" já se espalhou ao Sudeste.

 

Sabemos das dificuldades enfrentadas pelo Governo neste momento (agravamento da crise economica internacional, tensão geopolítica das Américas com a queda de Lugo, outros), numa situação assim as margens de atuação se estreitam. Por outo lado, temos um problema real no INSS, o número de servidores peritos médicos existente não é suficiente para demanda de trabalho. Mesmo com a contratação destes 375 Novos profissionais esta equação não fecharå. O que não podemos é ser responsabilizados pela fila, pois a regra é trabalharmos muito e seriamente. Não se resolve um problema negando-o e sim enfrentando-o.

Se não é possível a solução imediata da situação, queremos abrir uma mesa de negociação com o governo com uma agenda de medidas a curto, médio e longo prazo de forma a melhorar e com tempo resolver o problema.

Gisele Katia Camara Oliveira - Perita Médica Previdenciária

 

 

 

 

O INSS vive essa situação caótica a anos e fica claro o problema de gestão de Recursos Humanos, não somente na perícia médica e sim em todo seu pessoal. As vagas disponibilizadas pelos últimos concursos não fazem nem cócegas na demanda de serviço.

É papel da imprensa divulgar isso.

 

O autor do texto esqueceu de mencionar que este ano serão empossados 375 novos peritos, sendo a região sul a maior beneficiada com as novas nomeações. Esqueceu de mencionar também redução em boa parte das agências da carga horária de oito para seis horas do Perito Médico e demais servidores. 

 

" Serão nomeados 375 , principalmente na região Sul"


Em primeiro lugar foi praticamente criminoso adiar estas nomeações no meio de uma crise institucional como a que vivenciamos. O Congresso autorizou a criação de 750 cargos em 2011, dos quais o MPOG só autorizou nomear 250 no primeiro semestre e resto após as eleições municipais. Então mencionar as futuras nomeações é duplamente falacioso: omite que na verdade o volume de nomeáveis é ainda maior e omite que as nomeações foram adiadas injustificavelmente porque os custos financeiros das filas e os gastos com diárias superam em muito  a folha de pagamento dos nomeavéis.


Em segundo lufgar, já houve em 2010 a tentativa de repôr os aposenatdos e exonerados com concurso público, que aumentou em 329 peritos a Região Sul em 2010, sem sucesso, porque em Dezembro de 2011 restavam menos peritos no Sul do que em dezembro de 2009, como exposto explicitamente no post seguinte do blog. Não adianta nomear para uma carreira sem atratividade, os peritos não vão ficar. Quando o Programa de Saúde da família de Curitiba paga 12 mil reais sem ponto eletrônico e sem agressões, O Distrito Federal paga 7200 por 20h, como convencer um médico a ficar no INSS por 8 mil reais com ponto eletrônico, ameaças e agressões? Se os nomeados vão " salvar o INSS" como explicar os recém empossados que já pediram exoneração? Vamos apelar para os médicos cubanos?


" a jornada de trabalho das agências foi reduzida de 8h para 6h"


A resolução 177 que acabou com o intervalo de almoço em 70% das agências do INSS NÃO RESULTOU EM DIMINUIÇÃO DO NÚMERO DE PERÍCIAS EM RELAÇÃO A 2011. O gráfico a seguir mostra que em Março e Abril de 2012 o volume de perícias foi equivalente aos mesmos meses em 2011, mesmo com a redução do números de peritos na ativa 


 

O ilustre comentarista talvez não tenha observado também, que, nas agências onde a carga horária foi reduzida de 8 para 6 horas de trabalho, existem duas turmas de servidores, a saber: uma que trabalha das 7:00hs às 13:00hs e outra das 13:00hs às 19:00hs. Assim, na verdade, o horário de atendimento ao público aumentou de 8 para 12 horas ininterruptamente e, não reduziu, ocasionando filas, como o senhor deu a entender.

 

  Número de transplantes mais que dobra em dez anos

 

Com 23.397 cirurgias realizadas em 2011, País ultrapassou, pela primeira vez, a marca de 10 doadores por milhão de pessoas

O Brasil atingiu a marca de 23.397 transplantes em 2011, um novo recorde no setor. Em uma década, o país mais que dobrou o número de cirurgias – o aumento foi de 124% em relação a 2001, quando foram realizados 10.428 procedimentos. Acompanha este crescimento o número de doações de órgãos. Foram registradas 2.207 doações no ano passado, um avanço de 16,4% em um ano – a maior variação em quatro anos. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, apresenta balanço de desempenho no setor nesta quarta-feira (8), em coletiva de imprensa realizada em Brasília.

Confira a apresentação

http://portalsaude.saude.gov.br/portalsaude/arquivos/pdf/2012/Fev/08/apr...

http://portalsaude.saude.gov.br/portalsaude/noticia/4234/162/numero-de-t...

 

Demarchi

O SUS em números :

  • 1 milhão de internações por mês
  • Mais de 100 milhões de habitantes cobertos pela Atenção Básica
  • 3,2 bilhões de procedimentos ambulatoriais por ano
  • 500 milhões de consultas médicas por ano
  • Maior rede de banco de leito humano do mundo
  • Maior número de transplantes de órgãos públisos do mundo
  • 90% do mercado de vacinas são movimentadas pelo SUS
  • 50% do mercado de equipamentos hospitalares
  • 80% investimentos em tratamento de Câncer no Brasil
  • Mais de 90% das hemodiálises

http://www.conselhodesaude.rj.gov.br/8-noticias/do-conselho/141-sus-em-n...

 

 

Demarchi

Para entender a GESTÃO DO SUS :

http://www.conass.org.br/colecao2011/livro_8.pdf

Página 19, Quadro 3 : as atribuições e competências da União, dos Estados e dos Municípios.

 

Demarchi

Medicina em faculdades privadas no Brasil, R$3.967,00 por mês, um pouco menos, um pouco mais.

http://www.escolasmedicas.com.br/mensal.php

Quanto o Serviço Público paga aos médicos?

Quando o Brasil começou a acolher médicos cubanos, foi um Deus nos acuda.

Do CFM aos de sempre - que não querem ver gente pobre sã - a gritaria contra a vinda dos profissionais oriundos da ilha foi um arraso. 

E agora, José?

 

A politica dos governos do PT com relaçao aos funcionarios publicos nao trouxe nenhuma novidade  e comete os mesmos erros de governos anteriores. O que é preciso fazer em todas as areas do governo é: profissionalizaçao, valorizaçao salarial conforme o mercado, produtividade e para que tudo isso funcione deve se rever a estabilidade ou usar os mecanismos existentes para acabar com a inercia e a falta de vontade de muitos servidores. Quem tem tempo para se aposentar, que se aposente; quem nao esta satisfeito com o salario que busque coisa melhor. Porque se esta na ativa recebendo salarios muitas vezes acima do nivel da maioria da populaçao, tem que dar o melhor de si...

 

Simplesmente porque trabalham metade do tempo que seriam obrigados. Não há gestão; há cumplicidade entre diretores, chefes e subordinados. Eu comprovei isto quando estava me aposentando. A safadeza começava no funcionário que distribuia senha, que profundo conhecedor do tempo de atendimento, interrompia a entrega de forma que às 14 horas não houvesse mais ninguém para ser atendido, embora o encerramento fosse às 17 horas. Assim, dos sete atendentes (em uma cumplicidade de revezamento indecente), apenas dois ficavam a partir dessa hora parta atender aos desinformados, que por pura sorte eram atendidos sem ter que chegar à 4 horas da madrugada e entrar na fila. O criminoso funcionário tinha acima de si afixado na parede, o Decreto que punia com prisão aquele que não respeitasse o funcionário público. Porém, isto começou a acabar quando ele se recusou a me dar a senha às 10 horas da manhã, com a alegação que "não daria mais para eu ser atendido até às dezessete horas. Ele não rezou àquela noite. Atuário que sou, já havia, enquanto na fila, calculado o tempo de atendimento e desafiei a ele e a Gerente do Posto de fazer uma queixa piolicial, na hora, pois, sabia, iria ser atendido por volta das 14 horas. Colocaram o rabo entre as pernas e eu fui chamado exatamente às 14 horas, quando os outros atendendentes "começaram a ir para a praia" por falta a quem atender.