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Homenagem a 13 de Maio

Uma nova redenção

Em 1988, ano em que se comemorava o centenário da abolição da escravidão no Brasil, a Vila Isabel vencia o carnaval na Marquês de Sapucaí com uma bonita homenagem ao herói abolicionista Zumbi dos Palmares. Nesse mesmo ano, a Mangueira levava para avenida em tom de louvor e denúncia aquela considerada por muitos a mais bela entre as mais belas de suas inúmeras composições:

"Será que já raiou a liberdade ou se foi tudo ilusão? Será que a Lei áurea tão sonhada e há tanto tempo assinada, não foi o fim da escravidão? Hoje, dentro da realidade onde está a liberdade, onde está que ninguém viu? Moço não se esqueça que o negro também construiu as riquezas do nosso Brasil.."

Era nossa festa popular de maior expressão trazendo a baila uma importante questão: A grave situação vivida pelo negro após a abolição da escravatura, o que alguns historiadores denominaram "liberdade vazia" – pois os meios necessários para sua inserção social não lhes fora apresentados com clareza, e estão sendo conquistados até os dias de hoje, na raça e na coragem.

"...Pergunte ao criador quem pintou esta aquarela, livre do açoite da senzala, preso na miséria da favela" _ Assim prosseguia o samba da Estação Primeira, pisando forte na avenida pra tentar mostrar ao Brasil que aquele que também ajudou a construir essa nação não pode viver marginalizado, residindo em guetos e favelas, "sutilmente" segregado do resto da população.

Hoje, passadas mais de duas décadas é possível perceber que, apesar da situação ainda ser preocupante, o quadro da desigualdade racial no Brasil apresenta sensíveis sinais de melhora. A semente plantada por Zumbi finalmente cresceu e já começa a sazonar seus frutos. O negro mais uma vez na história chamou pra si a 'responsa' e cada vez mais percebe-se como sujeito dessa transformação, numa luta de igual teor de bravura só que agora no plano ideológico - impulsionando ações afirmativas importantíssimas e, de forma ousada, fazendo acontecer.

Assim como Anastácia não se deixou escravizar, milhares de cidadãos brasileiros de uns tempos pra cá, duvidaram dessa conversa mole de que "não somos racistas"e além de reconhecerem a luta que vem enfrentando nessa "gigantesca Casa Grande chamada Brasil" cada vez mais arregaçam suas mangas pra cobrar o que é seu por direito.

Quando naquele ano comemorativo Jamelão cantava em verso e prosa o sonho da volta de Zumbi dos Palmares, do fim do sofrimento de uma raça, e chamava isso de "uma nova redenção" (..sonhei que Zumbi dos Palmares voltou, a tristeza do negro acabou foi uma nova redenção..) parecia mesmo estar pressagiando um novo período na história brasileira - já que o espírito de luta de Zumbi se faria presente em cada lar, em cada organização, em cada esquina, na favela ou no Congresso, na tv ou no cinema, no sinal ou na universidade, no dia-a-dia de bravura e conquistas de cada negro desse país.

Valeu Zumbi, seu grito forte dos Palmares já ecoa pelos quatro cantos de um novo Brasil que nasce, chacoalhando as bases de uma sociedade onde um dia (de verdade) a cor da pele não determinará absolutamente mais nada, um dia onde estaremos de fato juntos e misturados, o dia onde estas minhas palavras perderão todo sentido. E neste dia poderemos encher o peito e dizer: Somos todos cidadãos brasileiros.

E naquele 1988, naquele último dia de carnaval, o memorável samba da Estação Primeira, supra-sumo da mais bela poesia vinda da garganta de Jamelão, amanhecia a cidade de maneira alegre e festiva, como não poderia deixar de ser:

"O negro samba, negro joga capoeira, ele é o rei na verde e rosa da Mangueira!"

Adilson 

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Só pra deixar claro: o samba citado é da Mangueira e não da Vila Isabel. Os dois de 88. Mangueira perdeu aquele carnaval por meio ponto.

 

Nassif,

só mais um pouquinho sobre o samba..
 
Não é mole não..O cara manda a sociedade olhar pro céu e perguntar pra Deus!!! e depois ainda resume cem anos de história  numa única frase:
 
" Pergunte ao criador, quem pintou essa aquarela..Livre do açoite da senzala, preso na miséria da favela.."
 
Viva o grande poeta Jurandir!!! e o gogó abençoado do Jamelão!!!
 
Como é bacana ver a escola feliz e dançando um samba tão bonito e marcante pra nossa gente !!

 

segue um aperitivo:
 
http://www.youtube.com/watch?v=4dAEy-Dtfsg
 

 

Não gosto muito desse simbolismos representados por datas comemorativas. Coisas como "Dias das Mães", "Dia dos Pais", "Dia disso, dia daquilo", não mexem com nada em mim. Respeito quem pensa diferente, mas só os entendo como (mais) uma estratégia comercial. Um espécie de mercantilização de nobres sentimentos. Só isso.

Acerca das datas ditas históricas,  não acho educativo certos enfoques. Como 22 de abril foi o "Descobrimento do Brasil"? Até ali não existia esse quase continente que responde por esse nome? Por que comemorar com esse 13 de maio como a "Libertação dos Escravos"? Primeiro não se "comemora" uma tragédia, mesmo que historicamente explicada. Segundo essa "alforria" foi apenas nominal, de brincadeira. Aos grilhões de ferro, ao tratamento animalesco e aos castigos corporais seguiu-se a segregação, as humilhações advindas do preconceito, o pau no lombo pela polícia(novos "capitães do mato) e toda uma gama de injustiças que se estende desde então.

Outra disfunção dos livros de história além dessa de focar demais nas datas é não ir ao fundo sobre esse verdadeiro mise-en-scéne que foi essa lei Áurea. Dom Pedro e a Princesa Isabel são retratados quase como santos libertadores que desceram dos céus para libertar os oprimidos.

Uma ova!

Foram os mentores de um sistema já abolido por quase toda a América e dele se beneficiaram. Além dos abolicionistas sérios e sinceros, aos ingleses devemos seu término. Ao regime monárquico caquético restou apenas acompanhar e obedecer o processo histórico.

 

Prezado JB Costa,

Me permita discordar da sua opinião.

Pode até ser que "Ao regime monárquico caquético restou apenas acompanhar e obedecer o processo histórico". Num país por diversas vezes sem lei, por outras sem acesso garantido à justiça ou, ainda, com leis injustas para garantir privilégios de poucos, o reconhecimento da injustiça é o primeiro passo para alguma melhoria. Efetivamente, na letra, a Lei Áurea se rendeu à luta abolicionista.

Infelizmente, não só no regime monárquico, a efetividade da lei não é garantida na sua letra. Exige mobilização e luta constante. Cansa!!! Aqui, a justiça tarda e constantemente falha...

Devemos centrar nossa luta no aperfeiçoamento do sistema judiciário. Isto é mais importante do que a alteração da lei. Mesmo a lei que aí está, uma colcha de retalhos falha e cheia de contradições, que tenta prever cada particularidade de atos e responsabilidades (para complicar sua aplicação e não para resolver os conflitos) fosse efetiva e rápidamente aplicada teríamos um país muito, muito melhor! 

  

 

Gilberto .    @Gil17

Caro JB,

é justamente essa a crítica implicita na canção ( "uma nova redenção.."), só que de forma suave e poética.

abraços

 

quando da lei aurea, a CNBB tambem entrou com acao de inconstitucionalidade, uma vez que igreja considerava que negros eram animais, portanto "nao possuiam almas", trata los iguais a ser humano, segundo a igreja, abriria um precedente de outros animais como cavalos, vacas, jegues, etc tbem nao poderem ser usados com trabalhos forcados, podendo inclusive inviabilizar a exploracao e remessa de ouro ao vaticano, colocando o padrao de vida do representante de deus na terra em jogo, algo que poderia inclusive gerar a ira dos ceus,,,,,

 

Ganhei o dia ao ler este post. Amo de paixão este samba enredo da Mangueira e acho que ele não teve a repercussão merecida na época, "abafado" pelo (também lindo) samba da Kizomba.

Valeu, Zumbi!

 

tal qual o Holocausto, a escravidão deveria receber uma atenção maior nas escolas, pois precisamos deixar claro aos jovens o quanto de maldade um estado pode realizar,  e o pior o quanto cruel pode ser uma sociedade.   

 

"A verdade é a melhor camuflagem. Ninguém acredita nela." MAX FRICH

questao de lobby meu fio,,,,

quando africa for pottencia mundial quem sabe,,,

 

 

 

Zumbi (a Felicidade Guerreira) Gilberto Gile Waly Salomão                          
 

Zumbi, comandante guerreiro
Ogunhê, ferreiro-mor capitão
Da capitania da minha cabeça
Mandai a alforria pro meu coração                                       

Minha espada espalha o sol da guerra
Rompe mato, varre céus e terra
A felicidade do negro é uma felicidade guerreira
Do maracatu, do maculelê e do moleque bamba

Minha espada espalha o sol da guerra
Meu quilombo incandescendo a serra
Tal e qual o leque, o sapateado do mestre-escola de
samba
Tombo-de-ladeira, rabo-de-arraia, fogo-de-liamba

Em cada estalo, em todo estopim, no pó do motim
Em cada intervalo da guerra sem fim
Eu canto, eu canto, eu canto, eu canto, eu canto, eu
canto assim:

A felicidade do negro é uma felicidade guerreira!
A felicidade do negro é uma felicidade guerreira!
A felicidade do negro é uma felicidade guerreira!

Brasil, meu Brasil brasileiro
Meu grande terreiro, meu berço e nação
Zumbi protetor, guardião padroeiro
Mandai a alforria pro meu coração

 

" A injustiça que se faz a um, é uma ameaça que se faz a todos." - Barão de Montesquieu

 

Salvador realiza Assembléia Negra
Por: Redação: Jornalista Maíra Azevedo - Fonte: Afropress - 12/5/2011

Salvador - Convocar a população para denunciar toda e qualquer forma de discriminação. Este é o objetivo principal da Assembléia Negra e Popular, que será realizada nesta sexta-feira, 13 de maio, Dia Nacional de Denúncia do Racismo.

Organizado por diversas entidades do Movimento Social baiano, o evento conta com a participação de aproximadamente 40 entidades e tem uma vasta programação. Às 13h, as entidades realizam um ato na Praça da Sé, no Memorial das Baianas, um abraço simbólico na árvore da Cruz Caída. Às 15h, no Centro Cultural da Câmara Municipal de Salvador acontece a Audiência Pública Federal, Pelo Acesso à Justiça e à Democracia Racial e em Defesa das Ações Afirmativas no Brasil. Em seguida haverá o lançamento da Campanha "Luislinda Valois: Desembargadora negra sim ! Por que não?".

A mobilização em torno da data será nacional. Na Bahia serão trabalhados 4 eixos: A luta contra o racismo e por justiça em todo o país; a defesa da luta pela terra com Reforma Agrária por parte de todas as camadas populares rurais em seus territórios no campo; a luta contra os retrocessos do Sistema Ambiental e a luta por uma política pública construída com participação e democracia reais, incluindo a Defesa dos Territórios nas cidades que sofrerão com os impactos sócio ambientais dos Megaprojetos da Copa 2014 defendidos pelo Governo, em parceria com o capital imobiliário.

“Neste dia de denúncia e de luta contra o racismo, tomamos mais uma vez as ruas de Salvador e do Brasil para exigir reparações e provocar uma reflexão a toda sociedade brasileira: é preciso dar um basta na violência racista!”, declara Jerônimo Júnior, Coordenador da UNEGRO e um dos organizadores do ato.

Atual

A discriminação racial ainda faz parte do cotidiano brasileiro. Recentemente, o país acompanhou as declarações do Deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), que em um programa de TV afirmou que seus filhos não correm o risco de namorar uma mulher negra ou virarem gays, porque “foram muito bem educados”, relacionando a relação entre brancos e negros com “promiscuidade”. Na mesma semana outro deputado, Pastor Marco Feliciano (PSC-SP), usou o twitter para dizer que “os africanos são amaldiçoados”.

A Assembléia Negra também vai pedir reparação por esses atos racistas e a cassação do mandato dos dois parlamentares.