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O Brasil no centro da geopolítica mundial

Do Valor

Caleidoscópio mundial

José Luís Fiori
29/12/2010  

Durante a primeira década do Século XXI, o Brasil conquistou um razoável grau de liberdade para poder definir autonomamente sua estratégia de desenvolvimento e de inserção internacional num mundo em plena transformação. O sistema mundial saiu da crise econômica de 2008, dividido em três blocos cada vez mais distantes, do ponto de vista de suas políticas e da sua velocidade de recuperação: os EUA, a União Europeia e algumas grandes economias nacionais emergentes, entre as quais se inclui o Brasil.

Mas do ponto de vista geopolítico, o sistema mundial ainda segue vivendo uma difícil transição - depois do fim da Guerra Fria - de volta ao seu padrão de funcionamento original. Desde o início do século XIX, o sistema interestatal capitalista se expandiu liderado pela Grã Bretanha, e por mais algumas potências europeias, cuja competição e expansão coletiva foi abrindo portas para o surgimento de novos "poderes imperiais", como foi o caso da Prússia e da Rússia, num primeiro momento, e da Alemanha, EUA e Japão, meio século mais tarde. Da mesma forma como aconteceu depois da "crise americana" da década de 1970.

DepoDepois da derrota do Vietnã, e da reaproximação com a China, entre 1971 e 1973, o poder americano cresceu de forma contínua, construindo uma extensa rede de alianças e uma infraestrutura militar global que lhe permite até o hoje o controle quase monopólico, naval, aéreo e espacial de todo o mundo. Mas ao mesmo tempo, essa expansão do poder americano contribuiu para a "ressurreição" militar da Alemanha e do Japão e para a autonomização e fortalecimento da China, Índia, Irã e Turquia, além do retorno da Rússia, ao "grande jogo" da Ásia Central e do Oriente Médio. Os revezes militares dos Estados Unidos na primeira década do século desaceleraram o seu projeto imperial. Mas uma coisa é certa, os EUA não abdicarão voluntariamente do poder global que já conquistaram e não renunciarão à sua expansão contínua, no futuro. Qualquer possibilidade de limitação desse poder só poderá vir do aumento da capacidade conjunta de resistência das novas potências. 

Por outro lado, depois do fim do Sistema de Bretton Woods, entre 1971 e 1973, a economia americana cresceu de forma quase contínua, até o início do século XXI. Ao associar-se com a economia chinesa, a estratégia americana diminuiu a importância relativa da Alemanha e do Japão, para sua "máquina de acumulação", a escala global. E ao mesmo tempo, contribuiu para transformar a Ásia no principal centro de acumulação capitalista do mundo, transformando a China numa economia nacional com enorme poder de gravitação sobre toda a economia mundial. 

Essa nova geometria política e econômica do sistema mundial se consolidou na primeira década do século XXI, e deve se manter nos próximos anos. Os Estados Unidos manterão sua centralidade dentro do sistema como única potência capaz de intervir em todos os tabuleiros geopolíticos do mundo e que emite a moeda de referência internacional. Desunida, a União Europeia terá um papel secundário, como coadjuvante dos Estados Unidos, sobretudo se a Rússia e a Turquia aceitarem participar do "escudo europeu anti-mísseis", a convite dos EUA e da Otan. Nesse novo contexto internacional, a Índia, o Brasil, a Turquia, o Irã, a África do Sul, e talvez a Indonésia, deverão aumentar o seu poder regional e global, em escalas diferentes, mas ainda não terão por muito tempo capacidade de projetar seu poder militar além das suas fronteiras regionais.

De qualquer forma, três coisas se podem dizer com bastante certeza, neste início da segunda década do século XXI:

1. Não existe nenhuma "lei" que defina a sucessão obrigatória e a data do fim da supremacia americana. Mas é absolutamente certo que a simples ultrapassagem econômica dos EUA não transformará automaticamente a China numa potência global, nem muito menos no líder do sistema mundial.

2. Terminou definitivamente o tempo dos "pequenos países" conquistadores. O futuro do sistema mundial envolverá - daqui para a frente - uma espécie de "guerra de posições" permanente entre grandes "países continentais", como é o caso pioneiro dos EUA, e agora é também o caso da China, Rússia, Índia e Brasil. Nessa disputa, os EUA já ocupam o epicentro do sistema mundial, mas mesmo antes que os outros quatro países adquiram a capacidade militar e financeira indispensável à condição de potência global, eles já controlam em conjunto cerca de 1/3 do território, e quase 1/2 da população mundial.

3. Por fim, a definição da estratégia internacional do Brasil não depende da "taxa de declínio" dos EUA, mas não pode desconhecer a existência do poder americano. Assim mesmo, gostem ou não os conservadores, o Brasil já entrou no grupo dos Estados e das economias nacionais que fazem parte do "calidoscópio central" do sistema, onde todos competem com todos, e todas as alianças são possíveis, em função dos objetivos estratégicos do país.

José Luís Fiori é professor titular e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Economia Política Internacional da UFRJ, e autor do livro "O Poder Global", da Editora Boitempo, 2007. Escreve mensalmente às quartas-feiras. 

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Nassif, excelente post, que me fez ver a importância das SUGESTÕES de livros. Aqui, foram citados IMPÉRIO de Niall Ferguson e ASCENSÃO E QUEDA DAS GRANDES POTÊNCIAS, de Paul Kennedy, livros dos quais já ouvira falar, mas que os posts me chamaram novamente a atenção...acho, que poderiam ser colocadas diariamente sugestões de livros, de todas as áreas (tendo cuidado com os lançamentos, para não virar lobby...)

 

Abraço.

 

A força geopolítica de um País depende de vários fatores, o Brasil têm abundância de alguns e ressente outros. Na minha humilde opinião, o mais importante para o povo e a Nação seria romper os grilhões do serviço da dívida, que por sinal já foi paga inúmeras vezes, mas pela mágica dos juros compostos e consolidados continua a crescer.

Livres da escravidão da dívida, floresceremos como povo e nação autônomos de forma muito mais reluzente.

 

Follow the money, follow the power.

Caros e Nassif, desculpem o post tardio...

A hegemonia dos impérios pela história sempre se pautou por um predomínio militar, mas também logístico: o controle dos canais de acesso por terra, mar e ar. Senão, vejamos: Roma dominou a Europa, o norte da África e quase todo o Oriente Médio por força da construção de estradas por onde passassem suas Legiões. Eram montadas pelos mesmos soldados que combatiam, e sua manutenção e vigilância era assunto de Estado. Já a Inglaterra construiu seu vasto império pelo domínio dos mares - sua principal via de acesso à suas colônias, sendo as rotas de comércio e seu livre tráfego tratados como interesse de Estado (vide a proibição do comércio escravista, tomada somente quando os ingleses perceberam que sua indústria feita por trabalhadores assalariados perdia de uma indústria montada com escravos, em muitos países).

E os EUA? Como conquistaram o mundo? Garantindo para seu país a necessária predominância militar pelos ares (forma de acesso e disseminação de bases pelo mundo afora, mantendo o fluxo de insumos essenciais), mas também uma predominância econômica - preponderância de sua moeda e de um sistema de valores mundiais que garantem a mais-valia (gostaram? desenterrei!) de produtos manufaturados, em detrimento de matérias-primas brutas. Por ser industriosa, a economia norte-americana sempre tem o produto industrializado mais valioso no mercado, bem mais do que a matéria-prima do que ele é feito.

O que começa a mudar? Pois bem, não é de hoje que o controle dos ares não é mais a garantia de hegemonia: é o espaço e, por isso, a corrida espacial cresceu (esqueçam a NASA, é só marketing!). De bases e plataformas orbitais pode-se lançar tudo - incluindo ogivas nucleares -, e quase nenhum país tem tecnologia para impedir tal forma de ataque. Para complicar, o desenvolvimento deste tipo de tecnologia é alto, e o modelo de economia mundial pós-segunda guerra começa a esgotar-se: não é que a água é mais valiosa hoje que o refrigerante? ou que o bife é mais caro que o hambúrguer? Ou ainda que a seda ou qualquer tecido feito à mão, em teares, é mais caro que o tecido industrializado produzido em massa? Pior: o produto "exclusivo" (conceito criado pela nossa própria cultura de consumo) é mais caro que o produto feito em produção. Quando o mineral lítio (de que são feitas todas as baterias recarregáveis no mundo) tornar-se mais caro que a própria bateria fabricada, aí então deve-se ver  (em minha opinião) uma verdadeira transformação do mundo, tal qual o conhecemos. Abs.

 

Penso que a questão não é só de geopolítica stricto sensu. É também uma redefinição geoeconomica o que estamos vendo. E o ponto em comum dos países que Fiori assinala está na condução estatal da economia - cada país apresentando traços específicos, claro, mas todos seguindo essa regra comum. Não se trata, portanto, apenas de uma questão de tamanho de território e disponibilidade de recursos naturais, embora isso possa contar (não deveriamos considerar as dificuldades da Rússia com o clima rigoroso, historicamente responsável por uma agricultura que nunca conseguiu ser autosuficiente?).  E  creio que as tais ações estatais não devem ser buscadas apenas no passado recente. Elas valem para para todo o tempo que corresponde ao percurso da formação de uma economia industrial moderna. (Para o Brasil, desde pelo menos 1940; e, se a China tem no pós 1978 um marco decisivo, é preciso não ingnorar as continuidades que existem desde Mao, e isso a despeito dos retrocessos do Grande Salto a Frente e da Revoluçãso Cultural) Além disso, os grandes hiatos de crescimento observados em cada país não nos devem fazer crer que o passado alvissareiro ficou decididamente para trás, e que tudo teve de ser recontruído recentemente (os anos finais da URSS - desde meados dos anos 1960 -, de crescimento modesto e até desequilibrado, com enormes problemas de infra-estrutura; o Brasil das décadas perdidas, com problemas de infra-estrutura idem, e que só se avolumaram).

O critério da presença estatal e a relativa desimportância do tamanho do território e da disponibilidade de recursos naturais poderia fazer incluir o Japão no agregado de países que Fiori organizou, embora reste responder por que o Japão desde os anos 90 tem tido tanta difilculdade para crescer como outrora. Uma resposta evidente está na pressão sobre o ien feita pelos EUA - o que faz do Japão cada vez mais exportador de capitais.  Aliás, daqui surge outro problema: a estrutura industrial tende a ser menos sensível às políticas industrias nacionais (isso responde um pouco pela perda de espaço da Inglaterra na virada do século XIX para o XX). Outra resposta está na própria maturidade industrial, que por si só faz as taxas sde crescimento econômico se distanciarem da pujança dos primeiros tempos.

Quanto ao critério da força militar: não se comparam, de fato, o poderio dos EUA com todos os outros. Mas também talvez isso seja uma questão de estratégia: a despeito de toda força econômica que alcançou,  a China não tem uma única base militar no exterior (e a diplomacia brasileira se interessará algum dia por tê-las? temos esse perfil?), enquanto os EUA as tem para mais de 850.

 

Uma autocrítica de umas 24 depois: o texto ficou meio desorganizado e até sem norte.

 

O Brasil passou a ocupar uma nova posição na geopolítica mundial devido a alguns fatores como, primeiro, sua enorme extensão territorial ainda rica em recursos inexplorados ou parcialmente explorados. A isto se somam as recentes descobertas da Bacia de Santos, o que torna a costa brasileira praticamente um novo continente, igualmente rico em recursos naturais e biodiversidade. Essas são coisas que tinham sua importância na geopolítica, ainda que fossem importâncias secundárias, ficando o aspecto militar com a primazia da importância geopolítica, ou seja, o domínio, o poder sobre as rotas, os territórios e os recursos. No século XXI, já não é mais assim.

Outro fator que levou o Brasil a se tornar uma potência emergente na geopolítica mundial foi o seu acerto interno, a sua estruturação democrática. Muitos dizem, porém, que ela já está consolidada, e isto não é verdade. Por isso a nova condição geopolítica brasileira leva em conta que o processo democrático, a nova política brasileira, a estabilidade da moeda e outros indicadores de segurança jurídica ou para investimentos continuarão a melhorar. É só não esquecer que essa é uma projeção, uma aposta, e ainda não está suficientemente consolidado.

O país de fato conseguiu equacionar e solucionar alguns problemas políticos, de conflitos de classes e de pluralidade e diversidade étnica, cultural, religiosa, etc., e isso também passou a ser importante para a geopolítica contemporânea, pois esses são os conflitos mais preocupamentes em várias regiões do mundo. Contudo, uma ressalva que se faz ao Brasil, e que o país ainda não incorporou, embora já esteja falando bastante sobre isso, é o problema da corrupção e do respeito à lei.

Esta é a nódoa, a dúvida do mundo sobre o Brasil, nas análises geopolíticas. Questões, por exemplo, como financiamento de operações terroristas, ou como rota principal do tráfico de drogas mundial, ou como afrouxamento do sistema penal, jurídico e de segurança. Essas coisas pesam contra o país, que ainda não conseguiu superar essas mazelas, e nem as está enfrentando adequadamente.

Mesmo hoje, às vésperas do esperado governo de Dilma Roussef, poderíamos citar acontecimentos centrais importantes e que provocam sérias dúvidas sobre esse enfrentamento, não poderíamos? Isso é importante para a geopolítica atual, pois o domínio implica uma ordem, uma influência sobre vasta região do globo, e para fazer isso é preciso ter uma sociedade, um Estado e uma cidadania muito bem estruturados e gozando de razoável estabilidade, quer dizer, o país transmitindo confiança ao mundo, de que as coisas estão sendo feitas do modo correto e da melhor maneira possível, além de se fortalecer e de aumentar o seu poder em relação aos outros países. Só a conversa não vai resolver. Ela resolve sim, até um ponto, depois o Brasil terá de mostrar resultados concretos e terá de colocar essas condições à prova, diante do mundo.

 

O importante e ver como nossa liderança e as instituições nacionais irão se comportar neste novo paradigma. Veja os paises hegemônico sempre tiveram o obejtivo de conquistar e nosso país sempre teve o objetivo de integrar ou obedecer.

Esta avaliação é o que nos colocará mais a frente ou sendo conquistados.

 

A análise do professor José Luís Fiori esbarra num problema lógico, muito semelhante ao estudo atual da música ( http://www.abemeducacaomusical.org.br/Masters/revista21/revista21_artigo... ):

"Durante muitos séculos, a música e a educação musical foram sempre pensadas dentro de contextos sociais estáveis. Havia um passado a ser transmitido e o futuro tinha a ver com o passado.

(...)

Nesse caso, nos parece essencial chamarmos a atenção dos historiadores da música e dos educadores musicais para que aquilo que descrevemos como sendo a nossa história. Elas são sempre nossas reconstruções desses períodos. Eles continuam a nos escapar e a nos interrogar. O mesmo acontecendo com as nossas construções em sala de aula. Elas são sempre reconstruções.

(...)

Freud não tinha qualquer ilusão em relação aos ideais humanos e considerava que a agressividade, a crueldade e a hostilidade constituem sentimentos inerentes à natureza humana, revelando algumas das manifestações explícitas da pulsão de morte, as quais se transformam a cada momento da cultura.

(...)

Os efeitos desses processos têm sido sentidos tanto em países desenvolvidos quanto nos países em desenvolvimento e, por esse motivo, consideramos importante retomar as afirmações de Freud em relação à sua teoria das pulsões, na qual ele assinala que a dualidade pulsional – amor e ódio, vida e morte – está sempre presente em nossos atos e são imperativos que atuam no inconsciente do sujeito e em sua vida social.

O mal-estar na civilização atual tem sido examinado por diversos pensadores contemporâneos em praticamente todos os campos do conhecimento e, na esteira dessas reflexões, Bauman, sociólogo polonês da atualidade, produziu uma série de obras, nas quais analisa com profundidade os reflexos e as consequências dos fenômenos anteriormente aqui referidos, não apenas do ponto de vista econômico, mas, especialmente, dirigindo seu olhar para a vida cotidiana do homem pósmoderno e hipermoderno. Para esse sociólogo, a era da modernidade ainda não terminou, pois apenas transitamos de uma modernidade considerada sólida em suas bases, crenças, valores e estruturas, para uma mudança radical e irreversível: a modernidade líquida.

Nesse processo, constata-se que os sujeitos são afetados de inúmeros modos: pela descentralização das estruturas estatais, pela acelerada transformação nas relações de trabalho e nos processos de produção de bens e serviços, pela fragilização do Estado, pelas mudanças na subjetividade coletiva, em produções culturais e, especialmente, pelas alterações na relação entre o eu e o Outro no cotidiano das pessoas. E essas mudanças têm ocasionado a fragmentação dos sujeitos, revelando a fragilidade e a condição efêmera e eternamente provisória da construção das identidades.

Gilles Lipovetsky aponta que vivemos a era do vazio, na qual os valores morais não são mais levados em conta da mesma forma como o foram no passado, ocasionando o surgimento de uma sociedade pós-moralista descrita por ele como a época do crepúsculo do dever. Ele desvela que vivemos a época da sociedade da decepção. Desse modo, os sujeitos são mais atingidos exatamente naqueles seus desejos imateriais e o consumismo não dá conta de satisfazer esses desejos dos sujeitos, pois há sempre algo que escapa, confirmando mais uma vez as palavras de Freud.

Uma cartografia do social no mundo ocidental de nossos dias é desvelada na obra de Birman, quando aponta a existência de novas formas de subjetivação do sujeito, assinaladas por uma cultura do narcisismo e pela sociedade do espetáculo: 'Com isso, a subjetividade assume uma configuração decididamente estetizante, em que o olhar do outro no campo social e mediático passa a ocupar uma posição estratégia em sua economia psíquica'."

 

Caros Nassif e amigos do blog

 

Li um livro interessante ("Império: como a Grã Bretanha moldou o Mundo", Niall Ferguson) de um autor conservador (mas não burro ou dogmático), onde expõe alguns teses interessantes, a principal sobre o declínio do dominio britânico (que ocorreu de modo rápido, em mais ou menos 30 anos, a Inglaterra foi para a rabeira das potências).

A tese é a mesma de outro historiador (Paul Andersom - acho que este é o nome dele - "Ascensão e queda das grandes potências"), de que o colapso das potências é econômico: os caras assumem mais compromissos do que a carteira aguenta.

 

Acho que o segundo autor se chama Paul Kennedy.