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Luciano Coutinho e os rumos da economia

Do Valor

Transição "difícil" vai demorar de 1,5 a 2 anos, diz Coutinho

Cristiano Romero | De Brasília
24/06/2011

O presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, prevê um período "difícil", com duração de um 1,5 a dois anos, para a economia brasileira, especialmente a indústria, que está pressionada por uma conjuntura internacional adversa. A Europa, acredita ele, flerta com o desastre e a economia americana, a maior do mundo, ainda patina em seu processo de recuperação.

Para se sair bem desse período de transição, o Brasil, defende Coutinho, precisa enfrentar os seguintes desafios: moderar o crescimento da economia; controlar as expectativas de inflação; não desarmar o ciclo de investimentos previsto; criar as condições para que o financiamento privado cresça; atrair capitais e ao mesmo tempo estimular o aumento da poupança doméstica; evitar "estragos profundos" na estrutura industrial, pressionada pelo próprio "sucesso" do país e pela conjuntura internacional.

"É um conjunto de desafios muito grandes", disse Coutinho nesta entrevista ao Valor. Na semana passada, ele participou do XV Fórum Econômico Internacional de São Petersburgo, que tenta se firmar como principal foro de debate econômico das economias que integram os Brics. Lá, ouviu relatos bastante pessimistas sobre a crise nas economias periféricas da Europa.

CoutCoutinho revelou que, durante o fórum, do qual participaram os presidentes da Rússia, Dmitri Medvedev, e da China, Hu Jintao, além do premiê espanhol, José Luis Zapatero, foi feita uma enquete sobre a probabilidade de "default" no continente. A maioria dos participantes (53%), entre empresários e executivos de grandes empresas, previu que, nos próximos dois anos, pode haver calote na dívida em até três países da região. O restante previu que isso ocorrerá em mais de três. 

"Este é um sintoma do grande ceticismo que prevalece lá. A discussão é se a crise pega a Grécia, Irlanda e Portugal ou se pega esses três e a Espanha também, embora a Espanha esteja mais protegida", comentou o presidente do BNDES.

Coutinho informou que o governo brasileiro trabalha na elaboração de uma nova política industrial com um olhar nesse contexto, em que a indústria nacional perde competitividade em função de um menor crescimento dos países ricos, destino original das exportações brasileiras, e também da apreciação do real frente ao dólar. Um dos setores a serem beneficiados pela política é o de produção de bens de capital (máquinas e equipamentos). A ideia é ajudar os setores exportadores em geral.

O presidente do BNDES observou, no entanto, que o espaço fiscal para apoiar a indústria neste momento é reduzido. Disse também que não há espaço para medidas radicais de controle de capital, que possam depreciar a taxa de câmbio. "Na verdade, o raio de manobra não é grande e o governo tem que, dentro do espaço que possui, otimizar, fazer aquilo que possa ser o mais eficiente possível e mais consistente com nossos objetivos macroeconômicos", assinalou.

Depois da Rússia, Coutinho esteve no Japão, para debater, no JBIC (Japan Bank for International Cooperation), oportunidades de investimentos no Brasil.

Valor: Por que o governo prepara uma nova política industrial?

Luciano Coutinho: A política industrial anterior foi anunciada em maio de 2008, com um vento a favor, a economia mundial e as exportações crescendo, mas logo em seguida veio a crise internacional, que mudou completamente a agenda.

Valor: O que mudou?

Coutinho: A agenda passou a ser a de recuperação do investimento. Em 2009 e 2010, o objetivo foi expandir o crédito, suprindo a forte contração do crédito privado. Isso foi bem-sucedido. A conjuntura atual é totalmente inusitada.

Valor: Por quê?

Coutinho: O mundo desenvolvido está em recessão, o que fez com que os preços das nossas exportações sofressem com mercados deprimidos nos países desenvolvidos, e a recuperação mundial está acontecendo só nos países em desenvolvimento, especialmente na Ásia, com a China, mas também com a Índia e outras economias, e aqui na América Latina, com o Brasil, que teve crescimento bastante expressivo no ano passado [7,5%]. Esse é um contexto inusitado também porque as moedas-reserva - o dólar e o euro - estão competindo uma com a outra para ver quem se deprecia mais. O dólar, pela política de super liquidez. E o euro, com as dificuldades das economias da periferia europeia, também está sob pressão. Há uma única exceção. 

Valor: Qual?

Coutinho: A Alemanha, que está numa situação confortável. É uma grande exportadora de bens de capital (máquinas e equipamentos). É a única das grandes economias desenvolvidas que está bem. Já é uma economia industrialmente competitiva, exporta bens de capital para a China e tem um câmbio favorável. Mas a situação da Europa como um todo é precária.

Valor: Por causa da Grécia?

Coutinho: Sim, a crise grega é muito preocupante. Há um ambiente na Europa de total ceticismo com relação à capacidade de a Grécia cumprir o programa de ajuste. Começa a se formar a opinião de que, para cumprir o programa do Fundo Monetário Internacional (FMI), a Grécia teria que reescalonar de forma bem mais profunda a dívida, e isso bateria nos bancos europeus, que detêm algo como € 200 bilhões em dívida grega, então, há resistência a fazer isso. Por outro lado, não há saída.

Valor: Não haveria uma alternativa?

Coutinho: Numa visão mais extrema, há quem acredite que a Grécia teria que sair do euro para poder depreciar a moeda e ter flexibilidade cambial. Lamento ter deixado de ser professor de Economia Internacional porque isso era algo que eu estava antevendo lá atrás...

Valor: O quê, exatamente?

Coutinho: Essas economias todas, na hora em que entraram no euro, o fizeram com taxa de câmbio muito apreciada. Isso transmitiu para as sociedades uma sensação ilusória de riqueza. Ao mesmo tempo, ao adotarem a moeda comum, desapareceu o componente de risco de câmbio que sempre está embutido nas taxas de juros locais. Com o euro, o risco de câmbio desapareceu e os juros, automaticamente, passaram a ser mais baixos. Aquelas economias, que, digamos assim, nunca tiveram um juro alemão, passaram a operar com um padrão de juros muito mais baixo. Combinou-se uma falsa sensação de riqueza com uma taxa de juros baixa.

Valor: Quais foram as consequências disso?

Coutinho: Isso levou a um ciclo muito pesado de endividamento familiar e das empresas, à formação de bolhas imobiliárias e a déficits externos elevadíssimos. Essa situação da Grécia, de Portugal, da Irlanda, um pouco da Espanha, é preocupante. A Europa está flertando com o desastre. E há resistência a fazer um ajuste mais profundo.

Valor: O problema central da economia mundial está, então, na Europa?

Coutinho: Nos Estados Unidos, a economia ainda patina. O [presidente Barack] Obama está debilitado, com baixa popularidade, e os republicanos estão se vingando, de forma injusta, porque eles é que fizeram as guerras e destruíram as contas fiscais. Agora, estão exigindo compromissos fiscais violentos. Além disso, estão brincando com o desastre ao chantagear o governo, dizendo que não aprovarão a elevação do teto da dívida. O governo Obama tem que corrigir isso até o dia 1º de agosto para não dar um calote na dívida. Nesse contexto, há um contraste com a China e com o resto das economias em desenvolvimento, que produziram e realizaram a recuperação mundial. O problema é que essa recuperação foi muito desequilibrada.

Valor: Por quê?

Coutinho: Porque os países em desenvolvimento puxaram o crescimento mundial num contexto de excesso de liquidez. A combinação das duas coisas provocou o aumento dos preços das commodities e, agora, os países em desenvolvimento têm que desacelerar para controlar a inflação. Mas essa desaceleração não pode ser forte demais porque, senão, o mundo vai para uma recessão. É o que o Brasil está tentando fazer, ou seja, moderar o ritmo de crescimento, mas sem pisar no freio porque seria ruim para o mundo inteiro.

Valor: Essa moderação pode durar quanto tempo?

Coutinho: Vamos passar por um período difícil nos próximos 1,5 a dois anos, até esse quadro mudar. Até termos uma crescimento mais equilibrado na economia mundial, nossa indústria estará sob pressão muito forte. Exportação prejudicada pelo fraco crescimento dos mercados de destino originais do Brasil, embora o país esteja agora tentando diversificar as exportações cada vez mais para economias em desenvolvimento; e, de outro lado, o próprio sucesso do Brasil apreciou a taxa de câmbio e a gente não tem muita margem para mexer nisso. É um período difícil. A política industrial tem que se voltar para fazer a travessia desse contexto.

Valor: O que o governo pretende com a nova política?

Coutinho: O que estamos fazendo é buscar reforçar a competitividade da indústria através de uma série de medidas.

Valor: Que medidas?

Coutinho: Infelizmente, não posso adiantar porque estamos ainda numa agenda de discussão.

Valor: O FMI concluiu que, além do efeito da política monetária expansionista dos países ricos, o Brasil sofre com o fato de ter uma conta de capital mais aberta que a dos países asiáticos. Isso ajuda a apreciar ainda mais o real. Não há como enfrentar esse problema?

Coutinho: Não há espaço para medidas radicais, para instalar um controle de capital violento, que deprecie o câmbio. Também não dá para fazer medidas de natureza fiscal muito fortes. Na verdade, o raio de manobra não é grande e o governo tem que, dentro do espaço que possui, numa discussão que está em curso, otimizar, fazer aquilo que possa ser o mais eficiente possível e mais consistente com nossos objetivos macroeconômicos. É uma discussão complexa. Devemos focar nos setores onde está havendo mais pressão.

Valor: Quais são?

Coutinho: O de bens de capital é um deles, mas não é o único. Os setores de "tradables" (produtos comercializáveis com o exterior) em geral.

Valor: São medidas de efeito imediato ou para melhorar a competitividade de longo prazo da indústria?

Coutinho: O problema [da competitividade] está colocado, já está acontecendo, então, as medidas têm que ser endereçadas para a conjuntura. Há, obviamente, medidas de médio prazo. Por exemplo, todo o reforço na questão da inovação tecnológica, que está sendo feito. Estamos conseguindo mudar um pouco o padrão de comportamento das estratégias econômicas do setor privado. Mas isso, de fato, é para o médio e o longo prazo.

Valor: O BNDES calcula que o investimento programado nos setores industrial, de infraestrutura e de construção civil deve totalizar R$ 1,6 trilhão entre 2011 e 2014. O cenário internacional adverso não ameaça o levantamento desses recursos?

Coutinho: Apesar da crise, a abundância de capitais continua. Nosso problema é exatamente não cair na tentação de depender exclusivamente de ingressos de capitais para apoiar o nosso esforço de investimento. Senão, vamos repetir o problema dos anos 70 e de outros momentos, em que todo o incremento da taxa de investimento foi financiado por poupança externa. Nós também precisamos fazer um esforço de poupança doméstica. Este é um ponto que eu tenho batido o tempo todo.

Valor: De que forma?

Coutinho: As medidas que adotamos há seis meses, para estimular o financiamento privado, se não estiverem funcionando, terão que ser reforçadas, principalmente no sentido de aumentar o estímulo à poupança privada. Aquela agenda é essencial. O Brasil tem um potencial de poupança financeira doméstica que está todo ancorado num estoque de dívida pública altamente líquida. Esse estoque de poupança pode migrar para papéis privados. Acredito que ainda temos chance de avançar nisso.

Valor: Como?

Coutinho: À medida que o trabalho do Banco Central começa a ser reconhecido - a discussão agora é quando a inflação converge para a meta de 4,5% -, na hora em que houver a percepção de que o governo não vai dar moleza, que vai fazer o que for necessário para derrubar a inflação. O segredo é não desmontar o ciclo de investimentos e não jogar para escanteio a possibilidade de esse desenvolvimento financeiro acontecer. Obviamente, para esse desenvolvimento acontecer com velocidade, a perspectiva de retomada de queda da taxa Selic tem que vir junto. Isso é algo, talvez, para mais adiante.

Valor: Quando?

Coutinho: Ainda temos que dar um pouco mais de tempo para que a expectativa de inflação cadente se consolide. Na hora em que o mercado antecipar lá na frente que a inflação pode cair de novo e que o BC poderá começar a pensar em diminuir os juros, esse movimento [de estímulo à poupança privada] pode ocorrer.

Valor: O mercado estima que o Produto Interno Bruto (PIB) crescerá abaixo de 4% este ano. Por outro lado, a expectativa de inflação para 2012 está piorando, o que pode obrigar o BC a estender o ciclo de aperto monetário. Isso pode derrubar novamente o crescimento abaixo de 4%. O senhor não teme que isso desmonte o ciclo de investimentos previsto?

Coutinho: Hoje, o empresariado pensa quatro, cinco anos à frente. Há uma certa compreensão de que, se a economia crescer um pouco menos em 2011 e um pouco mais no próximo ano, e que mesmo não tendo um crescimento espetacular em 2012, haja uma expectativa de que no segundo semestre de 2012 já vai dar para começar a fazer uma afrouxamento, com a economia mundial melhorando em 2013 e 2014, você tem aí uma expectativa de que o Brasil consegue sustentar um ritmo médio de crescimento nos próximos anos.

Valor: Crescimento de quanto?

Coutinho: Na média dos quatro anos, alguma coisa variando de 4% a 5,5%, pode ser um pouco mais ou um pouco menos, será suficiente para a sustentação do plano de investimentos. É claro que se, de repente, surgir uma perspectiva um pouco mais otimista, o crescimento médio pode ser mais alto. O relevante é que não está no radar uma expectativa de recessão no Brasil. O que há é uma expectativa de moderação do crescimento por um prazo ainda a discutir. Isso ajuda porque o investimento industrial tem um prazo médio de maturação de no mínimo 18 meses. Então, o empresário está olhando o mercado de 2013. 

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Bens de capital devem ampliar peso na taxa de investimento(pdf)
 Por Fernando Puga e Gilberto Borça Jr. Economistas da APE /Visão do Desenvolvimento  95 20 jun 2011
Visão do Desenvolvimento é uma publicação da área de Pesquisas Econômicas (APE), do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social. As opiniões deste informe são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente o pensamento da administração do BNDES.

Clique aqui para acessar a publicação
 
Crescimento pode aumentar produtividade e diminuir desvantagem do Brasil

Há certo consenso de que aceleração da taxa de crescimento de longo prazo de uma economia requer uma ampliação prévia da taxa de investimento. Também é consensual que a taxa de investimento brasileira, apesar dos avanços recentes, continua baixa. Entre 2005 e 2010, a taxa subiu de 15,9% para 18,4% do PIB. Comparações internacionais mostram que a taxa brasileira ficou em 17,0%, em 2009, ante uma média mundial de 19,5% do PIB. Entretanto, uma questão pouco destacada no debate econômico sobre o investimento diz respeito à sua composição. Além dos gastos das empresas e do governo na aquisição de máquinas e equipamentos e construção da infraestrutura básica, não se podem esquecer os dispêndios das famílias na construção e reforma de unidades residenciais. A separação entre esses componentes é fundamental para avaliar, de maneira mais precisa, o impacto das decisões de investimento sobre a evolução da capacidade produtiva da economia.
O objetivo dessa edição do Visão do Desenvolvimento é traçar não apenas um cenário para a taxa de investimento agregada (FBKF/PIB) no Brasil entre 2011-2014, mas também avaliar como será a evolução de cada um de seus componentes – máquinas e equipamentos (M&E), construção e demais itens – nesse mesmo período. Para isso, utilizaram-se duas fontes de dados.
A primeira é relativa às perspectivas de investimento no Brasil entre 2011-2014 realizada pelo BNDES e publicadas nas edições Visão do Desenvolvimento nos 91 e 92.
A segunda é a matriz agregada de investimento (MAI)1 de 2005 desenvolvida pela UFRJ, na qual é possível identificar, setor a setor (petróleo e gás, extrativa mineral, siderurgia etc), como os investimentos estão distribuídos em máquinas e equipamentos, construção e demais itens.

Conclui-se que, entre 2011-2014, a composição média da taxa de investimento brasileira se tornará mais concentrada no segmento de máquinas e equipamentos. Esse fato eleva a produtividade do investimento no Brasil, contribuindo para a expansão do produto potencial.

Comparações internacionais da taxa de investimento

A taxa de investimento no Brasil é, consensualmente, considerada baixa em termos internacionais. De fato, conforme mostra o Gráfico 1, em 2009, dentre uma amostra de países selecionados, o Brasil possuía uma das taxas de investimento mais reduzidas – cerca de 17,0%. Outras nações com mesmo grau de desenvolvimento, como por exemplo, China, Índia e Coreia do Sul, possuíam taxas de investimento bem superiores, atingindo, respectivamente, 45,6%, 30,8% e 29,3%. Até mesmo quando comparado a algumas economias da América Latina, o investimento brasileiro era (e continua sendo) baixo - Peru (24,0%), México (21,8%), Chile (21,4%) e Argentina (20,9%). Em relação aos BRICs (média entre Brasil, Rússia, Índia e China), a defasagem da taxa de investimento era ainda maior, chegando a ser superior a 10 pontos percentuais (p.p.).

Mesmo se considerarmos o ano de 2010, e a expressiva alta da FBKF brasileira na esteira do processo de recuperação dos efeitos da crise financeira de 2008/2009, esse quadro não se altera de forma significativa. A taxa de investimento brasileira, ao fim de 2010, atingiu apenas 18,4% do PIB, mantendo praticamente inalterada a posição relativa do país na comparação internacional.

A sabedoria convencional argumenta que o baixo nível de investimentos na economia brasileira gera implicações para a trajetória de crescimento de longo prazo do país.
Quanto mais baixo o volume de inversões na economia, menor seria o chamado PIB potencial – taxa crescimento que permitiria a economia crescer a longo prazo sem o aparecimento de desequilíbrios e pressões inflacionárias. Esse fato, a despeito de sua veracidade, requer maiores qualificações.
Na realidade, para se avaliar as possibilidades da trajetória de crescimento de longo prazo de uma economia, melhor do que olhar a taxa agregada de investimento é observar a sua composição. Mais precisamente, o foco da análise deve se direcionar para a participação do segmento de máquinas e equipamentos (M&E) na formação bruta de capital fixo (FBKF).

São os dispêndios na aquisição de bens de capital que possibilitam incrementos na atividade produtiva, elevando de maneira direta o PIB potencial. Já os gastos no segmento de construção - seja na parte habitacional ou na infraestrutura básica - a despeito de terem efeitos sociais positivos e elevarem a competitividade sistêmica da economia, não contribuem de maneira direta (mas sim, indireta) para elevar o PIB potencial.
Infelizmente, a disponibilidade de dados internacionais sobre a decomposição da taxa de investimento de diversos países é escassa. A mais recente, disponibilizada pelo Banco Mundial, data de 2005. Mesmo com essa defasagem temporal, é possível se extrair algumas conclusões ao se
observar, pelo Gráfico 2, a composição da taxa de investimento por regiões e por países selecionados. Do ponto de vista regional, conforme já esperado, a Ásia apresenta a maior taxa de investimento, particularmente devido à China e Índia. Outra observação importante é que, de forma geral, o segmento de construção possui maior participação do que os dispêndios em máquinas e equipamentos, exceção feita ao continente africano.

No que diz respeito ao Brasil, em particular, dois pontos chamam atenção. Diferentemente dos padrões internacionais, o item construção possui uma menor participação relativa no investimento vis-à-vis o segmento de máquinas e equipamentos. Isso se deve, em parte, ao baixo nível de investimentos ao longo das últimas décadas, tanto na construção residencial (decorrente da escassa disponibilidade de crédito habitacional), quanto na infraestrutura básica (decorrentes das fragilidades fiscal do setor público e dos marcos regulatórios em seus principais segmentos).
No segmento de máquinas e equipamentos, contudo, pode-se perceber que o Brasil encontrava-se ligeiramente acima da média mundial (7,9 p.p. contra 7,6 p.p.). Com isso, conclui-se que não há grandes defasagens entre o padrão de investimento das empresas brasileiras relativamente às internacionais no que tange aos gastos em bens de capital.

A produtividade do investimento
Visando quantificar a produtividade do investimento em diversos países reunimos uma amostra de 55 países para período de 1970-19982. Os autores encontraram uma relação média positiva entre as inversões em máquinas e equipamentos e a produtividade do investimento – entendido como aumento do PIB potencial decorrente da elevação de 1 p.p. na taxa de investimento. Assim, quanto maior a concentração da FBKF de uma economia no segmento de bens de capital, maior tende a ser a produtividade do investimento e, consequentemente, sua contribuição para elevar a taxa de crescimento de longo prazo. O Gráfico 3, tendo como base a estimativa dos autores e os dados do Banco Mundial de 2005 (relativos à participação do segmento de máquinas e equipamentos na FBKF dos países), mostra a produtividade do investimento no mundo e em alguns países selecionados.

Nota-se que o Brasil, embora tivesse a menor taxa de investimento agregada dentre os países selecionados (16,3% no Gráfico 2 e 3), possuía uma das mais elevadas produtividades. Assim, em função da composição da taxa de investimento brasileira, mais concentrada no item máquinas e equipamentos, uma elevação de 1 p.p. na taxa de investimento, implicaria em uma elevação de 0,163 p.p. na taxa de crescimento da economia. Essa mesma comparação, quando feita para a taxa de investimento mundial, implicaria em uma elevação de 0,136 p.p. na taxa de crescimento. Isso significa que a produtividade do investimento brasileiro era, em 2005, cerca de 20% superior à mundial. Até mesmo a China, que possuía a maior taxa de investimento da amostra, com 41,5% do PIB, tinha produtividade de 0,121 p.p., ou seja, quase 34% inferior à brasileira. Portanto, tendo como referencia os dados do Banco Mundial de 2005, a comparação internacional entre a produtividade do investimento em diversos países mostra que o Brasil, por possuir uma concentração maior no item máquinas e equipamentos, consegue viabilizar maiores taxas de crescimento econômico com menor esforço em termos de taxas de investimento.

O que podemos esperar da taxa de investimento brasileira
As seções anteriores compararam a taxa de investimento brasileira frente ao padrão internacional. Mostrou-se que, embora baixo, o investimento tem uma composição que o torna mais produtivo, i.e., o segmento de máquinas e equipamentos possui uma maior proporção da FBKF. No que segue, buscamos respostas a duas seguintes indagações: Como evoluirá a taxa de investimento brasileira nos próximos anos? Qual será sua composição?

Para responder a essas perguntas, utilizamos os dados prospectivos de investimento setoriais coletados pelo BNDES para o período 2011-2014, e a matriz de investimento agregada (MAI) de 2005 construída pela UFRJ, a qual, por agregação, permite decompor o investimento da economia setor a setor nos itens máquinas e equipamentos, construção e outros.
Foi adotada a hipótese simplificadora de que a composição dos investimentos em cada setor, no período 2011-2014, ficaria inalterada relativamente a 2005. A título de exemplo, a distribuição das inversões em petróleo e gás para 2011-2014 foi mantida constante em 94% para máquinas e equipamentos, 1% para construção, e 5% para outros itens.

A Tabela 1 mostra as perspectivas de investimento e as estimativas de dispêndio para cada setor nos segmentos de máquinas e equipamentos, construção e demais itens. Os investimentos, setor a setor, tanto na indústria, quanto na infraestrutura foram obtidos pela combinação das informações contidas na pesquisa do BNDES e na MAI.
Para os “Demais setores”, com representação significativa na FBKF, utilizaram-se não apenas as perspectivas de investimento do BNDES na construção relacionadas aos eventos esportivos, ao PMCMV (Programa Minha Casa Minha Vida) e demais edificações, mas também projeções econométricas (com base nos próprios investimentos mapeados, estimativas de crescimento do PIB, e da utilização da MAI).

A perspectiva é de que ocorram investimentos da ordem de R$ 3,3 trilhões entre 2011-2014, a preços de 2010. Como resultado o cenário é de que a taxa de investimento continue a apresentar uma trajetória ascendente nos próximos anos, atingindo, em média, 20,9% entre 2011 e 2014, e chegando a 22,8% ao fim de 2014 (Gráfico 4).

A decomposição das projeções mostra que o segmento de máquinas e equipamentos terá uma importância ainda maiorna FBKF entre 2011 e 2014, do que em 2005, ano em que foi feita a comparação internacional da composição dos investimentos.
A perspectiva é de R$ 1,8 trilhão de inversões em máquinas e equipamentos, com sua participação chegando a 52,6% (ou 11% do PIB) na FBKF brasileira, bem acima dos 48% (ou 7,9% do PIB) em 2005.

A realização de um exercício semelhante de desagregação da taxa de investimento para os demais países enfrenta dificuldades devido à base de dados ser restrita até o ano de 2005. No entanto, a expectativa é de que a taxa agregada de investimento mundial não fique acima das observadas em 2005 e 2009 (21,6% e 19,5% do PIB, respectivamente), por conta do menor dinamismo da economia mundial. Nesse sentido, o cenário é de que a taxa de investimento do Brasil possa, nos próximos anos, se aproximar e até ultrapassar a taxa média mundial.

O setor de petróleo & gás será, sem dúvida, o grande responsável pela maior concentração dos investimentos do país em máquinas e equipamentos entre 2011-2014. De um total de R$ 378 bilhões de investimentos previstos, quase 95% será destinado ao segmento de máquinas e equipamentos – cerca de R$ 356 bilhões. Os projetos em infraestrutura demandarão também montante relevante de maquinário, especialmente em segmentos de energia elétrica, telecomunicações e ferrovias.
O resultado será uma maior produtividade do investimento. Mantendo 52,6% de inversões em máquinas e equipamentos na FBKF, a estimativa é de que, para cada 1 p.p. de aumento na taxa de investimento, haja aumento em torno de 0,171 p.p. na taxa de crescimento de longo prazo da economia e, portanto, no produto potencial.

Perfil do investimento brasileiro permite crescimento de longo prazo sem pressão inflacionária.

Conclusão
É consensual entre os economistas que a taxa de investimento agregada da economia brasileira é relativamente baixa em termos internacionais. Este estudo mostra que a defasagem da taxa de investimento brasileira está concentrada no segmento de construção, uma vez que seus dispêndios estão bem abaixo daqueles realizados, em média, na economia mundial. A escassa disponibilidade de crédito habitacional, a redução de investimentos do setor público e a ausência de marcos regulatórios bem definidos nos setores foram, ao longo das últimas décadas, os fatores explicativos desse processo. Como consequência, os investimentos em unidades residenciais e em infraestrutura básica ficaram aquém das necessidades do país.

No entanto, ao analisar o segmento de máquinas e equipamentos da FBKF brasileira, pode-se perceber que as empresas do país estão em linha com os padrões internacionais no que tange aos dispêndios em bens de capital. Essa maior concentração da FBKF no item máquinas e equipamentos têm importantes implicações para a trajetória de crescimento de longo prazo da economia, uma vez que é capaz de ampliar, de maneira duradoura, a capacidade produtiva do país. Em particular, essa concentração faz com que o investimento brasileiro seja mais produtivo. Significa que, para um mesmo esforço em termos de aumento do investimento, o Brasil consegue alcançar taxas de crescimento de longo prazo mais altas, sem incorrer em desequilíbrios e pressões inflacionárias.

Para os próximos anos, os dados relativos às perspectivas de investimento na economia brasileira apontam para a retomada do ciclo de inversões iniciado em meados da década de 2000, após ter sido interrompido em 2009. Entre 2011-2014, prevemos que, em média, a FBKF atinja 20,9%, sendo que em 2014 esse valor chegará a 22,8%. Tão importante quanto a elevação da taxa de investimento é a manutenção da elevada participação do segmento de máquinas e equipamentos, que atingirá, em média, 52,6% da FBKF ou 11,0% do PIB, entre 2011 e 2014. A principal explicação para essa concentração são as expectativas de investimentos no setor de petróleo & gás, altamente intensivos em bens de capital.

Situando o Brasil no cenário internacional, a perspectiva é de que a taxa de investimento do país caminhará em direção à média mundial, muito embora ainda continue abaixo das economias emergentes do Leste Asiático. No entanto, por conta da maior produtividade dos investimentos, o Brasil terá condições de manter taxas de crescimento superiores à média mundial.

...1 A MAI (2005) permite calcular os impactos diretos e indiretos da demanda de investimentos de um determinado setor sobre todos os demais.
...2 A base utilizada, Penn World Table PWT (benchmanrk database) disponibiliza informações sobre taxas de investimento desagregadas somente até 1998. A estimação seguiu a metodologia utilizada por De Long, J.B. & Summers, L.H. (1990). “Equipment investiment and economic growth”. NBER Working Papers Series, WP no 3515, nov.

Re: Luciano Coutinho e os rumos da economia
Re: Luciano Coutinho e os rumos da economia
 

2014---distribuição de renda

  Bonito o esforço do Coutinho. Fala, fala e não sai do discurso oficial da luta "a qualquer preço" contra a inflação, sendoque esse preço é cobrado em termos de juros, que possuem um efeito bem mais prolongado contra a inflação que medidas alternativas - maior rigidez nos financiamentos, controle de capitais, blablablabla. E claro, saem bem mais caro, mas beneficiam os suspeitos de sempre.

 

Enquanto isso, deu no Correio Braziliense:

 

Desaceleração da economia deve fazer Banco Central rever juros

Victor Martins

 

Publicação: 24/06/2011 08:00 Atualização:

A estratégia do Banco Central foi colocada em xeque pelo temor de que o mundo esteja em franca desaceleração. Entre os analistas, ganha força o argumento de que a autoridade monetária subestimou o cenário externo e que, agora, terá de encerrar o ajuste na taxa básica de juros (Selic) em julho, sem promover um novo aperto. A expectativa de que os Estados Unidos cresçam menos que o esperado, a ameaça de a crise na Grécia se espalhar pela Europa e a expansão da China em ritmo lento podem contaminar também o Brasil e impor um freio além do desejado ao país.

Em relatório recente, o Itaú Unibanco listou os fatores que podem influenciar o BC a encerrar o ciclo de aperto monetário mais cedo. Na visão do banco, a recente melhora no comportamento das expectativas de inflação — que por sete semanas seguidas recuaram —, o arrefecimento da demanda doméstica e a piora da economia global reduziram sensivelmente os riscos inflacionários. Anteontem, o presidente do Federal Reserve (Fed, o Banco Central dos EUA), Ben Bernanke, jogou mais água sobre a economia mundial.

Ele admitiu que os Estados Unidos estão crescendo em ritmo menor que o esperado e reduziu sua previsão de expansão para o país de 3,3% para 2,7%. Ao mesmo tempo, elevou as projeções de inflação e de desemprego. Bernanke ainda frustrou o mercado, que esperava o anúncio de uma nova injeção de recursos na economia. O reflexo das palavras do presidente do Fed bateram diretamente no mercado financeiro e nas commodities (produtos básicos com cotação internacional), que derreteram ontem. O petróleo, por exemplo, caiu 5,52% em Londres e 3,30% em Nova York.

Carlos Thadeu de Freitas Gomes Filho, economista da Franklin Templeton Investimentos, explica que o Brasil está subindo juros em meio a um
cenário de piora externa. Para ele, o BC minimizou os dados que evidenciam a desaceleração mundial na ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), quando passou a Selic de 12% ao ano para 12,25%. “O BC está dando aumento de juros pensando em um cenário que já passou”, avalia.

Fôlego

“A economia vai perder fôlego e, daqui para a frente, a autoridade monetária vai contar com um mundo que cresce menos. Por isso, deve dar uma parada na elevação de juros para avaliar o cenário”, aconselha Freitas. Zeina Latif, economista sênior para a América Latina do Royal Bank of Scotland, não bate martelo sobre a estratégia do BC. Ela pondera, porém, que todos esses fatores facilitam o trabalho da instituição no combate à inflação e podem abrir espaço para uma mudança de direção. “O que importa é o efeito da desaceleração sobre os preços das commodities, que têm influência sobre os alimentos e a inflação”, argumenta.

Para o economista-chefe do Itaú Unibanco, Ilan Goldfajn, com a queda dos preços das commodities e o arrefecimento da economia mundial, a possibilidade de o BC encerrar o ciclo de aperto monetário ganha força. “A divulgação dos números de inflação nos próximos meses também poderá fazer com que o Copom reavalie o balanço de riscos e decida por não elevar a taxa Selic na próxima reunião”, afirmou em relatório.

 

CRISE ECONÔMICA AQUI E ALHURES: BUSCANDO SAÍDAS

Joaquim José Guilherme de Aragão

Laboratório de Infraestruturas da Universidade de Brasília

A CRISE...

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Acho difícil o Bacen mudar a estratégia de sempre. Subir os juros. Infelizmente o Bacen da presidenta Dilma parece muito com o do Lula e com FHC. Juros altos como Dogma de fé. 

Falta coragem para romper com o sistema montado em cima da Selic; com rendimento alto e liquidez diária.

Mesmo que o Bacen esteja esperando o terceiro afrouxamento quantitativo dos americanos, a preocupação no mento é com o crescimento, não com a inflação.

 

É um banco que investe 8 milhoes de reais por ano numa OSB que nao apresenta um só concerto em 2011; numa OSB que em 5 anos de minczuk afastou mais de 60 musicos -fato inédito na história da música sinfonica universal-; numa OSB que atrai contra si artistas do naipe de Nelson Freire, Cristina Ortiz, Roberto Tibiriçá, Paulo Sergio Santos, músicos da OSB Jovem, da OFMG, OSESP e tantas outras orquestras brasileiras e estrangeiras.

Pois é sr Presidente Luciano, "é um conjunto de desafios muito grande" desmamar sangue sugas. Tá pegando muito mal essa história ... e ainda vai repercutir muito

 

Informações sombrias. Eu torcia para resultados surgirem a partir de setembro/outubro. Dois anos é muito e compromete grande parte do governo Dilma. Minha esperança é que as previsôes econômicas (mesmo que do sério Coutinho) nunca acertam o alvo. Vamos aguardar.

 

"moderar o crescimento da economia; controlar as expectativas de inflação; não desarmar o ciclo de investimentos previsto; criar as condições para que o financiamento privado cresça; atrair capitais e ao mesmo tempo estimular o aumento da poupança doméstica; evitar "estragos profundos" na estrutura industrial, pressionada pelo próprio "sucesso" do país e pela conjuntura internacional".

blá,blá,blá. Eu não aguento mais esta lenga lenga de que o País não pode crescer já. Discurso antigo, de mais de 100 anos. Não tivemos homens de coragem e agora temos uma mulher presa aos dogmas dos homens covardes. Ninguem cresce sem ousadia, sem ultrapasar os limites. Este é o momento do Brasil, assim como foi em épocas passadas da Portugal, Espanha, França, Inglaterra e Estados Unidos.Infelizmente continuamos ainda sendo colonia de Portugal. Não pensamos em nosso povo, em nosso País. Vivemos a realidade dos outros, como covardes encolhidos. ão acreditamos em nosso potencial e, por isso, não conseguimos sair desse mmarasmo de desculpas que não mudam seja de Delfim, Pedro Malan, Simonnsen, Bulhões ou Coutinhos. Que droga.

 

"Luciano Coutinho, prevê um período "difícil", com duração de um 1,5 a dois anos, para a economia brasileira, especialmente a indústria, que está pressionada por uma conjuntura internacional adversa":

Ah, eh mesmo, que pena que o Brasil nao tem mercado interno porque os bancos nao deixam...