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O manifesto dos brancos da UFRGS

Por Eduardo Wagner 

Um bom assunto fora do tema eleições:

Manifesto dos Brancos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

http://www.geledes.org.br/cotas-no-stf/manifesto-dos-brancos-da-universidade-federal-do-rio-grande-do-sul.html

Este texto é um manifesto escrito e subscrito por brancos que compõem a comunidade escolar da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Ele é uma retumbante admissão pública, por nossa parte, de que vivemos em um contexto de exclusão estrutural de negros e indígenas dos benefícios e espaços de cidadania produzidos por nossa sociedade e onde, ao mesmo tempo, é produzida uma teia de privilégios a nós brancos, que torna completamente desigual e desumana nossa convivência. Somos opressores, exploradores e privilegiados mesmo quando não queremos ser. O racismo não é um "problema dos negros", mas também dos brancos. É pelo reconhecimento destes privilégios que marcam toda nossa existência, mesmo que nós brancos não os enxerguemos cotidianamente, que exigimos a imediata aprovação de Ações afirmativas de Reparação às populações negras e indígenas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

No Brasil vivemos em um estado de racismo estrutural. Já é comprovado que raça é um conceito biologicamente inadmissível, só existe raça humana e pronto. Mas socialmente, nos vemos e construímos nossa realidade diária em cima de concepções raciais. Portanto, raça é uma realidade sociológica. Não é uma questão de que eu ou você sejamos pessoalmente preconceituosos. Mas é só olhar para qualquer pesquisa que veremos como existe um processo de atração e exclusão de pessoas para estes ou aqueles espaços sociais, dependendo de sua cor. Não é à toa que não temos quase médicos negros, embora eles sejam a maioria nas filas dos postos de saúde; que quase não vemos jornalistas negros, mas estes são expostos diariamente em páginas policiais; que não temos quase professores negros, especialmente em posições com melhores salários, e vemos alunos negros apenas em escolas públicas enquanto, na universidade pública quase só encontramos brancos.

A situação dos indígenas não é diferente, quando eles ainda sofrem lutando pelo direito mínimo de ter suas terras e aldeias, mesmo isso lhes é surrupiado pelos brancos. Vamos parar com esta falácia de dizer que não aceitamos cotas raciais na universidade, porque não queremos ser racistas: se vivemos no Brasil, se fomos criados nesta cultura, se construímos nossas vidas dentro deste conjunto de relações onde a raça é um elemento determinante, somos todos racistas! Não fujamos da realidade. Não usemos a falsa desculpa de que não queremos criar divisões entre raças no Brasil. Nossa sociedade poderia ser mais dividida racialmente do que já é hoje?

O estudo de Marcelo Paixão intitulado "Racismo, pobreza e violência", compara o IDH dos brancos e dos negros dentro do Brasil. O IDH tenta medir a qualidade de vida das populações, combinando os três fatores que, por abranger, cada qual, uma imensa variedade de outros, seriam os essenciais para a medição: renda por habitante, escolaridade e expectativa de vida. Na última versão do IDH, de 2002, o Brasil ocupa o 73º lugar entre 173 países avaliados, mesmo possuindo todas as riquezas nacionais e sendo o 11º país mais desenvolvido economicamente no mundo. Porém, entre 1992 e 2001, enquanto em geral o número de pobres ficou 5 milhões menor, o dos pretos e pardos ficou 500 mil maior. [Consideram-se brancos 53,7% dos brasileiros; pretos ou pardos, 44,7%, que chamaremos, hora em diante de negros]. O estudo mostra que Brasil dos brancos seria, na média o 44º do mundo em matéria de desenvolvimento humano, ao passo que o Brasil dos negros estaria no 104º lugar!!!

Nada disso é novidade, porém, para quem aceita viver com os olhos minimamente abertos. Temos que reconhecer que vivemos num sistema estruturalmente racista, que se reproduz em cima de mecanismos constantes de exclusão e exploração dos negros e de privilégios naturalizados aos brancos. Em um sistema racista, pessoas brancas se beneficiam do racismo, mesmo que não tenham intenções de serem racistas. Nós brancos não precisamos enxergar o racismo estrutural porque não sofremos diariamente diversos processos de exclusão e tratamento negativamente diferencial por causa de nossa raça. Nossa raça (e seus privilégios) são tornados invisíveis dia-a-dia. Este sistema de privilégios invisíveis a nós brancos é que nos põe em vantagens a todo instante, por toda nossa vida, em todas as situações, e que destroça qualquer tentativa de pensarmos que estamos onde estamos apenas por méritos pessoais. Que mérito puro pode ter qualquer branco de estar no lugar confortável em que se encontra hoje, mesmo que tenha saído da pobreza, dentro de um sistema que lhe privilegiou apenas por ser branco, ao mesmo tempo em que prejudicou outros tantos apenas por serem negros?

Vamos apresentar uma breve listinha de circunstâncias em nossas vidas que expõem nossos privilégios de brancos e que, embora não percebêssemos, embora os víssemos apenas como relações naturais para nós, por sermos pessoas normais e "de bem", foram decisivas para nos trazer onde estamos (e por não serem vivenciados também por negros e indígenas, seu resultado é fazer com que seja tão desproporcional o número destas populações dentro da UFRGS, por exemplo): 1) Sempre pude estar seguro de que a cor da minha pele não faria as pessoas me tratarem diferentemente na escola, no ônibus, nas lojas, etc; 2) Estou seguro de que a cor da pele dos meus pais nunca os prejudicou em termos das busca ou da manutenção de um emprego; 3) Estou seguro de que a cor da pele dos meus pais nunca fez com que seu salário fosse mais baixo que o de outra pessoa cumprindo sua mesma função; 4) Posso ligar a televisão e ver pessoas de minha raça em grande número e muitas em posições sociais confortáveis e que me dão perspectivas para o futuro; 5) Na escola, aprendi diversas coisas inventadas, descobertas, grandes heróis e grandes obras feitas por pessoas da minha raça; 6) A maior parte do tempo, na escola, estudei sobre a história dos meus antepassados e, por saber de onde eu vim, tenho mais segurança de quem sou e pra onde posso ir; 7) Nunca precisei ouvir que no meu estado não existiam pessoas da minha raça; 8) Nunca tive medo de ser abordado por um policial motivado especialmente pela cor da minha pele; 9) Já fiz coisas erradas e mesmo ilegais por necessidade, e nunca tive medo que minha raça fosse um elemento que reforçasse minha possível condenação; 10) Posso ir numa livraria e perder a conta de quantos escritores de minha raça posso encontrar, retratando minha realidade, assim como em qualquer loja e encontrar diversos produtos que respeitam minha cultura; 11) Nunca sofri com brincadeiras ofensivas por causa de minha raça; 12) Meus pais nunca precisaram me atender para aliviar meu sofrimento por este tipo de "brincadeira"; 13) Sempre tive professores da minha raça; 14) Nunca me senti minoria em termos da minha raça, em nenhuma situação; 15) Todas as pessoas bem sucedidas que eu conheci até hoje eram da mesma raça que eu; 16) Posso falar com a boca cheia e ficar tranqüilo de que ninguém relacionará isso com minha raça; 17) Posso fazer o que eu quiser, errar o quanto quiser, falar o que eu quiser, sem que ninguém ligue isso a minha raça; 18) Nunca, em alguma conversa em grupo, fui forçado a falar em nome de minha raça, carregando nas costas o peso de representar 45% da população brasileira; 19) Sempre pude abrir revistas e jornais, desde minha infância, e estar seguro de ver muitas pessoas parecidas comigo; 20) Sempre estive seguro de que a cor da minha pele não seria um elemento prejudicial a mim em nenhuma entrevista para emprego ou estágio; 21) Se eu declarar que "o que está em jogo é uma questão racial" não serei acusado de estar tentando defender meu interesse pessoal; 22) Se eu precisar de algum tratamento medico tenho convicção de que a cor da minha pele não fará com que meu tratamento sofra dificuldades; 23) Posso fazer minhas atividades seguro de que não experienciarei sentimentos de rejeição a minha raça.

Esta realidade destroça meu mito pessoal de meritocracia. Minha vida não foi o que eu sozinho fiz dela. Muitas portas me foram abertas baseadas na minha raça, assim como fechadas a outras pessoas. A opção de falar ou não em privilégios dos brancos já é um privilegio de brancos. Se o racismo, e os privilégios dos brancos são estruturais, as ações contra o racismo devem ser também estruturais. Racismo não é preconceito: racismo é preconceito mais poder. Se não forçarmos mudanças nas relações e posições de poder em nossa sociedade, estaremos reproduzindo o racismo que recebemos. E agora chegou a hora de a universidade dizer publicamente: vai ou não vai "cortar na própria pele" o racismo que até hoje ajudou a reproduzir, estabelecendo imediatamente Cotas no seu próximo vestibular? Se mantivermos o vestibular "cego às desigualdades raciais" estaremos, na verdade, mantendo nossos olhos fechados para as desigualdades raciais que nós mesmos ajudamos a reproduzir sociedade afora.

Nós, brancos da universidade que assinamos esta carta já nos posicionamos: exigimos cortar em nossa própria pele os privilégios que até hoje nos sustentaram. Cotas na UFRGS já!

Leia materia completa: Manifesto dos Brancos da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. | Portal Geledés 

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Realmente esse manifesto mostra humanidade e coragem por parte daqueles que assinaram e o publicaram. Meus parabéns !

 

Cotista não precisa mais solidariedade de ninguém, posto  já ter sido  provado cientificamente que esses são academicamente melhores, mais dedicados e de maiores notas por disciplinas.  Lamento que não tenham assinado e feito é justo. Pois, já que reconhecem que só ingressaram em universidade pública por privilégios que obtiveram em função da cor da pele branca, deviam desistirem dos seus cursos e exigir que essas vagas fossem preenchidas  apenas por negro, acrescentando essas as vagas já determinadas as cotas.

 

"E é muito fácil para quem já está lá dentro ser favorável, e quanto aos que estão tentando entrar? Será que são a favor?" "Vão cortar na própria carne como, se já são alunos da UFRGS ?" Espanta-me que apenas Ed Döer e Maicon Faria tenham percebido o farisaísmo dos autores do manifesto. É de fato bem confortável fazer caridade com o alheio.

 

"Goleada sobre os Ali Kamel da vida..." Argumento ad populum.

 

"Concordo totalmente com os privilégios de nós brancos quanto ao acesso à universidade, lá em casa somos dez filhos, oito formados na UnB, três com mestrados e um doutor. família de gênios essa, né?" João Aguiar, fale só por você. Sou doutor, meus dois irmãos são mestres, e o fato de nós três não podermos ficar muito tempo debaixo do sol em nada contribuiu para o sucesso da nossa luta por esses títulos.

 

Recebi este material de Amaralina Xavier, publicitária formada no mês passado na UFRGS. Para mim que faço da luta contra o racismo uma bandeira e que mesmo tendo filha disputando (e não conquistando) vaga na UFRGS, fui à luta e para as ruas defender cotas para negros na nossa maior universidade federal, este material me comove. Este posicionamento de estudantes nos prova de que a humanidade é maior que o preconceito. 

Mara Lane

http://maralanez.spaces.live.com/

 

Como gaúcho estou orgulhoso pela iniciativa dos alunos da URGS, como chamamos a UFGRS. Esse manifesto vem completar minha alegria pelos 4x2 que o Grêmio aplicou no São Paulo ontem e chegará ao máximo com a eleição de DILMA  e TARSO no 1º turno, junto à reeleição do senador Paim.

 

Parabens para essa galera do RS.

 

 

BLOG PHA E AMIGOS PRES. LULA

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

A testemunha-bomba do PiG é para associar Dilma ao PCC

 

Indivíduos do Capital e da região de Sorocaba, com diversas passagens pela polícia (roubos, receptação, assaltos à mão armada, seqüestros etc.) foram contatados por políticos ligados ao PSDB local através de um elemento intermediário com trânsito mútuo;Foram informados de que “prestariam serviços” e levados até um shopping da cidade de São José do Rio Preto;Lá mantiveram encontro com outras três pessoas, descritas como “muito importantes”, e receberam um adiantamento em dinheiro vivo;Não se tratava de qualquer encomenda de morte, assalto ou ato criminoso tão comum para os marginais recrutados;Imediatamente, tais bandidos foram levados até o Rio de Janeiro, a um bairro identificado como Jardim Botânico, onde ficaram confinados por dois dias;Uma equipe de TV, num estúdio particular, gravou longa entrevista com os bandidos. O script era o seguinte: “somos do PCC, sempre apoiamos o governo Lula e estamos com Dilma”. Não fugiu disso, com variações e montagens em torno de uma relação PCC/Lula/PT/Dilma;Os bandidos recrutados também foram instruídos a fazer ligações telefônicas para diversos comparsas que cumprem penas em penitenciárias do Estado de São Paulo. A ordem era clara: simular conversas que “comprovassem” a ligações entre o PCC e a campanha de Dilma;Tudo foi gravado em áudio e vídeo;A farsa começou a ser desmontada quando o pagamento final pelo serviço veio aquém do combinado;Ao voltarem para São Paulo, alguns dos que gravaram a farsa decidiram, então, denunciar o esquema, relatando toda a incrível história acima com riqueza de detalhes;As autoridades já estão no encalço da bandidagem. De toda a bandidagem;A simulação seria veiculada por uma grande emissora de TV e por uma revista depois do término do horário eleitoral, causando imenso tumulto e comoção, sem que a candidata Dilma Rousseff, os partidos que a apóiam e o próprio governo Lula tivessem o tempo de denunciar a criminosa armação;Essa é a “bala de prata”. Já se sabe seu conteúdo, os farsantes e o custo, além dos detalhes. Faltam duas peças: quem mandou e quem veicularia (ou ainda terá o desplante de veicular?) a maior fraude da história política brasileira;Com a palavra, as autoridades policiais.A propósito, o amigo navegante enviou essa “nota” extraída da imprensa de Brasilia:29/09/2010 | 00:00 – www.claudiohumberto.com.brAlmoço globalA Rede Globo oferece em São Paulo almoço vip, nesta quinta, data do último debate presidencial, a Leandro Daiello, superintendente local da Polícia Federal – que anda atarefada com inquéritos de Erenice & cia.Do site de Paulo Henrique Amor

 

É comovente, é emocionante.... mas não é isso o que mais me chama a atenção do manifesto. O mais importante é que numa discussão caracterizada pela superficialidade, o manifesto se coloca extremamente inteligente. O racismo não é só um problema dos negros: é um problema de toda a sociedade brasileira; atinge negros e brancos.

" O racismo não é um "problema dos negros", mas também dos brancos. "

Parece tão simples! mas é tão difícil de compreender. Quantos professores aqui na Bahia e pelo Brasil afora argumentaram que as cotas são racistas sem compreender a importância que tem para toda a sociedade. e principalmente para nossos filhos brancos, irem a um médico negro, ter um professor negro, perceberem que a inteligência não é um privilegio da raça branca. Perceberem dentro da universidade a mesma "cor" da rua. Perceberem que a maioria branca dentro da universidade em contraste com a imensa maioria negra da rua é uma herança maldita. 

Já ouvi uma professora manifestar que não gostava de assistir conferências de Milton Santos (um dos maiores geógrafos do mundo contemporâneo) porque era boçal!

Em 2004, quando a Universidade Federal da Bahia adotou o sistema de cotas como parte das políticas afirmativas, tive a honra e satisfação de ser o Conselheiro relator no CONSEPE da UFBA. 

Me permito transcrever a parte essencial do parecer em função de uma longa citação de Immanuel Wallerstein.

"A discussão da questão das cotas de acesso à universidade para a população negra tem sido travada com muito mais ruído do que idéias e argumentos. Os meios de comunicação veiculam a opinião de leigos e acadêmicos de destaque sem que exista um mínimo, já não de consenso, mas de dissenso coerente, isto é, dentro de um mesmo plano lógico. Torna-se portanto difícil, senão temerário, para um arquiteto, opinar onde sociólogos, antropólogos, historiadores e educadores divergem com tanta veemência. Busco apoio, nesta árdua tarefa, na minha convicção de luta para transformar a sociedade extremamente injusta em que vivo. 

Immanuel Wallerstein, implacável historiador do Capitalismo, situa a questão em perspectiva histórica, no meu entender, importante. Permito-me uma extensa cita:

"O que entendemos por racismo tem pouco que ver com a xenofobia que existiu em diversos sistemas históricos anteriores. A xenofobia era, literalmente, medo ao “estrangeiro”. O racismo dentro do capitalismo histórico não teve nada que ver com os “estrangeiros”. Muito pelo contrário. O racismo foi o modo pelo qual diversos setores da força de trabalho dentro da mesma estrutura econômica foram obrigados a relacionar-se entre si. O racismo foi a justificação ideológica da hierarquização da força de trabalho e da distribuição sumamente desigual de suas recompensas. O que entendemos por racismo é um conjunto de enunciados ideológicos combinado com um conjunto de práticas continuadas cuja conseqüência tem sido a manutenção de uma forte correlação entre etnia e repartição da força de trabalho ao longo do tempo. Os enunciados ideológicos têm assumido a forma de alegações de que os traços genéticos e/ou “culturais” duradouros dos diversos grupos são a principal causa do reparto diferencial das posições nas estruturas econômicas. Não obstante, a crença de que certos grupos eram “superiores” a outros, no que se refere a certas características importantes para o rendimento no terreno econômico, tem aparecido sempre antes, e não depois, da localização de estes grupos na força de trabalho. O racismo tem sido sempre post hoc. (...)

O racismo tem servido como ideologia global para justificar a desigualdade. Mas tem sido muito mais. Tem servido para socializar aos grupos no seu próprio papel dentro da economia. As atitudes inculcadas (os prejuízos, o comportamento abertamente discriminatório na vida cotidiana) tem servido para estabelecer o marco do comportamento legítimo e apropriado para cada um e para os demais em sua unidade doméstica e seu grupo étnico. O racismo, como o sexismo, tem funcionado como ideologia auto-repressiva, modelando as expectativas e limitando-as. 

O racismo não somente tem sido auto-repressivo; tem sido também opressivo. Tem servido para manter na linha aos grupos de categoria inferior e para utilizar os grupos de categoria intermediaria como soldados sem soldo do sistema policial mundial. Desta forma, não somente tem-se reduzido significativamente os custos financeiros das estruturas políticas, mas também tem-se tornado mais difícil para os grupos anti-sistêmicos mobilizar a amplas massas da população, dado que o racismo tem enfrentado estruturalmente a vítimas contra vítimas. 

(....)

O racismo, não obstante, não tem sido o único pilar ideológico do capitalismo histórico. O racismo tem sido da maior importância para a construção e a reprodução das forças de trabalho adequadas. Sua reprodução, não obstante, tem sido insuficiente para permitir a acumulação incessante de capital. Não se podia esperar que as forças de trabalho atuaram eficaz e continuamente a menos que fossem dirigidas por quadros. Os quadros também tinham que ser criados, socializados e reproduzidos. A ideologia primaria que tem operado para criar, socializar e reproduzir estes quadros não tem sido a ideologia do racismo. Tem sido a do universalismo.

O universalismo é uma epistemologia. É um conjunto de crenças acerca do que se pode conhecer e de como se pode conhecer. A essência desta tese é que existem enunciados gerais significativos acerca do mundo – o mundo físico, o mundo social – que são verdadeiros universal e permanentemente, e que o objeto da ciência é a busca destes enunciados gerais de uma forma que elimine todos os chamados elementos subjetivos, quer dizer, todos os elementos historicamente determinados, de sua formulação. 

A crença no universalismo tem sido a pedra angular do arco ideológico do capitalismo histórico. O universalismo é uma fé tanto como uma epistemologia. Não só requer respeito, mas também veneração pelo fenômeno escorregadio mas supostamente real da verdade. As universidades têm sido simultaneamente as oficinas da ideologia e os templos da fé. Harvard luz no seu brasão o lema Veritas. Ainda que sempre tem-se afirmado que nunca se poderia conhecer a verdade de forma definitiva – isto é o que se supõe que distingue à ciência moderna da teologia medieval ocidental – também tem-se afirmado constantemente que a busca da verdade era a razão de ser da universidade, e, mais genericamente, de toda atividade intelectual. 

(...)

Enquanto que o racismo servia como mecanismo de controle dos produtores diretos a escala mundial, o universalismo servia para dirigir as atividades da burguesia de outros Estados e de diversas capas médias a escala mundial na direção de uns canais que maximizaram a integração dos processos de produção e o bom funcionamento do sistema interestatal, facilitando com isto a acumulação de capital. Isto requeria a criação de um marco cultural burguês a escala mundial que pudesse ser enxertado nas variantes “nacionais”. Isto era especialmente importante para a ciência e a tecnologia, mas também no âmbito das idéias políticas e as ciências sociais.

O processo de racionalização, central para o capitalismo, tem requerido a criação de uma capa intermédia que inclui aos especialistas de esta racionalização, tais como administradores, técnicos, científicos e educadores. A mesma complexidade não só da tecnologia, mas também do sistema social têm tornado essencial que esta capa seja ampla e se expanda com o tempo. Os fundos utilizados para sustentá-la tem sido obtidos do excedente global, tal como é extraído a través de empresários e Estados. Neste sentido elementar, mas fundamental, estes quadros têm formado parte da burguesia cuja pretensão de participar no reparto do excedente tem recebido uma determinada e precisa forma ideológica com o conceito de capital humano no século XX. Ao ter relativamente pouco capital real que transmitir como herança da sua unidade doméstica, estes quadros têm tratado de garantir a sucessão assegurando aos seus filhos um acesso preferencial aos canais educativos que garantem a posição. Este acesso preferencial tem sido convenientemente apresentado como um logro, supostamente legitimado por uma “igualdade de oportunidades” estritamente definida.

(...)

A cultura científica foi, não obstante, algo mais que uma mera racionalização. Foi uma forma de socialização dos diversos elementos que eram os quadros de todas as estruturas institucionais necessárias. Como linguagem comum aos quadros, mas não diretamente à força de trabalho, converteu-se também num instrumento de coesão de classe para a capa superior que limitava as perspectivas ou a extensão da atividade rebelde por parte dos quadros suscetíveis de cair nesta tentação. Ademais, era um mecanismo flexível para a reprodução desses quadros. Ajustava-se ao conceito conhecido hoje como “meritocracia”, e anteriormente como “la carrière ouverte aux talentes”. A cultura científica criou um marco dentro do qual era possível a mobilidade individual sem que o reparto hierárquico da força de trabalho se visse ameaçado. Ao contrário, a meritocracia reforçou a hierarquia. Finalmente, a meritocracia como operação e a cultura científica como ideologia criaram véus que dificultaram a percepção das operações subjacentes do capitalismo histórico. A grande ênfase na racionalidade da atividade científica foi a máscara da irracionalidade da acumulação incessante."

No quadro desta visão histórica do papel do racismo e do universalismo apresentada por Wallerstein, a questão das cotas para negros transcende o viés da inclusão social, no sentido restrito, para questionar o próprio papel da universidade dentro da reprodução ou da transformação da sociedade. É  neste sentido que imagino que a implantação da presente proposta possa funcionar como pedra de toque do papel da universidade pública no presente momento. 

A proposta do Grupo de Trabalho acerta, ao meu ver, quando se propõe a corrigir as distorções de caráter sócio econômico no acesso à universidade mediante a reserva de vagas para estudantes oriundos da escola pública; mas esta correção seria incompleta se não atacasse, junto como o aspecto numérico da desigualdade, o seu aspecto ideológico. Assim, a reserva adicional de um alto percentual dentro deste segmento para negros, visa corrigir a reprodução da desigualdade no acesso à universidade no seu aspecto fático e ideológico.

A proposta, ao fragilizar a "meritocracia" como forma universal de acesso à universidade tornando o mérito ligado indissociavelmente à condição histórica específica de cada grupo social/étnico, reconhece e legitima o tratamento desigual dos desiguais como forma de combate à reprodução da desigualdade. Distingue também com clareza  "treinamento" e aptidão para apreender, tal qual aponta, ainda que preliminarmente, a avaliação de desempenho dos ingressos por cotas da UERJ.

Vejo o Programa de Ações Afirmativas na UFBA proposto pelo Grupo de Trabalho como passo inicial de um longo processo; passo importante e inadiável mas inócuo se não for continuado pela longa caminhada da luta permanente pela erradicação da exploração, da desigualdade social e sua forma mais abjeta: o racismo."

Seis anos depois, continuo pensando que toda procura de diminuição das desigualdades passa inexoravelmente pelo combate radical ao racismo.

Parabens ao manifesto! Seja dos brancos da UFRGS, seja de quem for, é uma bela peça nesta luta.

 

Nassif, sou negro e fico até arrepiado por verificar que os ideais do General Neto, líder da Revolução Farroupinlha e fundador da república, defensor ferrenho da libertação dos escravos, ainda permanecem vivos entre os gaúchos. Não sou gaucho e nunca estive no Rio Grande do Sul, porém sou um estudioso e grande admirador dos Farrapos. Que seus ideais prevaleçam para sempre.

 

Também me assustei com o título, mas o choque é perfeito pra sacolejar essa raça asquerosa dos racistas. E essa tem que desaparecer, sim, para sempre. Mas manifesto só é pouco, tem que batalhar muito, fiscalizar, pentelhar, encher o saco, denunciar, botar na cadeia! Cotas já!

 

Vão cortar na própria carne como, se já são alunos da UFRGS ?

Eu lembro do dia que propus para profs., defensores de cotas, sortear 30% das posições de prof. das UFs para recontratação usando critério de cotas... foi uma gritaria de direito adquirido sem igual.., pimenta nos olhos dos outros é refresco !

 

Maicon, isso deve ser visto com serenidade e bom-senso. Ninguém está propondo desestruturar coisas já estruturadas(como nesse seu exemplo de recontratação, que mexe com estruturas familiares já consolidadas) mas de estruturar coisas novas, a partir de um novo início (no ingresso à universidade). É um novo começo, não uma revolução.

Equidade, é a palavra. O mérito encontra aí sua real medida: que entrem os primeiros daqueles cujas oportunidades foram maiores, e os primeiros daqueles cujas oportunidades foram menores. Obviamente há uma vala entre os dois grupos. Iguala-os o fato de serem os melhores (não os mais bem colocados). Fica mais díficil para os que sempre tiveram maiores facilidades, e mais fácil para os que sempre tiveram maiores dificuldades.

Se branco, precisa estudar mais, porque as vagas, na prática, diminuiram. Se negro, tem agora uma motivação para estudar mais para estar entre os primeiros, pois agora há uma chance real de ser bem sucedido.

Como um todo, teremos estudantes mais aplicados. E motivados. Ruim, não será.

O bonito desse manifesto, ao contrário do que apontaram muito dos comentadores aqui (sobre a relevância disso acontecer entre os que já cursam a universidade) é que esse manifesto dissolve a continuidade da discriminação entre os já admitidos, arejando o convívio intra-universitário. Melhor e mais civilidade, impossível. É de tirar o chapéu.

 

"Se negro, tem agora uma motivação para estudar mais para estar entre os primeiros, pois agora há uma chance real de ser bem sucedido." fariajos, não é assim que funciona a mente humana. O Canadá e os Estados Unidos há décadas vêm mostrando que cotas e preferências raciais DESESTIMULAM a busca da excelência por membros dos grupos favorecidos.

 

"Ninguém está propondo desestruturar coisas já estruturadas(como nesse seu exemplo de recontratação, que mexe com estruturas familiares já consolidadas) mas de estruturar coisas novas, a partir de um novo início (no ingresso à universidade)." fariajos, o que pode haver de mais estruturado do que o processo de admissão de uma universidade pública brasileira? A sua resposta é uma confirmação de que os defensores das cotas não dispõem de argumentos convincentes para estabelecer uma linha entre a neutralidade racial do Estado e a progressiva mas completa destruição da cidadania dos brancos.

 

"Fica mais díficil para os que sempre tiveram maiores facilidades, e mais fácil para os que sempre tiveram maiores dificuldades." fariajos, se você acha que que isto é a situação que as cotas estão destinadas a gerar, você conhece muito pouco da vida.

 

"O bonito desse manifesto, ao contrário do que apontaram muito dos comentadores aqui (sobre a relevância disso acontecer entre os que já cursam a universidade) é que esse manifesto dissolve a continuidade da discriminação entre os já admitidos, arejando o convívio intra-universitário. Melhor e mais civilidade, impossível. É de tirar o chapéu." fariajos, o Canadá e os Estados Unidos há décadas vêm mostrando que cotas e preferências raciais AUMENTAM a desconfiança entre brancos e negros.

 

"Maicon, isso deve ser visto com serenidade e bom-senso." Bom senso é o oposto de insanidade, e insanidade consiste em fazer sempre a mesma coisa e esperar resultados diferentes. O Brasil não precisa repetir os erros colossais dos seus irmãos do norte.

 

 

 

Parabéns pela iniciativa dos/das estudantes da UFRGS. Parabéns também a você Nassif por ter postado este belo texto.

 

com a palavra mouro e militão...

 

Uma coisinha mais: lembrai-vos gaúchos que tendes um cidadão exemplar e guerreiro nessa luta contra qualquer tipo de racismo: Paulo Paim. Político que honra qualquer parlamento deste planeta.

 

Simplesmente arrasador. São manifestações dessa espécie que me resgatam do fundo do poço do qual me encontro com relação à descrença nos seres humanos.

Mais um ponto na minha admiração pelo grande povo gaúcho.

 

Comecei a ler com temor.

Aos poucos fui me surpreendendo e emocionando.

Parabéns aos alunos. Bela inciativa. Merece ser amplamente divulgada.

É o nosso país, mesmo com o PIG e manifesto de aloprados, aos poucos se democratizando, se solidarizando, ficando mais humano e bonito. A cada dia um melhor lugar para vivermos.

 

Fui estudante da UFRGS.Sou branco. Fico orgulhoso ao ler um manifesto desses! O Brasil ainda tem jeito. Pela democracia racial JÁ!!!!!!!

 

Munca na história desse país...

 

"Só merece a liberdade e a vida quem luta por elas cada dia." Goethe

Meu aplauso.

 

Vivo fora do Rio Grande há mais de 28 anos e não posso deixar de reconhecer o valor da gente da minha terra, da minha querência. Oigaletê indiada macanuda essa!.

Aos descendentes dos lanceiros negros  dos idos 1835, heróis da revolução farroupilha, o reconhecimento e o resgate de uma irmandade feita de sangue, vermelho como o lenço, pelos seus devedores, agora, antes do nunca.

Coragem, que o nosso Brasil é uma construção de todos esses atos reparadores e emancipatórios!

Mais uma dívida que se resgata.

 

 
 

É disparado o melhor manifesto de apoio às cotas que já li e vi. É consciente, com boa linha de argumentação, auto-critico até o fundo da alma, mas antes de tudo, humano e emocionante. Parabéns maiusculo aos assinantes do manifesto.

Saudações

Nicolás

PS: que seja espalhado pelo mundo!

 

Bem colocada a questão. E rara, por partir de brancos brasileiros, a parte 'privilegiada' - mesmo que não se dê conta disso, beneficia-se há séculos.

O primeiro passo para tentar solucionar um problema é assumir que o problema existe. Foi isso que fez o pessoal da UFRS nesse manifesto, enquanto a posição da maioria é negá-lo.

Ou ignorá-lo. Só 01 comentário em 01 hora (salvo se for apenas devido à demora para liberação).

 

Goleada sobre os Ali Kamel da vida...

 

O correto é UFRGS.

Estranho, estudo lá e não vi nem ouvi falar disso. Fora que não está assinado, não deixando claro quem são ou quantos são esses brancos.

E é muito fácil para quem já está lá dentro ser favorável, e quanto aos que estão tentando entrar? Será que são a favor?

E que eu lembre já existem cotas afirmativas na UFRGS baseadas em cor ou ter estudado em escola pública.

 

além da sigla da universidade, vc não está mesmo sabendo de nada. a discussão está sendo feita no STF com base na ação contra as cotas promovida pelo DEM e teve a sua origem nas cotas raciais na UFRGS e oriundos do ensino público na UnB.

Concordo totalmente com os privilégios de nós brancos quanto ao acesso à universidade, lá em casa somos dez filhos, oito formados na UnB, três com mestrados e um doutor. família de gênios essa, né?

 

Caro João Aguiar:

Quer dizer que você concorda totalmente com ”os privilégios de nós brancos...”, é isto?

Acredito que não, pois o né? ao final indica a ironia, mas como você tem prazer em pontuar comentaristas sem necessidade (sei do que falo, né?), deveria prestar mais atenção no que escreve.

Caso seja um dos tres mestres em sua família (sem dúvidas, um belo e raro exemplo), mais razão você me dá.  

Não se iluda, caso pense que é o único capaz de ser grosseiro por aqui, o caso deste seu comentário, útil apenas em relação à boa informação sobre a discussão que ora se trava no STF.

Um abraço

 

Gostaria imensamente ver esse tipo de posicionamento estampado em um grande veículo de comunicaçao.

Infelizmente fica restrito aos guetos.

Que paradoxo.

 

Alessandro

Que brancos coloridos!!! É de chorar.

 

Só o Militão não percebe o racismo no Brasil...

È preciso que os brancos da UFRGS digam, ao negro Militão, que existe, no Brasil, racismo e que os brancos, no Brasil, via de regra, são previlegiados.

 

Só o Militão não percebe o racismo no Brasil...

È preciso que os brancos da UFRGS digam, ao negro Militão, que existe, no Brasil, racismo e que os brancos, no Brasil, via de regra, são previlegiados.

 

Um documento honesto e corajoso. É um soco no estômago dos hipócritas. Parabéns aos alunos da UFRGS.

 

Prezado Nassif

 

Foi com um pouco de temor que eu li manchete do post, "O manifesto dos brancos da UFRS (sic)". Como estudante da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) do ano de 1996 até o ano de 2001, conheço bastante bem a comunidade universitária da época e a pouca representatividade que negros, mestiços e indígenas tinham nos cursos. Em minha própria turma, de Medicina, dos 140 alunos que naquele ano haviam entrado, apenas duas eram negras. Nem ao menos um mestiço, ou pardo, ou mulatinho, ou qualquer uma das mais de sessenta auto-denominações que o IBGE já registrou dos mestiços do país. Nada.

É com alívio que a comunidade discente de minha "alma mater" publica um manifesto que se declara a favor das cotas raciais. Não há muito a acrescentar a um texto que expõe claramente a fragilidade de nossos mecanismos de ascensão social aos pretos e pardos e indígenas. A universidade pública, gratuita e de qualidade deve ser disponível a todos os brasileiros, deve ser um elemento de inclusão e de oportunidades.

Subscrevo ao manifesto

Cássio Vinícius Aguiar Borges.

 

 

Estou emocionada. É o que posso dizer.

 
 

incrivelmente digno. corajoso. atitude é isto.

aos gauchos, parabéns pela lição.

 

luz

Que horrorrrrr, a cor tem que importancia mesmo

 

Esse texto conseguiu me comover. Como eu ficaria orgulhosa se um filho meu tivesse assinado! Mas eles teriam, se estivessem estudando lá.

Viva a juventude progressista, generosa e corajosa do Brasil e do mundo!

 

Os dois últimos governos gaúchos nada fizeram para diminuir esta desigualdade. A própria Universidade também nada fez. Mas vejo que com este manifesto nós gaúchos estamos deixando de ser apenas grossos e nos abrindo para as dificuldades do povo brasileiro

 

Nassif,

É de arrepiar!

"Nós, brancos da universidade que assinamos esta carta já nos posicionamos: exigimos cortar em nossa própria pele os privilégios que até hoje nos sustentaram. Cotas na UFRGS já!"