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O inquérito do mensalão tucano

"Mais um integrante do alto escalão do antigo governo de Eduardo Azeredo (PSDB), atual deputado federal, informou ter recebido ordens para repassar recursos dos cofres estaduais à agência do empresário Marcos Valério, a SMP&B, responsável pela campanha pela reeleição de Azeredo em 1998."

Novo depoimento põe em xeque Marcos Valério e Eduardo Azeredo no caso do 'mensalão mineiro'

Plantão | Publicada em 25/02/2011 às 00h08m

Thiago Herdy

BELO HORIZONTE - Mais um integrante do alto escalão do antigo governo de Eduardo Azeredo (PSDB), atual deputado federal, informou ter recebido ordens para repassar recursos dos cofres estaduais à agência do empresário Marcos Valério, a SMP&B, responsável pela campanha pela reeleição de Azeredo em 1998. O esquema foi denunciado pelo Ministério Público e ficou conhecido como "mensalão mineiro". Em depoimento à Justiça estadual nesta quinta-feira, o diretor jurídico da empresa pública Comig (atual Codemig), Jolcio Carvalho Pereira, disse ter recebido por intermédio do presidente da Comig carta oriunda da Secretaria de Comunicação (Secom) do governo determinando o repasse de R$ 1,5 milhão à agência de Valério, para o patrocínio ao Enduro da Independência, evento de motocross, às vésperas da eleição.

O Ministério Público acredita que o destino real dos recursos foi a campanha de Azeredo, e não a organização do evento, que teria custado muito mais barato. Em depoimento, Jolcio disse ter advertido outros dirigentes da Comig para a necessidade da proposta seguir todos os trâmites de praxe e análise do setor jurídico da empresa, o que não aconteceu.

_ A Secom alegou que tinha urgência. Na forma como foi feito, foi um caso excepcional - disse o diretor da empresa, que atualmente continua como integrante da diretoria da Codemig.

Além de Jolcio, o ex-presidente da Companhia de Saneamento de Minas Gerais (Copasa), Ruy Lage, já disse durante audiência ter recebido ordens por escrito por passar mais R$ 1,5 milhão da estatal para a SMP&B, apesar de a conta da empresa pertencer a outra agência de publicidade. As informações foram prestadas em depoimento à Justiça Federal em Minas na última semana, por meio de carta precatória do processo paralelo que corre no Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o tema porque dois réus - os senadores Eduardo Azeredo e Clésio Andrade (PR) - têm foro privilegiado. Lage deveria ter prestado depoimento novamente nesta quinta à Justiça estadual, onde outros oito réus sem foro privilegiado respondem pelos crimes, mas não apareceu por motivos de saúde.

Nesta quinta, outras 12 testemunhas prestaram depoimento na 9ª Vara Criminal do Fórum Lafayette, em sessão que durou quase nove horas. O advogado Carlos Henrique Martins Teixeira obteve o direito de não prestar depoimento, por ter sido contratado por um dos réus no processo para defendê-lo em ação de cobrança na Justiça. Com a manobra, o depoimento que Teixeira havia prestado antes à Polícia Federal perdeu força no processo. Suas revelações chegaram a ser destacadas pelo ministro do STF, Cezar Peluso, como prova de que Azeredo tinha conhecimento da origem ilícita dos recursos empregados em sua campanha.

O Ministério Público avaliou que a falta do depoimento não trará grande prejuízo à tese que defende. Isso porque os promotores não apostam mais em grandes revelações de testemunhas e acusados, mas no poder de convencimento das perícias realizadas pela Polícia Federal para comprovar o desvio de recursos para a campanha.

O MP busca confirmar a realização dos serviços relacionados à eleição por pessoas que receberam recursos da SMP&B, caso das testemunhas Alfeu Aguiar, Leopoldo Oliveira, Roberto Gontijo e Otimar Ferreira Bicalho, que prestaram depoimentos nesta quinta-feira. Otimar, inclusive, disse ter ouvido de um dos coordenadores da campanha de Azeredo e réu no processo, Cláudio Mourão, que o partido estava com problemas para pagar fornecedores e, por isso, o vice-candidato Clésio Andrade buscaria um empréstimo junto a bancos mineiros.

Um dos parceiros da SMP&B na realização do Enduro da Independência, o empresário Helvécio Aparecido Ribeiro, afirmou em depoimento que, nos bastidores, o custo da realização do evento era estimado em cerca de R$ 400 mil. A SMP&B de Marcos Valério conseguiu R$ 3,5 milhões em patrocínio da Comig, Copasa e do Bemge a título de patrocínio, valor bem superior ao estimado nesta quinta.

A Justiça aguardará o cumprimento de cartas precatórias com depoimento de outras 10 testemunhas arroladas pelo Ministério Público. Somente depois disso serão convocadas as testemunhas de defesa dos réus e os próprios acusados. Por isso, não há qualquer estimativa de prazo para se chegar à sentença do processo.

Além de Marcos Valério, que não compareceu à audiência desta quinta, são réus o ex-ministro do Turismo, Walfrido dos Mares Guia, o ex-secretário de estadual de Comunicação, Eduardo Guedes; o ex-presidente do Banco do Estado de Minas Gerais (Bemge) José Afonso Bicalho; os ex-sócios de Valério nas agências de publicidade DNA e SMPB, Cristiano de Melo Paz e Ramon Hollerbach Cardoso; o ex-tesoureiro da campanha de Azeredo e ex-secretário de Administração, Cláudio Mourão; o ex-diretor da Copasa Fernando Moreira Soares; e os ex-diretores da Companhia Mineradora (Comig) - atual Codemig - Lauro Wilson de Lima Filho e Renato Caporali Cordeiro.

http://oglobo.globo.com/pais/mat/2011/02/25/novo-depoimento-poe-em-xeque...

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Comentários

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Bem , o mensalão do PT é , em tese , similar ao mensalão tucano , mas , parece que as costas do Azeredo são mais quentes do que as do Zé Dirceu , porque um foi cassado e  o outro taí  , fazendo leis de censura à internet.  

 

Querias o quê meu caro Daniel Quireza? Os homens do PSDB_DEMO, são defensores e protetores das privadas. O tratamento às empresas públicas, ou seja, do Estado brasileiro, segundo a cartilha privatista, é exatamente este. Que sejam dividamente predadas para alavancar negócios privados. Daí o apego à privataria desvairada, ao talante tucano.

 

Orlando

 

Ah tá, então quer dizer que existiu o mensalão do PT e o mensalão "mineiro". Por que esse nome, cara pálida? O que afinal tem a ver o Estado de Minas Gerais com as práticas criminosas de um partido? E outra, quem foi que disse que o tal mensalão "mineiro" envolveu apenas políticos desse Estado?

Na vã tentativa de dissociar o bom nome do PSDB dessa sujeira, a única cosia que a grande mídia consegue é ofender a honra do povo mineiro, que agora terá de suportar a pecha de "mensaleiro". Lamentável. Gostaria de saber o que pensariam os leitores dos grandes jornais de SP se acaso apresentassem as denúncias contra a Alston e políticos locais com um slogan do tipo "Propinão Paulista" ou coisa que o valha.

 

Isto não vai adiante, pois pode ter Aécio e Lula.

 

Mensalão mineiro uma ova!! Mensalão TUCANO!! Ora...

 

Opa, isso quer dizer que no mensalão do psdb e não mineiro não foi só caixa 2 não, lá foi desvio de dinheiro público mesmo. Interessante né ?

 

@DanielQuireza

Em todos os mensalões o dinheiro público foi desviado. Não importa se foi para o Caixa 2, para dentro da cueca, da bolsa...

 

Caro Daniel , nesta história de mensalão eu estou de acordo com o Lula que classificou seus amigos de aloprados , sua sinceridade foi perfeita para assim denominar aquele malucos que enfiaram dinheiro até na cueca , uma tremenda falta de higiene , dinheiro é uma coisa que passa de mão em mão, tenha dó , sô. Tem tambem aquele dirigente que mais afoito aceitou logo um jipão importado de presente . Concluindo amigo , meteram a mão na combuca e se deram mal , sem distinção de partido , seja tucano ou ptista , todos são larápios .

 

Caro Cartaxo, acho que está confundindo as bolas. Lula classificou de aloprados os personagens daquele caso da compra do dossiê contra o Serra na campanha a governador de SP em 2006. Nada a ver com o chamado mensalão, que foi um caso de 2005. O tal dinheiro na cueca não tem nada a ver com nenhum destes dois casos se não me engano era um acessor de um deputado lá do nordeste, acho até que estadual, que colocou uma grana na cueca. A questão essencial a meu ver é que tanto o caixa 2 (que é uma prática disseminada em todo o País - a grande maioria dos partidos e empresas têm ) e desvio de dinheiro público é crime e quem for pego deve sim pagar independente do que for. O que me espanta é a diferença com que a péssima e partidarizada imprensa brasileira trata os casos - ainda mais agora sabendo dos indícios maiores que neste caso de minas houve uso de dinheiro público.

 

@DanielQuireza

Alguem tem notícia dos outro mensalões? Duvido que isto vá dar alguma coisa , mais de 6 anos se passaram , e nada , o judiciário brasileiro descança em berço esplendido .

 

Creio que por "outros mensalões" você esteja se referindo ao do PT, ainda mais por dizer que já faz 6 anos (2005). O mensalão mineiro (tucano, assim como o mensalão federal é chamado de petista) é do século passado. Cronologicamente faz todo o sentido ser resolvido antes. No caso petista o Ministério Público já apresentou denúncia e o caso já está nas mãos do relator. Um feito da justiça brasileira, creio. Menos de um ano e a denúncia de um esquema gigante de distribuição de "sobras" de campanha já estava no STF sendo relatado.

Pelas minhas contas já se vão 13 anos do mensalão tucano. Sem contar os outros esquemas de mensalão tucano, como a compra de parlamentares na emenda da reeleição, que dormem nos anais de nossa República.

E por favor, deixemos de agredir o povo de Minas chamando o esquema de corrupção de mineiro. É tucano, não mineiro.