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O caráter da nação libia

É essencial compreender o caráter peculiar da Líbia e, consequentemente, o estrago incrível perpetrado pelas potências ocidentais, em virtude de sua ganância, arrogância e ignorância.

Diferentemente dos outros paises do Magrheb e do próprio Egito, a Líbia é um país do deserto, cuja sociedade é basicamente beduina, portanto estruturada em clãs mutuamente rivais.

A sociedade urbana moderna é praticamente inexistente, o que existe foi criado pelas modernizações promovidas pelo Gadafi (adotemos essa grafia simplificada). Mas absolutamente minoritária, seus anseios não representam uma parcela infima do povo líbio.

Esse é majoritariamente desagregado e preso à cultura e morais beduinos, de fidelidade absoluta ao clã e inimizade sistêmica para com outros clãs.

A revolução verde de Gadafi visava, originalmente, implantar no país os principios do pan-arabismo de Nasser. Para desgraça da Líbia, essa revolução veio tarde demais, na era da morte do grande arquiteto da defesa moderna, portanto não fundamentalista, da cultura árabe.

O sucessor de Nasser, como sabemos, foi comprado pelo imperialismo americano e por Israel, depois de uma vitória parcial na Guerra do Yom Kippur. Deu-se o inicio do desmantelamento da estratégia nasseriana do socialismo árabe, e da criação da República Árabe Unida.

Os lideres desse movimento, que chegou abranger o próprio Egito, a Síria e o Iraque, ficaram isolados em suas nações, e tiveram de construir sua sobrevivência em regimes ditatoriais.

Mas voltemos à Líbia: inicialmente, Gadafi tentou assumir a liderança do movimento modernizador, modernizando as estruturas produtivas e sociais na própria Líbia, mas tentando superar os limites de seu país culturalmente atrasado, propondo fusões a seus vizinhos. Essas foram torpedeadas sistematicamente. Continuou a sua linha internacionalista, apoiando as guerras de libertação palestina e outros movimentos de libertação anti-imperialista.

O episódio de Lockerbie e o isolamento insustentável a que o país ficou condenado levaram Gadafi a alterar radicalmente sua estratégia, abandonando a linha internacionalista. A partir daí, investiu na modernização do próprio país, mas tentando restabelecer uma convivência mínima com as potências imperialistas, mesmo à custa de uma capitulação humilhante na questão Lockerbie.

Tendo em vista o atraso ainda vasto da sociedade da líbia, viu que a única maneira de manter o país coeso foi a de representar o grande monarca dos clãs, pacificando as rixas e investindo na modernização da economia.

A pompa da corte, as vestimentas e palácios podem aparecer ridículos à sociedade ocidental, mas era a forma como conseguiu manter a unidade, seguindo aliás a receita de Luis XIV, que criara Versailles, o ceremonial absolutista e o desenvolvimento mercantilista exatamente para enfrentar os movimentos particularistas dos senhores feudais e as revoltas da burguesia.

Mesmo procurando manter uma co-existência civilizada e até meio servil às potências européias, nunca foi assimilado pelas mesmas, a despeito de alguns serviços sujos de inteligência e fomento de negócios desses países. Mas mantinha uma política de desenvolvimento nacional independente demais para o gosto do imperialismo econômico, político e militar.

Portanto, com a "primavera árabe" (expressão essa de significado cada vez mais ambíguo e duvidoso), veio a oportunidade de ouro de derrubar Gadafi e submeter incondicionalmente o país aos interesses das grandes empresas petrolíferas. Criou-se o mito dos "rebeldes contra a ditadura", um grupo pertencente a absolutamente minoritária sociedade urbana "cosmopolitizada", mas que de maneira nenhuma representava os anseios de uma sociedade ainda tribal e esfacelada.

Comprando uma ou outra tribo e contando com as ações militares das potências ocidentais, essa elite comprada promoveu uma sangrenta e irresponsável guerra civil, debitando os estragos e as vítimas na culpa de Gadafi, até esse ser massacrado da forma mais indigna possível.

O que acontece agora é mais do que previsível: uma vez rapidamente distribuída as riquezas do país às potências imperialista, a sociedade se esfacela rapidamente. O país deixou de possuir uma liderança capaz de unir os clãs, que voltaram à guerra tribal.

A ignorância absoluta do Ocidente, aliado à falta de moral, ao egoismo e violência militar (que tenta repetir na Síria) está provocando uma somalização desse país tão difícil e complexo.

A imprensa internacional, que vendeu a intervenção estrangeira como movimento de democratização, foi obviamente cúmplice desse crime.

Como fervoroso defensor da democracia, sou fervoroso defensor da democracia. Portanto, não simpatizava com Gadafi, como não simpatizo com Assad e o regime dos aiatolás. O mesmo vale para os emirados totalitários da península árabe, onde a mulher não pode nem dirigir carro.

Entretanto, a democracia não se resume ao estabelecimento de algumas regras formais e a procedimentos eleitorais. É um processo de construção histórica da própria sociedade. E sem reforçar a sociedade civil de nada valem leis e eleições.

Portanto, esses regimes têm de ser avaliados tendo por pano de fundo a evolução das próprias sociedades e do desenvolvimento de sua capacidade de se estruturar para assegurar a plena aplicação das liberdades democráticas, por conseguinte de uma vigorosa sociedade civil para além do Estado.

Cabe ao próprio povo decidir a hora de acabar com regimes tornados obsoletos em função da evolução histórica da sociedade.

A "exportação da democracia" promovida pelos Estados Unidos só vem produzindo ditadores curruptos e guerras internas cada vez mais sangrentas, que levarão ao poder fundamentalistas ainda mais retrógados. Prova disso é que os próprios cristãos do Iraque admitem que sob Saddham Hussein, que reconhecem ter sido uma ditadura horrível, eles viviam melhor do que hoje, onde estão sendo massacrados pelos xiitas que os EUA levaram ao poder.

Por sua vez, as lideranças imperialistas e sua imprensa cada vez mais caninamente fiel não possuem nenhum grão de moral e credibilidade para julgar regimes ditatoriais nessas sociedades tão diversas das européias, até porque continuam apoiando outras ditaduras tão ou mais despóticas. Portanto, saindo da boca dessas forças, direitos humanos viraram mero argumento oportunístico e seletivo para justificar intervenções bélicas e uma mercadoria mediática podre.

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Não se pode dizer que o regime de Gadafi era um mal em si, tampouco uma "evolução" histórica de seu país, mudança esta muito recente e ainda em fase de consolidação (que, ao que parece, não acontecerá). Julgar um povo e sua cultura requer avaliar e calcular o peso de todo um caminho histórico; é olhar para além dos eventuais tropeços ou avanços de momento na busca (muitas vezes equivocada) por justificar ocorrências que não sejam nada além do que situações efêmeras, que só se assemelham a circunstâncias definitivas.

O erro - o tremendo erro - é a presunção de pensar na sociedade moderna ocidental como ápice/plenitude/epíteto de um estágio evolucionário da civilização humana e tentar-se impingi-la ao resto do mundo não-ocidental, sempre que nosso interesse e conveniência assim o estabeleça! Além de errado é extremamente imoral - e não leva em conta outras culturas, outras realidades, outros valores, outras soluções.

A descrição da Líbia feita pelo Joaquim Aragão é boa e nos leva à reflexão; lembrou-me do filme "Lawrence da Arábia". Disso fica a clara constatação de que TODOS os países do norte da África e da Península Arábica tem sua população derivada dessa tradição, cultura e devoção a clãs/grupos tribais beduínos. E que quase toda a estrutura moderna e urbana da região deriva de um processo de implantação dum modelo social artificial e tardio, contruído pela exploração da grande riqueza obtida com o petróleo - e a opção do mundo por ele como matriz energética primordial. Perecebem? Nada foi fruto da realidade humana na região - as decisões e modelos estruturais de tudo o que existe hoje no mundo árabe vieram de fora. Isso é uma maldição, também compartilhada por Israel (a nação de hoje é totalmente artificial e impingida).

Dessa realidade, algumas constatações:

- A cultura beduína é antiquíssima entre os árabes - anterior mesmo ao Islamismo. Isso é facilmente comprovado em tradições como a "Dança dos Sete Véus" e um panteão politeísta descoberto pelas imagens antigas desenterradas em escavações arqueológicas (já que o Islã reprimiu tudo); reforçando essa premissa (da cultura beduína anciã) há ainda as passagens na Bíblia falando da estrutura social do grupamento humano liderado por Abraão - depois Isaac e Jacó (pela descrição, notoriamente beduíno) - e do refúgio de Moisés junto a Jethro (este, também um líder tribal do deserto) antes de abraçar seu destino como profeta de Deus. Detalhe: árabes são semitas, assim como os originais judeus. 

- A realidade da sociedade árabe como de clãs e beduína não significa que ela seja inferior (atrasada, do ponto de vista evolucionário) e ignorante, nem ontem nem hoje: a Bagdá dos abássidas foi na Idade Média a maior cidade do mundo em população, urbanidade e estrutura social, rivalizada apenas por duas cidades chinesas e uma indiana (a sociedade européia era feudal, à época). Tampouco a opção por uma estrutura descentralizada e em clãs tuaregues móveis é passível de ser considerada um retrocesso - é somente uma forma social encontrada para a vida no ambiente desértico do Saara, um modelo de sociedade possível a seu ambiente, da mesma forma que o adotado pelo povo innuit (esquimó). Então, fica claro que sociedades citadinas e suas estruturas complexas de logística e sustentação nunca foram totalmente estranhas aos árabes - já que estes foram contemporâneos do esplendor do Império Egípcio (dos Faraós), de Cartago, Alexandria, Jerusalém e Meca (esta, uma das primeiras por eles erigida). E até mantiveram em pé as cidades na porçao espanhola dominada pelo Islã (Al-Andaluz), tanto quanto Jerusalém e Belém. Portanto, avaliar sua evolução como sociedade com a "vara" ocidental seria impreciso e até preconceituoso - a única coisa que distingue os árabes beduínos dos pecuaristas gaúchos (e sua cultura dos Pampas) ou mesmo dos cowboys texanos é a ausência da fixação (precária) de uma estrutura familiar básica em ermas haciendas/farms e a busca destes a núcleos populacionais originalmente incipientes como Fray Bentos e Dodge City para a obtenção de suprimentos e a comercialização de sua produção agrícola/pecuária excedente. É ou não é?

- Portanto, a estrutura de sociedade ocidental urbana, moderna (comportamental e tecnologicamente falando) como modelo civilizatório é uma ação tardia e impositiva (até duvidosa) feita por líderes árabes de uma elite (sultões, califas e sheiks beduínos) aliados a interesses estrangeiros ocidentais que forneceram conhecimento e estrutura tecnológica em troca da concessão na exploração de petróleo. Foi assim no Iraque, no Irã (do golpe de 1953 até 1978), na Arábia Saudita, no Iêmen, nos Emirados Árabes Unidos (formado a partir de uma "coalizão" de clãs beduínos e seus emires) e ainda no Sudão, Etiópia, Uganda, Angola e tantos outros. Antes do petróleo houve a prata e o ouro, bem como a borracha, o búfalo e o pau-brasil, que tanto mal trouxe às sociedades bantus, tutsis, incas, aztecas, sioux, navajos, tupis, xavantes, ianomamis e nações xinguanas. É um padrão, e não da civilização árabe - é da civilização branca, cristã e européia.

Se alguns de nós ainda não se desfizeram de todas suas convicções e "pré-conceitos" sobre nosso "suposto" modelo de sociedade mais avançada da História, estes ao menos têm de reconhecer que a história do povo árabe possui muitas fases evidentes de avanços e recuos que não são paralelos à estruturação de sistemas democráticos e inclusivos - pior: foram totalmente coordenados por líderes com mão de ferro que suprimiram liberdades políticas e direitos civis. Assim, não vale a premissa de "todos os fins justificam os meios" para explicar a tolerância coletiva de um mal menor na expectativa por um bem maior - e Muammar Gadafi passa a ter tanta importância histórica quanto teve o Califa Ben Ali ao Iraque, Idi Amin Dadá a Uganda, o Xá Rehza Pahlevi ao Irã, Moshe Dayan/Golda Meir a Israel, Oliver Cromwell à Inglaterra, Adolf Hitler à Alemanha, Josef Stalin à Rússia Soviética ou Richard Nixon aos EUA. Meras efemeridades.

Obs.: a maior das mentiras é a de que sistemas democráticos e inclusivos garantem justiça social e credenciam a sociedade/nação que os adota a um futuro de desenvolvimento e progresso. Não garantem nada disso - nem mesmo a sua perenidade.

 

Caro Joaquim Aragão,


Tudo em paz?


A agressão inexplicável à Líbia oferece, hoje, os piores resultados para a população líbia, hoje bastante fragmentada e sem qualquer perspectiva positiva no horizonte.


Muamar Khadafi conhecia muito bem as nuances de seu país, e a partir delas trabalhou para conseguir relativo consenso entre as diversas tribos, tarefa na qual foi bem sucedido ao longo do tempo, tanto que os conflitos internos praticamente inexistiam – se tais conflitos tivessem ocorrido, a imprensa ocidental teria sido a primeira a divulgá-los.   


Interpretá-lo como um terrível ditador, a praxe, também parece não ter tido correspondência direta com os fatos concretos – os progressos sociais da Líbia eram inequívocos (não mais o serão, com absoluta certeza), haja vista a evolução do seu IDH nos últimos 15 anos (bem mais célere que a obtida por nosso país no mesmo período), inúmeros estudantes líbios eram encaminhados anualmente para estudar no exterior (também não mais o serão), diz-se que o sistema de distribuição de água potável (obra de empresa canadense) é considerado o melhor do planeta, ou seja, se MKhadafi era o tirano que a mídia internacional dizia ser, ao menos demonstrava ser vítima de enormes lapsos de civilidade, pois as iniciativas descritas não combinam com nenhum regime terrivelmente ditatorial conhecido.


Se ele não era nenhum anjo, um fato, outro fato é que não existem anjos em nenhum dos lados desta história, observação que vai ao encontro do contido em seu texto, o que faz a diferença é a propaganda barra-pesada.   


Muito interessante é a homenagem que já estava programada pela ONU, para a entrega de uma moção (ou prêmio especial) ao terrível ditador justamente na semana seguinte à do início do violento ataque patrocinado pela OTAN à Líbia, uma beleza, né?


Quanto às centenas de bilhões de dólares do ditador depositadas no exterior, foram devidamente roubadas, vapt vupt, pelo sistema financeiro internacional.


O próximo da lista seria o Irã, mas parece que o assunto deu uma esfriada na última quinzena.


Em relação ao Oriente Médio, as contradições do discurso e atuação dos países ocidentais sempre serão gritantes, taí o convívio “fraterno” (interesseiro) com a Casa de Saud para não deixar dúvida sobre tal postura.


Um abraço

 

Quando cita as associações de Kadafi com lideranças esquece de citar o cenário por inteiro e o instante mundial que ocorreram


Quando concorda que não conhecemos bem o suficiente a sociedade árabe e depois julga Kadafi por valores ocidentais , ditador , autoritário, quase uma contradição


Quanto a subrserviencia não é dificil de se imaginar que Kadafi tenha vista que era a próxima vitima dos neonazistas.


O que houve é que era impossivel sem se acirrar o militarismo mundial impedir a invasão da Líbia , na Síria foi possivel , com o novo posionamento dos EUA e acontinuidade de não intervenção na Síria , com as retiradas militares estrangeiras finalizarão o , primeiro estágio digamos assim


 Uma cultura diferente  , velha mídia internacional em bloco , a distância  e diferença cultural impede e tem dificulades em reverter o quadro montado pela velha mídia , com a sociedade refutando as informações da velha midia fica um  vacuo pois a midia progressista ainda não consegue suprir a demenda de informações sobre a região.


O mundo não aceita mais a imagem criada dos árabes pela velha mídia e neonazistas porem não tem informações para montar a imagem atual da sociedade árabe , mas já estamos mais avançados que ontem

 

O raciocinio não inclui juizo sobre o sofrimento ou injustiça sofrida pelos israelenses e sim pela forma como os dois massacres foram e são tratados pela sociedade norte ocidental em especial a velha mídia. 

 

A Líbia é o nosso futuro

1) Nenhum homem é uma ilha; a morte de qualquer pessoa me afeta, pregava John Donne. Nenhum país está fora do planeta: o genocídio cometido contra um povo assassina-me. Tudo o que acontece na Líbia fere-me, prejudica-te, nos afeta. 

2) Falemos como homens e não como chacais ou monopólios mediáticos. A Líbia não é bombardeada para proteger a sua população civil. Nenhum povo é protegido lançando-lhe explosivos nem despedaçando-o com 4,3 mil ataques "humanitários" durante mais de cem dias. A líbia é incinerada para lhe roubarem seu petróleo, suas reservas internacionais, suas águas subterrâneas. Se o latrocínio triunfa, todo país com seus recursos será saqueado. Não perguntes sobre quem caem as bombas: cairão sobre ti

3) Encarceraram os comunistas; nada poderia importar-me menos porque não sou comunista, ironizava Bertold Brecht. O Conselho de Segurança da ONU aprova uma zona de "exclusão aérea" a favor dos secessionistas líbios, mas permite um bombardeio infernal; a China e a Rússia abstêm-se de vetar a medida porque como não são líbios nada poderia importar-lhes menos. De imediato os Estados Unidos ameaçam a China com a declaração de uma "moratória técnica" da sua impagável dívida externa e agridem o Paquistão. A China replica que "toda nova ingerência dos Estados Unidos no Paquistão será interpretada como ato não amistoso" e arma o país islâmico com cinquenta caças JF-17. Nenhum povo está fora da humanidade: se não vetas a agressão contra outro, a desencadeias contra ti

4) Conta Tólstoi que um urso ataca dois camponeses: um sobe a uma árvore, cedendo ao outro o privilégio de defender-se só. Este vence e conta que as últimas palavras da fera foram: "Quem te abandona não é teu amigo". A Liga Árabe, a União Africana, a OPEP trepam na árvore da indecisão esperando a vez de serem esquartejadas. Ao abandonar as vítimas te abandonas

5) Como nos tempos em que o fascismo assaltava a África, hoje a Itália, Alemanha, Inglaterra, França e outros pistoleiros da Otan sacrificam armamentos e efetivos numa guerra que só favorecerá os Estados Unidos. Impedido pelo seu Congresso de investir abertamente fundos no conflito, Obama queixa-se dos seus cúmplices da Otan porque sacrificam à despesa militar menos de 2% dos seus PIB e ordena-lhes que imolem pelo menos 5% ("El futuro de la Otan", Editorial El País, 15/06/2011). São instruções inaplicáveis quando o protesto social, a crise financeira, a dívida pública impagável e o próprio gasto armamentista minam os governos do G-7. Perante tais exigências, a Itália opta por não participar mais na associação criminosa (agavillamiento). A Agência Internacional autoriza a gastar das reservas que não tem 60 milhões de barris de petróleo em dois meses. Os Estados Unidos desbaratam em 2010 uma despesa militar de 698 mil milhões de dólares, 43% do total mundial de 1.600 mil milhões de dólares (Confirmado.net 17/06/2011). Assim se dilapidam em forma de morte os recursos que deveriam salvar a vida. Se montam guerras para devorar o outro, as guerras te devorarão a ti

6) Como na época de Ali Babá e os quarenta ladrões, os banqueiros internacionais que tão benevolamente receberam 270 mil milhões de dólares em depósitos e reservas da Líbia assaltam o botim e estudam trespassá-lo àqueles que tentam assassinar os legítimos donos. Também criam para os monárquicos de Bengazi um banco central e uma divisa secessionista. São os mesmos financistas cujo latrocínio custa à humanidade o atual colapso econômico: não indague a quem roubam os banqueiros: desfalcam a ti

7) No estilo das blitzkrieg nazis, o presidente dos Estados Unidos inicia guerra sem a autorização dos seus legisladores e prolonga-as ignorando o Congresso, onde dez deputados denunciam o presidente e o secretário da Defesa cessante Robert Gates e vetam os fundos para a agressão contra a Líbia tachando-a de ilegal e inconstitucional. Não averigúes se deves impor a tiros a democracia a outros povos: acaba antes com os vestígios dela que restavam no seu próprio país

8) Cada homem é peça do continente, parte do todo, insiste John Donne. Os inimigos do homem não cessam de fragmentá-lo para destruí-lo melhor. Os impérios, que são quebra-cabeças instáveis de peças juntadas à força, no exterior fomentam ou inventam o conflito de civilização contra civilização, o rancor do iraniano contra o curdo, do xiita contra o sunita, do hindu contra o muçulmano, do sérvio contra o croata, do descendente contra o ascendente, do ancestral contra o menos ancestral, do líbio contra o líbio, do venezuelano contra o venezuelano. De cada variante cultural pretendem fazer um paizinho e de cada paizinho um protetorado. Quem nos separa nos faz em pedaços, quem me divide me mutila. Não indagues como despedaçam a Líbia: esquartejam a ti

9) Toda pilhagem arranca com promessa de golpe fácil e atola-se na carnificina insolúvel. As guerras do Afeganistão, Iraque, Líbia, Iêmen e a agressão contra o Paquistão arrancam passeios triunfais, espatifam-se em holocaustos catastróficos e nenhuma conclui nem se decide. A resistência dos seus povos retarda a imolação da qual não te livrarão nem vetos omitidos nem organizações abstencionistas nem banqueiros carteiristas nem Congressos nulificados. Não perguntes porque são assassinados os patriotas líbios: estão a morrer por ti

* Luís Britto Garcia é escritor venezuelano

Fonte: resistir.info

O artigo original encontra-se no Blog de Luís Britto Garcia

Re: O caráter da nação libia
 

Gostaria de ser lembrado como um homem que foi amigo das crianças, dos pobres e excluídos. Amado e respeitado pelo povo, pelas massas exploradas e sofridas. Odiado e temido pelos capitalistas, sendo considerado o inimigo número um das ditaduras fascistas.

Kadafi foi um benfeitor da humanidade

Kadafi sempre apoiou os movimentos revolucionários em todo o mundo. Quando a mídia – a serviço dos EUA – elogiava o regime de apartheid na África do Sul, Kadafi treinava jovens na Líbia e os mandava de volta com os melhores armamentos, para conquistar a liberdade na África do Sul.

De  repente  a  imprensa  passou  a  atacar  diariamente o líder Muamar Kadafi, a destilar ódio, difundir mentiras, falsificar vídeos para  provar  os  crimes  do  governo líbio. Aparentemente  essa  linha jornalística  foi  causada  pelos  levantes  populares  na  Argélia, Tunísia, Iêmen e Egito. Na verdade, trata-se de mais uma estratégia terrorista do governo dos Estados Unidos da América para recuperar influência no mundo árabe. No Egito caiu o governo de confiança dos EUA. Mubarak não passava de um agente dos interesses norte-americanos e israelenses na região. Com a queda de Mubarak navios iranianos passaram a circular nas proximidades de Israel, causando mal estar e revolta nos meios diplomáticos subservientes ao imperialismo e ao sionismo.

Após  perder  o  Egito, o  governo dos Estados Unidos tenta dividir e enfraquecer a Líbia, e neste sentido recebe o apoio dos partidários de Bin Laden, milhares  de  refugiados  egípcios  que ao longo dos anos se refugiaram no leste da Líbia, fugindo da repressão no Egito. Após  os  egípcios  vieram os argelinos, tunisianos e somalis, seguidores da Al Qaeda. Desfrutaram da hospitalidade dos líbios e em seguida os apunhalaram pelas costas, deflagrando uma revolta que fez  dezenas  de  vítimas, através  de  sabotagens, terrorismo e destruição de bens públicos.

Mas quem é esse Kadafi que a mídia, de repente, passou a atacar de todas as formas, e até de forma covarde? Kadafi  liderou  uma  revolução para derrubar o  rei  Ídris, um fantoche  dos  interesses italianos e norte-americanos na região. Na época, a maior base militar dos Estados Unidos no exterior estava na Líbia, e Kadafi e seus partidários cercaram a base e deram prazo de 24 horas para todos os estrangeiros invasores deixarem o país.

No poder, Kadafi não fez como os monarcas árabes, não construiu palácios  com  peças em ouro, não comprou iates luxuosos nem coleções de carros importados. Dedicou-se a reconstruir o país, garantindo melhores condições de vida para o povo. Hoje Kadafi não é  presidente  nem  primeiro  ministro da Líbia, mas a mídia quer que ele renuncie ao cargo que não existe.

As mentiras da mídia não conseguem esconder que Kadafi apoiou as lutas dos povos por libertação na Nicarágua, Cuba, Angola, Moçambique, África do Sul e muitos outros países, auxiliando concretamente  os  povos  que lutavam por libertação. Na prática, Kadafi sempre foi um benfeitor da humanidade, mas para a mídia mercenária, benfeitor é aquele que cria guerras em busca de lucros para  a indústria bélica ou para dominar o mundo, como foram as guerras criadas pelos Estados Unidos na Coreia, Vietnã, Iraque, Palestina, Afeganistão, El Salvador, Nicarágua e muitos outros países.

Essas fofocas ridículas de riquezas e costumes estranhos sempre foram exploradas pela mídia; foi assim com Sadam Hussein, Yasser Arafat, Fidel Castro, Ahmadinejad, Hugo Chávez e etc. Basta ser um governante sério que não se ajoelha e não se acovarda perante os Estados Unidos para ser avacalhado pela mídia mercenária.

Outro fato que a mídia não consegue falsificar é o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) aferido  por  técnicos  das  Nações  Unidas. Esses dados apontam, por exemplo, que a Líbia tinha, em 1970, uma situação pouco pior que a do Brasil (IDH de 0,541, contra 0,551 do brasileiro). O índice líbio superou o brasileiro anos depois e, em 2008, estava  bem  à frente: 0,810 (43º no ranking), contra 0,764 (59º no ranking). Todos os três sub-índices que compõem o IDH são maiores no país africano: renda, longevidade e educação.

No  IDH  reformulado a diferença se mantém. A Líbia é a 53ª no ranking (0,755) e o Brasil, 73º (0,699). A Líbia  é  o  país  com  melhor   IDH  da  África. Portanto, tem a melhor distribuição de renda, tem saúde e educação pública gratuitas. E quase 10% dos estudantes líbios recebem bolsas para estudar em países estrangeiros.   Que ditadura é esta? Uma ditadura jamais permitiria esse tipo de política em benefício do povo.

Kadafi escreveu o  “Livro Verde, a Terceira Teoria Universal”, que trata  de temas polêmicos e reais. Ele denuncia, por exemplo, a falsificação  da  democracia  pelas assembleias parlamentares. Na maioria dos países ditos democráticos, incluindo os Estados Unidos da América, os partidos políticos são verdadeiras quadrilhas organizadas para saquear o dinheiro do povo nas assembléias legislativas, prefeituras, câmaras de vereadores, câmara de deputados etc. Essa constatação – e publicação em livro – com certeza irrita e revolta os  defensores da democracia parlamentar.

O Livro Verde, escrito por Kadafi, afirma que os trabalhadores devem ser associados e não assalariados, e que a terra deve ser de quem nela trabalha, e a casa de quem mora nela. E o poder deve ser exercido pelo povo diretamente, sem intermediários, sem políticos, através de comitês e congressos populares, onde toda a população decide as questões fundamentais do bairro, da  cidade e do país. Essas palavras, que todos sabem verdadeiras, irrita e revolta aqueles poucos que se beneficiam com a falsificação da democracia, principalmente os regimes capitalistas.

Mas a imprensa continuará insistindo em falsificar notícias, destilando ódio, difundindo mentiras, porque está cumprindo ordens do governo norte-americano, o grande interessado nas grandes reservas de petróleo da Líbia.

Os grandes jornais e canais de televisão do Brasil utilizam agências de notícias norte-americanas, todas tendenciosas, mentirosas, enganadoras. As mentiras que as agências de notícias vendem são compradas pela opinião pública brasileira, e a maioria das pessoas, por ingenuidade ou desinformação  se comporta como marionetes, repetindo aquilo que o governo dos Estados Unidos impõe e determina. Esta não é a primeira vez, e nem será a última, que o povo árabe líbio enfrenta potências estrangeiras poderosas. Mais uma vez o povo líbio vencerá, porque tem na liderança de Muamar Kadafi um guia eficaz, forte e honrado.

José Gil, filósofo, ensaísta e professor universitário português.

 

"Ganhe as profundezas, a ironia não desce até lá" Rilke. "A ironia é o pudor da humanidade" Renard. "A ironia é a mais alta forma de sinceridade" Vila-Matas.

Joaquim, além do bom gosto das músicas , vc. escreve muito bem. Escreva sempre porque a sua qualidade é melhor que a maioria dos textos da mídia.

 

Perfeita a analise , e a constatação , onde na grande ou velha mídia lemos artigos deste naipe, durante o conflito líbio , e na mídia internacional.


A Unidade Africana , a linha Nasser , é impressionante , a falta de democracia decorrente de quadro social e não vontade política da liderança


Na Argentina a ditadura causou estragos em função do número de mortos , segundo alguns mataram quase todos que pensavam , a maior parte dos que fizeram as mudança eram de outra geração ou os que escaparam e amadureceram , imaginem no Norte da África  e OM


Somente a Primavera Árabe , na verdade tenho pouquíssimo conhecimento sobre as lideranças , formação , linha ideológica , porem vou debitar , concordo com a dubiedade e pouca clareza do movimento , a característica a tática política em função do cenário que a Primavera Árabe existe.


A história lerá mas o que o capitalismo , imperialismo, fizeram nesta região pode levá-los a serem colocados junto com Hitler e outros genocidas criminosos que a humanidade por vezes produz , neste caso a doença era de um setor inteiro da sociedade ocidental o qual detinha o poder e as armas, estes serão os grandes criminosos , maiores , que a humanidade já produziu


Outros hábitos ,movimentos , ocidentais também terão que ser avaliados , não podemos colocar liberdades individuais e institucionalidade legitima em risco , se isto for ocasionado as medidas tem que serem tomadas , vem da mesma turma citada acima , as intenções ficam em segundo plano em relação ao que foi gerado de fato.


O texto termina de forma perfeita quando impõe a necessidade de uma estrutura de sociedade organizada para a região conseguir estabilidade , em função da ainda presente e grande atuação militar e econômica ocidental na região , o compreendimento desta região e dos fatos , não temas ou campanhas midiáticas , pode ser outra variável importante , ao menos atrapalhariam menos até que a sociedade árabe esteja pronta para construir esta estabilidade.


Brasil , qual atual política internacional em relação a AS , na qual é o maior país , como agiu com Paraguai , Bolívia , Argentina , ainda que com superávit , agora vejam a forma como as nações do ocidente norte ser relacionaram e relacionam com o OM.


O estrago que Hitler causou ao povo israelense é titica perto do que fizeram com os árabes , o problema é a inserção dos dois povos no panorama mundial , e os árabes receberão o que após o fim deste massacre que já existe a décadas , um país europeu...........


A questão é quando além dos blogs também estaremos , Joaquim Aragão , Luciano Brasileiro , Daniel Quireza , Assis Ribeiro , uma das levas desta qualidade, na grande mídia , não de forma ou através de gesto executivo , com função de defender alguma posição ,mas sim no sentido da sociedade ser a mídia , não alguns poucos empresários , se a maioria é ou não de qualidade inferior e comprometidos com setores que não representam toda a sociedade deixo a decisão com cada um , olhem as eleições , mas tem a maior parte de nossas concessões , quem autorizou ou permitiu isto , não foi o atual Governo , e neste ponto entra o raciocino acima.

 

Desculpe-me: por mais que condene a política israelense, recuso-me e não aceito que diminuem e menosprezam o sofrimento e a catástrofe que se abateu sobre o povo judeu. A dor promovida pelos nazistas e outros povos do Ocidente (inclusive o Brasil) contra esse povo é em parte a razão da inaceitável agressividade de Israel contra os palestinos e outros países árabes, passando para a frente e reproduzindo violência e dor, que está a transformar a Terra Santa e todo o OM em barril de póvora. O desastre do passado não justifica mas faz compreender essa insanidade.

Aliás, vivemos um paradoxo: por mais agressiva e inaceitável seja a politica de Israel, esse país ainda é uma democracia e possui uma sociedade civil que, em boa parte, não aceita mais a continuidade dessa política. A imprensa é livre e há uma opinião pública viva e extremamamente crítica. Mas essa oposição ainda não é, infelizmente, hegemônica, dado o reacionarismo de grupos religiosos radicais e a imigração constante de judeus do Leste europeu, que foram estratégicamente instalados no território palestino.

Para quem quiser conhecer um pouco mais da realidade paradoxal e sufocante de Israel e da Palestina, acabou de sair na França um livro em HQ "Chroniques de Jérusalem",  do reporter franco-canadense Guy Delisle (o mesmo que escreveu Pyöngyang)!

 

Joaquim Aragão

Eu me deparei com este artigo totalmente por acaso. Moro no Reino Unido e esta eh uma perspectiva bem diferente do que se escreve aqui.

Tendo dito isto, me parece que o autor esta vendendo o Kadafi como um estadista de visao, com uma agenda desenvolvimentista etc... e os fatos comprovam que isto nao foi o caso.

Um cara que apoiou o Idi Amin nos seus piores momentos, deu apoio ao assassinato de atletas Israelenses nas olimpiadas, apoiou o Robert Mugabe e tinha todos os ditadores Africanos no bolso, financiou o Lockerby e tantos outros atos terroristas nao pode ser descrito como tal. Alem disto o seu historico de direitos humanos eh pessimo.

Por mais que tenham existidos interesses economicos na sua derrubada, acho de um maniqueismo incrivel dizer que os paises da OTAN ajam somente visando interesses economicos e que portanto sejam intrinsicamente ruins enquanto o resto do mundo seria vitima de seu apetite imperialista.

O Kadafi enriqueceu gracas a este apetite, e na epoca que ele foi derrubado ele era, como o artigo descreve, um lacaio dos paises desenvolvidos.

Concordo que o ocidente nao entenda o funcionamento das sociedades Arabes e interfira demais nos seus assuntos internos, mas dai para justificar o Kadafi e o Assad ja eh um salto grande demais. Nao vamos esquecer que quem criou estes paises foi o imperialismo e que existe ainda uma responsabilidade em nao deixar que aquilo vire mais caotico do que ja esta.

Rique

 

 

 

Rique Moreira, como vai a PIRATA Beth II??? E a BRUXA Maggie, tem visto a satânica que quebrou SEU Reino Unido???????

Vá prus quintus dus infernus RIQUE MOREIRA e, leve com você: MAGGIE, CAMERON, HAGUE, BETH II, CHARLES, HARRY, WILLIAN & ademais GENOCIDAS, Sir Winston Churchill e Lady Di lhes esperam ao lado do capeta!!!!

Mensagem aos “heróicos” trucidadores de crianças

Por Mauro Santayana, JB OnLine

Circula pela internet vídeo de alguns segundos, que mostra duas crianças de Sirte, sendo atendidas em algum lugar que  lembra um ambulatório improvisado. São o menino, de cinco ou seis anos, e a menina, de idade parecida. O menino grita de dor, ainda que tenha as duas mandíbulas, o queixo e a garganta dilacerados, provavelmente por estilhaços de bomba. A menina está em silêncio, olhando o nada, como se o nada pudesse explicar-lhe o sofrimento do menino, e o calcanhar arrancado, o pé quase pendente da perna. O leitor Eugênio, enviou-me os links de acesso às imagens:

http://grupobeatrice.blogspot.com/2011/11/o-jornal-nacional-nao-mostrou....

e

http://www.youtube.com/watch?v=hobDCtmx0xo&feature=player_embedded&oref=...

Como veterano jornalista, que cobriu crimes bárbaros e acidentes terríveis, e a dura experiência  de guerras civis e invasões militares – mas acima de tudo, como pai e avô – confesso que nada foi tão fundo na minha tristeza do que a imagem das crianças de Sirte. Das ainda vivas, e das mortas da família Khaled. Foi possível imaginar as milhares de outras crianças, mortas e feridas, na Líbia, no Afeganistão, no Iraque, na Palestina. Diante das cenas, revi o Presidente Barack Obama, sua elegante mulher e suas duas filhas, lindas, sorridentes, que o pai presenteou com um cão, para que o fizessem passear pelos jardins da Casa Branca. Revi-as viajando pelo mundo, e visitando escolas na África e na América Latina. E fiquei sabendo da alegria de Monsieur Sarkozy em ser novamente pai. Em sua relativa juventude, marido de uma cantora jovem, famosa e bela, o presidente da França terá, é o que todos esperamos, anos felizes ao lado da filha. Irá conduzi-la pela mão entre os canteiros dos jardins de Paris, e, se as coisas da política lhe permitirem, a ela contará passagens de sua própria infância. Ouvirá a mulher, com sua voz magnífica, cantar-lhe as mais belas berceuses. E quando ela ficar mocinha, se enlevará com as canções de sua mãe, como  “Quelqu’un m’a dit”, e seus versos abertos:  “Alguém me disse que nossas vidas não valem grande coisa/ Passam em um instante, como fenecem as rosas”.

A idéia que associa a morte das crianças – no caso, uma menina – à brevidade das rosas, é de Malherbe, o grande poeta francês dos séculos 16 e 17, a quem se atribui a invenção do francês literário. Ele escreveu seu famoso poema para consolar um amigo que perdera a filha de seis anos, e resume a homenagem à menina, que se chamava Rose, no verso conhecido: “E, rosa, ela viveu o que vivem as rosas, o espaço de uma manhã”.

Uma criança morta, muçulmana ou judia, negra ou nórdica, de fome, de endemias ou de acidentes, em qualquer parte do mundo, é uma violência insuportável contra a vida. As crianças mortas em guerras são insulto às  razões da vida, e uma grande dúvida sobre a existência de Deus – a não ser a do Deus dos Exércitos.

David Cameron,  parceiro e competidor de Sarkozy na aventura líbia, é um pai que sofreu a dolorosa perda de um filho, Ivan, também aos seis anos – em fevereiro de 2009, acometido de uma forma rara de epilepsia. Não é possível que, diante das cenas de Sirte, e na lembrança do filho,  não sinta, no coração, o peso de sua culpa, ao usar as armas britânicas, nos bombardeios sistemáticos contra as cidades líbias  – entre elas, Sirte, a que mais sofreu, e sem trégua, com as  bombas e mísseis. A Líbia e as outras nações da região foram bombardeadas e ocupadas pelas nações mais poderosas do Ocidente porque têm suas areias encharcadas de petróleo. O petróleo, na visão dessas nações, é um dos direitos humanos dos ricos e bem armados.

A espécie humana só sobrevive porque ela se renova em cada criança que nasce. Como nas reflexões de Riobaldo, em uma vereda do grande sertão, diante da paupérrima mulher que dá à luz: não chore não, dona senhora; uma criança nasceu, o mundo começou outra vez.

Os doutores em jornalismo atual, que recomendam textos frios, podem ver nessas reflexões o inútil sentimentalismo de um veterano – diante da realidade do mundo. Mas houve um tempo, e não muito distante, em que o jornalismo era solidário com o sofrimento dos mais débeis, com os perseguidos e famintos de pão e de justiça.

Enfim, God bless America. E God save the Queen.

ATENÇÃO: IMAGENS MUITOS FORTES NO VÍDEO POSTADO

Re: O caráter da nação libia
Re: O caráter da nação libia
Re: O caráter da nação libia
Re: O caráter da nação libia
Re: O caráter da nação libia
 

Gostaria de ser lembrado como um homem que foi amigo das crianças, dos pobres e excluídos. Amado e respeitado pelo povo, pelas massas exploradas e sofridas. Odiado e temido pelos capitalistas, sendo considerado o inimigo número um das ditaduras fascistas.

Obrigado pelo comentario. Santayanna, sempre acima da media, como jornalista e ser humano.

 

Até quando iremos suportar esta midia vendida universal que temos. Até quando aceitarmos calados a tanta mentira, tanta injuria, tantas mortes em nome do Deus Dinheiro?

 

Se Gaddafi tivesse feito somente isto, para mim, ele estaria justificado:

De sítio oficial do Governo da África do Sul, discurso de Nelson Mandela por ocasião de banquete em honra de Muammar Qaddafi, em 13 de junho de 1999:
http://www.info.gov.za/speeches/1999/990614123p1003.htm

"In a world where the strong may seek to impose upon the more vulnerable; and where particular nations or groups of nations may still seek to decide the fate of the planet - in such a world respect for multilateralism, moderation of public discourse and a patient search for compromise become even more imperative to save the world from debilitating conflict and enduring inequality.

When we dismissed criticism of our friendship with yourself, My Brother Leader, and of the relationship between South Africa and Libya, it was precisely in defence of those values."

(...)

"It was pure expediency to call on democratic South Africa to turn its back on Libya and Qaddafi, who had assisted us in obtaining democracy at a time when those who now made that call were the friends of the enemies of democracy in South Africa."

(...)

"I shall therefore take the liberty to invite our guests to rise and raise their glasses with me in salute to Muamar Qaddafi, our Brother Leader of the Revolution of the Libyan Jamahariya, and to growing friendship between the people of our two countries."

 

[Em um mundo onde o forte busca impor-se sobre o vulnerável; e onde certas nações ou grupos de nações ainda buscam decidir o destino do planeta - em um mundo assim, respeito pelo multilateralismo, pela moderação no discurso público e pela busca paciente pelo compromisso se tornam mais necessárias para salvar o mundo do conflito debilitador e da desigualdade permanente.

Quando repudiamos a crítica a nossa amizade com você, meu Líder Irmão, e ao relacionamento entre a África do Sul e a Líbia, foi, precisamente, em defesa desses valores.

(...)

Seria pura conveniência pedir para a África do Sul democrática virar as costas para a Líbia e Qaddafi, que nos auxiliou na obtenção da democracia em momentos em que aqueles que, agora, fazem a exigência, eram amigos dos inimigos da democracia na África do Sul.

(...)

Devo, portanto, tomar a liberdade de propor a nossos convidados que alcem suas taças comigo em saudação a Muammar Qaddafi, nosso Irmão Líder da Revolução da Jamahariya Líbia e à crescente amizade entre os povos de nossos dois países.]

 

A propósito. Os leitores do blog sabem que um neto de Mandela se chama Gaddafi por gratidão ao líder líbio?

http://www.jornalagora.com.br/site/content/noticias/print.php?id=19055

 

Não sabia e achei interessante não isso do nome do neto, mas do discurso que você postou, que também não conhecia. É pensar fora do quadrado e ver que as coisas podem não ser tão maniqueístas como geralmente é dito.

 

"Se você pode sonhar, você pode fazer" - Walt Disney

Não pretendo fazer aqui uma apologia ao regime de Kadhaffi. A história desse regime está, de fato, repleto de fatos inaceitáveis.

Viso tão somente apontar falhas na política salvacionista de algumas potencias ocidentais, mesmo abstraindo que elas não agem por amor aos direitos humanos - tanto é que se calam para a situação em outras monarquias e regimes ditatoriais, mas que lhes são estratégicamente convenientes e submissos - e sim basicamente por interesses econômicos e militares.

Alerto que democracia não se exporta, especialmente não se conhecendo as condições locais da sociedade civil, a única portadora e construtora de uma genuina democracia, e não apenas de fachada. 

As intervenções pretensamente em prol da democratização, derrubando ditaduras, têm se revelado (talvez com uma ou duas exceções) um completo fracasso. 

Insistir na defesa dessas intervenções é, a essas alturas, ignorância ou pura má fé. 

 

Joaquim Aragão

Parbens Joaquim,

 

Muito bom texto

 

Claro e objetivo; Uma das melhores sínteses, da realidade líbia e do seu contexto, que li até agora. Joaquim, Parabéns!

 

"Um fósforo só não tem energia para queimar um bosque inteiro, mas pode começar o incêndio." (sobre as ideias, Jose Mayo)

Gostaria de entender, entre outras, a frase:

"Portanto, esses regimes têm de ser avaliados tendo por pano de fundo a evolução das próprias sociedades e do desenvolvimento de sua capacidade de se estruturar para assegurar a plena aplicação das liberdades democráticas, por conseguinte de uma vigorosa sociedade civil para além do Estado."

 

 

Creio entender deste parágafo, e se estou enganado que o autor me corrija, que todos os movimentos em direção à democracia, tal como a interpretamos, só terão alguma chance de sucesso se partirem das bases da sociedade que a almeja e dos anseios que mobilizam as suas forças sociais e que representam as suas aspirações legítimas. O que é contra-cultural só tem chance de sucesso se procedente de uma "fermentação étnica", onde cada indivíduo daquela etnia encontre o vinculo entre a "nova conduta" e aquelas raízes que são próprias da sociedade em que se espelha e que o representa.

O transplante ou a erradicação de culturas fracassou em todas as vezes que foi tentado e, sempre que houve oportunidade histórica, as pessoas tentaram reconstruir o que lhes foi tomado. O exemplo paradigmático, recebe hoje a denominação de "balcanização", ou "solução yoguslava", em que países inteiros se pulverizaram, assim que lhes saiu de cima o "jugo" que mantinha aquelas nações, mais que "juntas", presas. É o que está acontecendo na Libia e o que aconteceu em muitos dos ex-países da União Soviética: mesmo mantidas durante muitos anos sob um mesmo governo e sob uma coerção militar avassaladora, aquelas etnias, assim que vislumbraram a possiblidade de voltar a conduzir o seu destino, se rebelaram e buscaram a sua anterior identidade, redividindo o seu território conforme as suas memórias históricas, mesmo que para isso muitos tivessem que pagar com a vida.

O artificialismo das demais fronteiras do norte da África é outra "bomba de tempo" inexorável; basta olhar o mapa e já se verifica. Aquelas "linhas retas" dividindo países artificiais sem qualquer respeito pelas etnias, como era o padrão do Império Britânico, vez que outra explodem, e continuarão explodindo, em guerras sangrentas e genocidas, porque, ali, as pessoas foram reunidas e separadas desde o ponto de vista das necessidades geoestratégicas britânicas, como se fossem (e eram), mais que países, áreas de jurisdição militar, que ficavam "mais organizadas e melhor dividivas", sobre o mapa e por critérios geométricos, configurando-se daquela maneira.  Com isso, talvez facilitassem os cálculos logísticos para manutenção das estruturas de poder que as controlavam, mas de modo algum se levava em consideração as pessoas e os seus laços sociais e familiares, nem as tradições culturais dos que viviam nelas. Só podia dar no que vem dando, e deu.

Saudações

 

"Um fósforo só não tem energia para queimar um bosque inteiro, mas pode começar o incêndio." (sobre as ideias, Jose Mayo)

Cum grano salis...Há episódios onde essa "exportação" parecem ter dado êxito. É o caso da Alemanha e do Japão depois da 2a Guerra, depois de terem sido "bombardeados" pelos americanos para a democracia. E é assim que esse remédio é vendido pelos seus meios de comunicação. 

Só que temos de fazer grandes ressalvas: esses países não partiram de um nível baixo da construção da sociedade civil, e até já tinham tido experiência de democracia antes das respectivas viradas totalitátias-belicistas. Portanto, não foi uma construção da democracia a partir da estaca zero, como está sendo intentado no Iraque, no Afeganistão e na Líbia.

 

Joaquim Aragão

Compreender esses regimes não significa necessariamente aprová-los. Com esse dilema tem de conviver todos que queiram hoje promover a luta imperialista. Inclusive defendendo os interesses objetivos de nações ainda que dominados por déspotas. Esses, muitas vezes, se utilizam da causa anti-imperialista para preservar seu poder e reprimir movimentos genuinamente democráticos; frequentemente, o fazem isso depois de cair em desgraças com o imperialismo, em virtude de alguma contrariedade.

Entretanto, o processo de libertação não é tão aritmético assim. Temos de conhecer mais a fundo a sociedade e sua histórias e as reais forças vivas internas. Muitas vezes, o modelito ocidental de democracia se esbarra em fatores históricos e culturais. No Extremo Oriente (Japão e China) é facilmente observável que essas sociedades são regidas por princípios confucionistas e budistas, oriundas de sua própria história. Essa não se combina com o caráter competitivo e conflituoso inerente à civilização ocidental, que gerou um modelo de democracia como mitigador de conflitos que tem levado a guerras e revoluções. 

Já o Oriente Médio é regido pelo Islão, que tem uma percepção diferente da relação entre Estado e religião. Originalmente, essa religião foi desde início política e militante. Acontece que o direito islâmico não tem base organizativa  no Estado e sim nos principios religiosos administrados pela comunidade. E o Estado tem de submeter ao direito religioso sob pena de ser considerado pecaminoso. Portanto, a religião domina a política mais fortemente do que no Ocidente. 

Como tentei argumentar, os regimes que o Ocidente vem destruindo são oriundos de uma época onde havia uma tentativa de modernizar a sociedade árabe, até admitindo um laicismo do Estado, do tipo ocidental. Acontece que esses regimes defendiam causas nacionais que desagradavam as potências ocidentais. Em função disso, essa tentativa de modernização foi destruída pelo próprio Ocidente, em virtude de interesses econômicos e geopolíticos de curto prazo. Isolados, boicotados e agredidos, os regimes desses países se degradaram em ditaduras intoleráveis. Mas o Ocidente ajudou substancialmente essa derrota...

Há também de se reconhecer que o modelo ocidental de democracia está em questão, especialmente nos dias de hoje. Embora defenda a democracia, mas ela está cada vez mais devendo respostas às necessidades das sociedades. Prova disso é a crítica generalizada à política e aos políticos, não apenas no Brasil, crítica essa que não pode ser reduzida a uma exploração anti-democrática da direita. A "malaise" da civilização democrática ocidental é visível para qualquer pessoa. 

Com essa frases, viso mais abrir a discussão do que dar respostas prontas para os caminhos do progresso civilizatório...Como todos sabem, pensar dói!

 

Joaquim Aragão

Como o Mayo eu também gostei muito do texto. A sociedade da Líbia é complexa e fragmentada apesar de sua pequena população e me pareceu que o J Aragão compôs um conjunto eficiente apesar de tantos elementos.

Bom, o que eu entendi desse parágrafo é que a sociedade líbia, por ser dividida em clãs tribais (o que não é por si só um atraso em um sentido absoluto), não reunia quase nenhum dos elementos necessários para o sucesso de uma democracia representativa. O país mal tinha constituição, não tinha partidos, a imprensa era apenas informativa (não questionadora), a modernização era voltada apenas para a produção e saúde (não haveria valor atribuído a ciências sociais como conhecemos no ocidente)

Em poucas palavras ele me pareceu dizer que uma tentativa como a de agora estaria fadada ao fracasso, pois na história da Líbia não houve nada similar à história europeia (inclusive as democracias ao estilo ocidental na Ásia ou Europa Oriental não são cópiais fiéis do padrão ocidental) e, além disso, há elementos em direção contrária até (a presença de clãs) que mais poderiam fazer a Líbia parecer com a Europa Medieval.

E que, na ausência de Gadafi, que por si só não é um "bem" (ditatorial, repressivo, possivelmente patrocinador de terrorismo), mas que por um tempo talvez tenha sido o melhor possível pras circunstâncias dadas da Líbia, a desagregação pode ser o caminho previsível.

Gadafi se comportava (por visão ou vaidade) como um monarca absolutista, em uma espécie de reconhecimento das dificuldades de formar um "Estado Nacional" (como os reis após a queda do Império Romano), e a interferência ocidental pode até ter removido um autocrata do poder, mas não é capaz de oferecer alternativa melhor.

 

"Se você pode sonhar, você pode fazer" - Walt Disney

Este é um dos textos mais confusos e, consequentemente, mais incompreensível que eu lí aqui no blog nos últimos meses.

Será burrice ou velhice (minhas) ?

 

Mário Siqueira, não é burrice sua, é jumentice elevada ao cubo, só falta você relinchar e dar coice, mas, não coma capim!!!

 

Gostaria de ser lembrado como um homem que foi amigo das crianças, dos pobres e excluídos. Amado e respeitado pelo povo, pelas massas exploradas e sofridas. Odiado e temido pelos capitalistas, sendo considerado o inimigo número um das ditaduras fascistas.

Achei o texto muito bom. Claro que não estou nem um pouco triste com a queda de um ditador como o Kadafi mas a forma que ele foi deposto e morto eu não concordo. Na verdade foi um golpe militar patrocinado pela OTAN e avalizado pela ONU sem o apoio do Brasil aida bem.


A OTAN entrou na guerra civil com o pretesto de proteger a população de abuso de Kadafi que a principio não aconteceu, ao menos em grande número, diferente da Síria que cada dia a relatos de mortes de opositores ao governo. Mas voltando a Líbia a OTAN colocou os opositores no poder e esgueceram que a maioria da população não tinha como projeto de vida a queda de Kadafi.


Assim uma sociedade baseada nos clãs esta tirando suas desavensas locais na bala. Tudo acobertado pela EUA, OTAN e ONU. É claro que aonde EUA intervem tem de tudo menos democrácia. Ou existe democrácia no Iraque para todos?


Da nossa parte o que pode ser feito é cobrar da imprensa uma cobertura mais digna. Não suporto ver a cobertura principalmente da Globo tratar qualquer opositor dos EUA ou aliados do EUA de terroristas, e opositores dos adversários dos EUA de hérois.


Uma coisa é certa numa guerra os dois lados estão errados. Mas se um lado morre 1 e do outro morre 100 alguém esta sendo massacrado. É isso que acontece entre Israel e Palestina, no Iraque, na Síria, e diversos países da Africa. Nem sempre o EUA esta no lado errado da guerra mas sempre esta do lado que morre 1 e mata 100.

 

Essa sua posição "nem-um-lado-nem-outro" já foi criticada por Jean Bricmont, aqui:

http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/o-reducionismo-dos-conflitos-mu...

É um dos desatres que sobreveio à esquerda essa incapacidade de análise tática e redução de tudo ao discurso moralista raso (ainda por cima, pautado pela direita).

 

Não conheço esse autor...Também não tenho (mais) medo de literatas pretensamente revolucionários. Conheço essa turma e seu terrorismo moral. Já tenho 60 anos para me dar direito a pensar com minha própria cabeça! 

 

Joaquim Aragão

Não faças perguntas para as quais não queiras repostas. Burrice tem cura, velhice não, porém uma não tem nada a ver com a outra.

 

Srªs Senadoras e Srs. Senadores, a Transparência Internacional divulgou, nesta terça-feira, a classificação anual dos países mais corruptos do mundo, e a situação do Brasil, sob o império do “lulismo”, só piorou. Demóstenes Torres 08/10/2003

Acho que sua última afirmação (pergunta?) está correta.

 

Khadafi podia ter todos os defeitos, mas ele elevou o patamar social da Líbia, que tinha o maior IDH da África.

As notícias que se tem da Líbia é de retrocesso, o véu passou a ser obrigatório para as mulheres, a lei islâmica (Sharia) foi reinstabelecida, a verdade é que os EUA ajudaram a colocar a Al Qaeda no poder.

Os americanos não aprendem, na década de 80 Gorbatchev previu o 11/09 e alertou os americanos que o fundamentalismo religioso dos afegãos poderia se virar contra eles, mas não deram ouvidos.

 

Nínguem me tira da cabeça que a Al Qaeda é um grupo financiado diretamente pela CIA/Arabia Saudita para atingir os objetivos dela:

- melhorar a popularidade de Bushinho, com o ataque às torres

- Invadir o Iraque, Libia, e agora a Siria