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O discurso de Engels no funeral de Marx

Por Luiz Lima

DIscurso de Friedrich Engels no funeral de Karl Marx

“Em 14 de março, quando faltam 15 minutos para as 3 horas da tarde, deixou de pensar o maior pensador do presente. Ficou sozinho por escassos dois minutos, e sucedeu de encontramos ele em sua poltrona dormindo serenamente — dessa vez para sempre.

O que o proletariado militante da Europa e da América, o que a ciência histórica perdeu com a perda desse homem é impossível avaliar. Logo evidenciará-se a lacuna que a morte desse formidável espírito abriu.

Assim como Darwin em relação a lei do desenvolvimento dos organismos naturais, descobriu Marx a lei do desenvolvimento da História humana: o simples fato, escondido sobre crescente manto ideológico, de que os homens reclamam antes de tudo comida, bebida, moradia e vestuário, antes de poderem praticar a política, ciência, arte, religião, etc.; que portanto a produção imediata de víveres e com isso o correspondente estágio econômico de um povo ou de uma época constitui o fundamento a parir do qual as instituições políticas, as instituições jurídicas, a arte e mesmo as noções religiosas do povo em questão se desenvolve, na ordem em elas devem ser explicadas – e não ao contrário como nós até então fazíamos.

Isso não é tudo. Marx descobriu também a lei específica que governa o presente modo de produção capitalista e a sociedade burguesa por ele criada. Com a descoberta da mais-valia iluminaram-se subitamente esses problemas, enquanto que todas as investigações passadas, tanto dos economistas burgueses quanto dos críticos socialistas, perderam-se na obscuridade.

Duas descobertas tais deviam a uma vida bastar. Já é feliz aquele que faz somente uma delas. Mas em cada área isolada que Marx conduzia pesquisa, e estas pesquisas eram feitas em muitas áreas, nunca superficialmente, em cada área, inclusive na matemática, ele fez descobertas singulares.

Tal era o homem de ciência. Mas isso não era nem de perto a metade do homem. A ciência era para Marx um impulso histórico, uma força revolucionária. Por muito que ele podia ficar claramente contente com um novo conhecimento em alguma ciência teórica, cuja utilização prática talvez ainda não se revelasse – um tipo inteiramente diferente de contentamento ele experimentava, quando tratava-se de um conhecimento que exercia imediatamente uma mudança na indústria, e no desenvolvimento histórica em geral. Assim por exemplo ele acompanhava meticulosamente os avanços de pesquisa na área de eletricidade, e recentemente ainda aquelas de Marc Deprez.

Pois Marx era antes de tudo revolucionário. Contribuir, de um ou outro modo, com a queda da sociedade capitalista e de suas instituições estatais, contribuir com a emancipação do moderno proletariado, que primeiramente devia tomar consciência de sua posição e de seus anseios, consciência das condições de sua emancipação – essa era sua verdadeira missão em vida. O conflito era seu elemento. E ele combateu com uma paixão, com uma obstinação, com um êxito, como poucos tiveram. Seu trabalho no ‘Rheinische Zeitung’ (1842), no parisiense ‘Vorwärts’ (1844), no ‘Brüsseler Deutsche Zeitung’ (1847), no ‘Neue Rheinische Zeitung’ (1848-9), no ‘New York Tribune’ (1852-61) – junto com um grande volume de panfletos de luta, trabalho em organização de Paris, Bruxelas e Londres, e por fim a criação da grande Associação Internacional de Trabalhadores coroando o conjunto – em verdade, isso tudo era de novo um resultado que deixaria orgulhoso seu criador, ainda que não tivesse feito mais nada.

E por isso era Marx o mais odiado e mais caluniado homem de seu tempo. Governantes, absolutistas ou republicanos, exilavam-no. Burgueses, conservadores ou ultra-democratas, competiam em caluniar-lhe. Ele desvencilhava-se de tudo isso como se fosse uma teia de aranha, ignorava, só respondia quando era máxima a necessidade. E ele faleceu reverenciado, amado, pranteado por milhões de companheiros trabalhadores revolucionários – das minas da Sibéria, em toda parte da Europa e América, até a Califórnia – e eu me atrevo a dizer: ainda que ele tenha tido vários adversários, dificilmente teve algum inimigo pessoal.

Seu nome atravessará os séculos, bem como sua obra!”

O original se encontra em http://www.marxists.org/portugues/marx/1883/03/22.htm

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+46 comentários

Belíssimo texto. A grandeza de Engels foi saber continuar e honrar o legado de Marx. A origem do direito, da família e da propriedade privada, por exemplo, é um texto fundamental. Linkei esse belo discurso em meu blog:

arquivoscriticos.blogspot.com

 

poizé... eu só não concordo com isso de que "egoísmo, a ganancia, a falta de solidariedade, a exploração do homem pelo homem e por aí vai" sejam características intrinsecas à nossa espécie.

 

Você "contrapõe" os meus comentários com uma bela ad hominem (travestida de uma ironia fraquinha, coitada), e sou eu quem tergervisa? hehe boa, campeão!

 

A fofoca é universal. E a "fofoca histórica" é um bom negócio, que tem a vantagem de tornar mais animado o tricotar das comadres acadêmicas. Einstein, para citar outro gigante do pensamento, também foi alvo dessas comadres, que tentaram transformá-lo em aleijão moral. Sobre isso, vale a pena ler artigo do professor C.A. dos Santos em -- http://www.if.ufrgs.br/einstein/mileva.html
No entanto, ainda que Einstein possa ter dado suas escorregadas, como qualquer um de nós, as comadres não conseguiram anular suas contribuições à física. O mesmo se pode dizer de Marx.

 

Vc trabalharia 16 horas por dia se não fosse Marx.

 

ignorância mata

 

Caro Yuri,
Ótima observação! A realidade é que a maioria dos capitalistas não querem enxergar que o capitalismo seduz e incentiva o que o homem tem de pior dentro de si: o egoísmo, a ganância, a falta de solidariedade, a exploração do homem pelo homem e por aí vai...
Observe que as grandes descobertas que proporcionaram o avanço civilizatório, foram feitas por cientistas que não se tornaram ricos por suas pesquisas e o faziam pelo simples prazer de trabalhar nos seus experimentos. Como exemplo cito a grande descoberta do cientista do Instituto Butantã de São Paulo sobre substância existente no veneno da cobra jararaca para combater hipertensão e capturado por laboratório americano. Até hoje esse cientista não recebeu um tostão desse laboratório que fabrica o remédio. E assim poderíamos citar inúmeros exemplos da selvageria praticada pelos homens em nome de um capitalismo que a poucos beneficia.

 

Bom.. pra começar:

1) o Muro e Berlim foi derrubado no século XX.

2) O Nome dele ainda é muito pronunciado.. até por que sua obra ainda é matéria de estudo de muita gente séria. Sabe o FHC? então.. ele escreveu muito sobre o Marx (no século XX), e pode ter certeza que não foi desprezando a obra dele. =)

3) E o que Stalin e Lenin tem a ver com tudo isso? E de que Saddam você está falando?!? Se for o que eu estou pensando, eu paro por aqui.

 

Belo tributo à Marx !
Parabens a todos !

 

Yuri,
Você é um cara inteligente: tergiversou à grande, entendendo muito bem o que eu disse.

 

Se você for hoje a Berlim, poderá visitar uma praça onde tem uma grande estátua de Marx e Engels...

 

Farsante !!!!!!!!!!!!!!!!!!
Vai estudar !!!!!!!!!!!!!!

 

marx? Previu que as farsas sucedem as tragédias. http://omicrobio.wordpress.com/2010/04/30/sobre-18-de-brumario-de-louis-...

 

Propulsor de um progresso que é acessível para pouquíssimos (coincidentemente, a maior parte destes poucos é constituida por aqueles que concentram as riquezas, mas pra que entrar nesses detalhes contraditórios do capitalismo, né?), que utiliza a ciência apenas e tão somente quando esta pode proporcionar lucros (muitas vezes tirados da destruição pura, vide o imenso poder do complexo militar-industrial): a ciência não se desenvolve por causa do capitalismo, mas apesar dele...

Eu não sei se você sabe, mas as agruras do tempo de Marx eram resultado do selvagem período expansionista do capital, já então responsável por uma taxa gigante de extração de mais-valia (e consequente violenta pauperização dos trabalhadores - são assustadores os exemplos que Marx dá durante o Livro I d'O Capital).

E, mais uma vez, não sei se você sabe, mas a União Soviética de Stalin e pós-stálin não moveu um dedo para acabar com o capital (enquanto controle verticalizado da produção, dissociado dos próprios produtores), muito pelo contrário: apenas trocou as personificações, isto é, trocou os capitalistas privados pelos membros do Partido, mostrando por tabela quão essencial é a política para a sua auto-reprodução - coisa que Marx já tinha notado, basta ler o subtitulo d'O Capital: a crítica da economia política. por isso que o tal do "neoliberalismo" e da defesa do "Estado mínimo" são mistificações no mínimo ingenuas - pra não dizer hipócritas: o Capital não existe sem seu braço político. E não só isso: mostrou ainda que o capitalismo não é, de modo algum, o último modo de produção possível baseado no capital, com a uníão soviética sendo o primeiro estado pós-capitalista da história, e também que o capital é, de fato e de direito, incontrolável.

uhm, ainda bem que "filas, racionamentos, doenças, apatia, desambição e desânimo" não existem no capitalismo, né verdade? O povinho pra gostar de maquiar a realidade, viu...

 

Você não sabe o que fala, amor.

 

Para Ubaldo. O Paranoico (sumido)

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Marx foi sem dúvida um grande pensador que atravessou séculos, mas, é muita loucura segui-lo sem modificaçoes como se ele tivesse vivido ontem e é o que muita gente faz .

 

Estamos aqui, no conforto deste debate digital pela internet, que une o mundo de ponta a ponta, graças à fome draconiana do capital, gerador e concentrador de riquezas sim, mas também propulsor do progresso, do avanço da ciência, da tecnologia e de todas as maravilhas do mundo moderno
Não fosse o capital teríamos estacionado no tempo, vivendo como se vivia no tempo de Marx, provavelmente sob ditaduras como a de Stalin.
O capital concentra as riquezas, é egoista, passa por cima de tudo, mas vai deixando, tal como um cometa, um rastro brilhante em seu caminho, que pode ser visto e seguido pelos que colherão suas migalhas, que seja, mas colhem.
Do outro modo, haveriam filas, racionamentos, doenças, apatia, desambição e desânimo. Caminhos sem luz.
Exceto para os socialistas que ocupam o poder.
DE RESTO, A IGUALDADE É POR BAIXO.
Como se diz por aí, "é a treva".

 

Amém para Marx? Essa é insólita.

 

Impossível conhecer o mundo em que vivemos, bem como a maneira como foi construído e as várias etapas que a humanidade passou até chegar ao modo de produção capitalista, sem ler a obra de Karl Marx.

Karl Marx era e é essencial. Ninguém o suplantou até hoje, muitos o seguem, seguem o seu método de análise econômica, política e social. Mas ninguém ainda o superou.

Certamente, é um dos maiores vultos da história da humanidade.

 

Se o que ele produziu de saber tivesse sido produzido para o pensamento burgués, seria um semi-deus inatacável. Seua postulados, leis da natureza. Optou pelos principios, com todos os erros e acertos pessoais de que os homens são tão prolificos.
Lutou o bom combate.

 

Pequeno fragmento de uma das inúmeras obras de Engels:

Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico

Friederich Engels - 1880

III
O Materialismo Histórico

O socialismo moderno é, em primeiro lugar, por seu conteúdo, fruto do reflexo na inteligência, de um lado dos antagonismos de classe que imperam na moderna sociedade entre possuidores e despossuidos, capitalistas e operários assalariados, e, de outro lado, da anarquia que reina na produção. Por sua forma teórica, porém, o socialismo começa apresentando-se como uma continuação, mais desenvolvida e mais conseqüente, dos princípios proclamados pelos grandes pensadores franceses do século XVIII. Como toda nova teoria, o socialismo, embora tivesse suas raízes nos fatos materiais econômicos, teve de ligar-se, ao nascer, às Idéias existentes.

A concepção materialista da história parte da tese de que a produção, e com ela a troca dos produtos, é a base de toda a ordem social; de que em todas as sociedades que desfilam pela história, a distribuição dos produtos, e juntamente com ela a divisão social dos homens em classes ou camadas, é determinada pelo que a sociedade produz e como produz o pelo modo de trocar os seus produtos. De conformidade com isso, as causas profundas de todas as transformações sociais e de todas as revoluções políticas não devem ser procuradas nas cabeças dos homens nem na idéia que eles façam da verdade eterna ou da eterna justiça, mas nas transformações operadas no modo de produção e de troca; devem ser procuradas não na filosofia, mas na economia da época de que se trata. Quando nasce nos homens a consciência de que as instituições sociais vigentes são irracionais e injustas, de que a razão se converteu em insensatez e a bênção em praga (7), isso não é mais que um indício de que nos métodos de produção e nas formas de distribuição produziram-se silenciosamente transformações com as quais já não concorda a ordem social, talhada segundo o padrão de condições econômicas anteriores. E assim já está dito que nas novas relações de produção têm forçosamente que conter-se - mais ou menos desenvolvidos - os meios necessários para pôr termo aos males descobertos. E esses meios não devem ser tirados da cabeça de ninguém, mas a cabeça é que tem de descobrí-los nos fatos materiais da produção, tal e qual a realidade os oferece.
--
E por aí vai...

 

Proletários de Todos os Países, Uni-vos!

 

De jeito nenhum!

 

Carta a Abraham Lincoln, Presidente dos Estados Unidos da América

Karl Marx

22 - 29 de Novembro de 1864

Senhor,

Felicitamos o povo Americano pela sua reeleição por uma larga maioria. Se a palavra de ordem reservada da sua primeira eleição foi resistência ao Poder dos Escravistas [Slave Power], o grito de guerra triunfante da sua reeleição é Morte à Escravatura.

Desde o começo da titânica contenda americana, os operários da Europa sentiram instintivamente que a bandeira das estrelas carregava o destino da sua classe. A luta por territórios que desencadeou a dura epopeia não foi para decidir se o solo virgem de regiões imensas seria desposado pelo trabalho do emigrante ou prostituído pelo passo do capataz de escravos?

Quando uma oligarquia de 300 000 proprietários de escravos ousou inscrever, pela primeira vez nos anais do mundo, «escravatura» na bandeira da Revolta Armada, quando nos precisos lugares onde há quase um século pela primeira vez tinha brotado a ideia de uma grande República Democrática, de onde saiu a primeira Declaração dos Direitos do Homem[N11] e de onde foi dado o primeiro impulso para a revolução Europeia do século XVIII; quando, nesses precisos lugares, a contra-revolução, com sistemática pertinácia, se gloriou de prescindir das «ideias vigentes ao tempo da formação da velha constituição» e sustentou que «a escravatura é uma instituição beneficente», [que], na verdade, [é] a única solução para o grande problema da «relação do capital com o trabalho» e cinicamente proclamou a propriedade sobre o homem como «a pedra angular do novo edifício» — então, as classes operárias da Europa compreenderam imediatamente, mesmo antes da fanática tomada de partido das classes superiores pela fidalguia [gentry] Confederada ter dado o seu funesto aviso, que a rebelião dos proprietários de escravos havia de tocar a rebate para uma santa cruzada geral da propriedade contra o trabalho e que, para os homens de trabalho, [juntamente] com as suas esperanças para o futuro, mesmo as suas conquistas passadas estavam em causa nesse tremendo conflito do outro lado do Atlântico. Por conseguinte, suportaram pacientemente, por toda a parte, as privações que lhes eram impostas pela crise do algodão[N12], opuseram-se entusiasticamente à intervenção pró-escravatura — importuna exigência dos seus superiores — e, na maior parte das regiões da Europa, contribuíram com a sua quota de sangue para a boa causa.

Enquanto os operários, as verdadeiras forças [powers] políticas do Norte, permitiram que a escravatura corrompesse a sua própria república, enquanto perante o Negro — dominado e vendido sem o seu consentimento — se gabaram da elevada prerrogativa do trabalhador de pele branca de se vender a si próprio e de escolher o seu próprio amo, foram incapazes de atingir a verdadeira liberdade do trabalho ou de apoiar os seus irmãos Europeus na sua luta pela emancipação; mas esta barreira ao progresso foi varrida pelo mar vermelho da guerra civil[N4].

Os operários da Europa sentem-se seguros de que, assim como a Guerra da Independência Americana[N13] iniciou uma nova era de ascendência para a classe média, também a Guerra Americana Contra a Escravatura o fará para as classes operárias. Consideram uma garantia da época que está para vir que tenha caído em sorte a Abraham Lincoln, filho honesto da classe operária, guiar o seu país na luta incomparável pela salvação de uma raça agrilhoada e pela reconstrução de um mundo social.

 

Pequeno fragmento sobre a América do Sul e seu libertador:

Símon Bolívar por Karl Marx

Janeiro 1858

Simón, o “Libertador” da Colômbia nasceu em 24 de julho de 1783 em Caracas e morreu em San Pedro, perto de Santa Marta, em 17 de dezembro de 1830. Descendia de uma das famílias mantuanas, que na época da dominação espanhola constituíam a nobreza criolla na Venezuela. Conforme um costume dos americanos abastados da época, foi enviado para a Europa com a tenra idade de 14 anos. Da Espanha passou para a França e residiu durante alguns anos em Paris. Em 1802 casou-se em Madri e regressou à Venezuela, onde sua esposa faleceu repentinamente de febre amarela. Depois desse acontecimento, transferiu-se em seguida, pela segunda vez, para a Europa e assistiu em 1804 a coroação de Napoleão como imperador, também estando presente quando Bonaparte cingiu a coroa de ferro da Lombardia. Em 1809 retomou à sua pátria, e apesar das insistências de seu primo José Félix Ribas, recusou-se a aderir à revolução que estoura em Caracas a 19 de abril de 1810. Porém, posteriormente a este acontecimento, aceitou a missão de ir à Londres para comprar armas e negociar a proteção do governo britânico. O Marquês de Wellesley, na época Ministro das Relações Exteriores, aparentemente lhe deu boa acolhida, mas Bolívar não obteve mais que a autorização de exportar armas pagando à vista e pagando pesados tributos. Quando regressou de Londres, retirou-se para a vida privada, até que em setembro de 1811 o general Miranda, então comandante em chefe das forças insurretas de mar e terra, persuadiu-o a aceitar o posto de tenente-coronel no Estado-Maior e o comando de Puerto Cabello, a principal praça forte da Venezuela.

Quando os prisioneiros de guerra espanhóis, que Miranda enviava regularmente a Puerto Cabello para mantê-los presos na cidadela, conseguiram atacar de surpresa a guarda e a dominaram, apoderando-se da cidadela, Bolívar, embora os espanhóis estivessem desarmados, enquanto ele dispunha de uma forte guarnição e de um grande arsenal, embarcou precipitadamente à noite com oito dos seus oficiais, sem informar o que ocorria às suas próprias tropas, chegou ao amanhecer a La Guaira, e de lá se retirou para a sua fazenda de San Mateo.

Quando a guarnição se inteirou da fuga do seu comandante, abandonou ordenadamente a praça, que foi logo ocupada pelos espanhóis sob o comando de Monteverde. Este acontecimento inclinou a balança a favor da Espanha e forçou Miranda a subscrever a 26 de julho de 1812, por incumbência do Congresso, o tratado de La Victoria, que submeteu novamente a Venezuela ao domínio espanhol. Em 30 de julho chegou Miranda a La Guaira, com a intenção de embarcar num navio inglês. Enquanto visita o coronel Manuel Maria Casas, comandante da praça, encontrou-se com um numeroso grupo, no qual estavam dom Miguel Pefía e Simón Bolívar, que o convenceram a ficar, pelo menos uma noite, na residência de Casas. As duas da madrugada, encontrando-se Miranda dormindo profundamente, Casas, Pefía e Bolívar se introduziram em seu quarto com quatro soldados armados, se apoderaram precavidamente de sua espada e de sua pistola, despertaram-no rudemente, ordenando-lhe que se levantasse e se vestisse, após o que foi agrilhoado e entregue a Monteverde. O chefe espanhol remeteu-o para Cádiz, onde Miranda, acorrentado, morreu depois de vários anos de cativeiro. Este ato, para cuja justificação recorreu-se ao pretexto de que Miranda havia traído o seu país com a capitulação de La Victoria, valeu a Bolívar o especial favor de Monteverde, a tal ponto que quando o primeiro solicitou seu passaporte, o chefe espanhol declarou: “Deve-se atender o pedido do coronel Bolívar, como recompensa pelo serviço prestado ao rei da Espanha com a entrega de Miranda”.

Autorizou-se assim que Bolívar embarcasse com destino a Curazao, onde permaneceu seis semanas. Em companhia do seu primo Ribas se transferiu logo para a pequena república de Cartagena. Antes de sua chegada a Cartagena havia fugido para lá uma grande quantidade de soldados, ex-combatentes que estiveram sob a ordem do general Miranda. Ribas lhes propôs empreender uma expedição contra os espanhóis na Venezuela e a reconhecer Bolívar como comandante em chefe. A primeira proposta teve uma acolhida entusiasmada; à segunda houve resistência, ainda que finalmente aceitassem, com a condição de que Ribas fosse o lugar-tenente de Bolívar. Manuel Rodriguez Torias, o presidente da república de Cartagena agregou aos 300 soldados assim recrutados para Bolívar outros 500 homens sob o comando de seu primo Manuel Castillo. A expedição partiu no começo de janeiro de 1813. Produzindo-se divergências entre Bolívar e Castillo sobre quem tinha o comando supremo, o segundo se retirou subitamente com seus granadeiros. Bolívar, por sua vez, propôs seguir o exemplo de Castillo e regressar a Cartagena, mas, no final, Ribas pôde persuadi-lo a prosseguir, ao menos a rota até Bogotá, onde tinha então, sua sede o Congresso de Nova Granada. Foram ali muito bem acolhidos, apoiados de mil maneiras e o congresso os promoveu ao posto de generais. Depois de dividirem seu pequeno exército em duas colunas, marcharam por diferentes caminhos para Caracas. Quanto mais avançavam, mais reforços recebiam; os cruéis excessos dos espanhóis desempenhavam o papel de recrutadores para o exército da independência. A capacidade de resistência dos espanhóis estava alquebrada; de um lado porque três quartas partes de seu exército se compunham de nativos, que em cada encontro passavam para o lado inimigo; do outro devido à covardia de generais como Tízcar, Cajigal e Fierro, que na menor oportunidade abandonavam suas próprias tropas. De tal sorte ocorreu que Santiago Mariño, um jovem sem formação, conseguiu expulsar das províncias de Cumaná e Barcelona os espanhóis, ao mesmo tempo em que Bolívar ganhava terreno nas províncias ocidentais. A única resistência séria opuseram-na os espanhóis contra a coluna Ribas, que derrotou o general Monteverde em Los Taguanes e obrigou-o a refugiar-se em Puerto Cabello com o resto de suas Tropas.

Quando o governador de Carácas, general Fierro, teve notícias de que Bolívar se aproximava, enviou-lhe emissários para propor capitulação, que foi assinada em La Victoria. Porém Fierro, tomado por um pânico repentino e sem aguardar o regresso de seus próprios emissários, fugiu secretamente à noite e deixou mais de 1.500 espanhóis à mercê do inimigo. A Bolívar se tributou então uma entrada apoteótica. De pé, em um carro de triunfo, puxado por doze donzelas vestidas de branco e enfeitadas com as cores nacionais, escolhidas entre as melhores famílias de Caracas, Bolívar, com a cabeça descoberta e agitando um pequeno bastão na mão, foi levado em meia hora desde a entrada da cidade até sua residência. Proclamou-se “Ditador e Libertador das Províncias Ocidentais da Venezuela” — Mariño havia adotado o título de “Ditador das Províncias Orientais” — criou a “Ordem do Libertador”, formou umm corpo de tropas escolhidas que denominou sua guarda pessoal e se rodeou da pompa própria de uma corte. Porém, como a maioria de seus compatriotas, era incapaz de qualquer esforço de grande envergadura, e sua ditadura degenerou logo em uma anarquia militar, na qual os assuntos mais importantes ficavam em mãos de favoritos, que arruinavam as finanças públicas e depois recorriam a meios odiosos para reorganizá-las. Deste modo, o recente entusiasmo popular se transformou em descontentamento, e as dispersas forças do inimigo dispuseram de tempo para reorganizar-se. Enquanto no começo de agosto de 1813 Monteverde estava trancado na fortaleza de Puerto Cabello, e ao exército espanhol só restasse uma estreita faixa de terra no noroeste da Venezuela, apenas três meses depois o Libertador havia perdido seu prestígio e Caracas se achava ameaçada pela súbita aparição, em suas vizinhanças, dos espanhóis vitoriosos, sob o comando de Boves. Para fortalecer seu poder cambaleante, Bolívar reuniu, em 1º de janeiro de 1814, uma junta, constituída pelos vizinhos de Caracas mais influentes, e manifestou-lhes que não desejava suportar mais tempo o fardo da ditadura. Hurtado de Mendoza, por seu lado, fundamentou em um prolongado discurso “a necessidade de que o poder supremo se mantivesse nas mãos do general Bolívar até que o Congresso de Nova Granada pudesse se reunir e a Venezuela unificar-se sob um só governo. Aprovou-se esta proposta e desta forma a ditadura recebeu um reconhecimento legal.

 

Karl Marx, por Vladimir Lênin:

KARL MARX

Karl Marx nasceu em 5 de Maio de 1818 em Trier (Prússia renana). O pai, advogado, israelita, converteu-se em 1824 ao protestantismo. A família, abastada e culta, não era revolucionária. Depois de ter terminado os seus estudos no liceu de Trier, Marx entrou na Universidade de Bona e depois na de Berlim; aí estudou direito e, sobretudo história e filosofia. Em 1841 terminava o curso defendendo uma tese de doutoramento sobre a filosofia de Epicuro. Eram, então, as concepções de Marx as de um idealista hegeliano. Em Berlim, aderiu ao círculo dos "hegelianos de esquerda" (3) (Bruno Bauer e outros) que procuravam tirar da filosofia de Hegel conclusões ateias e revolucionárias.

Ao sair da Universidade, Marx fixou-se em Bona, onde contava tornar-se professor. Mas a política reacionária de um governo que, em 1832, tinha tirado a Ludwig Feuerbach a sua cadeira de professor, recusando-lhe novamente o acesso à Universidade em 1836, e que em 1841 proibira o jovem professor Bruno Bauer de fazer conferências em Bona, obrigou Marx a renunciar a uma carreira universitária. Nessa época, o desenvolvimento das ideias do hegelianismo de esquerda fazia, na Alemanha, rápidos progressos. A partir, sobretudo de 1836, Ludwig Feuerbach começa a criticar a teologia e a orientar-se para o materialismo, a que, em 1841, adere completamente (A Essência do Cristianismo); em 1843 aparecem os seus Princípios da Filosofia do Futuro. " É preciso (...) ter vivido a influência emancipadora" desses livros, escreveu mais tarde Engels, a propósito destas obras de Feuerbach. "Nós", (isto é, os hegelianos de esquerda, entre eles Marx) "imediatamente nos tornamos feuerbachianos."(4) Nessa altura os burgueses radicais da Renânia, que tinham certos pontos de contacto com os hegelianos de esquerda, fundaram em Colónia um jornal de oposição, a Gazeta Renana(5) (que apareceu a partir de 1 de Janeiro de 1842). Marx e Bruno Bauer foram os seus principais colaboradores e, em Outubro de 1842, Marx tornou-se o redator-chefe, mudando-se então de Bona para Colónia. Sob a direção de Marx, a tendência democrática revolucionária do jornal acentuou-se cada vez mais e o governo começou por submetê-lo a uma dupla e mesmo tripla censura e acabou por ordenar a sua suspensão completa a partir de 1 de Janeiro de 1843. Por essa altura, Marx viu-se obrigado a deixar o seu posto de redator, mas a sua saída não salvou o jornal, que foi proibido em Março de 1843. Entre os artigos mais importantes que Marx publicou na Gazeta Renana, além dos que indicamos mais adiante (ver Bibliografia (6)) Engels cita um sobre a situação dos vinhateiros do vale do Mosela (7). A sua atividade de jornalista tinha feito compreender a Marx que os seus conhecimentos de economia política eram insuficientes e por isso lançou-se a estudá-la com ardor.

Em 1843, Marx casou-se, em Kreuznach, com Jenny von Westphalen, amiga de infância, de quem já era noivo desde o tempo de estudante. A sua mulher pertencia a uma família nobre e reacionária da Prússia. O irmão mais velho de Jenny vou Westphaleu foi ministro do interior na Prússia numa das épocas mais reacionárias, de 1850 a 1858. No Outono de 1843 Marx foi para Paris para editar no estrangeiro uma revista radical em colaboração com Arnold Ruge (1802-1880; hegeliano de esquerda, preso de 1825 a 1830; emigrado depois de 1848 e partidário de Bismarck depois de 1866-1870). Mas só apareceu o primeiro fascículo desta revista, intitulada Anais Franco-Alemães(8), que teve de ser suspensa por causa das dificuldades com a sua difusão clandestina na Alemanha e de divergências com Ruge. Nos artigos de Marx publicados pela revista, ele aparece-nos já como um revolucionário que proclama "a crítica implacável de tudo o que existe" e, em particular, "a crítica das armas", e apela para as massas e o proletariado.(9)

Em Setembro de 1844, Friedrich Engels esteve em Paris por uns dias, e desde então tornou-se o amigo mais íntimo de Marx. Ambos tomaram uma parte muito ativa na vida agitada da época dos grupos revolucionários de Paris (especial importância assumia então a doutrina de Proudhon (10), que Marx submeteu a uma crítica impiedosa na sua obra Miséria da Filosofia, publicada em 1847) e, numa árdua luta contra as diversas doutrinas do socialismo pequeno-burguês, elaboraram a teoria e a tática do socialismo proletário revolucionário ou comunismo (marxismo). Vejam-se as obras de Marx desta época, 1844-1848, mais adiante na Bibliografia. Em 1845, a pedido do governo prussiano, Marx foi expulso de Paris como revolucionário perigoso. Foi para Bruxelas, onde fixou residência. Na Primavera de 1847, Marx e Engels filiaram-se numa sociedade secreta de propaganda, a "Liga dos Comunistas" (11), tiveram papel destacado no II Congresso desta Liga (Londres, Novembro de 1847) e por incumbência do Congresso redigiram o célebre Manifesto do Partido Comunista, publicado em Fevereiro de 1848. Esta obra expõe, com uma clareza e um vigor geniais, a nova concepção do mundo, o materialismo conseqüente aplicado também ao domínio da vida social, a dialética como a doutrina mais vasta e mais profunda do desenvolvimento, a teoria da luta de classes e do papel revolucionário histórico universal do proletariado, criador de uma sociedade nova, a sociedade comunista.

Quando eclodiu a revolução de Fevereiro de 1848 (12), Marx foi expulso da Bélgica. Regressou novamente a Paris, que deixou depois da revolução de Março (13) para voltar à Alemanha e fixar-se em Colónia. Foi aí que apareceu, de 1 de Junho de 1848 até 19 de Maio de 1849, a Nova Gazeta Renana (14), de que Marx foi o redator-chefe. A nova teoria foi brilhantemente confirmada pelo curso dos acontecimentos revolucionários de 1848-1849 e posteriormente por todos os movimentos proletários e democráticos em todos os países do mundo. A contra-revolução vitoriosa arrastou Marx ao tribunal (foi absolvido em 9 de Fevereiro de 1849) e depois expulsou-o da Alemanha (em 16 de Maio de 1849). Voltou então para Paris, de onde foi igualmente expulso após a manifestação de 13 de Junho de 1849(15), e partiu depois para Londres, onde viveu até ao fim dos seus dias.

As condições desta vida de emigração eram extremamente penosas, como o revela com particular vivacidade a correspondência entre Marx e Engels (editada em 1913). Marx e a família viviam literalmente esmagados pela miséria; sem o apoio financeiro constante e dedicado de Engels, Marx não só não teria podido acabar O Capital, como teria fatalmente sucumbido à miséria. Além disso, as doutrinas e as correntes predominantes do socialismo pequeno-burguês, do socialismo não proletário em geral, obrigavam Marx a sustentar uma luta implacável, incessante e, por vezes, a defender-se mesmo dos ataques pessoais mais furiosos e mais absurdos (Herr Vogt (16)). Conservando-se à margem dos círculos de emigrados, Marx desenvolveu numa série de trabalhos históricos (ver Bibliografia) a sua teoria materialista, dedicando-se, sobretudo ao estudo da economia política. Revolucionou esta ciência (ver a seguir o capítulo acerca da doutrina de Marx), nas suas obras Contribuição para a Crítica da Economia Política (1859) e O Capital (r.1867).

A época da reanimação dos movimentos democráticos, no final dos anos 50 e nos anos 60, levou Marx a voltar ao trabalho prático. Foi em 1864 (em 28 de Setembro) que se fundou em Londres a célebre I Internacional, a "Associação Internacional dos Trabalhadores". Marx foi a sua alma, sendo o autor do primeiro "Apelo" (17) e de um grande número de resoluções, declarações e manifestos. Unindo o movimento operário dos diversos países, procurando orientar numa via de atividade comum as diferentes formas do socialismo não proletário, pré-marxista (Mazzini, Proudhon, Bakúnine, o trade-unionismo liberal inglês, as oscilações dos lassallianos para a direita na Alemanha, etc.) combatendo as teorias de todas estas seitas e escolas, Marx foi forjando uma tática única para a luta proletária da classe operária nos diversos países. Depois da queda da Comuna de Paris (1871) - a qual Marx analisou (em A Guerra Civil em França, 1871) de uma maneira tão penetrante, tão justa, tão brilhante, tão eficaz e revolucionária - e depois da cisão provocada pelos bakuninista (18), a Internacional não pôde continuar a subsistir na Europa. Depois do Congresso de 1872 em Haia, Marx conseguiu a transferência do Conselho Geral da Internacional para Nova lorque. A I Internacional tinha cumprido a sua missão histórica e dava lugar a uma época de crescimento infinitamente maior do movimento operário em todos os países do mundo, caracterizada pelo seu desenvolvimento em extensão, pela formação de partidos socialistas operários de massas no quadro dos diversos Estados nacionais.

A sua atividade intensa na Internacional e os seus trabalhos teóricos, que exigiam esforços ainda maiores, abalaram definitivamente a saúde de Marx. Prosseguiu a sua obra de transformação da economia política e de acabamento de O Capital, reunindo uma massa de documentos novos e estudando várias línguas (o russo, por exemplo), mas a doença impediu-o de terminar O Capital.

A 2 de Dezembro de 1881, morre a sua mulher. A 14 de Março de 1883, Marx adormecia pacificamente, na sua poltrona, para o último sono. Foi enterrado junto da sua mulher no cemitério de Highgate, em Londres. Vários filhos de Marx morreram muito jovens, em Londres, quando a família atravessava uma grande miséria. Três das suas filhas casaram com socialistas ingleses e franceses: Eleanor Aveling, Laura Lafargue e Jenny Longuet; um dos filhos desta última é membro do Partido Socialista Francês.

 

Como é bom ler e reler o Manifesto Comunista!

Aí vai um pequeno trecho, gigante em lucidez e análise histórica:

I - Burgueses e Proletários

A história de toda a sociedade até aqui é a história de lutas de classes.

Homem livre e escravo, patrício e plebeu, barão e servo [Leibeigener], burgueses de corporação [Zunftbürger] e oficial, em suma, opressores e oprimidos, estiveram em constante oposição uns aos outros, travaram uma luta ininterrupta, ora oculta ora aberta, uma luta que de cada vez acabou por uma reconfiguração revolucionária de toda a sociedade ou pelo declínio comum das classes em luta.

Nas anteriores épocas da história encontramos quase por toda a parte uma articulação completa da sociedade em diversos estados [ou ordens sociais — Stände], uma múltipla gradação das posições sociais. Na Roma antiga temos patrícios, cavaleiros, plebeus, escravos; na Idade Média: senhores feudais, vassalos, burgueses de corporação, oficiais, servos, e ainda por cima, quase em cada uma destas classes, de novo gradações particulares.

A moderna sociedade burguesa, saída do declínio da sociedade feudal, não aboliu as oposições de classes. Apenas pôs novas classes, novas condições de opressão, novas configurações de luta, no lugar das antigas.

A nossa época, a época da burguesia, distingue-se, contudo, por ter simplificado as oposições de classes. A sociedade toda cinde-se, cada vez mais, em dois grandes campos inimigos, em duas grandes classes que directamente se enfrentam: burguesia e proletariado.

Dos servos da Idade Média saíram os Pfahlbürger das primeiras cidades; desta Pfahlbürgerschaft desenvolveram-se os primeiros elementos da burguesia [Bourgeoisie].

O descobrimento da América, a circum-navegação de África, criaram um novo terreno para a burguesia ascendente. O mercado das Índias orientais e da China, a colonização da América, o intercâmbio [Austausch] com as colónias, a multiplicação dos meios de troca e das mercadorias em geral deram ao comércio, à navegação, à indústria, um surto nunca até então conhecido, e, com ele, um rápido desenvolvimento ao elemento revolucionário na sociedade feudal em desmoronamento.

O modo de funcionamento até aí feudal ou corporativo da indústria já não chegava para a procura que crescia com novos mercados. Substituiu-a a manufactura. Os mestres de corporação foram desalojados pelo estado médio [Mittelstand] industrial; a divisão do trabalho entre as diversas corporações [Korporationen] desapareceu ante a divisão do trabalho na própria oficina singular.

Mas os mercados continuavam a crescer, a procura continuava a subir. Também a manufactura já não chegava mais. Então o vapor e a maquinaria revolucionaram a produção industrial. Para o lugar da manufactura entrou a grande indústria moderna; para o lugar do estado médio industrial entraram os milionários industriais, os chefes de exércitos industriais inteiros, os burgueses modernos.

A grande indústria estabeleceu o mercado mundial que o descobrimento da América preparara. O mercado mundial deu ao comércio, à navegação, às comunicações por terra, um desenvolvimento imensurável. Este, por sua vez, reagiu sobre a extensão da indústria, e na mesma medida em que a indústria, o comércio, a navegação, os caminhos-de-ferro se estenderam, desenvolveu-se a burguesia, multiplicou os seus capitais, empurrou todas as classes transmitidas da Idade Média para segundo plano.

Vemos, pois, como a burguesia moderna é ela própria o produto de um longo curso de desenvolvimento, de uma série de revolucionamentos no modo de produção e de intercâmbio [Verkehr].

Cada um destes estádios de desenvolvimento da burguesia foi acompanhado de um correspondente progresso político. Estado [ou ordem social — Stand] oprimido sob a dominação dos senhores feudais, associação armada e auto-administrada na comuna, aqui cidade-república independente, além terceiro-estado na monarquia sujeito a impostos, depois ao tempo da manufactura contrapeso contra a nobreza na monarquia de estados [ou ordens sociais — ständisch] ou na absoluta, base principal das grandes monarquias em geral — ela conquistou por fim, desde o estabelecimento da grande indústria e do mercado mundial, a dominação política exclusiva no moderno Estado representativo. O moderno poder de Estado é apenas uma comissão que administra os negócios comunitários de toda a classe burguesa.

A burguesia desempenhou na história um papel altamente revolucionário.

A burguesia, lá onde chegou à dominação, destruiu todas as relações feudais, patriarcais, idílicas. Rasgou sem misericórdia todos os variegados laços feudais que prendiam o homem aos seus superiores naturais e não deixou outro laço entre homem e homem que não o do interesse nu, o do insensível "pagamento a pronto". Afogou o frémito sagrado da exaltação pia, do entusiasmo cavalheiresco, da melancolia pequeno-burguesa, na água gelada do cálculo egoísta. Resolveu a dignidade pessoal no valor de troca, e no lugar das inúmeras liberdades bem adquiridas e certificadas pôs a liberdade única, sem escrúpulos, de comércio. Numa palavra, no lugar da exploração encoberta com ilusões políticas e religiosas, pôs a exploração seca, directa, despudorada, aberta.

A burguesia despiu da sua aparência sagrada todas as actividades até aqui veneráveis e consideradas com pia reverência. Transformou o médico, o jurista, o padre, o poeta, o homem de ciência em trabalhadores assalariados pagos por ela.

A burguesia arrancou à relação familiar o seu comovente véu sentimental e reduziu-a a uma pura relação de dinheiro.

A burguesia pôs a descoberto como a brutal exteriorização de força, que a reacção tanto admira na Idade Média, tinha na mais indolente mandriice o seu complemento adequado. Foi ela quem primeiro demonstrou o que a actividade dos homens pode conseguir. Realizou maravilhas completamente diferentes das pirâmides egípcias, dos aquedutos romanos e das catedrais góticas, levou a cabo expedições completamente diferentes das antigas migrações de povos e das cruzadas.

A burguesia não pode existir sem revolucionar permanentemente os instrumentos de produção, portanto as relações de produção, portanto as relações sociais todas. A conservação inalterada do antigo modo de produção era, pelo contrário, a condição primeira de existência de todas as anteriores classes industriais. O permanente revolucionamento da produção, o ininterrupto abalo de todas as condições sociais, a incerteza e o movimento eternos distinguem a época da burguesia de todas as outras. Todas as relações fixas e enferrujadas, com o seu cortejo de vetustas representações e intuições, são dissolvidas, todas as recém-formadas envelhecem antes de poderem ossificar-se. Tudo o que era dos estados [ou ordens sociais — ständisch] e estável se volatiliza, tudo o que era sagrado é dessagrado, e os homens são por fim obrigados a encarar com olhos prosaicos a sua posição na vida, as suas ligações recíprocas.

A necessidade de um escoamento sempre mais extenso para os seus produtos persegue a burguesia por todo o globo terrestre. Tem de se implantar em toda a parte, instalar-se em toda a parte, estabelecer contactos em toda a parte.

A burguesia, pela sua exploração do mercado mundial, configurou de um modo cosmopolita a produção e o consumo de todos os países. Para grande pesar dos reaccionários, tirou à indústria o solo nacional onde firmava os pés. As antiquíssimas indústrias nacionais foram aniquiladas, e são ainda diariamente aniquiladas. São desalojadas por novas indústrias cuja introdução se torna uma questão vital para todas as nações civilizadas, por indústrias que já não laboram matérias-primas nativas, mas matérias-primas oriundas das zonas mais afastadas, e cujos fabricos são consumidos não só no próprio país como simultaneamente em todas as partes do mundo. Para o lugar das velhas necessidades, satisfeitas por artigos do país, entram [necessidades] novas que exigem para a sua satisfação os produtos dos países e dos climas mais longínquos. Para o lugar da velha auto-suficiência e do velho isolamento locais e nacionais, entram um intercâmbio omnilateral, uma dependência das nações umas das outras. E tal como na produção material, assim também na produção espiritual. Os artigos espirituais das nações singulares tornam-se bem comum. A unilateralidade e estreiteza nacionais tornam-se cada vez mais impossíveis, e das muitas literaturas nacionais e locais forma-se uma literatura mundial.

A burguesia, pelo rápido melhoramento de todos os instrumentos de produção, pelas comunicações infinitamente facilitadas, arrasta todas as nações, mesmo as mais bárbaras, para a civilização. Os preços baratos das suas mercadorias são a artilharia pesada com que deita por terra todas as muralhas da China, com que força à capitulação o mais obstinado ódio dos bárbaros ao estrangeiro. Compele todas as nações a apropriarem o modo de produção da burguesia, se não quiserem arruinar-se; compele-as a introduzirem no seu seio a chamada civilização, i. é, a tornarem-se burguesas. Numa palavra, ela cria para si um mundo à sua própria imagem.

A burguesia submeteu o campo à dominação da cidade. Criou cidades enormes, aumentou num grau elevado o número da população urbana face à rural, e deste modo arrancou uma parte significativa da população à idiotia [Idiotismus] da vida rural. Assim como tornou dependente o campo da cidade, [tornou dependentes] os países bárbaros e semibárbaros dos civilizados, os povos agrícolas dos povos burgueses, o Oriente do Ocidente.

A burguesia suprime cada vez mais a dispersão dos meios de produção, da propriedade e da população. Aglomerou a população, centralizou os meios de produção e concentrou a propriedade em poucas mãos. A consequência necessária disto foi a centralização política. Províncias independentes, quase somente aliadas, com interesses, leis, governos e direitos alfandegários diversos, foram comprimidas numa nação, num governo, numa lei, num interesse nacional de classe, numa linha aduaneira.

A burguesia, na sua dominação de classe de um escasso século, criou forças de produção mais massivas e mais colossais do que todas as gerações passadas juntas. Subjugação das forças da Natureza, maquinaria, aplicação da química à indústria e à lavoura, navegação a vapor, caminhos-de-ferro, telégrafos eléctricos, arroteamento de continentes inteiros, navegabilidade dos rios, populações inteiras feitas saltar do chão — que século anterior teve ao menos um pressentimento de que estas forças de produção estavam adormecidas no seio do trabalho social?

Vimos assim que: os meios de produção e de intercâmbio sobre cuja base se formou a burguesia foram gerados na sociedade feudal. Num certo estádio do desenvolvimento destes meios de produção e de intercâmbio, as relações em que a sociedade feudal produzia e trocava, a organização feudal da agricultura e da manufactura — numa palavra, as relações de propriedade feudais — deixaram de corresponder às forças produtivas já desenvolvidas. Tolhiam a produção, em vez de a fomentarem. Transformaram-se em outros tantos grilhões. Tinham de ser rompidas e foram rompidas.

Para o seu lugar entrou a livre concorrência, com a constituição social e política a ela adequada, com a dominação económica e política da classe burguesa.

Um movimento semelhante processa-se diante dos nossos olhos. As relações burguesas de produção e de intercâmbio, as relações de propriedade burguesas, a sociedade burguesa moderna que desencadeou meios tão poderosos de produção e de intercâmbio, assemelha-se ao feiticeiro que já não consegue dominar as forças subterrâneas que invocara. De há decénios para cá, a história da indústria e do comércio é apenas a história da revolta das modernas forças produtivas contra as modernas relações de produção, contra as relações de propriedade que são as condições de vida da burguesia e da sua dominação. Basta mencionar as crises comerciais que, na sua recorrência periódica, põem em questão, cada vez mais ameaçadoramente, a existência de toda a sociedade burguesa. Nas crises comerciais é regularmente aniquilada uma grande parte não só dos produtos fabricados como das forças produtivas já criadas. Nas crises irrompe uma epidemia social que teria parecido um contra-senso a todas as épocas anteriores — a epidemia da sobreprodução. A sociedade vê-se de repente retransportada a um estado de momentânea barbárie; parece-lhe que uma fome, uma guerra de aniquilação universal lhe cortaram todos os meios de subsistência; a indústria, o comércio, parecem aniquilados. E porquê? Porque ela possui demasiada civilização, demasiados meios de vida, demasiada indústria, demasiado comércio. As forças produtivas que estão à sua disposição já não servem para promoção das relações de propriedade burguesas; pelo contrário, tornaram-se demasiado poderosas para estas relações, e são por elas tolhidas; e logo que triunfam deste tolhimento lançam na desordem toda a sociedade burguesa, põem em perigo a existência da propriedade burguesa. As relações burguesas tornaram-se demasiado estreitas para conterem a riqueza por elas gerada. — E como triunfa a burguesia das crises? Por um lado, pela aniquilação forçada de uma massa de forças produtivas; por outro lado, pela conquista de novos mercados e pela exploração mais profunda de antigos mercados. De que modo, então? Preparando crises mais omnilaterais e mais poderosas, e diminuindo os meios de prevenir as crises.
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E por aí segue... Simplesmente fantástico. Fundamental para quem queira conhecer a história econômica e política que temos hoje, para compreender de onde isso se originou e o que vem pela frente.

Parabéns e viva Karl Marx!!!

 

nassif:
pelo que percebo a marx está muito atual. o homem falou para todos os tempos.
romério

 

“Exame da conduta de Marx, à luz de dados biográficos reais e longe da imagem mítica partidariamente cultivada, na maneira como se comportava com amigos e familiares e, em especial, nos métodos que empregava no confronto com adversários para impor a doutrina comunista e sua ética de resultados.
A primeira coisa a ressaltar em Marx diz respeito ao caráter impositivo. Marx não pedia, mandava. Não se desculpava, justificava-se. Não dialogava, impunha ou aliciava. Um dos poucos homens com quem conviveu sem brigar, o poeta Heinrich Heine, escreveu que “Marx se julga um Deus Ateu autonomeado”. Quando, por qualquer razão, se impacientava com um circundante – como no caso em que humilhou publicamente o operário Weitling –, partia para explosão verbal. Um observador, Pavel Annenkov, traçou-lhe o perfil: “Falava sempre com palavras imperiosas, que não admitiam contradição, e que se tornavam ainda mais incisivas pela sensação quase dolorosa do tom que perpassava tudo o que dizia. O tom expressava a firme convicção de sua missão de dominar a mente dos homens e de lhes ditar suas leis. Diante de mim erguia-se a encarnação de um ditador democrático.”
Boa demonstração do seu caráter revela-se na polêmica que travou com P. J. Proudhon (1809/65), o socialista francês que o acolheu no exílio, antes de Marx ser expulso de Paris, em 1844. Proudhon tinha se tornado o mestre do socialismo europeu com a publicação de O Que é a Propriedade?, ao ponto de Marx reverenciá-lo, em A Sagrada Família, como criador de “obra que revoluciona a economia política, tornando possível, pela primeira vez, uma verdadeira ciência da economia política”.
Mas Proudhon, desconfiando do caráter de Marx, impregnado de virulência, recusou o convite deste (feito por carta) para ingressar no Comitê Comunista de Correspondência, sediado em Bruxelas. Ponderou, profético, Proudhon:
“Faço profissão pública de um antidogmatismo econômico absoluto. Se o sr. quiser, investiguemos juntos as leis da sociedade, o modo como essas leis se realizam, o processo segundo o qual chegaremos a descobri-la – mas, por Deus, depois de demolir todos os dogmatismos a priori, não pensemos em doutrinar o povo, não caiamos na contradição do v. compatriota Lutero, que, depois de haver derrubado a teologia católica, colocou-se logo, através de anátemas e excomunhões, a criar uma teologia protestante... Façamos uma boa e leal polêmica; demos ao mundo o exemplo de tolerância sábia e previdente, mas não nos tornemos os chefes de uma nova intolerância, não nos coloquemos como apóstolos de uma nova religião, mesmo que essa religião seja da lógica, da razão... Com essa condição entrarei na v. associação – senão, não!
“Devo ainda fazer algumas observações à expressão “momento de ação” (revolucionária) de v. carta. Eu creio que não temos necessidade disso para vencer, e que, conseqüentemente, não devemos colocar a ação revolucionária como meio de reforma social, porque esse meio seria simplesmente um apelo à força, ao arbítrio; em suma, uma contradição.”
A resposta de Marx veio em 1847, com Miséria da Filosofia, depois que Proudhon lançou Sistema das Contradições Econômicas, uma construção antitética que propõe o entendimento da propriedade – a lado de ser uma apropriação indébita – como uma forma de liberdade. No opúsculo, Marx, irado com a recusa e os comentários de Proudhon, reduz a quem antes considerava “o mais notável socialista francês” à mera condição de “socialista utópico”, um “pequeno burguês oscilante entre o capital e o trabalho”.
Sabe-se hoje que o “socialismo científico” de Marx revelou-se tão utópico quanto o do “pequeno burguês” Proudhon, que, a rigor, jamais encarou o socialismo como uma ciência e repudiou sempre qualquer forma de ditadura, em especial a do proletariado. Depois de ler o arrazoado marxista, o francês resumiu-se a anotar num canto de página: “Um tecido de grosserias, calúnias, falsificações e plágios. Marx é a tênia do socialismo.”
De fato, para anular os adversários o pensador alemão tratava a moral comum aos pontapés. O exemplo dos métodos que empregava para neutralizá-los pode ser avaliado no seu desforço contra Bakunin, por quem, segundo o minucioso historiador inglês Robert Payne (Marx, Londres, 1968), nutria inveja acalentada pelo ódio. O anarquista russo (que, no dizer de Bernard Shaw, inspirou Wagner a compor o Siegfried), dono de personalidade incandescente e oratória libertária, desestabilizou, enquanto pôde, o controle que Marx detinha sobre o operariado europeu e, mais tarde, sobre a Associação Internacional de Trabalhadores. Em desacordo com a política ditatorial levada adiante por Marx, Bakunin articulou a formação de uma federação de associações de trabalhadores que logo ganhou adeptos na França, Itália, Espanha, Suíça e outros países europeus.
Sem condições de destruir o prestígio de Bakunin e temendo o seu poder de liderança, Marx, com o objetivo de desmoralizá-lo, publica na Nova Gazeta Renana informação de que o líder russo era um agente secreto da polícia czarista, dando como fonte suposta documentação em mãos da escritora Georg Sand. Ao tomar conhecimento da calunia, Sand, indignada, exigiu imediata retratação. Marx justificou-se afirmando que assim procedia “para defender o movimento socialista dos governos capitalistas”.
Mas não ficou por aí. Durante o congresso da Internacional em Haia, em 1872, ressabiado pela avassaladora atuação de Bakunin e suas idéias desestatizantes, denuncia-o por atos irresponsáveis de fato cometidos pelo terrorista Netchaiev (uma carta de ameaça ao editor de O Capital), sem que Bakunin tivesse participação direta no episódio – o que determina sua exclusão da Internacional.
Reconhecendo, no entanto, a força de Bakunin e certo de que na Europa, cedo ou tarde, a Internacional cairia em mãos deste, Marx, então conhecido como o “Doutor do Terror Vermelho”, numa manobra maquiavélica transfere a sede do seu Conselho Geral para Nova York – o que, em termos práticos, significou o fim da Internacional.
Outro traço do caráter de Marx é o que aponta para a completa falta de escrúpulos quando se tratava de alterar dados e informações que, de algum modo, servissem a causa do “socialismo científico”. No discurso inaugural da Internacional, em 1864, Marx, como registra o historiador Leslie Page (K. Marx and Critical Examination of his Works, Londres, 1987), para impressionar os trabalhadores adultera deliberadamente mensagem orçamentária de Gladstone (várias vezes primeiro ministro inglês), de 1863. Na oração, escreveu Gladstone sobre o crescimento da riqueza nacional: “Veria quase com apreensão e dor este inebriante crescimento da riqueza e poderio se acreditasse que está circunscrito a classe conservadora. A condição média do trabalhador inglês, é uma felicidade sabê-lo, melhorou nos últimos 20 anos, a um grau que sabemos extraordinário e que podemos qualificar como sem paralelo na história de qualquer país e de qualquer época.” Marx, mutilando e invertendo tudo, fez Gladstone dizer: “Este crescimento inebriante de riqueza e poderio está totalmente circunscrito a classe dos proprietários.”
Na manipulação de dados estatísticos contidos nos Livros Azuis de Biblioteca do British Museum, publicados pelo governo e fonte para a elaboração dos capítulos XIII e XV de O Capital, a conduta do pai do “socialismo científico” chega a ser, segundo analistas da Universidade de Cambridge (apud Paul Johnson, em Intellectuals, W&N, 1988) de “assombrosa temeridade”, concluindo que “há um desapreço quase criminoso no uso das fontes”, o que coloca “qualquer parte da obra de Marx sob suspeita”. Para comprovar sua verdade, Marx, que durante toda vida jamais entrou numa fábrica, usa material sabidamente desatualizado e elege como exemplo indústrias pré-capitalistas, com mais de 40 anos de atraso, que não tinham condições para incorporar novas maquinarias.
No capítulo de apropriação intelectual Marx ultrapassa os limites da pura desonestidade. Para compor seus escritos eivados de metáforas apocalípticas, toma como seu aquilo que foi criado por outros, sem apontar autoria. De Marat, se apropria da frase “o proletariado não tem nada a perder, exceto os grilhões”. De Heine, “a religião é ópio do povo”; e, de Louis Blanc, via Enfantin, sacou a formula “de cada um segundo suas capacidades, a cada um segundo suas necessidades”. De Shapper, tirou a convocação “trabalhadores de todo o mundo, uni-vos”, e, de Blanqui, a expressão “ditadura do proletariado”. Até mesmo sua obra mais bem acabada e de efeito vertiginoso, O Manifesto Comunista (1848, em parceria com Engels), tem-se, entre os anarquistas, como plágio vergonhoso do Manifesto da Democracia, de Victor Considérant, escrito cinco anos antes.
Marx considerava que as leis morais não haviam sido criadas para ele – é o que indica o seu modo de agir em vida. Para além das idéias, os métodos por ele empregados influenciaram de modo catalisador a prática comunista, no século 20: sem eles, dificilmente Lênin, Trotski, Stalin, Mao, Fidel, Pol Pot e congêneres encontrariam respaldo moral para justificar seus crimes contra a humanidade. Depois da derrocada da União Soviética, levantada a cortina do terror, viu-se que mais de 100 milhões de pessoas tinham sido destroçadas em nome de uma absurda “moral proletária”, que, estranhamente, parece ainda pontificar como se nada tivesse ocorrido.
O fim da existência de Marx foi patético. Morreu praticamente só, aos 65 anos, depois de percorrer estações balneárias para mitigar o sofrimento físico, lastimando-se de dores generalizadas na laringe, brônquios, tumores, insônia e suores noturnos. Ao médico que dele cuidava, deixou bilhete, no qual dizia “só encontrar certo alívio numa terrível dor de cabeça – pois a dor física é a único ‘estupefaciente’ da dor psíquica”.
Sua família foi a grande vítima. Dos seis filhos que teve com a mulher, Jenny, uma aristocrata, três morreram na primeira infância, em decorrência do estado de penúria a que foram submetidos, e os outros – as filhas Jenny, Laura e Leonor – terminaram a vida cometendo suicídio. O único sobrevivente, Freddy, filho de Marx com a empregada, Helene, nunca reconhecido pelo pai, foi adotado por Engels para “salvar as aparências”. Jenny, a mulher, prematuramente envelhecida pelo sofrimento, morreu aparentemente sem perdoar o marido por ter engravidado a empregada.
Com os pais, Marx não se comportou de modo menos egoísta. Por ocasião da morte do pai, Heinrich, vítima de câncer no fígado, não compareceu ao enterro porque, segundo ele próprio, “não tinha tempo a perder”. Por conta disso, a mãe, Henriette, saturada de pagar suas dívidas, com ele cortou relações, não antes de adverti-lo: “Você devia juntar algum capital em vez de só escrever sobre ele.”
Mas foi ao cometer grosseria com a amigo e provedor de todas as horas, Engels (1820/95), que Marx concedeu a chave para explicação de sua moralidade. Após a morte da companheira amada Mary Burns, Engels escreve ao amigo dizendo-se arrasado pelo fato (Karl Marx, Francis Wheen, Record, 2001). Marx, por carta, responde que a notícia o surpreendeu, mas logo passa a tecer considerações sobre as próprias necessidades pessoais. Engels, magoado com a frieza do outro, suspende dádivas e correspondência. O que leva Marx, apressado, não propriamente a pedir desculpas pela conduta mesquinha, mas a admitir, com franqueza brutal, que “em geral, nessas situações, meu único recurso é o cinismo”.

 

Mentira!
O nome (e a "obra") do farsante atravessou apenas 1 século, o século XIX...

Em 1989, com a queda do muro de Berlim, o fim da União Soviética, a destruição de TODAS as estátuas de Marx, Lenin, Stalin e Saddam existentes, MARX C'EST FINI...

Bem, pelo menos para o mundo civilizado...se é que você me entende...

 

Nem tanto, nem tão pouco, caro Barcelos. Lembre-se dos versos de Bertolt Brecht, em "Aos que virão depois de nós":

"Vocês, que vão emergir das ondas
em que nós perecemos, pensem,
quando falarem das nossas fraquezas,
nos tempos sombrios
de que vocês tiveram a sorte de escapar.

Nós existíamos através da luta de classes,
mudando mais seguidamente de países que de
sapatos, desesperados!
quando só havia injustiça e não havia revolta.

Nós sabemos:
o ódio contra a baixeza
também endurece os rostos!
A cólera contra a injustiça
faz a voz ficar rouca!
Infelizmente, nós,
que queríamos preparar o caminho para a
amizade,
não pudemos ser, nós mesmos, bons amigos.
Mas vocês, quando chegar o tempo
em que o homem seja amigo do homem,
pensem em nós
com um pouco de compreensão."

 

Marx era um homem do seu tempo, e não estava imune às contradições de sua própria origem de classe. Quem lê sua obra de forma mecânica, ou espera haurir de sua leitura alguma espécie de revelação bíblica, encontrará muitos motivos para se surpreender e/ou se decepcionar.

 

E seu nome atravessou mesmo os séculos, mas, Engels teve muita importância também, uma vez que faziam os trabalhos/pesquisas juntos. Engels foi fundamental na vida de Marx, inclusive em ajuda pessoal.

 

Nada de humano lhe era estranho.

 

É triste pensar no que Stalin e outros déspotas autoritários fizeram com o legado de Marx... o marxismo vulgar que predominou ao longo do século XX é um dos maiores desastres da humanidade...

 

Já perdi as contas de quantas vezes li este discurso. Emocionante. E veio de alguém com uma genialidade quase comparável ao Marx.
abs

 

"" Marx era , acima de tudo, um revolucionário. Cooperar deste ou daquele modo, na destruição da sociedade capitalista e das instituições políticas por ela criadas, contribuir para a emancipação do proletáriado moderno(todos aqueles que vendem sua força de trabalho ) ..."

Carta a G. Guillaume . Fragmento . "" Parece-me evidente que a mulher trabalhadora, devido aas suas funções fisiológicas, necessita de ser particularmente protegida contra a exploração capitalista " .

 

Por volta de 1865, Marx respondeu a um jogo de perguntas do tipo do que ainda hoje se faz, feito por sua filha mais velha, Laura. Engels também respondeu a questionário semelhante feito por outra filha de Marx, Jenny. (cf. Memória & História nº 1, Revista do Arquivo Histórico do Movimento Operário Brasileiro - dedicada a Astrojildo Pereira, 1981, Livraria Editora Ciências Humanas, SP)

(Note-se o contraste de personalidades: a seriedade excessiva de Marx e o estilo ‘savoir vivre’ de Engels)

Marx responde
A qualidade que mais aprecia: Nas pessoas a simplicidade; nos homens a força, nas mulheres a fraqueza.
Seu traço característico: Coerência
Sua idéia da felicidade: A luta.
A idéia da infelicidade: A submissão.
O defeito mais desculpável: A confiança dada com ligeireza.
O defeito que mais detesta: O servilismo.
A maior antipatia: Martin Tupper.
Ocupação predileta: Bouquiner
Os poetas preferidos: Shakespeare, Ésquilo, Goethe.
O prosador preferido: Diderot.
O herói preferido: Espartaco, Kepler.
A heroína preferida: Gretchen.
A flor preferida: Louro.
A cor preferida: Vermelho.
Nomes preferidos: Laura, Jenny.
O prato preferido: Peixe.
Ditado preferido: Nada do que é humano me é estranho.
Divisa preferida: Duvidar de tudo.

Engels responde
A virtude que mais aprecia: A alegria.
A qualidade que mais aprecia no homem: Não intrometer-se na vida alheia.
A qualidade que mais aprecia na mulher: Não perder as coisas.
Seu traço característico: Saber todas as coisas pela metade.
Sua idéia da felicidade: Chateaux Margaux 1848.
A idéia da infelicidade: Ir ao dentista.
O defeito mais desculpável: O excesso, de qualquer tipo.
O defeito que mais detesta: A hipocrisia.
O que mais desgosta: As mulheres afetadas e presunçosas.
O personagem que menos gosta: Spurgeon.
Herói preferido: Nenhum.
Heroína preferida: São demais para poder citar uma só.
Ocupação predileta: Gozar e ser gozado pelos outros.
Poeta preferido: Reinke de Vos, Shakespeare, Ariosto etc.
O prosador preferido: Goethe, Lessing, o doutro Samelson.
Flor preferida: Campânula.
A cor preferida: Todas que não sejam de anilina.
Prato preferido: Frio, salada; quente, estufado irlandês.
Sua norma de conduta preferida: Não ter nenhuma.
Divisa preferida: Não se apoquente.

 

Grandes homens, grandes epitáfios!

 

Nassif, eu gostaria muito de saber sua opinião sobre Marx, se vc acha que ele é atual ou não, quais as maiores contribuições da teoria, o que deveria ser atualizado, substituido, desconsiderado... o aniversário dele é uma boa pra isso, não achas? Abraço!

 

Enquanto houver um modo de produção regido pelas necessidades não da sociedade humana, mas da autoreprodução do capital (essa relação social de controle hierárquico da produção que saiu do nosso próprio controle há muito tempo), Marx será sempre atual. Nos nossos dias, é fundamental munir-se das armas teóricas que ele passou a vida para desenvolver e aperfeiçoar. O capitalismo de hoje é muito mais perigoso e destrutivo do que o da época em que Marx produziu. Lá no século XIX o sistema ainda não havia alcançado cada "cantinho do mundo", como Marx costumava dizer; havia um espaço de "manobra" relativamente confortável, com muita terra pra conquistar (e muita mais-valia pra bombear) sem que problemas mais sérios pudessem interromper a marcha do capital para a conquista global. Hoje, cada "cantinho do mundo" foi devidamente conquistado e colonizado, e o que resta é o que István Mészáros chama de crise estrutural do capital, não mais cíclica, mas que paira sobre nós como um céu cinzento cujas chuvas e tempestades atingem o planeta desde os anos 70. E ainda tem gente que acha que dá pra humanizar esse monstro, tomar suas rédeas... é cada vez mais urgente que escolhamos logo o caminho que queremos para o futuro: socialismo ou barbárie. Pq, se o capitalismo definhar de podre, de acordo com suas próprias contradições, há uma possibilidade gigante de que ele leve a gente junto...

 

Ultrapassados???

 

Amém.

 

Um dos maiores gênios da Humanidade, goste-se ou não dele.

 

"Seu nome atravessará os séculos, bem como sua obra!”

Dito e feito. Gostando ou não.