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O papel da Universidade

Coluna Econômica - 30/05/2012

Participei na manhã de ontem de um seminário em São Paulo sobre universidade e empreendedorismo.

O expositor norte-americano trouxe um conjunto de informações sobre essas relações, nos Estados Unidos que, a rigor, batem em muito com a realidade brasileira – guardadas as devidas proporções.

O questionamento ao papel da Universidade começou a se dar na segunda metade dos anos 90. O isolamento, a compartimentalização, os “papers”, como única maneira de avaliar desempenho, o distanciamento das empresas e do entorno, tudo isso deu margem a uma enorme discussão sobre o papel da Universidade.

A discussão se resolveu com um trabalho do físico Britto Cruz. Nele, definia que o papel principal da Universidade era o ensino. Depois, a pesquisa. Eventualmente, a inovação.

Mas o ambiente central para a inovação eram as empresas.

A partir dessa visão, verbas de pesquisa foram direcionadas para que empresas contratassem pesquisadores, comandando a inovação.

Foi uma mudança importante, mas que exige alguns ajustes de rumo.

Na primeira fase – da Universidade fechada – havia pouca governança, pouca transparência de gestão e muitos donos do pedaço.

Na segunda fase – de aproximação com o setor privado – esbarra-se no mesmo problema de governança e em algumas características da economia brasileira diferentes do modelo de universidade norte-americano.

O primeiro, é o pequeno hábito de pesquisa das empresas brasileiras. Anos de câmbio apreciado tiraram a competitividade da pesquisa própria, em favor da importação de tecnologia. Hoje em dia, a pesquisa de ponta está apenas em grandes grupos, como Petrobras, Odebrecht, Embraer, no segmento de cosméticos e não muito mais.

Em que pese algumas iniciativas relevantes, como o MEI (Movimento Empresarial pela Inovação), pequenas e médias empresas ainda estão longe de avançar no campo da inovação.

Para tentar reduzir o fosso que a separa do empreendedorismo, muitas universidades criaram agências visando estimular registro de patentes.

Mas o empreendedorismo no país padece de uma vulnerabilidade maior: não sabe trabalhar modelos de negócio.

O sucesso dos grandes campeões da Internet – Apple, Google, Facebook – está muito mais no modelo de negócio desenvolvido do que propriamente no diferencial tecnológico.

O caminho poderia ser abreviado com empresas de “venture capital” – investindo em empresas nascentes do setor de tecnologia. Há boas experiências, bem sucedidas, mas ainda sem escala para alavancar o setor.

Com o advento das novas tecnologias da informação, no entanto, o grande mercado para a Universidade é o seu metier, a educação. Em breve a Internet acabará com os intermediários de conteúdo – editoras de livro didático, cursos apostilados etc. O diferencial será o conhecimento e os novos modelos pedagógicos.

E quem os têm ainda é a Universidade pública. E conseguirão desempenhar esse papel se houver políticas públicas capazes de viabilizar o novo modelo.

Pelo menos no campo da educação, a base continuará sendo a universidade pública. Caberá ao MEC definir conteúdo e adquirir o conhecimento diretamente de seus autores.

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O chato feliz falou algumas coisas relevantes. Embora em tempo próximo passado, nenhum ministro na história do Brasil, e da maioria de outros países, teve um currículo como o do Sérgio Rezende. Certo tempo atrás saiu a lista dos 400 mais produtivos do mundo e ele estava neste meio. Vindo do MIT, escolheu Recife, e liderou a construção de um dos mais avançados centro de pesquisas físicas do Brasil.  Também teve boas idéias, foi um ótimo ministro, apontando para um novo modelo.

Parece que a inovação deveria partir da Empresa. O objeto da pesquisa seria a empresa embora não necessariamente feita pela mesma. Me parece que este é o modelo dos EUA. Um professor para entrar no MIT sem estabilidade (ao final de 8 anos é avaliado), através de concurso, precisa levar de uns 10.000.000,00 dolares em projeto de pesquisa. Alem do curriculo de pesquisador.

Em uma Universidade de outro nível, também nos EUA, sei  de professor que era considerado o máximo pelos alunos, portanto para o ensino, e ao final dos oitos não atingiu um determinado grau de financiamento de projeto, não teve renovação. O contrário desconheço.

No Brasil é muito diferente. Temos muito pouco tempo de Universidade, e parece que só agora se discute sua imporatância para o desenvolvimento.   

 

 

 

 

 

Prezado Nassif, que tal comentar as greves recorrentes das universidades públicas? Este ano por exemplo estão pedindo absurdos 22,5% de aumento, alegando uma suposta MP da Dilma que iria congelar por dez anos os salários dos servidores públicos.

Quem é prejudicado, no final, é o aluno, que perde blocagem, tempo, aulas (não são repostas como deveriam) e principalmente a paciência!

 

Como professor de uma particular, vou por os pés um pouco mais na terra: Um dos papéis dela é melhorar o ensino básico.

 

É fundamental mudar o modelo das universidades públicas brasileiras, único no mundo na sua bizarrice de colocar o professor/pesquisador como um funcionário público como outro qualquer, que tem pouco ou nenhum estímulo para ir além que não seja a ambição própria, já que é estável pra vida toda desde o primeiro dia e não há carreira (um titular recebe, líquido, aproximadamente 30% a mais que o adjunto, que é o cargo de entrada do doutor, sendo que deveríamos ter um fator pelo menos de 2, e cargos intermediários com grande diferença pro adjunto tb, como é em todo lado que interessa), mas isso é falar pras paredes, é o que ninguém quer ouvir.

Falou-se no texto "... e muitos donos do pedaço.", e me espanto porque continuamos tendo muitos donos do pedaço da mesma forma, caciques com imenso poder e sem projeção internacional nenhuma (nosso querido ministro do MCT é um caso típico, e há muitos outros em altos cargos administrativos em C&T). E é apenas um sonho molhado querer grandes avanços, com grande sinergia com indústrias e outros países parceiros, tendo administradores sem cacife real pra ser interlocutor em nada que interesse (eu fico imaginando o quão constrangedor para o brasil devem ser reuniões de alto nível entre pessoal de C&T brasileiro e americano por exemplo).

Há também os puritanismos, fruto podre de ampla e irrestrita corrupção em tudo que é público no Brasil. Refiro-me a dinheiros de projeto. No Chile, um país com a população menor que Minas Gerais e com economia menor que a do Rio de Janeiro, um professor/pesquisador quando consegue um grande projeto de pesquisa recebe uma porcentagem desse valor como bolsa pessoal, dinheiro que vai pro bolso dele. É assim nos EUA tb, claro, mas cito o Chile porque são, em teoria pelo menos, gente como a gente.

Imagine-se então um modelo aonde o(a) doutor(a) entra na UF como adjunto, podendo entretanto ser demitido por improdutividade, mas com amplo acesso ao outro lado da moeda, uma carreira com imensa progressão salarial à sua frente, com promoções dependentes exclusivamente de mérito/produção científico. E com a possibilidade de ter significativos acréscimos salariais se buscar projetos de interesse real do país, da indústria, direta ou indiretamente. Imagine-se a gana de um sujeito desses, com 30 e poucos acabado de ser admitido, pra trabalhar. Agora acorde porque seu chefe, o ministro atual do MCT, é o Raupp, com menos de 20 artigos, e o anterior era o Mercadante, um ilustre caloiro no mundo dos doutores. E a andifes rejeita proposta do governo de equiparação da carreira de professor/pesquisador com a do MCT (um passo positivo para se ter uma carreira de verdade, ainda que insuficiente), porque quer progressão automática, pra premiar a grande massa de professores/pesquisadores que já não estão no jogo da ciência a muito tempo, mas que tem bracinho pra votar em assembléia como todos os outros. Bizarrice pouca, afinal, é bobagem.

 

Vamos a dois casos concretos onde a inovação e a indústria poderiam dar as mãos mas que mantém um divórcio lacônico assustador.
Fábrica de bicicletas e indústria náutica de lazer. Nenhuma das duas existe com pujança tanto inovadora como em quantidade no Brasil, isto apesar dos indígenas já produzirem canoas por aqui na época do descobrimento e as bicicletas contarem com fábricas nacionais desde o séc XIX.
Tomo estas duas pela óbvia utilidade que ambas teriam na alavancagem da pesquisa e inovação, não é por acaso que as grandes montadoras, Audi, Mercedes, etc... vira e mexe lançam um novo modelo de bicicleta com a última tecnologia disponível, bem como, não é por acaso que o segmento náutico recebe tanto incentivo, por exemplo, está crescendo mesmo em tempo de crise a mais de 10% ao ano, tanto aqui, como nos USA e o efeito multiplicador da cadeia náutica é absurdo se comparado com outros setores.
Existe alguma universidade no Brasil incentivando estes produtos e suas cadeias econômicas? Que eu saiba não, muito pelo contrário são tratados com desdém pelo governo em suas políticas de desenvolvimento.
Vou com uma sugestão prática para a Dilma, aumenta a incumbência do Ministério da Pesca para a cadeia náutica de lazer, afinal são 8.000 km de costa e mais de 10.000km de rios navegáveis, cria uma política de incentivo à criação de marinas, com facilidade de licenciamento ambiental para este tipo de empreendimento, libera as amarras que manieta o desenvolvimento desta indústria que com pouco esforço pode ser 100% nacional e ao mesmo tempo competitiva globalmente, use-a como parâmetro para as outras, já seria um começo.

 

Follow the money, follow the power.

Caro Nassif

 

Acredito piamente na educação como algo bem maior que inovação e competitividade. Educação é o maior instrumento de transformação pessoal, mobilidade social  e independência que existe, e apoio em gênero, número e grau a base de todos esses princípios ser a Educação pública. No entanto, o governo sinaliza claramente que a atenção ao setor é inversamente proporcional ao discurso e a crise atual das Universidades Federais, Reuni e outras coisas mais poderia ser tema de suas colunas.

 É só uma sugestão, afinal de contas, seu blog é, infelizmente, um oásis do pensamento independente. Essa semana, minha mãezinha querida, que tem acesso, há pouco mais de um mês, à meca da TV à Cabo me ligou alarmada para me contar que viu uma especialista dizer no Jornal das 10 do Globo News (ela não assiste mais Jornal Nacional) que o PT conduz maquiavelicamente a CPMI para acobertar o julgamento do Mensalão. A maior inovação que precisamos no momento é de um povo livre, que saiba ou queira pensar por si só, e a educação tem papel fundamental nisso.

 

a julgar por certos raciocínios que presencio em minha universidade, tenho cá comigo minhas dúvidas.

 

Um texto que complementa muito bem o post

 

http://teiaeducacional.blogspot.com/2010/04/dez-tendencias-educacionais-...

Dez Tendências Educacionais no Brasil

Ronaldo Mota

A compreensão adequada do mundo atual passa por, a partir do conhecimento do passado e da percepção do presente, ampliar nossa capacidade em definir tendências. Estudar tendências não é o mesmo que prever futuros, mas sim tratar analiticamente as possibilidades múltiplas do futuro. Ou seja, em todas as áreas, é possível, enfrentar os desafios de apontar cenários, a partir das leituras que temos do presente e das análises que desenvolvemos sobre o passado. Educação é uma dessas áreas. Tais prospecções costumam, tradicionalmente, ser divididas em pelo menos dois blocos tradicionais, as megatendências e as microtendências. As primeiras dizem respeito às grandes evoluções visíveis e decorrentes do momento atual de forma mais direta e evidente. As segundas, por sua vez, caracterizam-se por aquelas pequenas forças capazes, potencialmente, de gerar mudanças também significativas, ainda que decorrentes de fenômenos em escalas menores.

A educação brasileira é um corpo macroscópico, relativamente pesado, com grande inércia, ainda que no seu interior movimentos de pequeníssimas escalas, que somente sobrevivem em função de suas reduzidas dimensões, continuem a brotar e fazer sentir seus efeitos na estrutura maior. Assim são as tendências educacionais.

 

Conhecimento, comprometimento, sonho e participação. Pressupostos ou fatores que os títulos raramente contemplam. Mas esses é que são remunerados. Como se um saber atualizado os consubstanciassem diariamente. Os títulos não se misturam e não percebem que a inteligência e a criatividade podem estar num agricultor, mecânico, engenheiro - os engenheiros químicos tem tantas idéias não exploradas que nem fazemos idéia. Se fizéssemos, não estariamos diplomando e contratando 100 mil de uma certa ordem comandada por quem tem capangas e dessarruma o nosso País - ou aluno. As idéias valem dinheiro. E por isso, muitas não são expostas. Muitos doutores não passam seus conhecimentos e não ganham por eles. Tem alguém formando discípulos, além daqueles que criam turma especial para que Perillo e sua esposa se formem? Nassif, há muitos convênios e recursos mofando em contas bancárias ou por projetos mal feitos, ou por falta de infra-estrutura adequada ou porque muitos das nossa melhores cabeças estão enredadas em aplicações mal feitas a mercê das chamadas cortes de contas. Há um desperdício de tempo, dinheiro e talentos. Um outro ponto, as universidade incharam e estão ingovernáveis. Uma infinidade de ONGs, OSCIPs e outros tipos de organizações que até interagem e geram conhecimentos, relações e oportunidades mas são problemáticas ao se aplicar regras iguais para os diferentes. Contudo é preciso ponderar o que diz a Profª Lizia Nagel "Toda vez que o sistema entra em crise a educação é chamada a prestar contas: do que não fez".