newsletter

Pular para o conteúdo principal

Mitos sobre as cotas raciais

Por Marcelo Trindade Miterhof

1. O que a política de cotas raciais não é:

i) Uma reparação á população negra. Isso é impossível e inconcebível. Os negros de hoje não sofreram coma escravidão e os brancos de hoje não foram responsáveis por ela.

ii) Uma política de inclusão social.

2. As cotas raciais visam apenas a ser um instrumento de diversificação da elite brasileira. Em relação à inclusão social esse é um trabalho distinto, paralelo e, ainda que menos importante, também é necessário, pois o país será melhor se sua elite se reconhecer plenamente na população como um todo, o que ainda não ocorre atualmente.

3. Transformar as coras raciais em cotas sociais é um grande erro, pois:

i) os instrumentos de política social são mais numerosos e mais efetivos, a começar pelo bolsa família.

ii) em termos de inclusão social, precisamos de políticas de universalização dos serviços públicos com qualidade. Cotas sociais nas universidades seria uma forma de eximir o Estado de seu dever de prover escola básica boa: "eu (Estado) não melhoro a escola, mas dou acesso aos pobres às universidades públicas de qualidade que foram construídas para os ricos".

4. Não podemos cair no fetiche da meritocracia. Será que é por falta de mérito que os negros são pouquíssimo representados nos cursos mais concorridos das principais universidades brasileiras?

Creio que não. A discussão do mérito é muito complexa, repleta de cumulatividades históricas, que fica difícil pensar o mérito como fruto de empenho ou talento individual. Mesmo coletivamente é difícil até pensar como as coisas poderiam ser diferentes. Por exemplo, os árabes, que tantas contribuições deram ao conhecimento humano (o zero é uma invenção arábica, sem qual a revolução digital seria impensável) fazem mil anos que pouco ou nada contribuem. No entanto, os árabes e seus descendentes que imigraram para países capitalistas ocidentais são extremamente bem sucedidos e contribuem para o desenvolvimento, vide os casos do Hospital Sírio-Libanês em São Paulo, o Steve Jobs, filho biológico de um sírio, ou vc mesmo. Se vc ou eu tivéssemos nascidos numa aldeia indígena estaríamos aqui? Mas e se determinados acontecimentos disruptivos (a invenção da pólvora ou a maquina a vapor ou filosofia grega, por exemplo) tivessem ocorridos entre os índios peruanos, como seria o mundo? Não dá para saber. Outro exemplo, na Unicamp, que era uma universidade que tinha uma política ativa de abrir cursos noturnos, cansei de ver elitismo disfarçado de "defesa da qualidade do ensino" (curso noturnos seriam piores). Portanto, a meritocracia (um dos principais argumentos contra as cotas) deve ser relativizada.

No entanto, ainda que seja verdade que os negros são menos capazes intelectualmente (sim, apesar de a inteligência ser outro fetiche moderno, isso é possível: a inteligência é algo difícil de comprar por sua subjetividade, mas pessoas e populações se diferenciam por ela), prefiro ter uma elite minimamente bem diversificada, às custas de uma discriminação positiva, do que ter um abismo racial na sociedade brasileira. A experiência americana mostra isso muito bem. Nos EUA, com todo racismo que há por lá, há uma forte elite negra. Certamente porque é um país muito mais rico. Mas eles já eram ricos quando Kennedy mandou tropas federais para garantir a entrada de dois estudantes negros na Universidade do Alabamba. De lá para cá, sem as cotas, não existiria o presidente Obama e outras preocupações raciais relevantes.

Sem votos
53 comentário(s)

Comentários

Comentar

O conteúdo deste campo é privado e não será exibido ao público.
+53 comentários

1 - A via para diminuir desigualdades é política, socioeconômica. A afirmação pelo racialismo parece um erro, pois reagrupa  indivíduos por seus aspectos físicos. Não faz  justiça econômica, não garante a diminuição das desigualdades, nem do racismo. Nesse sentido, o PROUNI seria mais eficaz,  aplicado ao  ensino fundamental. Um imposto tributário regressivo (maior renda, maior  valor) pode ser criado para educação pública de qualidade. A educação foi tão degrada que se tornou responsabilidade de toda a sociedade.

Simbolicamente a eleição de Obama foi sensacional para os Estados Unidos, assim como  a de Margareth Tarcher na Inglaterra. Mas ainda que tenha estudado numa escola só para pretos, Michelle Obama chegou a Princenton e Harvard, é uma das três únicas damas”norte-americanas com pós-gradução. Entretanto, se fizeram boa política ou não, é questão menor quando a cor ou gênero assumem uma relevância desmedida que implica a vida de milhões de pessoas no planeta. Os programas políticos são impessoais, regem-se por demandas do sistema, contra ou a favor. 

A diferença marcante é quando o racialismo é ordenado pelo Estado com uma canetada, e isso não tem nada a ver com reparações históricas, mas com a reafirmação da existência de raças, biológica, sociológica ou criadas por imposturas.

Não é inconstitucional, o que significa apenas que é legal, mas concede privilégios, nos limites da lei para reparar os deveres do país com as vítimas da desiguadalde econômica. Faz pior, convida  pretos a assumirem que possuem identidade diferente das outras pessoas do país, são afrodescendentes, não se misturam. 

O antropólogo da UNB autor da inclusão que foi ao STF agora lutará, segundo declarou, pelas cotas raciais para a pós-graduação. Será que um dia  os alunos da gradução de pele preta escolherão seus orientadores pela cor da pele? Excluirão os branquelos ou vice-versa? Induzirão os pretos a estudarem ciências sociais ou letras, educarem seus irmãos menores e pobres? Seria muito cruel essa exigência. 

Será preciso contar com um pouco do mito da democracia racial para que tais absurdos não aconteçam? Ou a lei obrigará, sob pena de criminalização dos branquelos e dos pretinhos?  

Acabem com a tradição da universidade pública brasileira de modo mais claro do que esse. Transformem-na noutra coisa, mas não digam mais que é um centro de produção do conhecimento e de pesquisa. Corre-se o risco de vê-las como uma ilusão, um centro de assistencialismo e produtora de status com o timbre do Estado. Quem ficar de fora se sentirá injustiçado ou inferior, mesmo que não tenha prestado concurso. 

Historicamente quem criou a raça negra, criou a raça branca, para justificar domínios e discriminação, hierarquias. Não há “branquelos” nas universidades brasileiras, há descendentede de pretos em sua grande maioria, aposto, mas majoritariamente de uma classe social. As oportunidades são desiguais por força da diferença de classes, mas é bom lembrar que a elite econômica no país tem 24%  de “meninos ou meninas da pele preta”.

 

Então é isso Blaya, vc já respondeu.   Se instituirem cotas sociais para universidades públicas, vamos ficar mais 500 anos esperando as condições, boa vontade dos políticos e recursos suficientes para isso....tal como ocorre com o ensino fundamental.   Cotas raciais já, aumento da oportunidade e igualdade para quem sempre foi relegado à senzala e mazelas sociais.

 

Pra ambas as partes (ou pra nuances e misturas que não aceitam, ou melhor, não acreditam que haja só preto , só branco ) sugiro a entrevista que é seguida por duas opiniões diversas entre si

http://naodaparaficarcalado.blogspot.com.br/2009/06/cotas-raciais-e-sociais.html

(Gostaria de saber a opinião de Darcy Ribeiro sobre isso).

Mas interessante notar que ora o STF é aplaudido (quando é a favor do que já tínhamos como posição fechada, cotas raciais, ora o STF é esculhambado quando dispensa a obrigatoriedade de diploma de jornalista).

De minha parte, sem representar seu ninguém, sem ser, nem querer ser de cor ou "raça" nenhuma, nem de identidade fossilizada coisa nenhuma, acho que o STF errou no primeiro caso, e acertou no segundo.

O "tínhamos" aqui é forma de dizer, porque as cotas raciais, um mau transitório, um mau necessário e passageiro (como a ditadura do proletariado, outro mito) acho que não vingará aqui, não cairemos nessa americanice, em mais um colonialismo e imitação de idéias, por mais que pessoas e grupos digam representar e falar pelas maiorias, a tal sociedade civil ( S.V. conceito que tem alguns teóricos que o questionam, ou, o máximo, a meu ver, são é uma nova elite. E no sentido negativo. Mas isso já é outra história).


 

"Lo que los hombres realmente quieren no es el conocimiento sino la certidumbre ". - Bertrand Russell (1872-1970); filósofo y matemático inglés. (citação num boletim do av. Panda )

Continuo discordando das cotas raciais, e tomo minha familia como exemplo.

Sendo legitimos "brasileiros", oriundos da miscigenção de bisavós negros do maranhão, bisavô indio do nordeste do Pará, Avô Portugues de Algarve e Bisavô de Vila Nova de Gaia - inclusive possuo a nacionalidade portuguesa.

Isso resultou em minha pele parda, e a de meus dois irmãos é mais branca do que vela... sendo que nossa educação foi totalmente inclusiva - tem que estudar pq é necessário para crescer na vida, não pq é branco, negro, amarelo, pardo, etc.

Caso eu preenchesse os requisitos (estudar em escola pública, nivel de renda e cor da pele), pq apenas EU teria direito ao benefício da Cota Racial??? Meus irmãos não teriam as mesmas condições sociais que eu??? Mas eles não teriam acesso às cotas por serem brancos???

Ainda considero isso uma discriminação com todo mundo que não é negro/pardo... Já que diferenciação de raça no Brasil é uma falácia.

 

Discordo enormemente desse texto.

2. As cotas raciais visam apenas a ser um instrumento de diversificação da elite brasileira. Em relação à inclusão social esse é um trabalho distinto, paralelo e, ainda que menos importante, também é necessário, pois o país será melhor se sua elite se reconhecer plenamente na população como um todo, o que ainda não ocorre atualmente.

Então cotas raciais são um instrumento que visa forçar a entrada de negros na elite a fim de torná-la mais "brasileira"? Perdão, se esse argumento por si só já não é um atentado ao bom senso, não sou digno de estar entre os comentaristas desse blog.

Até onde sei, elite é uma coisa ruim e não deveria existir, mas existe e deveria ser combatida ao invés de miscigenada para inglês ver.

 

3. Transformar as coras raciais em cotas sociais é um grande erro, pois:

ii) em termos de inclusão social, precisamos de políticas de universalização dos serviços públicos com qualidade. Cotas sociais nas universidades seria uma forma de eximir o Estado de seu dever de prover escola básica boa: "eu (Estado) não melhoro a escola, mas dou acesso aos pobres às universidades públicas de qualidade que foram construídas para os ricos".

Não eximem, são medidas paliativas e só. Servem para ajudar jovens brasileiros, brancos, negros e índios, a superaram a educação irrisória a qual tiveram acesso em sua trajetória escolar enquanto o governo toma as providências necessárias para que esse ciclo termine. Se isso não acontece na prática, culpe o governo, não o método.

4. Não podemos cair no fetiche da meritocracia. Será que é por falta de mérito que os negros são pouquíssimo representados nos cursos mais concorridos das principais universidades brasileiras?

Ora, mas é óbvio que sim. O que não é culpa deles, na maioria da vezes, é a sua própria falta de mérito. Se o negro (e o branco) pobre não tem acesso a uma educação de base válida e sua educação acabe por ser deficitária em diversos níveis graças a uma política pública de educação ineficiente, ele jamais terá chances equilibradas de concorrer com um branco (ou um negro) devidamente qualificado. Isso é culpa do governo e só. Se um branco e um negro competem entre si em termos equilibrados e o branco ganha, obviamente foi por ter mais mérito, e não porque foi favorecido. Vale notar que vestibular é um processo seletivo ruim, mas não é e nunca será "racista", pois não é, em nenhum nível claro, subjetivo.

Por fim, políticas de afirmação social não funcionam sem conscientização, são apenas uma parte pequena e fácil do processo. Taxar quem é contra às cotas raciais de "racista", "conservador", "direitista", etc... É só uma atitude leviana que não contrapõe os argumentos apresentados. É óbvio que pessoas assim existem, e são muitas, mas de nada vale forçar uma ideia falha e mal trabalhada só para posar de politicamente correto. Ponham a razão à frente das suas palavras e não deixem que ódio combata o ódio, pois fogo algum apaga o outro fogo.

 

Cotas, sejam raciais ou sociais, são apenas um paliativo superficial, que não resolve nem 10% dos problemas sociais do país. Alguém já se perguntou o que será dos outros 85% de negros e pardos que não vão entrar na universidade porque, muitas vezes, nem o ensino médio terminam? Como incluir socialmente pelo estudo com salários miseráveis e jornadas de trabalho de quase servidão? 

 

Exemplos de imprensa lulista: Conversa Afiada, Brasil de Fato, Carta Maior, Carta Capital, Luis Nassif Online. Mas, cuidado! Caso fale isso, seu IP pode ser banido. 


Realmente há muitos mitos sobre as cotas raciais.
Alega-se que as cotas raciais vão promover a inserção de maior número de negros ao ensino superior...  Diz-se subjetivamente que a escassez de negros nas universidades se dá em decorrência de discriminação em virtude de racismo. Sinceramente eu não acredito nisso.
Contudo, a representatividade proporcional de negros nas universidades não é menor que a representatividade proporcional de negros nos poderes Legislativo e Executivo.
Diante disso ainda cabe a alegação de racismo para explicar tal desproporcionalidade?
Claro que não! Quem elege seus representantes é a população! Essa população que, dizem, é de 51% de negros.
A Bahia, que é o Estado com população negra maior que de brancos, há tempos não elege candidatos negros...
Na média, os negros brasileiros vivem muito melhor que os negros africanos, que alias, estão emigrando da África pra cá.
A maioria de negros que conheço são contra as cotas raciais.
Entendo que se os negros acreditassem realmente que são discriminados, elegeriam candidatos negros! Por que isso não acontece? Só posso entender que é porque em sua grande maioria, eles não se sentem discriminados.
Essa lei de cotas raciais é coisa de gente branca, rica, demagoga e de olhos azuis. Gente cujos filhos jamais precisarão do subsídio estatal para o Ensino.

 

Este é um blog notadamente antipaulista! Paulistas, não se submetam docilmente a humilhações e manifestações de preconceito!! A internet é enorme.

     Os que reclamam das cotas raciais e sociais invocando a melhora no ensino fundamental e médio e também a meritocacria como base para entrada no ensino superior em universidades federais são de um cinismo revoltante, pois é do conhecimento geral que quem passa no vestibular para os cursos mais concorridos não são alunos de escola pública e muito menos de escola particulares. Quem passa para os cursos mais concorridos são os filhinhos cujus pais pagam altos valores para os cursinhos pré-vestibulares e que ainda por cima não precisam de trabalhar, contando assim com todo o tempo para estudarem.

 

Vamos lá então. Existem poucos negros nas universidades mais concorridas. Assim como existem poucos favelados, negros ou brancos. Por quê? Simplesmente porque as universidades federais foram criadas, desde sempre, para que os filhos da elite e burguesia estudem com alguma qualidade e custo financeiro familiar ínfimo. Divide-se o custo com toda a população e o, por exemplo, futuro médico, fica pendurado na universidade pública durante 12 anos, até o fim do seu doutorado. E sai daí para abrir sua clinica de cirurgia plástica. Particular, claro.


Para os menos favorecidos, temos cursos noturnos. Meia mentira. São cursos que a classe média e a elite não quer seus filhos perto. Filho de classe média que chegar em casa dizendo que quer ser professor, apanha...


Depois se queixam do baixo nível que chegou o ensino no Brasil.


A função do estado nacional é atender a população. Assim sendo, vamos inverter o que existe. O Estado Nacional garante, para toda a população, os primeiros anos de ensino, fundamental e médio. Depois, as unidades federativas então responderão pelo ensino superior, com apoio dos municípios.


Creio que vai sair mais barato, ter maior controle e melhor qualidade final.


 


 

 

Sem entrar na discussão das bobagens de Herr Miterhof, já devidamente tratadas nos comentários, pergunto se esse senhor tem alguma influência em algum lugar?

 

 

Sobre a falácia do risco de racialização, é preciso algum esclarecimento.

1. É preciso ter cuidado com uma confusão básica: a racialização (dentro da ideologia biologista) foi uma criação do imaginário Ocidental para reafirmar-se como povo melhor que os outros.

2. Esse imaginário estabeleceu bases que até hoje trazem consequencias, principalmente, para os negros.

3. Hoje a academia trabalha com o conceito de "raça" dentro de uma concepção agora sociológica, sempre entendendo os efeitos sociais daquela racialização e a resistência e as medidas contrárias a ela.

4. Portanto, houve um deslocamento de sentido desta palavra, o que deve ser considerado. Quando falamos em racismo hoje, ou quando falamos em raça, falamos dentro de uma teoria social e não de uma teoria biológica, embora saibamos hoje perfeitamente que a última é que construiu as bases do racismo.

5. Quando se fala em políticas raciais é sobre esta última concepção e não na primeira (biologicamente, falaciosa, portanto).

6. E preciso saber compreender as diferenças dentro das concepções e das nuanças epistemológicas de cada disciplina. 

7. A atenção é necessária, para que não vire conversa de bêbado: como esta história de falar de cotas raciais, como se "raciais" fossem puramente uma referência biológica. O STF entendeu a diferença.

8. Portanto, dizer que a concepção social de raça vai implicar numa racialização biológica do humano é uma estupidez e prova de que os termos estão sendo compreendidos pela sua base significante e não pela sua inserção discursivo-epistemológica.

9. A confusão entre um e outro é ideológicamente orientado: é uma estratégia de confundir o debate, e os debatedores; é como se algué disesse: cuidado, voltaremos ao século XIX!. Todos que fazem isso ou são desavisados e repetidores de mantras conservadores, reacionários e prejudiciais ao bom debate, ou são mal intencionados.

10. Para um debate mais qualificado, partir do conceito de raça na sociologia ,com leitura mínima apropriada.

Deixo algumas contribuições.

___________

BASTIDE, R.; FERNANDES, F. Relações raciais entre negros e brancos em São Paulo. São Paulo: Anhembi, 1995.

BOAS, Franz. Race, language and culture. Nova York: The Macmillan Company, 1940.

BLUMER, Herbert. The nature of racial prejudice. Social Process in Hawaii, Honolulu, v.5, p.11-20, 1939.

______. Race prejudice as a sense of group position. Pacific Sociological Review, v.1, p. 3-8, Spring 1958.

FERNANDES, Florestan. A integração do negro na sociedade de classes. São Paulo: Ed. Nacional, 1965.

GUILLAUMIN, Colette. Sexe, race et pratique du pouvoir: l’idée de nature. Paris: Côté-femmes, 1992.

GUIMARÃES, Antonio Sérgio A. Racismo e anti-racismo no Brasil. São Paulo: Editora 34, 1999.

______. Classes, raças e democracia. São Paulo: Editora 34, 2002.107

 

 

Weden, 

Na suas indicações bibliográficas, não entendi quais são autores acadêmicos dessa nova sociologia que inovaram com contribuições originais atualmente.

Citar Roger Bastide que usou a expressão "democracia racial", da autoria de Arthur Ramos, e apropriada por Gilberto Freyre em 1962, não é novidade, e Bastide se distancia do conceito definido por Florestan Fernandes, representante tanto como FHC (aluno) da chamada "escola paulista", na década de 1960. Darcy Ribeiro, antes amigo, teve profundas discordâncias com Florestan. Vale a pena ler os debates. 

A questão da raça como paradigma não é apenas do século XIX, estende-se até o governo de Getúlio. Nunca esteve separada das discussões sobre miscigenação, somente nos Estados Unidos e na Europa.  E quando o argumento de muitos para as cotas racias é a escravidão ou o pós-abolicionismo, não como desconhecer as discussões iniciadas ao final do século XIX. Quando se usa o termo afrodescendente também  há um problema, daquele século, referente à identidade nacional.  Sugiro ler Hobsbawn: "Nação e nacionalismo".  

Sugiro a leitura de autor antigo, mas genial: Manoel Bonfim, David Brion Davis (Slavery and Human Progress, 1984) e o magnífico "Mito Ariano", de Leon Poliakov.  

Estão na agenda dos estudos sobre "raça" como paradigma das ciências socias e nas pesquisas de História.

Basta lembrarmos que o sionismo usa nas escolas de Israel a expressão raça judaica. E que o criacionismo religioso pretende um lugar ao sol no imaginário social atual, apesar de não ser cientificamente aceito.

 

Depois do tema da imigração clandestina é agora a ideia de raça que está a despertar paixões na corrida para as presidenciais em França. O presidente-candidato Nicholas Sarkozy considerou hoje “ridícula” a ideia do seu principal adversário, François Hollande, que tinha proposto abolir as referências à palavra “raça” na Constituição Francesa. Durante a campanha eleitoral, o conservador Sarkozy tem vindo a piscar o olho ao eleitorado mais à direita, afirmando que há “demasiados estrangeiros em França” e ameaçando retirar o país do espaço europeu de livre circulação se a União Europeia não fortalecer as suas fronteiras externas contra a imigração ilegal.
“O ridículo ultrapassa todas as medidas” afirmou o presidente cessante numa entrevista à rádio Europe 1 em que reagia às declarações do candidato socialista.
Sarkozy : "Constituição é um texto sagrado"
"“A palavra raça está no preâmbulo da constituição de 1946 que é um texto sagrado (…) redigido pelos resistentes. Pessoas saídas da guerra que disseram que jamais deveria voltar a haver racismo “ disse. “No dia em que se suprimir a palavra racismo será que se terá suprimido a ideia? “ Enfim, é absurdo”, concluiu Sarkozy. No passado sábado, durante um comício dedicado ao ultramar, François Hollande anunciou que se for eleito, “pedirá ao parlamento para suprimir a palavra raça da Constituição”.
"Hollande: " A República não teme a diversidade"
“A República não teme a diversidade, porque a diversidade representa o movimento, representa a vida. Diversidade dos percursos, de origens e cores, mas não a diversidade das raças” disse o candidato socialista, que as sondagens apontam como favorito à vitória numa segunda volta das eleições presidenciais. “A França é porosa a todos os sopros do mundo” concluiu Hollande, citando um verso do poeta Aimé Cesaire, natural da Martinica. As últimas sondagens parecem demonstrar que a colagem de Nicholas Sarkozy aos temas tradicionais da extrema-direita lhe está a render alguns dividendos, pois pela primeira vez, o candidato conservador surgiu ligeiramente à frente de Hollande nas intenções de voto para a primeira volta."

 

Bonita a nova concepção da " academia " para a noçao de raça


Tem " academia " para muitas teorias.


Não faltou no passado " academia " admitindo raça na figura biologica e seu conceito maligno


agora uma tal " academia " politicamente correta " quer dar ou melhor ja deu noca conotaçao para " raça " ela no caso vira sinonimo de SOCIOLOGIA


Pega-se um termo , um conceito maligno e muda-se o significado dele ainda que originalmente seja voltado a o que sabemos , ou seja para dizer que PRETO é inferior ou se preferir DIFERENTE


No mundo moderno iluminista a gente toma o cuidado de falar para o POVO as coisas como ela são, ou seja as verdades são simples de facil aceitação sem necessidade de que a " ACADEMIA " reeinvente a roda.


Entao a mensagem é SIMPLES E DIRETA dispensando a releitura de uma " ACADEMIA "


A mensagem é a seguinte:


-TODOS SÃO IGUAIS


Com base nisso busca-se a IGUALDADE de DIREITOS não privéligos


Se uma sociedade é deturpada por uma classe politica abjeta sem compromissoa algum com o pobre ( leia-se negros tambem ) o problema não passa em uma " ACADEMIA " pegar um conceito abominavel e TRAVESTIR o mesmo de algum resquicio de humanidade ou decencia.


Daqui a pouco uma academia resolve reinventar tambem o termo RAÇA ARIANA ou RAÇA BRANCA com o vies CULTURAL


Pq não ?


Afinal basta a gente REINVENTAR O SIGNIFICADO DE ABOMINAÇOES para que elas se tornem legitimas certo?


  

 

leonidas

 

Leonidas, 

Vejo você proferindo um monte de bobagens aqui no blog e nunca reagi. Mas realmente, hoje (e só hoje) não tenho como ficar alheio a tanta repetição de lugares comuns tão pouco fundamentados.

Vamos a eles.

Primeiramente, sua terminologia é incompreensível do ponto de vista racional.

Se não, vejamos:

> Nova conceção para a noção de raça? Onde andou no mundo nestes últimos 50 anos? Leu alguma coisa sobre este debate? O que anda? De onde retirou este desconhecimento sobre o debate no racismo em diversas fronteiras disciplinares?

> O que isso tem a ver com policamente correto? Um termo que proliferou na mídia americana durante os anos 80/90? O que isso tem a ver com academia?

> O que significa um conceito maligno? Isso não faz parte de qualquer possibilidade de racionalização e compreensão teórica.

> O que significa "mundo iluminsta?". De onde você tirou este termo? Que diabo de oposição entre "iluminista" e concepções acadêmicas? De onde você tirou esta ideia?

> Onde você acredita que foi buscar esta concepção de "mensagem é simples e direta"? Qualquer tolice como as que você acredita pode ser retraduzida em mensagens simples e direta.

> Quem disse que todos são iguais? Quando se diz isso parte-se de um ideário jurídico. Mas a própria existência do racismo mostra que esta igualdade nunca é de fato

> Que papo de privilégio é esse? Entra na universidade é um direito. Não é um privilégio e não pode ser. Que coisa demagógica. Você nunca discutiu igualdade, nunca se preocupou com a pouca entrada do negro na Universidade e agora vem com essa conversa de igualdade? Menos hipocrisia por favor.

>  O que significa "sociedade deturpada"? Nem os positivistas acreditaram nisso. Sociedade é sociedade.

> Que argumentos chulos os seus: reinventar significados de abominações? È algo incompreensível para qualquer pessoa que se disponha a dialogar civilizadamente.

Menos, Leônidas. menos.

Seja menos pretensioso. Talvez melhore.

 

 

Pois é, Weden, a gente argumenta com o cara, achando que adianta alguma coisa pra ele melhorar, mas não. Pelo menos os companheiros do blogue podem avaliar o nível do debate. Parabéns pela qualidade e justeza dos argumentos.

Segue dica recente, com texto excelente sobre a questão:

http://revistaforum.com.br/idelberavelar/2012/05/05/a-midia-as-cotas-e-o-sempre-bom-e-necessario-exercicio-da-duvida-por-ana-maria-goncalves/

 

Oh cara desculpe


Não ser muito " academico "


mas cá pra nós vc sabe EXATAMENTE do que se trata não ?


se quer bancar o " acadêmico " com trechos cientificos para disfarçar o que esta na cara de todo mundo é outra coisa.


Todos sabemos que RAÇA não existe e que denominar isso como legitimo apenas pq a " Academia " ( termo usado primeiramente  por vc nao por mim ) reinventou seu significado não muda nada cara


Vai me desculpando mas vc mesmo ja tomou uma aula do Militao que esta anos luz na minha frente e ficou calado ou contra argumentou com bobagens de fundo emotivo.


No tocante a essa vergonha que são as cotas raciais nada que vc possa falar com pose de expert muda a realidade do que isso é e do que representou na historia humana.


quer debater significado onirico dessa aplicaçao junto ao povão?


Melhor manter esse assunto na roda academica amigo.


Nas ruas isso tem outro significado...


 

 

leonidas

Um doido varrido esse Marcelo, o mais incrível é o Nassif dar voz a esse lunático....

 

"Não existe testemunha tão terrível, nem acusador tão implacável quanto a consciência que mora no coração de cada homem." Políbio

Eu apoio as cotas raciais intuitivamente. Explico: não tenho conhecimento suficiente das estatísticas sobre a população brasileira para poder tirar uma conclusão rigorosamente científica. O pouco de informação de que disponho apontam para o seguinte:

- Negros sofrem mais desemprego que mestiços, que sofrem mais desemprego que brancos;

- Negros, quando empregados, ganham menos, pelo mesmo trabalho, do que mestiços, que ganham menos do que brancos;

- Negros têm menos escolaridade, em média, do que mestiços, que têm menos do que brancos.

Com base nessas poucas informações sou obrigado a admitir que, diante das oportunidades da vida, as possibilidades de negros, mestiços e brancos não são, de modo nenhum, equipotentes. E como sou devoto fervoroso da meritocracia, não consigo atinar em nenhum outro modo de garantir que apenas o mais meritório seja beneficiado, a não ser tomando medidas para que todos tenham as mesmas condições iniciais (ou ao menos as tenham disponíveis). Então, apoio cotas para negros, PROUNI para os brancos pobres (e negros e mestiços também), proteção extra para o trabalho da mulher, e toda ação afirmativa que possa ajudar às pessoas de talento emergirem da multidão mediana.

Para quem é mais novo, o valor dessas cotas podem estar por se provar. Para mim, que já estou bordejando o cabo da boa esperança, há um exemplo claríssimo de como são importantes e funcionam bem: não tem talvez 15 anos que começaram os programas para inclusão de deficientes no mercado de trabalho. Pois bem, lembro perfeitamente de quando era criança, pré-adolescente, de como era raro, raríssimo, vermos um deficiente físico nas ruas (exceto na medicância). Pois hoje há tantos deles trabalhando, ganhando seu pão com suor, que chega a me espantar. Fico sempre com a impressão de que estão brotando do chão, feito formigas. Mas a verdade é que, quando eu era menino, eles viviam enfurnados em casa ou acabavam como pedintes (ou vendendo bilhetes de loteria, pelas ruas). Em menos de duas décadas uma política simples de "discriminação positiva" arrancou do gueto milhões de deficientes. O que não fará uma outra, que lança no mais alto da piramide do trabalho pessoas hoje atoladas em guetos? Por isso, cotas, sim, cotas já!

 

texto precário que repete vários pre-conceitos racistas....quer saber quem é negro no Brasil? Fácil, a polícia sabe!

 

Alguém precisa avisar ao Marcelo que reparação não é compensação. Ninguém que ressarcir ninguém, mas corrigir um distorção causada por erros do passado que geram um ciclo vicioso que relega pretos e pardos às classes menos favorecidas da sociedade.

Não adianta brigar com as estatísticas, se não fosse feito algo para essa correção de rumos agora, perpetuaríamos injustiças.

 

Visitem o Blog Ponto & Contraponto. Twitter: @len_brasil Robozinho do blog: @pontoXponto

Já desisti na primeira linha. Como a população atual não sofreu com a escravidão?

Sofreu com a HERANÇA da escravidão. É por causa dela (escravidão) que os negros formam a maioria dos excluídos.

Assim, pode-se falar em reparação para a população atual porque seus efeitos ainda são sentidos por ela na forma de pobreza e racismo (vide cinema de Brasília).

Ou eu entendi mal, e essa primeira afirmação é que é um mito? Aí eu concordo.

 

Quem tudo quer, tudo perde!

Nada neste mundo evolui do selvagem para o civilizado, do inculto para o culto, numa só penada.

Tudo vai sempre por etapas.

Ignorar isso demonstra ingenuidade e falta de olhar para a realidade.

Aliás, o argumento de fazer perfeito da primeira vez sempre serviu para manter a pobreza, a concentração de renda, o nível de desisgualdade. Ou seja, uma justificativa para quem não quer fazer nada.

Então quer dizer que, por causa da política de cotas para negros nas universidades, nada mais vai ser concedido, nenhuma melhoria nas políticas sociais vai ser implementada no futuro?

Pelo amor de Deus.

 

 

 

sou favoravel as cotas raciais, mas sinceramente não da para dizer que cotas sociais não sejam efetivas, pois as politicas sociais se fosse realmente efetivas como e afirmado, não haveria necessidade das cotas raciais!

 

 

"A verdade é a melhor camuflagem. Ninguém acredita nela." MAX FRICH

Sabe é incrível como esta elite predominantemente branca que  são contra as cotas,insiste em argumentos falaciosos,baseados apenas em uma visão atávica estreita,torta .Não se viu ainda quaisquer ong,movimento,ou coisa que valha de negros contra o sistema de cotas.Quaisquer opiniões,idéias,que não se tenha discutido,debatido com representantes reconhecidos de movimentos negros,caem na vala comum do paternalismo,do racismo.Essa coisa histórica e abjeta que a sociedade branca,patriarcal,machista e homfóbica,de que são os sabedores de tudo,eles que decidem o que é bom ou não para outras etinias,minorias,as opiniões destes não são importantes.è sempre a mesma empáfia de achar que sua opinião ,seus argumentos são válidos e nós não passamos de sub-espécie que precisa ser tutoriada, guiada qual um cão na coleira.Graças o supremo deu-se um basta a este tutoriamento,nossa auforria vem sendo conquistada na luta dia a dia por melhores condições de nos inserirmos na sociedade brasileira em condições de igualdade 

 

"...elite predominantemente branca..."


 


Olha Otaviani


Vc não tem como dizer em 90% dos casos ( e olha que estou falando de fenotipo ) quem seja branco ou negro.


Existem pessoas de pele mais clara que a sua que são mais " afrodescendentes " que sua pessoa.


Sua concepção do que venha  a  ser branco ou negro é POLITICA e como tal não passa de FALACIA ...


 

 

leonidas

Discordo desse item.

 

Uma reparação á população negra. Isso é impossível e inconcebível. Os negros de hoje não sofreram coma escravidão e os brancos de hoje não foram responsáveis por ela.

 

É evidente que as dificuldades dos negros de hoje está diretamente relacionada ao passado escravista. Eles ainda sofrem com a escravidão.

 

 

Entre aqueles que pregam as cotas socias no lugar de cotas raciais, e não adjuntas a estas, temos:

1. Aqueles que sempre pensaram assim, e se inconformavam com um sistema de seleção injusto e enganoso.

2. Aqueles que nunca pensaram assim, mas foram despertados pelas discussões sobre o sistema de seleção injusto e enganoso.

3. Aqueles que não acham o sistema de selação injusto e enganoso, mas passaram a pensar nas cotas sociais, porque acham que são "um mal menor" que as cotas raciais.

4 Aqueles que nunca se preocuparam com o sistema, e sempre usufruíram dele. Nunca pensaram no racismo na sociedade brasileira. Nunca pensaram em igualdade, nunca pensaram em justiça social, até que um dia as cotas raciais são colocadas em pauta. Aí desesperados pensaram em cotas sociais como paliativo para acalmar os "radicais". E escrevem milhares de artigos sobre como defendam uma sociedade justa e igualitária.

 

Aconselhamos que os dois primeiros grupos se afastem dos dois últimos. Apesar da coincidência de opiniões em um aspecto, todo um histórico os diferencia.

 

Sociedade justa e igualitaria é utopia


Não exista sociedade totalmente justa seja no campo social/economia como entre a harmonia no trato com o diferente


Achar que magica ou ideal racialista mude pessoas é uma ingenuidade muito grande


Não podemos impedir alguem de ser racista mas podemos criminalizar isso de modo a esse alguem ser obrigado a guardar seu venono consigo mesmo.


Mas o problema é que fomos atras do ideal racialista desses!


E naoconcepção absurda de alguns , tornar a pregação da figura de RAÇA como algo aceitavel e parte do ornamento juridico de uma nação tornaria  o combate ao racismo algo infinitamente mais poderoso


Isso é sofisma de racislistas ( nao todos )  que compartilham com os racistas da ideia que não deve haver integraçao e sim AFIRMAÇAO DE UMA IDENTIDADE RACIAL


Ou seja a contrução de um mundo onde haja ascenção social mas cada um na sua RAÇA


esse é o ponto ignorado seja de modo deliberado ou não


Achar que reconhecer na forma da lei algo insano como racializar a sociedade seja util para combater o racismo é o mesmo que confundir o conceito de liberdade que temos na democracia


Na democracia não temos liberdade no sentido pleno do termo , temos autonomia que usamos para decidir onde iremos lutar para nossa sobrevivencia e no caso de falharmos onde iremos passar necessidades...rs


Ou vender nossa força de trabalho por pessima renumeraçao para alguns poucos viverem como reis...

 

leonidas

Uma sociedade em que todos, todos mesmo,  tenham oportunidades iguais é realmente uma utopia. Mas não quer dizer que não podemos fazê-la menos desigual. É isso que se está tentando fazer. 

 

No entanto, ainda que seja verdade que os negros são menos capazes intelectualmente (sim, apesar de a inteligência ser outro fetiche moderno, isso é possível: a inteligência é algo difícil de comprar por sua subjetividade, mas pessoas e populações se diferenciam por ela)

Parece-me que o autor cometeu um erro de grafia ai, até pensei que se tratava de um racista mas não é o caso, trata-se de um cientista social a favor dos pretos, de forma que, pelo se texto publicado em 2004, o correto seria ele ter grafado "No entanto, ainda que não seja verdade que os negros são menos capazes intelectualmente..."


JC e-mail 2566, de 19 de Julho de 2004.

 Cotas raciais e diversificação da elite, artigo de Marcelo Trindade Miterhof  

O estabelecimento de cotas pretende diversificar a composição racial da elite brasileira, de sua classe média em especial 


Marcelo Trindade Miterhof, mestre em economia pela Unicamp, é economista do BNDES. Artigo publicado na ‘Folha de SP’ (marcelomiterhof@uol.com.br): 

Acompanho mais detidamente o debate sobre o estabelecimento de cotas raciais nas universidades públicas brasileiras há pouco mais de três anos. 

Pessoalmente, tive de início uma posição contrária às cotas raciais. O argumento basicamente era o de que, como o único critério democrático de definição da cor ou raça é a autodeclaração, as cotas provavelmente criariam atritos, mas se tornariam inócuas. 

Comecei a mudar de idéia ao verificar que alguns especialistas na questão racial se diziam ‘mais contra do que a favor’ das cotas, mas faziam questão de ressaltar que não se posicionariam publicamente dessa forma: o debate em si já seria um grande avanço, mesmo que houvesse uma radicalização das posições. 

O debate realmente se disseminou. É difícil encontrar alguém que negue que a incorporação dos negros ao progresso econômico experimentado pelo Brasil no século 20 foi ainda mais malsucedida do que a redução das desigualdades sociais. Porém a solução propugnada para a questão racial é a mesma defendida para o problema social: são necessárias políticas de universalização da educação, saúde e outros serviços públicos. 

É claro que a redução das desigualdades sociais é um objetivo primordial da incipiente democracia nacional. Mas esse é um problema diverso daquele que as cotas raciais pretendem enfrentar. 

Ainda que o Brasil consiga, nas próximas décadas, reduzir suas disparidades sociais e o padrão de vida da população negra melhore, sem uma política de ação racial afirmativa é provável que os negros continuem predominantemente na base da pirâmide social brasileira. 

O estabelecimento de cotas pretende diversificar a composição racial da elite brasileira, de sua classe média em especial. Se essa diversificação ocorrer conjuntamente com uma diminuição das diferenças sociais, tanto melhor. Porém, se o Brasil, injusto como é hoje, tivesse uma elite mais heterogênea, já seríamos um país melhor.

Tive poucas oportunidades de presenciar ocasiões em que negros, mulatos e brancos dividiam um espaço claramente de elite em proporções semelhantes. Todas foram em São Paulo e em eventos ligados à cultura negra. Mas, se a diversificação racial da elite conseguir tornar corriqueira essa imagem, duvido que a Polícia Militar em suas blitze irá parar muito mais negros do que brancos. 

Duvido que cruzar com negros ou mulatos em ruas desertas vá suscitar mais temor nas pessoas em geral do que cruzar com brancos, ainda que o problema da violência continue tão grande quanto é atualmente no Brasil. 

O objetivo do estabelecimento de cotas raciais em universidades públicas é, portanto, o de facilitar -por um tempo determinado, próximo ao de uma geração- o acesso de jovens negros e mulatos a uma educação superior gratuita e de qualidade, visando permitir que parcelas da população negra obtenham um salto social de forma a tornar menos homogêneas do ponto de vista racial as classes sociais mais abastadas. 

Uma política de cotas raciais precisa, porém, interferir mais diretamente nos mecanismos de apropriação da renda. Nesse sentido, são necessárias não só as cotas nas universidades públicas, como também o estabelecimento de cotas raciais de empregos. 

Admito a dificuldade de implementar uma reserva de 20% ou 30% dos empregos para negros e mulatos. Interferir tão abruptamente na gestão dos negócios privados poderia trazer mais danos do que benefícios. 

Mas esse não é o caso do setor público, que por determinação constitucional deve contratar por concurso. No BNDES, por exemplo, o efeito demonstração do aumento do percentual de técnicos negros ou mulatos seria significativo, já que a elite empresarial nacional negocia diariamente a obtenção de financiamentos com o banco. 

É possível até que a adoção de cotas raciais nas universidades e no setor público induzisse a iniciativa privada a também promover a diversificação racial de seus quadros de funcionários, de modo semelhante ao que já vem sendo feito em relação ao aumento da participação das mulheres. 

Ainda tenho dúvida se o critério de autodeclaração tornaria as cotas inócuas. Ao Estado não cabe apontar quem é ou não é negro, mas as pessoas fazem essa distinção com boa precisão. Isso significa que haverá provavelmente mecanismos de coerção social que tenderão a desestimular autodeclarações oportunistas. 

O estabelecimento de cotas raciais não pretende compensar a população negra pelos absurdos cometidos contra seus ascendentes por mais de três séculos -isso é impossível de ser compensado. As cotas são apenas uma tentativa de reconciliação do Brasil consigo mesmo, de agora para a frente. 
(Folha de SP, 19/7) 

http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=20175

 

Calendário SPIN

Qual o problema se surgir uma elite formada por esta gente preta. Se a sociedade é dividida em classes, com o tempo é bem provável que surja sim esta elite, médicos, dentistas e empresários pretos. Ontem mesmo ao conversar com um jovem preto ele me disse que fazia medicina na UFG, até pouco tempo atrás era raro ouvirmos este tipo de resposta. Uma espécie de Bolsa Família contemplaria os pretos? A Bolsa Familia já existe e cumpre seu papel.  As cotas raciais dizem respeito a ingresso em universidade, o PROUNI faz o papel de cotas sociais. As cotas raciais precisam ser mantidas até que, pelo menos, se forma a tal elite de pretos e pretas neste pais, não creio que isso resulte em conflitos raciais, como correu nos EUA, a nossa história é bem diferente, a miscigenação por aqui sempre foi pacífica e isso não vai mudar. Quando o fosso social entre brancos e pretos diminuir e chegar a um nível pelo menos aceitável, ai sim, as cotas raciais poderão ser extintas, no momento são necessárias.

Tarso defende mudança na Constituição para incluir obrigatoriedade de cotas raciaisEm entrevista à Carta Maior, o governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, avalia que a decisão do STF que considerou constitucional a política de cotas raciais permite avanços maiores na busca pela igualdade. “Ganhamos o debate político, mesmo tendo a maior parte da mídia contra.” Agora, Tarso defende que se debata no Congresso uma alteração na Constituição que institua, por um período determinado, a obrigatoriedade de vagas para afrodescendentes nas instituições federais de ensino superior.

Madri - Ministro da Educação em 2004, época em que foi implementada a política de cotas raciais nas universidades públicas, o governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro (PT), avalia que a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que considerou constitucional essa medida permite avanços maiores na busca pela igualdade no País. “Ganhamos o debate político, mesmo tendo a maior parte da mídia contra.” Agora, o petista defende que se debata no Congresso Nacional uma alteração na na Constituição Federal que institua, por um período determinado, a obrigatoriedade de vagas para afrodescendentes nas instituições federais de ensino superior. 

Tarso expôs sua análise sobre o tema em uma entrevista exclusiva em Madri, onde participou de um seminário sobre a crise de representação e os desafios da democracia, com pensadores de Espanha e Portugal no final de semana. O governador gaúcho argumentou que o modelo neoliberal tenta desprestigiar a política para fortalecer a presença do capital no Estado. E que isso faz com o que o cidadão se afaste da vida pública. Ele ainda opinou sobre movimentos da sociedade civil como Os Indignados e projetou a ação da esquerda a partir da vitória de François Hollande na França:

“Pode ser o início de uma mudança nos padrões políticos da integração europeia, com reflexos na economia. Agora, isso só é determinável pela própria política, os partidos tem que querer. Se Hollande fizer apenas remendos, a crise vai se resolver através desses métodos que estão sendo propostos hoje e que tem abalado a comunidade trabalhadora.”

O senhor ficou satisfeito com a recente decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre a constitucionalidade da política de cotas raciais nas universidades públicas, inciada quando o senhor era ministro da Educação?

Tarso Genro: Na época houve uma movimentação muito grande dos setores mais conservadores, uma tentativa de impugnar essa política. Diziam que iria rebaixar a qualidade da universidade, o que se comprovou improcedente. Foi um debate duro, fui muito atacado, ridicularizado e até mesmo ofendido por setores da imprensa conservadora. Teve um articulista de São Paulo que chegou a me chamar de racista! Essa decisão do Supremo permite que se adotem políticas de discriminação positiva. Isso não deve perdurar para sempre: quando tivermos um nível de coesão maior e não houver mais essa combinação de miséria social com vínculos raciais como temos hoje, as cotas podem ser extintas. É uma política democrática porque as camadas mais pobres, de afrodescendentes, que historicamente foram discriminadas, passam a sentir-se pertencentes à democracia. Isso é bom para ricos, pobres, é bom para a formação de uma ideia de nação.

E a cobertura da imprensa agora, como foi na sua avaliação?

Tarso Genro: Foi parcial, inclusive a cobertura do resultado (do julgamento do STF). As notícias foram dadas reconhecendo a decisão, mas a maioria o fazia criticamente, como se o Supremo estivesse adotando uma posição errada. Essa questão não diz respeito somente à mídia, é reflexo de um conceito de Brasil, de nação, de uma visão pré-moderna do significado da igualdade. O princípio da igualdade formal contém o princípio do tratamento desigual aos desiguais para que as pessoas possam ser iguais formalmente. Essa decisão do STF é uma aplicação plena do princípio da igualdade formal, porque trata desigualmente os desiguais, já que é comprovável empiricamente que negros e pobres têm mais dificuldades de entrar na universidade. A partir do momento em que se cria uma cota, se abre uma possibilidade de que as pessoas sejam tratadas de forma mais igual. Em momentos como esse, essas visões mais conservadoras se expressam de uma maneira meio raivosa, eu diria até meio fascista. Mas teve um conjunto de acadêmicos, de pessoas que não sustentavam essa posição, que fizeram um debate elevado e qualificado.

Essa decisão do STF deve diminuir a resistência às cotas?

Tarso Genro: Sempre vai haver resistência porque se trata de uma concepção de democracia e de mundo. O Supremo termina com o contencioso jurídico, com a interpretação constitucional, o que deve criar movimentos de simpatia dentro das universidades federais para desenvolver políticas desse tipo. Mas coisas como essa sempre tem um lento processo de assimilação. O fim da escravidão, por exemplo, tem um marco legal da sua decisão política no país (a abolição da escravatura, em 1888), mas precisou passar décadas para que fosse assimilado por setores da sociedade que tinham uma cultura de rejeição da comunidade afrodescendente.

Tanto que o movimento negro mudou o dia da consciência negra para a data da morte de Zumbi dos Palmares...

Tarso Genro: E isso demorou muito...

Segundo IBGE, entre 1997 e 2007, o percentual de negros nas universidades aumentou só 1,8%. A adoção das cotas, em 2004, ainda é muito recente para ter um impacto maior?

Tarso Genro: Esse número é consequência do fato de que nem todas as universidades públicas aplicam as cotas. Também porque em determinadas regiões há uma frequência muito grande de negros e afrodescendentes na universidades, caso da Bahia. Esse dado também está relacionado com o fato de que não é massivo o percentual de afrodescendentes que termina o ensino médio. E essa mesma estatística no âmbito do Prouni é diferente: nas universidades privadas que adotaram o programa, dobrou o número de afrodescendentes matriculados: eram 22% e chegou a 44%. Mas esse avanço de 1,8% nas federais é muito positivo, são milhares de famílias dos setores mais subalternos da sociedade que abrem uma nova possibilidade de vida.

No ano passado o Censo apontou que mais da metade da população brasileira se considera não branca. Já é um reflexo de medidas como esta?

Tarso Genro: Acho que sim. Mas o Brasil, em função da colonização portuguesa não é um país essencialmente racista, como foram os Estados Unidos. Sempre me opus aos dirigentes do movimento negro que colocavam nosso país como racista. Temos certa discriminação social e racial originária da escravidão, que está muito mais vinculada à cor da pele do que à descendência. Por isso é muito mais fácil combater esses preconceitos. A decisão do STF é uma grande interferência nessa cultura. É bom para irmos compondo uma ideia de nação mais coesa, menos discriminatória.

Tendo em vista que é o próprio candidato a universitário que se declara cotista, é possível diminuir distorções, como o caso dos gêmeos em que um se inscreveu como negro e o outro como branco?

Tarso Genro: Essa distorção é fruto de uma análise não do conjunto da proposta, mas de uma visão meramente lógico-formal. Fica parecendo que basta a pessoa se autodeclarar afrodescendente para ter a vaga assegurada. Mas neste caso, ela vai concorrer num âmbito menor de vagas, logo, vai ser tão duro para ela entrar na universidade quanto para os demais. Não há uma vantagem nisso, a única vantagem é que se garante na universidade o percentual de afrodescendentes correspondente ao percentual que existe entre a população. É uma política engenhosa e correta.

O senhor falou em um processo que irá avançar ao longo do tempo. Isso vale, por exemplo para as universidades públicas - nem todas aplicam as cotas?

Tarso Genro: Pelo que estou informado é uma minoria das federais que adotam, mas isso agora vai evoluir. A decisão do Supremo dá legalidade e legitimidade para essa política e vão ocorrer movimentos e diálogos no âmbito das federais para que elas adotem as cotas. É preciso lembrar que essa decisão não obriga as universidades a aplicarem a política de cotas. Isso está reservado à autonomia das instituições de ensino superior. As cotas só são obrigatórias no âmbito do Prouni, porque aí decorre de uma lei.

Mas há alguma autocrítica a ser feita a essa política?

Tarso Genro: Não, pelo contrário. Poderíamos lutar para colocar um dispositivo na Constituição Federal, que tivesse validade transitória, e que obrigasse a aplicação da política de cotas por dez anos em todas as universidades federais. É uma abertura que o Supremo está dando, mas não sei se os nossos legisladores conseguiriam o percentual para fazer uma reforma dessa natureza. É uma política positiva, que deve ser temporária. Governos com políticas públicas fortes podem ter uma interferência muito grande na mobilidade social, que no Brasil é travada pela desigualdade e por questões de preconceito de cor e projeção da escravidão na mente das pessoas até hoje. 

O fato de ter sido uma aprovação unânime do STF pode interferir positivamente em uma eventual reforma da Constituição?

Tarso Genro: Ajuda e mostra que ganhamos o debate político, mesmo tendo a maior parte da mídia contra. Foi um debate feito nas academias, nos sindicatos, nas redes, na imprensa - inclusive por parte de alguns grandes jornais que abriram espaço para uma opinião alternativa. O Supremo é uma instância política e jurídica da nação, é onde a política se encontra com o direito através da Constituição. Obviamente o debate que se travou nesse período teve influencia sim - se os nossos argumentos tivessem sido soterrados pelos adversários da política de cotas, provavelmente não seria essa a decisão do Supremo, pelo menos no que se refere à unanimidade.

Passando agora à sua agenda aqui na Europa. A crise econômica vem sendo combatida com medidas de cortes nos gastos públicos, inclusive em setores como saúde e educação. Há protestos, mas não se constituiu uma alternativa. Qual é a sua avaliação da crise econômica?

Tarso Genro: Não podemos ter a arrogância de julgar a crise europeia porque a estrutura social e política aqui é mais avançada e consolidada que no Brasil. Mas podemos apontar três elementos da crise: o primeiro é que foram constituídos na Europa projetos social-democratas sem fundos. A sociedade projetou nas leis e nas Constituições um sistema de proteção social que, para manter, o Estado precisou se endividar. O segundo problema é que os padrões de integração da União Europeia são ditados hoje por um país que fez uma social-democracia com fundos, a Alemanha: tem forte presença no comércio internacional, base tecnológica, uma instância produtiva de alta qualidade que permite que o Estado financie a social-democracia. Tanto que as perdas dos trabalhadores alemães nesse período são infinitamente menores em relação ao resto da Europa. E, em terceiro lugar, o que se observa é que aquela visão que julgávamos que estava acabada - a de que não há alternativa ao neoliberalismo - não está.

A própria social-democracia incorporou a fatalidade da constituição da União Europeia a partir dos padrões ditados pelo Banco Central Alemão. Isso determina esse esgarçamento social que está aí na Islândia, Irlanda, Grécia, Espanha, Itália, Portugal. A crise tem uma dimensão econômico-material e também uma dimensão política. As saídas só poderiam ser estas? Tem uma parte da esquerda europeia que diz que não, defende a emissão de Eurobonus garantidos não pelos bancos mas pelos estados, pedem recursos para modernizar e qualificar a sua base produtiva e não dinheiro liberado para salvar os bancos.

A própria chanceler alemã, Angela Merkel, já admite a possibilidade de um plano de crescimento. 

Tarso Genro: Isso já é resultado dessa terceira questão, que é a questão política. A sinalização que está dando a França com a vitória de Hollande - embora dificilmente tenha efeitos a curto prazo nas saídas para a crise - enuncia a possibilidade de uma renegociação, mas que só pode ser feita a partir de critérios políticos que a oposição antineoliberal adote, senão ela não sairá. Porque a “solução” natural da crise é esta que está aí. A outra é uma solução politizada.

A esquerda não deu solução para a crise - como aqui na Espanha com o Partido Socialista (PSOE) - e a direita voltou ao poder em diversos países europeus. A eleição de Hollande na França pode ser o início de uma guinada à esquerda?

Tarso Genro: Pode ser o início de uma mudança nos padrões políticos da integração europeia, com reflexos na economia. Agora, isso só é determinável pela própria política, os partidos tem que querer. Se Hollande, ao invés de propor uma mudança na integração europeia, fizer apenas remendos, fatalmente a crise vai se resolver através desses métodos que estão sendo propostos hoje e que tem abalado a comunidade trabalhadora da Europa, particularmente na Espanha, Portugal e Grécia.

Essa incapacidade de dar soluções ao problema econômico é o que gera a crise de representação dos partidos políticos?

Tarso Genro: A crise do regime democrático é uma crise de encontro do capitalismo com a democracia. Não é que a democracia política seja inviável no capitalismo, já se demonstrou que é. Mas no momento atual, para que o projeto neoliberal continue em curso, é necessário degradar as instituições políticas, reduzir a importância dos partidos e acentuar a impotência da mobilização social que se contrapõe ao projeto neoliberal. E isso está sendo feito de maneira meticulosa. Uma das questões chave para que represtigiemos a democracia é derrubar as barreiras burocráticas que separam o Estado do cidadão comum. Segundo, revitalizar a política e os partidos. E, terceiro, desenvolver políticas públicas que sejam compreendidas pela sociedade. Constituindo um sistema de participação popular cidadã por vários meios - virtual, assembleias presenciais, consultas e referendos, conselhos - para que a sociedade produza em conjunto com o Estado as políticas públicas que a façam avançar. Nesse processo, uma das questões mais importantes é a gestão. Ela foi praticamente dominada pelo pensamento neoliberal: para que fosse boa, tinha que ser despolitizada e feita por burocratas técnicos sem sensibilidade política e sem mente social. 

A chamada profissionalização da gestão do setor público...

Tarso Genro: Com funções pré-vistas desempenhadas como se o gestor público fosse um parafuso de uma grande engrenagem. Isso é uma posição das mais radicalmente políticas que eu conheço, é como o fascismo trata a sua burocracia e como os regimes autoritários querem os seus funcionários, que tem que ser um elemento apenas da máquina e não pessoas que pensam. Então, um governo democrático que queira fazer mudanças deve ter uma gestão com uma base técnica profunda, funcionários qualificados e preparados, mas que seja política. Porque deve incorporar nas suas decisões a sensibilidade com que a sociedade olha os programas que o governo político propõe. Se isso não ocorrer, aumenta o distanciamento do cidadão comum do Estado e em consequência ele vai ser mais hostil à politica, ao Estado e a sua mente vai ser cada vez mais dominada por esta aparente facilidade neoliberal: a de que o Estado é uma máquina e que deve ser mandado pelas finanças e pela visão tradicional do enxugamento da máquina, que resolveria todas as questões. 

Foi nesse vácuo de representação que surgiram Os Indignados e o Ocuppy Wall Street, que não se sentem contemplados por esse modelo. Qual é a sua avaliação desses movimentos?

Tarso Genro: Aí tem que fazer uma digressão para a questão dos partidos políticas. A forma moderna de organização partidária, que começou com força no século XIX, está totalmente superada. Os partidos se ergueram sobre sociedades tipicamente classificadas, de classes bem identificáveis que projetavam as suas expectativas nos partidos que as representavam. Com as mudanças na sociedade capitalista nos últimos 40 anos, as classes sociais se reestruturaram. Criou-se uma constelação de sujeitos que não cabem mais na representação de partidos. Por exemplo, esses novos trabalhadores que são microempresários autônomos, cujo trabalho é controlado pelo resultado e não na linha da fábrica moderna. O que eles são? Empresários? Trabalhadores de média renda? Alguns recebem menos do que um operário especializado. Então, essa fragmentação da sociedade não foi acompanhada pelos partidos, nem nos seus programas nem na sua organização interna. Vocês sabem de algum partido que tenha um sistema de consulta para sua base social, ou para quem não é a sua base social, para tomar as suas decisões? Não existe esse partido! 

As decisões são tomadas pelas cúpulas...

Tarso Genro: Os partidos ainda estão naquela visão de cima para baixo e de baixo para cima, não da maneira horizontal como é a sociedade em rede na transmissão da inteligência, da informação, dos processos produtivos, das novas tecnologias, e assim por diante. Então, essa turma que está emergindo não se sente representada. O problema é que cada um deles é um: não formam um grupo homogêneo, tem desde vegetarianos radicais até pessoas que querem democracia direta por redes virtuais. Isso coloca o movimento com uma certa impotência, é preciso constituir formas de representação e de organização de um programa comum. Quem sabe possa ser o controle público do Estado através de democracia direta virtual ou de mecanismos de transparência. Eles são um sintoma, sua presença na cena pública é um elemento de democratização da sociedade, mas ainda estão longe de exercerem influência nas decisões de governo e de Estado.

http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=20104

http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMostrar.cfm?materia_id=20104

 

Calendário SPIN

Peraí, peraí, incluir na Constituição para quê? Eu estou notando que as pessoas perderam a noção do que é uma Constituição, e assim acham que basta ser um conteúdo importante para merecer estar nela. Isso infla muito o texto constitucional e pode ter o efeito de diminuir a estabilidade do sistema constitucional. Se até os defensores das cotas raciais sugerem que elas devem ser uma medida para a criação de uma elite negra mais robusta e nivelar o quadro socioeconômico das pessoas conforme sua cor autodeclarada, então isso sugere que é uma medida com previsão para se tornar menos útil com o tempo até um dia se acabar. Basta um consenso em torno de uma lei federal ou estadual, já que medidas como essas necessitam ser adaptadas, revistas e quem sabe um dia revogadas conforme as necessidades que apareçam no futuro. Portanto, não é uma matéria adequada para ser posta na Constituição.

 

Pronto mais demagogia politica


alias esse é o principal componente nessa empreitada que fez pó do texto constitucional que diz:


-Todos são IGUAIS perannte a lei sem distinção de QUALQUER NATUREZA...


antes que começem a relativizar citando coisas como Genero ou deficiencia publica


A gente lembra que nesses casos não há distinção entre os tais desde qeu sejam do genero em questao ou portem a deficiencia seja visual , auditiva, fisica ou mental


Cotas raciais são nocivas não pelo objetivo delas ( pelo amor deus...rs ) e sim pelo que representam e a adoção dessa DISTINÇAO no ornamento juridico brasileiro abre as portas para passos e iniciativas de maior envergadura (  essa é uma delas ) e o desdobramento de privilégios ( sim priveligios pois Direito é algo de carater UNIVERSAL ) em segmentos distintos é algo absolutamento hediondo porem legal do ponto de vista juridico.


Paciencia vamos ver no que isso vai dar...

 

leonidas

Todos são iguais perante à lei "na medida das suas desigualdades". Nosso jurídico está eivado de discriminações positivas. Mulheres, idosos, crianças, deficientes, militares, professores da rede pública etc. Mas quando se fala em relação aos negros nosso incsconciente escravocrata vem à tona, aí não pode, é um absurdo!!!!

 

"Ainda que seja verdade" é muito diferente, na verdade normalmente o oposto, de "ainda que FOSSE verdade"...

 

As pessoas gostam de confundir as coisas a pretexto de explica-las


Entao a gente esse chavão que cota racial não ira criar nada que não exista


Todos sabemos que racismo existe


O que parece ser ignorado por conveniencia seja pela demagogia politica ,por ingenuidade ou radicalismo de viés racialista é que:


-Devido o altissimo grau de misceginação brasileira o RACISMO ocorre entre NEGROS de DIFERENTES FENOTIPOS


E reconhecer que exista racismo é uma coisa.


Conceber acatar a distinçaõ de cidadãos através de algo INEXISTENTE COMO RAÇA é outra


Raça é produto politico da pior especie , sua criaçao é fruto da necessidade de DISTINGUIR  as pessoas e atraves disso poder separa-las se para o bem ou para o mal isso é um detalhe.


O ponto é acatar essa ideia maligna que no passado só serviu para desgraçar a humaninade e em uma crise de Demagogia ou da figura do politicamente correto, tem gente achando que vale a pena resgatar esse LIXO DO PASSADO HUMANO só porque em tese seria usado " dessa vez " para o bem.


A qeustão toda é CONCEITUAL não necessariamente de opinão se isso ira ou não gerar mais racismo.


Até pq como ja sabemos se combate racismo atraves da NÃO ADOÇÃO de ideias RACIALISTAS


Nem todo racialista é necessariamente racista, mas TODO racista é racialista.

 

leonidas

1- É impossível abordar essa questão sem racialismo.

2- A abordagem racialista vai gerar racismo? A experiência nas universidades brasileiras que adotaram cotas mostra que não.

3-Quem é contra o sistema de cotas é a favor do Apartheid universitário, onde na prática 99,5% das vagas são preenchidas por gente de pele branca - num país em que a maioria da população é afrodescendente. Quem frequentou algum curso universitário um pouco mais concorrido sabe disso muito bem.

4- Os cotistas serão profissionais menos capazes? Falso. Veja a média harmônica dos últimos cotistas aprovados, ela é alta. Os cotistas inscritos nos vestibulares concorrem entre si, não pegam a vaga de mão beijada. Só passam os que tiverem melhor desempenho nas provas.

 

Mas que exagero, cara. Eu fiz meu curso superior no Direito da Universidade Federal do Ceará (UFC), um dos cursos mais concorridos do Estado e talvez do País, e posso garantir que, embora a presença de negros fosse notoriamente menor, a disparidade não era de um modo a excluir totalmente os afrodescendentes (suponho que por esse termo você quer abranger também os pardos, embora muitos deles sejam caboclos acima de tudo, não é?). Diria que, na minha turma como nas demais, os brancos deviam ser 50%, os negros algo como 5% e os pardos uns 45%, o que não está muitíssimo distante da realidade de cor autodeclarada no Estado do Ceará (onde, arredondando, 33% são brancos, uns 7% são negros e o restante 60% são pardos). Certo é apenas que todo mundo, salvo 1 ou 2 pessoas da minha turma, era de classe média até a classe alta, e aí sim a disparidade sempre foi e continua sendo absurda: 98%/99% das pessoas são da classe média/alta, talvez 1% ou 2% são pobres. Como as classes mais altas são mais brancas (talvez isso seja menos parte da realidade no CE, que historicamente teve uso pouco maciço da mão-de-obra escrava), imagino que aquela disparidade entre as cores se explica em boa parte em razão dessa disparidade - essa sim horrenda, impressionante - entre as origens de classe dos alunos.

 

Eu cursei um curso pouquíwwimo concorrido mas estudavajunto com cursos que na época eram muitíwwimo concorridos e 99,5% do salunos eram mestiços.

 

Abordar a questao da inclusão no ensino superior sem adotar o vies racialista


alem de possivel seria , é , e ainda sera FUNDAMENTAL


Afinal não temos necessidade alguma de adotar criterio que não existe e só tem finalidade politica


Não cabe e nunca foi intenção julgar o mérito do aluno cotista 


Isso é absurdo a partir do momento que se defenda cotas sociais, ou cotas sociais não são cotas?


agora abordar a inclusão no ensino superior e não só nele como fundamental e médio não passa por racialismo


Passo por politica de estado no trato da educaçao publica


Nesse interim para salvar e resgatar socialimente todas as geraçoes abandonadas aceita-se o criterio social para cotas


Mas observe que NADA FOI FEITO PARA INCLUSÃO seja no superior ou fundamental e médio


pois a questoa é pura demagogia e radialismo ... 

 

leonidas

mitos são as opiniões do Marcelo


1) É claro que é reparação. Reparação do racismo e discriminação que os negros sofrem hoje. Ou alguém ainda acredita nas mentiras cínicas de ali kamel?


2) Inclusão social sim. Auxilia a ascenção social dos negros.


3) Sempre a tentativa de opor cota para os negros x cotas sociais. Cotas para negros não excluem existência das cotas sociais. 


4) Meritocracia. Muito do "mérito" garganteado por branquicelos que "venceram" na vida é na verdade fruto de trapaça. Obter oportunidades na vida porque seu semelhante sofre discriminação porque é negro não é mérito. É trapaça mesmo!  

 

" Meritocracia. Muito do "mérito" garganteado por branquicelos que "venceram" na vida é na verdade fruto de trapaça. Obter oportunidades na vida porque seu semelhante sofre discriminação porque é negro não é mérito. É trapaça mesmo! "

Fabio, desenvolva, por favor, um pouco mais esse conceito, se possível, com exemplos específico. Se não, vai ficar parecendo apenas injúria racial da sua parte.

E injuria racial positiva não existe, pelo menos que eu sáiba. 

  

 

Palavras podem ser como minúsculas doses de arsênico.

É preciso reconhecer o Brasil como um país racista.

Os negros sofrem discriminação. Tem menos oportunidades.

Os brancos discriminam. Tem mais oportunidades. Afirmam que tem "mérito" quando na verdade gozam de privilégio indevido.

 

 

Que texto mais doido.

É o mais descarado contra-pensar orwelliano.

1 - o elitismo é bom, desde que negros sejam elitizados.

2 - brancos pobres que cursam a escola pública não devem ser beneficiados, pois isso atrasaria a melhoria da escola pública. No caso de negros, independente de sua condição financeira, esta afirmação deve ser invertida para reforçar a afirmação 1.

3 - a meritocracia é um engano, a medida correta é a discriminação positiva, pois ela reforça a afirmação 1.

 

Palavras podem ser como minúsculas doses de arsênico.

Doideira mesmo. Parei logo noi primeiro item: "i) Uma reparação á população negra. Isso é impossível e inconcebível. Os negros de hoje não sofreram coma escravidão e os brancos de hoje não foram responsáveis por ela."

Ora, só extirpando a herança do ordenamento juridico - e da história - para essa frase fazer algum sentido...

Sobre o mérito: Um tem tem todas as vantagens durante a vida escolar tais quais bons colégios, livros em casa, boa alimentação, bons transportes, bom lazer, boas roupas, etc.; outro não tem nada disso, e, ao contrário, é visto permanentemente como um inferior. Um obtem nota 7,1; outro obtem nota 7,0: quem tem mais mérito? Escolheriam investir em qual?

 

Ótimo ponto. A Unicamp usa um sistema em que os menos favorecidos (como por exemplo, frequentar escola publica a vida inteira, se nao me engano, e coisas deste tipo) ganham um bonus na computação final das suas notas. Desta forma, tenta-se recompensar a 'perda' pela falta de qualidade daqueles com pontos a mais.

Assim, alguem que, no teste, tiraria notas parecidas (como no seu exemplo), o de origem humilde iria ganhar uns pontinhos a mais e passaria na frente - ou seja, é uma meritocracia balanceada, digamos assim.

Particularmente, acredito que este sistema seja muito mais eficiente e justo, pois, independente de raça, qualquer um que não tenha tido as devidas condições poderá concorrer com maior pé de igualdade (ou 'menos desigualdade', como queiram).

 

Nassif,


 


Não sei pq publicou essa pobre e superficial opinião. Esse cara nunca leu um artigo sério sobre o tema. Livro então...

 

Eu acho que cotas socias são as mais adequadas,já que raciais como o próprio nome diz,separa as pessoas sugundo sua raça e nós não somos bichos pra sermos catalogados como nossa "raça".  Depois,o argumento que a bolsa família já faz o trabalho das cotas socias é falácia,já que o bolsa família trata do hoje,o estudo,do amanhã.  Mais ainda,isso tem aumentado o racismo e a demoralização dos negros na sociedade,que voltou a ser visto como raça escravizada,inferior,que tem de ser ressarcida,etc,etc,etc...  O que se fez com esse debate foi política,não benefício ao cidadão negro.  Nunca vi alguém querer beneficiar alguém fazendo-o passar po inferior,por pobrezinho que tem de receber tratamento diferernciado entre os já diferenciados por serem pobres demais.   Pior ainda,passar por quem tendo mais condições,usa de prerrogativas raciais pra tirar vaga de quem tiver menos e não tiver essa prerrogativa.  Enfim,acho uma vergonha para a raça negra e tenho certeza que pra muitos negros estou falando a coisa que eles sentem em relação ao caso.

 

 

É o argumento básico: aqueles que são contra s cotas o são porque aludem à criação de um regime de diferenciação perigoso, fingindo que tal “regime de diferenciação perigoso” já está criado e – principalmente e ainda bem – os favorece. Se o convívio entre as classes não tiver amparo legal e criado por um Estado que objetive dirimir conflitos sem usar a política do “deixa como está para ver como é que fica”, a situação só tende a se agravar, o que terminará por atingir justo aqueles que,tentando conservar seus privilégios, correm riscos permanentes de perdê-los por contrafações violentas, e não de competição por vagas em universidades e empregos. Mas os tais liberais que defendem a “livre competição” querem tudo, e tudo quer dizer tudo mesmo, isto é, administrar eles mesmos a tal “livre competição” de forma a eliminar por completo os riscos de perda. É isso que realmente se chama “aversão ao risco”.

 

 

Perplexidade aflita diante da perspectiva caótica